quarta-feira, 8 de julho de 2009

Os acontecimentos de hoje, numa comparação histórica

Já tinha largado um aviso esta tarde, antes da reunião de Nurburgring, e aparentemente, quando se soube que as oito equipas incluidas na FOTA sairam de lá sem um acordo, e ainda por cima, com o aviso de que as equipas tinham as suas inscrições condicionadas, soube que Max Mosley, de uma certa forma, "rasgou o acordo" que tinha establecido duas semanas antes com Luca di Montezemolo.


Eis o comunicado da FOTA, colocado no site brasileiro Tazio:


"Os times foram informados pelo Sr. Charlie Whiting que, contrariando os acordos anteriores, as oito equipes da FOTA, actualmente, não estão inscritas no campeonato de 2010 da F-1 e não têm direito de voto em relação aos regulamentos técnicos e desportivos".


"Em função destas alegações, os representantes da FOTA solicitaram um adiamento das reuniões de hoje. Esta proposta foi rejeitada com o argumento de que nenhum novo Pacto da Concórdia seria permitido antes de uma aprovação unânime dos regulamentos para a próxima temporada."


"Está claro para as equipes que a base dos regulamentos técnicos e esportivos para 2010 já havia sido estabelecida em Paris, tal como foi afirmado pelo Conselho Mundial da FIA em comunicado no dia 24 de junho."


"Em nenhum momento da reunião em Paris foi feita qualquer exigência de um acordo unânime para qualquer mudança de regulamento. Como resultado destas declarações [desta quarta-feira], o Grupo de Trabalho Técnico da FOTA não foi capaz de exercer seus direitos e, portanto, não teve outra opção além de encerrar sua participação na reunião."

Digam o que diserem, a sensação que fico agora é que o acordo de há duas semanas atrás que muitos alardoaram o desfecho como algo "que iria acabar numa pizza", faz-me lembrar os Acordos de Munique, assinados em Setembro de 1938, entre França (Daladier), Alemanha nazi (Hitler), e a Inglaterra (Chamberlain). Quando o acordo foi assinado, Chamberlain mostrou orgulhoso o papel em Londres, afirmando que "era a paz no nosso tempo" perante uma multidão em êxtase. Edouard Daladier, o então primeiro-ministro francês, quando viu a mesma coisa no aeroporto de Le Bourget, afirmou de forma mais pragmática ao seu secretário, Alexis Legér: "Ah, des cons!" (Ah, estes idiotas!)

Quem nunca acreditou nisto foi Winston Churchill. Então um mero deputado na Câmara dos Comuns (mas já um dos mais brilhantes), afirmou a Neville Chamberlain, quando ele regressou a londres com o tratado na mão: "Tinha uma de duas escolhas a fazer:ou a desonra ou a guerra. Escolheu desonrar-se, e vai ter como troca a guerra". Não digo que Luca de Montezemolo seja dos apaziguadores, muito pelo contrário. Mas sabe-se que fazer um acordo com Max Mosley, uma velha raposa, era como que entrar na toca do lobo.

Nâo quero ser nem sou Churchill (embora confesse que ele seja dos estadistas que mais admiro), mas francamente no meio desta guerra, tenho a mesma postura dele. E tal como ele, via as noticias e interpretava-as da maneira mais objectiva possivel. E sempre desconfiei de "Mad" Max Mosley, sempre. Especialmente depois de ter dito que queria um pedido de desculpas por parte de Montezemolo, depois deste ter cantado vitória com o acordo alcançado. Mosley avisou que "era cedo demais cantar sobre o meu cadáver". Tem razão. E os acontecimentos de hoje, em Nurburgring, apesar de terem sido um "meio acordo", pelo menos na parte do tacto orçamental, mandaram a todos o sinal de que Mosley está vivo e não desiste do propósito de vergar as equipas FOTA aos seus designios. Um bom discipulo de Adolf Hitler, poderão dizer...

Agora, cada vez mais observo a aproximação das nuvens negras da "racha" no horizonte. E desta vez, acho que nem Bernie Ecclestone pode salvar. Esperem até ao final do mês para ver o que a FOTA diz. Pessoalmente digo isto: se é para ir à guerra, então vamos a isso! E aos que sobreviverem, contem a história aos seus filhos e netos, para que digam no futuro, onde estavam quando a Formula 1 se dividiu em duas.

3 comentários:

Ridson de Araújo disse...

Escrevi lá no meu blog, a respeito de sua analogia...antes de mostrar aqui, só uma ressalva: acho que qualquer analogia histórica tem que ser feita não no intuito de se esperar exatidão. Ainda mais quando se trata de FIA e FOTA, que tem feito papel de vítima alternadamente e escrachadamente. Diferente de muitos outros bloggers, eu não me arrisco mais a tomar qualquer partido.

"Confesso, Speeder, que o Acordo de Munique nunca foi algo em que eu me detivesse nem em escola, e nem em faculdade. Vi seu post, e achei muito legal (e muito ao estilo das analogias históricas que faço aqui)e como todo historiador que não sabe responder a uma pergunta, vai e pesquisa. Pesquisei e acho que faria algumas alterações.
De fato, a tensão da F1 se elevou a um outro patamar, pq justamente a FIA e as equipes mudaram o foco de atuação, lutando mais acirradamente que nunca. E é mais ou menos o que se passa na Europa. A disputa territorialista alemã era absolutamente uma emergência de todas as tensões econômicas internas do país, que só seriam saciadas com mais territórios, mais recursos (a região da Checoslováquia, foco do Acordo de Munique, acredito ser rica em recusos energéticos, fundamentais na época). Assim como a disputa por interesses fez a FOTA querer expansão total, e a FIA se sentiu pressionada, barganhou no último instante (oprimiu muito as equipes, como os grandes países europeus reprimiram a Alemanha pré-Hitler, e depois teve que barganhar temendo o avanço total da FOTA)cedendo o fim do teto (cedendo a Tchecoslováquia).
Desembocando, veio a guerra, inevitável, pois para a Alemanha o fator econômico+ o desejo de hegemonia étnica (lembra a limpeza "identitária" que a Fota propõe ao se afirmar a essência da f1). Sim, a coisa realmente mudou de tom, e a Guerra parece bater à porta, pronta para acontecer de fato, pois até agora só tivemos muitos ensaios e tentativas frustradas de diplomacia.
O que parece-me engraçado é que, em minha analogia, quem é a temida Alemanha é a FOTA, não a FIA, justamente por não me prender ao acontecimento último, mas aos passados. Não que esteja fazendo apologia da FIA, porque em momento algum se santificaria França ou Inglaterra no processo, como estão fazendo (em minha opinião erroneamente) com a FOTA (então ela não seria os países imperialistas, p/ mim) nem endemonizaria a Alemanha, que nunca se resumiu a Hitler, e que nunca foi apenas os seus seguidores, mas também os muitos reprimidos e silenciados pelo regime nazista dentro de sua própria casa.
A conclusão para este momento confuso da História da F1, que se confunde com o momento do Acordo de Munique, é que é impossível defender lado A ou B, pois ora eles jogam de Aliados, ora de Eixo, ora de Inglaterra ora de Alemanha. Nós é que sem dúvida somos a frágil Checoslováquia, que fica à mercê de gigantes loucos, dementes e egocêntricos, sendo jogado de um lado para outro.
E essa dificuldade de definr quem é quem torna complicada qualquer analogia histórica de ser exata. Como qualquer analogia, é apenas uma aproximação didática, e não uma certeza fechada.
Consegui esclarecer?"

Abraços,e convido a todos a conferirem o Histórias e Velocidade
http://historiasevelocidade.blogspot.com/2009/07/armacao-ilimitada.html

Speeder_76 disse...

Respondi por lá, meu caro. De facto, há certas coisas que não cabem exactamente na analogia. Uma delas é aquela que deu: nenhuma das partes tem o seu lado definido. Como são ambos cínicos, digo que a FOTA é uma entidade heterogénia com dos bens em comum: o ódio a Mosley e arranjar uma maior fatia do bolo orçamentário.

Ridson de Araújo disse...

Respondi por lá e por aqui também.
E vendo o que vc escreveu aqui, concordo. O perfil da FOTA é heterogêneo demais, para se vangloriarem ter a mesma identidade; mas identidades se forjam inicialmente por desejos de se fortalecer e identificações( como as que vc disse) em comum.
Eis o que escrevi lá:

"Claro, Speeder. Pensei também em fazer um post paralelo só com nossos comentários, o que é legal, para um intercâmbio de blogs.

Concordo com vc, o Acordo de Munique da F1, em Paris, foi antes. Agora, o momento é de cisão. O díficil para muitos, seria identificar como as coisas mudaram, de uma situação difícil como as passadas, em que todos (inclusive eu), acreditávamos que a pizza não demoraria muito.Mudou definitivamente? Não, mas está sim a um passo, pois as equipes e Mosley ainda estão muito preocupados com o fator financeiro. Quando isto for levado ao patamar secundário, sendo o político o preponderante, aí não sobrará mais nada de F1.

Quanto ao Mosley ser um bode expiatório, eu concordo em parte.Mosley nunca foi bobo, nem fácil de se pegar,já que conseguiu se manter por tanto tempo; contudo, ele é antítese ideal para qualquer argumento que a FOTA crie ,e não são os mais brilhantes, mas pegam fácil na mente de muitos por visualizar em Mosley um dragão grotesco e velho, incompetente e maligno. "