sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

5ª Coluna: Rubens Barrichello, o eterno teimoso

Nesta minha primeira "Sexta Coluna" de 2012, apesar de haver um Rali Dakar - interrompido hoje por causa da chuva e da neve - e de se falar sobre o iminente Rali de Monte Carlo e das indefinições à volta da inscrição da Mini no Mundial WRC deste ano, é de outra indefinição que quero falar nesta semana, e tem a ver com o quase quarentão Rubens Barrichello, e que deseja fazer em 2012 a sua vigésima temporada consecutiva na Formula 1.

Num outro pais do mundo, com uma cultura desportiva mais evoluída da do Brasil, os feitos de Barrichello seriam respeitados e apreciados por todos, desde o comum dos mortais até aos comentadores automobilísticos. Num outro país qualquer, um piloto com 326 Grandes Prémios e onze vitórias no currículo seria aplaudido e agraciado pelos seus feitos e pela sua longevidade. E pelo fato de ainda ser apreciado dentro do circulo estritamente fechado da Formula 1, como o é agora, e do qual muitos pilotos o tem em elevada estima e tem apelado para que permaneça por mais tempo.

Contudo... Rubens Barrichello nasceu num pais que tem pouca educação neste aspecto e o tupiniquim comum foi ensinado por uma rede global a aplaudir os vencedores e a assobiar o segundo classificado, passando vezes sem conta a frase que "o segundo é o primeiro dos últimos". Daí que ele seja considerado uma "tartaruga", o digam que é lento e desejam que ele abandone já a competição.

Mas também Rubens tem uma característica, que é uma típica faca de dois gumes: a teimosia. Foi a teimosia de querer ser campeão do mundo que o manteve na Formula 1 por todos estes anos. Foi essa "teimosia" que o fez ser um elemento precioso em qualquer equipa que passasse, excepto na Ferrari, onde viveu o auge da "era Schumacher", como um ator secundário, do qual podia depois aproveitar os restos, no final da época. Primeiro, ao querer não defraudar as expectativas de um Brasil inteiro, orfão de Ayrton Senna, que desejava uma campeão do mundo a qualquer preço, do qual hoje sabemos que não tem essa capacidade. Depois, ao querer provar a si mesmo que tinha o material do qual é feito os campeões, mas que na realidade era um piloto "médio mais" do qual a famosa expressão "1B" lhe foi cunhada pelo próprio e agora não sai lá mais, como uma tatuagem indesejável de um amor que entretanto já acabou.

E é essa teimosia de querer ficar o mais possível na Formula 1, devido à sua sabedoria acumulada e o fato de algumas marcas quererem agora pilotos experientes, como Michael Schumacher (Mercedes) e Pedro de la Rosa (Hispania) é o que faz mover em 2012, dezanove anos depois de ter participado no seu primeiro Grande Prémio na Africa do Sul. Numa Williams que necessita de dinheiro, depois de ver ir embora, um por um, os patrocinadores, e estar dependente dos petrodólares de Pastor Maldonado, o seu lugar de repente tornou-se no mais cobiçado da Formula 1. Bruno Senna o quer, Adrian Sutil o quer, e o conjunto promete ser de reação, pois terão motores Renault e a postura será de "tudo ou nada" nos lados de Grove, para provar que não terão o mesmo destino que a Tyrrell. 

E se a teimosia de Barrichello levar a melhor mais uma vez em 2012, isso significará que Bruno Senna, o sobrinho do tricampeão, ficaria de fora. E muitos no Brasil não lhe perdoariam mais esse gesto, pois ainda acreditam que Bruno tem a mesma fibra do tio, o que na realidade, ainda que ele seja um bom piloto, não é excepcional.

Num pais onde para ser alguém tem de ganhar, e mais nada, mais um episódio desses será imperdoável na psique brasileira. Aliás, o brasileiro comum nunca perdoará Rubens Barrichello especialmente depois do GP da Austria de 2002, onde foi forçado a abdicar da vitória a favor de Michael Schumacher. Essa abdicação é considerada uma traição, um "baixar de calças perante o inimigo" do qual nunca o perdoarão por isso. Perfeririam que Barrichello tivesse tido um gesto "à la Didier Pironi", em Imola 1982, onde ignorou as ordens e venceu à frente de Gilles Villeneuve. Teriam perferido até que Barrichello parasse, saísse do seu carro e ter dito que abandonaria nesse dia a Ferrari. Como não fez nada disso e perferiu bancar de "empregado do mês", nunca o perdoarão. 

Tenho aquela sensação que Barrichello, mesmo quando estiver retirado e idoso, ainda será cobrado pelo que sucedeu em Zeltweg, tal como aconteceu a Barbosa, guarda-redes de seleção brasileira de 1950, a tal do "maracanazo", que perdeu perante o Uruguai por 2-1. Se o goleiro foi barrado de visitar a concentração da seleção brasileira em 2002 a pretexto de "dar azar", o que será que farão a Rubens? E quando ele morrer, daqui a muitos anos? Tenho a sensação que haverá alguém que cuspirá na sua campa...

2 comentários:

Paulo Abreu disse...

Não sou fã do Barrichello, mas respeito, e muito, o trabalho que ele fez nestes quase 19 anos de F1.
Fiz um texto sobre ele ano passado: http://voltarpida.blogspot.com/2011/04/sobre-barrichello-e-williams.html

Renato Paes disse...

Concordo parcialmente com você caro Paulo.
Quem entende e gosta pra valer de automobilismo não tem esta imagem do Barrichello. Eu por exemplo nunca me referi a ele como "tartaruga", ou qualquer outro apelido de mau gosto. Sempre o respeitei pelo grande piloto que é. Quem acha que ele não merece respeito como piloto é porque não o conhece além das manhas de corrida na TV Globo. E este não é "público" de Barrichello nem da F1, tão pouco de automobilismo. Não assistem as corridas e estão lá só pra descer o pau. Se não fosse ele, seria outro.
O cara é Penta-Campeão Paulista e Brasileiro de Kart! Quem sabe disso? Aham...
Já ai na Europa foi Campeão de F-Opel no ano de estréia, no ano seguinte Campeão de F-3 Inglesa (a maioria dos brasileiros nem sabe o que é a F-3 Inglesa!) e no ano seguinte 3º na F-3000.
Na F1 tem várias poles e voltas rápidas e foi duas vezes Vice-Campeão!
Então porque deveríamos dar ouvidos a quem fala mal dele? Não sabem o que dizem.