segunda-feira, 31 de julho de 2017

Admirável Mundo Novo... quer queiram, quer não


Não foi fácil a semana que passou. Os artigos que andei a escrever, mais as noticias sobre este assunto, paralelas ou não - as entradas da Mercedes e Porsche na Formula E e o artigo do Flávio Gomes sobre o mundo que aí vêm - causaram uma enorme "shitstorm" nas redes sociais onde se colocaram os "xiitas" da gasolina e dos motores a combustão, que acham que o automobilismo é "aquilo e mais nada", e decidem gozar e insultar os que defendem ou entendem que o futuro vai passar pela electricidade e pelas energias renováveis nos próximos vinte anos.

Por coincidência, na semana que passou, também saíram algumas noticias nesse campo. A primeira, que o Elon Musk, patrão da Tesla, iria finalmente vender os seus primeiros model 3, o tal carro que custará 35 mil dólares (trinta exemplares), e que a Grã-Bretanha tinha decidido que em 2040, não iriam circular mais carros a gasolina e Diesel, seguindo o exemplo da Alemanha e França, que decidiram fazer medidas semelhantes... em 2030. E ainda são conservadores em relação à Noruega, que quer tudo isso fora de circulação em 2025.

Foi interessante - mas desgastante - ver as reações dos detratores. Houve um que chamou a Musk de "aldrabão" e que disse que os carros elétricos são uma "falácia", mas bem dissecadas as coisas, via-se que não vivia na Europa e que acredita em precepções erradas e datadas. Para defender a sua tese de que a única energia limpa viável é a nuclear, foi buscar um artigo de jornal de... 2011, escrito depois do acidente nuclear de Fukushima, dizendo que a Alemanha iria reverter a politica de fechar todas as centrais nucleares até 2030, ditada em 2002 pelo seu antecessor, Gerhard Schroeder. O que ele não viu - ou se calhar, não quer ver - é que aqui, na Europa, todos os países querem sair da dependência do nuclear. Até a França quer reduzir a sua dependência do nuclear para 50 por cento, objetivo do novo presidente, Emmanuel Macron.

E para além disso, em todo o mundo, trabalha-se para retirar a dependência dos combustíveis fósseis. Em sete anos, o carvão nos Estados Unidos passou dos 41 para os 30 por cento e a tendência é a descer - sem qualquer colapso na rede elétrica por causa do aumento de consumo - e a cada ano que passa, os países europeus investem forte nas energias renováveis. Os mais dependentes do solar, da eólica (e das ondas!), como a Dinamarca, dizem que têm 20 por cento da sua energia captada dessa forma, e no ano passado, nós tivemos quatro dias em que só usamos energia vinda do sol e do vento. Quatro em 365 é uma gota no oceano, mas é um principio.

No final, alguns decidiram ir embora (desamigar da minha página no Facebook, leia-se) porque não tinham mais argumentos, ou porque não conseguiram vencer. De uma certa forma, comparo esta discussão aos que, há um século, defendiam as carruagens com cavalos face às "carruagens sem cavalos", ou cinquenta anos depois, achavam que ter um cinto de segurança no seu carro era uma inutilidade. O resultado é este: hoje em dia, todos nós andamos em carruagens sem cavalos, apertados em cintos de segurança que nos salvam a vida, em caso de acidente. O que aconteceu? Digamos que metade das pessoas converteram-se e a outra metade acabou por morrer...

É verdade que nem tudo é bom e fascinante (sei perfeitamente das limitações do lítio, do qual Portugal é produtor, e que as maiores reservas de cobalto vem de zonas de guerra da República Democrática do Congo), mas como em tudo, no futuro será descoberto um compósito condutor, fabricado artificialmente, do qual largará a necessidade de recorrermos a minerais para recarregar a energia. Sempre foi assim e continuará a ser. Dou o exemplo do grafeno, material descoberto em 2004 (e cujos descobridores, Andre Geim e Konstantin Novoselov, ganharam o Prémio Nobel da Física em 2010) tem um potencial enorme do qual ainda está somente a começar a ser explorado.

E há outra falha nesse argumento que é ver as baterias de automóveis como se fossem as nossas baterias de portáteis, tablets ou telemóveis. As pessoas ainda pensam que eles se desgastarão como gastam, e que trocarão de baterias a cada quatro ou cinco anos. Parece que não é bem assim. Ontem à noite, via um video no Youtube de um americano, Ben Sullins de seu nome, cujo título é bem interessante: "Teslanomics".

E o que fala desse video? Basicamente, é sobre a duração das baterias. Não há estudos muito aprofundados sobre isso, mas alguns deles - o principal proveniente de um professor da universidade de Eindoven, na Holanda - afirma que o desgaste anual das baterias dos carros da Tesla é de... 0,35 por cento. E bem calculado, chegou-se à conclusão de que as baterias poderão ter um prazo de validade de 25 a 30 anos. É uma geração.

Claro, há critérios: se não deixarmos ir a bateria chegar ao zero, e não carregarmos até aos cem por cento, o desgaste não será tão acentuado, será preservado por mais tempo. E com as baterias a ter cada vez mais autonomia (este mês foi quebrada a barreira dos 1200 km na California, e não foi um Tesla!), não ficaria admirado se no final da década, inicio da outra, o tal "autocalipse" aconteça. E como sabem, não é só os carros elétricos aparecerem por aí, é também a tal história dos carros autónomos e o "carsharing". E também uma quarta coisa do qual pouco se fala, mas que cada vez mais está a acontecer: a conversão de carros a combustão em carros elétricos. Começa a ser uma industria e cada vez mais aparecem os DYI's (Do It Yourselves) nos Estados Unidos e no resto do mundo, criando dezenas, senão centenas de oficinas que empregam centenas, senão milhares de pessoas.

Em jeito de conclusão, muitos estão a ver o futuro. Há os que discutem e há os que deitam mãos à obra. O que as pessoas fazem com esta visão cabe a eles mesmos. Podem abraçá-la e converter-se ao progresso, e ajudá-lo a que chegue mais depressa, podem esconder a cabeça na areia e estar a postos para levarem um senhor chuto no rabo, ou podem encolher-se e chorar por um período que não volta mais, porque o seu tipo de pensamento é agora visto como retrógado. Podem ser politicamente incorretos, mas só tenho pena que não exista aquela senhora que aparece naquela (agora) famosa cena da Guerra de Tronos, onde com um badalo na mão grita "vergonha, vergonha..."   

5 comentários:

Carlos Gil disse...

Caro Paulo,
no seu artigo escreve:
«… litio e cobalto como materiais para a sua construção. O primeiro, um material abundante na Terra, o segundo um metal raro cujas maiores jazidas se situam em zonas de guerra na República Democrática do Congo, do qual um dos detratores afirmou que "os diamantes de sangue parecem ser uma história feliz"»
Quanto ao lítio, que descreve como “um material abundante na Terra..”, a sua opinião não é partilhada pela ciência: no Handbook of Lithium and Natural Calcium de Donald E. GarretT: " O lítio é um elemento relativamente raro, embora ele seja encontrado em muitas rochas e algumas salmouras, porém sempre em escassas concentrações, do qual somente alguns têm potencial valor comercial. Muitos escasseiam em quantidade, e outros em qualidade.”
As reservas conhecidas no planeta (números de 2015) estimam-se em 13.000.000 toneladas.

Mas isso o Paulo pode contestar e fazer o que bem entender pois são apenas quantidades e números relativos, agradeço é que não deturpe o que eu (um dos detratores!) escrevi no meu comentário acerca do cobalto na R.D. Congo (Facebook sexta-feira, 28-julho, 22h54) «… e todo o seu processo produtivo faz o dos “diamantes de sangue” parecer uma história feliz.»; caso não tenha verificado é bem diferente do que resulta da descontextualização de sua autoria ás minhas palavras: "os diamantes de sangue parecem ser uma história feliz"»

Gostaria que fizesse a devida correcção, no que ao meu comentário sobre o cobalto diz respeito, quanto ao do lítio faça como entender ser o mais correcto.
E a minha opinião sobre a electrificação dos meios terrestres de locomoção é de que ela vai acontecer, apenas não acredito que seja sustentável neste modelo que agora está a ser instalado.
Saudações deste que até o acompanha nas suas publicações, e que gostaria de assim continuar.
Carlos Gil

Paulo Alexandre Teixeira disse...

Caro Carlos:

Sei perfeitamente que você tem a ideia de que os fabricantes vão usar apenas o lítio e o cobalto para construírem as suas baterias, e que por causa disso, deveríamos evitar os veículos elétricos ou que tema a sua massificação porque como você disse no Facebook, as reservas poderão terminar em vinte anos.

Contudo, depois fui ver a página do litio na Wikipédia e vi que estava lá a frase que cita em cima.

Também por lá estava este seguinte parágrafo:

"Opinions differ about potential growth. A 2008 study concluded that "realistically achievable lithium carbonate production will be sufficient for only a small fraction of future PHEV and EV global market requirements", that "demand from the portable electronics sector will absorb much of the planned production increases in the next decade", and that "mass production of lithium carbonate is not environmentally sound, it will cause irreparable ecological damage to ecosystems that should be protected and that LiIon propulsion is incompatible with the notion of the 'Green Car'".[52]

However, according to a 2011 study conducted at Lawrence Berkeley National Laboratory and the University of California, Berkeley, the currently estimated reserve base of lithium should not be a limiting factor for large-scale battery production for electric vehicles because an estimated 1 billion 40 kWh Li-based batteries could be built with current reserves[91] - about 10 kg of lithium per car.[92] Another 2011 study by researchers from the University of Michigan and Ford Motor Company found sufficient resources to support global demand until 2100, including the lithium required for the potential widespread transportation use. The study estimated global reserves at 39 million tons, and total demand for lithium during the 90-year period analyzed at 12–20 million tons, depending on the scenarios regarding economic growth and recycling rates.[93]

On June 9, 2014, the Financialist stated that demand for lithium was growing at more than 12 percent a year; according to Credit Suisse, this rate exceeds projected availability by 25 percent. The publication compared the 2014 lithium situation with oil, whereby "higher oil prices spurred investment in expensive deepwater and oil sands production techniques"; that is, the price of lithium will continue to rise until more expensive production methods that can boost total output receive the attention of investors".

Sobre o estudo da Universidade da California, em Berkeley, de 2014, traduzo duas das coisas que dizem ali: há reservas para 90 anos, mesmo que se construam mil milhões de carros elétricos, com a tal média de dez quilos por carro. E sem explorar os mares para começar a captar o lítio ali existente. Como você sabe, duvido que algum dia se construa assim tanto e sabe que 90 anos é tempo mais do que suficiente para encontrarem e construírem processos para a reciclagem das baterias de lítio... isto se não encontrarem outro material ou compósito que dispense o seu uso nas baterias.

Paulo Alexandre Teixeira disse...

(parte 2)

No meio disto tudo, o que não quero e o que não gosto (e atenção, isto não é um critica a si em particular) é alguém a pegar em artigos de opinião com alguns anos para defender o anti-elétrico, como fez outra pessoa para defender a sua tese de que tudo isto não passa de falácias, mentiras ou "banhas da cobra". Até parece que os cientistas não viram isto tudo, não viram os defeitos e andam a tentar resolver estes problemas. Sempre me ensinaram que não há impossíveis, e que outra solução aparecerá para resolver ou minorar os problemas que surgem. Sempre foi assim ao longo da história da ciência e da industria. Daí ter metido esses dois videos que são de julho de 2017, ou seja, tem dias, para mostrar que as coisas avançam e provavelmente alguns dos temores e problemas que levanta podem estar a ser resolvidos. E também ter falado da ideia de compósitos que possam ser condutores de electricidade, que possam fazer com que num futuro próximo, dispensemos a necessidade de escavar a terra para procurar esses minerais raros e "sanguinários".

Sobre o cobalto, não se preocupe que corrijo essa parte, agradeço o seu esclarecimento.

Carlos Gil disse...

Paulo,
agradeço a correcção/eliminação na citação ao meu comentário sobre o cobalto.
Quanto ao lítio, como eu escrevi no primeiro comentário são apenas quantidades e números, e cada um é livre de aceitar/escolher quais as suas opiniões.
No entanto o Paulo continua a insistir (corrija-me se estou errado) em que eu sou um anti-eléctrico. Lamento se o desiludo, mas está enganado.
Eu trabalho na área do AQSS-Ambiente, Qualidade, Saúde e Segurança duma empresa do sector da energia, e desde 2006 estou envolvido em vários projectos de Eficiência Energética na nossa rede de distribuição. Há mais de uma década que tenho acesso a muito do que se produz em ID na produção e armazenagem de energia eléctrica; eu sou um consumidor ávido deste tema, e felizmente há muitos projectos em curso.
Um dos factos que existe neste momento é: os sistemas de armazenamento de energia tal como os conhecemos, não são suficientemente eficientes para podermos electro-motorizar veículos de grande consumo.
Eu acredito que para conseguirmos passar para uma mobilidade eléctrica, não só nos veículos ligeiros, mas em todos os tipos de veículos rodoviários, a electricidade terá que ser produzida no veículo.
E existem projectos muito interessantes, em várias fases de desenvolvimento.
No entanto é no hidrogénio que estão as grandes apostas, há um consórcio que engloba a Honda, Toyota, Hyundai, Daimler, BMW, Kawasaki, Shell, Total, Alstom, Air Liquide, Linde e mais uns outros que não recordo, que estão a investir pesadamente em ID, e principalmente na criação de standarts e legislação internacional para este tipo de veículos.
A China está também na corrida do hidrogénio, mas tem algumas outras surpresas, uma das quais é a da utilização de micro-turbinas a gás para a produção de electricidade em veículos e outros equipamentos.
Para quem como eu, vive a mais de meio século no mundo do motor de combustão interna, os próximos anos vão ser de uma transformação empolgante na mobilidade rodoviária. Mas não só, pois as soluções que servirem para os veículos, servirão para muitos outros equipamentos.
Eu não sou anti-eléctrico (já tive um carro eléctrico ao meu serviço por sete dias, e autonomia à parte, gostei da experiência), eu sou um céptico desta corrida a estas baterias.
Saudações Paulo.
CG

Ismael disse...

Vou continuar a ler este blogue, com muito gosto.