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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

As imagens do dia





Dois dias antes do Natal de 1985 - há 40 anos neste dia - um homem de 74 anos sofre um ataque cardíaco na estação de metro de Baron’s Court e acaba por morrer. Nos bolsos, foi encontrado um bilhete numa língua estrangeira do qual os policias não sabiam o que era, porque o alfabeto não era latino. Demorou alguns dias, e enquanto o cadáver passava o Natal na morgue, eles conseguiram decifrar que língua era: tailandês. E o conteúdo afirmava que, caso acontecesse qualquer coisa, contactassem alguém da embaixada. 

Quando fizeram e foram identificar o corpo, descobriram que o idoso não era um qualquer. E ele se chamava Birabongse Bhanudej, e fazia parte da família real tailandesa. E mais: era dos maiores desportistas do seu país. Tinha sido velejador, com quatro presenças nos Jogos Olímpicos, aviador completo, mas sobretudo, piloto de automóveis, com 19 presenças em Grandes Prémios de Formula 1, entre 1950 e 1954. E claro, tinha sido o primeiro asiático naquilo que iria ser a categoria máxima do automobilismo.

Nascido a 15 de julho de 1914, em Bangkok, no então Sião (agora Tailândia), perdeu a mãe aos quatro anos, e em 1927, foi para o Eton College, no Reino Unido, para completar a sua educação. Lá acabou por ser tutelado por um primo seu, o Principe Chula, e juntos decidiram montar uma equipa: a White Mouse. Quando, em 1937, Richard Seaman foi para a Mercedes, eles, que tinham conseguido dois ERA, decidiram comprar todo o seu património, e isso incluía dois Delages - mais tarde, depois da guerra, o príncipe Chula iria escrever uma biografia de Seaman. 

Com a chegada da II Guerra e a suspensão das atividades automobilísticas, ele virou-se para a aviação. Tornou-se num instrutor qualificado pela RAF, e no final da guerra, regressou ao automobilismo, a bordo de um Maserati 4CL. Ganha o Grand Prix des Frontiéres, em 1947 e em 54, e em Zandvoort, em 1948. Em 1949, subiu ao pódio em Reims e Monza.

Quando a Formula 1 começou, em 1950, a bordo de um Maserati 4CLT/48, participa em Silverstone, mas não chega ao fim, é quatro no Mónaco e quinto em Bremgarten, na Suíça, sendo o oitavo na geral. Tudo isto num carro azul com faixa amarela, porque um dia viu um carro com as cores suecas e achou que assentava bem. 

Correu pela Gordini, Connaught e Maserati, onde conseguiu um quarto lugar no GP de França de 1954, mas foi em 1955, no GP da Nova Zelândia, com uma inscrição pessoal, que alcançou o seu maior sucesso, ao acabar como vencedor, na pista de Ardmore, desenhada à volta de um aeródromo da Força Aérea. Acabada a temporada de 1955, aos 41 anos, decidiu pendurar o capacete. Mas não desistiu de praticar desportos. 

E o capitulo seguinte o fez ir para a vela. E com ela, quatro presenças nos Jogos Olímpicos. A começar em Melbourne, no ano seguinte, e indo às três edições seguintes, em diferentes classes, até 1972, os Jogos de Munique, quando tinha 58 anos. E em Roma, em 1960, algo de inusitado aconteceu. Entre os concorrentes da classe Star, uma cara conhecida: a do argentino Roberto Mieres, que em 1955, correu pela Maserati. Na classe, ganha pelos soviéticos Timir PineginFyodor Shutkov, que bateram os portugueses Mário Quina e José Manuel Quina, Miéres foi 17º e Bira, 19º.

Depois de alterarem a embaixada tailandesa em Londres, Bira, que fora casado por cinco vezes, acabou por ser cremado em Londres e as suas cinzas ficaram com a família. Na Tailândia, há uma pista em Pattaya com o seu nome, reconhecendo o seu papel no automobilismo do seu país. 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

O piloto do dia - Principe Bira

Esta segunda-feira, a Toro Rosso anunciou que iria receber o tailandês Alexander Albon, que aos 22 anos de idade e depois de ter sido terceiro classificado no campeonato de Formula 2 deste ano, tornava-se no terceiro piloto do sudeste asiático na Formula 1 neste século, depois do malaio Alex Yoong e do indonésio Rio Haryanto.

Contudo, a chegada de Albon quebra uma ausência de 65 anos de pilotos tailandeses na categoria máxima do automobilismo, e faz despertar a história de um membro da familia real tailandesa que, oitenta anos antes, tinha se mudado para a Europa para seguir uma longa e eclética carreira desportiva, primeiro no automobilismo e depois na vela, tendo sido um de três pilotos que foi aos Jogos Olímpicos, fossem de inverno ou de verão. Hoje, vou falar do Principe Bira.

De seu nome completo Birabongse Bhanudej Bhanubandh, nasceu a 15 de julho de 1914 em Bangkok, no então Sião - que depois seria rebatizado de Tailândia. Bira era filho do principe Bhanurangsi Savangwongse e neto do rei Mongkut, que ficou conhecido pelo musical "O Rei e Eu", na década de 50 do século passado. Bira perdeu a mãe aos doze anos e o pai aos 16, quando ele estava na Grã-Bretanha, a estudar no prestigiado Eton College.

Quando saiu de Eton, para se preparar para estudar em Cambridge, estava na guarda do principe Chula, seu primo, e entre aulas de escultura e desenho - onde conheceu a sua primeira mulher - começou a correr no Riley Imp da equipa White Mouse Racing, montado pelo seu primo. O gosto pelo automobilismo ficou de vez em Bira e em 1935 corria num ERA, conseguindo boas colocações. Dois anos depois, quando Richard Seaman foi para a Mercedes, Bira e Chula compraram os carros que Seaman corria antes, nomeadamente em Delage, e depois um Maserati. Tinha bons resultados nas provas inglesas, mas no continente europeu, não havia chances perante os alemães da Mercedes e da Auto Union.

Com o automobilismo a parar durante a II Guerra Mundial, quando o conflito acabou, em 1945, e as provas recomeçaram, no final desse ano, recomeçou a sua carreira no automobilismo, correndo com ERA e Maserati, especialmente da equipa Enrico Platé. Em 1949, na temporada europeia de Grande Prémio, Bira conseguiu um segundo lugar no GP de França e um terceiro no GP de Itália.

Em 1950, começou o campeonato do mundo de Formula 1, e a bordo de um Maserati 4CLT/48 da Enrico Platé conseguiu um quinto lugar no Mónaco e um quarto na Suíça, acabando a temporada no oitavo lugar, com cinco pontos. Continuou com os Maserati em 1951, mas apenas participou num Grande Prémio. Passando para a equipa oficial da Gordini em 1952, não alcançou resultados de relevo e no ano seguinte, foi correr três provas pela Connaught, também sem resultados. 

Em 1954, aos 40 anos de idade, e depois de ter corrido na equipa oficial da Maserati no GP da Argentina, correu o resto da temporada no Maserati 250F, mas inscrito individualmente. Foi aí que igualou o seu melhor resultado, ao ser quarto no GP de França, a mesma corrida onde os Mercedes se estrearam na Formula 1. No final de 1955, Bira pendurou o capacete.

Aí, dedicou-se a outra paixão, a vela. Em 1956, em Melbourne, começava a primeira de quatro participações e em 1960, em Roma, teve como um dos seus competidores outro ex-piloto de Formula 1, o argentino Roberto Mieres. Nessa competição pessoal, Mieres levou a melhor, sendo 17º, dois lugares mais acima de Bira. A sua última participação foi em Munique, em 1972, quando competiu na classe Tempest, terminando na 21ª e última posição.

Casado por cinco vezes e também um apaixonado pela aviação, Birabongse Bhanudej morreu em Londres na ante-véspera de Natal de 1985, aos 71 anos, vítima de ataque cardíaco no metro de Londres, onde vivia.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Nasser Al-Attiyah e os automobilistas olimpicos

O Regys Silva tem, desde o inicio do ano, um blog sobre os Jogos Olimpicos, o Surto Olimpico. É bem feito e muito informativo e está sempre aberto às colaborações dos outros. Ele já me tinha pedido desde há algum tempo para que colaborasse por lá, e aceitei. Só que o tempo e outros compromissos - o meu blog, a revista, etc... - fizeram com que esquecesse ou colocasse  para o último lugar a escrita de um post no blog. Até que duas coisas aconteceram: uma conversa com ele e uma noticia sobre Nasser Al-Attiyah, o homem que está metido em tudo, vencedor do Rally Dakar e piloto no WRC a bordo de um Citroen DS3, mas que é também praticante de tiro aos pratos. Foi um bom pretexto para escrever o seguinte para o blog:

"Automobilismo e olimpismo parecem ser duas modalidades à partida contraditórias e até imcompatíveis. Mas por estes dias há uma pessoa que consegue compatiblizar tudo isso sem problemas. Aliás, essa é uma das facetas de um dos desportistas mais importantes do seu país e uma das personalidades mais reconhecidas. É a personalidade menos conhecida de Nasser Al-Attiyah, vencedor do Rally Dakar em 2011 e atual piloto do Mundial WRC de ralis, a bordo de um Citroen DS3 WRC. 

Nascido há 42 anos em Doha, capital do Qatar, chega a Londres para participar na sua quinta olimpiada, depois de nos Jogos Asiáticos de Guangzhou, em 2010, ter conseguido duas medalhas na modalidade de Tiro aos pratos. Tem um historial olimpico relativamente modesto - nunca venceu uma medalha - mas em 2004, em Atenas, esteve prestes a alcançá-lo, quando terminou na quarta posição. Quatro anos antes, em 2000, nos jogos de Sydney, acabou no sexto lugar. Em 2008, apesar de ser o portador da bandeira do seu país na cerimónia de  abertura, falhou o acesso à final por apenas dois pontos, acabando na 15ª posição.

De facto, por causa da sua preparação para os Jogos, a sua paticipação no Mundial de Ralis será parcial. Devido a isso, vai falhar os ralis da Nova Zelândia e da Finlândia. No primeiro, o seu lugar foi ocupado pelo belga Thierry Neuville, enquanto que no segundo rali, esse lugar pertencerá ao australiano Chris Atkinson, com o qatari só a regressar a tempo inteiro no final de agosto, no Rali da Alemanha."

Havia mais, sobre os pilotos de Formula 1 que foram atletas olimpicos, mas o Regys disse-me que já tinha sido feito pelo meu amigo Paulo Abreu, do Volta Rápida, e assim sendo, decidi colocar esta segunda parte por estas bandas, nem que fosse para relembrar.

Assim sendo, escrevi Nasser Al Attiyah não tinha o unico piloto de automóveis que participou em Jogos Olimpicos. Antes dele, três pilotos de Formula 1 estiveram a repsresntar os seus países, todos eles depois de terem concluido as suas carreiras nas pistas. O holandês Ben Pon Jr., filho de Ben Pon, idealizador da Kombi, participou numa corrida na temporada de 1962, e dez anos depois, em Munique, participou na equipa holandesa de tiro aos pratos, a mesma modalidade de Nasser al Attiyah. Nesse concurso, terminou na 39ª posição, em 66 concorrentes.

Uma segunda participação acontecera antes, com principe tailandês Birabongse Bhanudej Bhanubandh, mais conhecido como "Principe Bira". Após ter completado a sua carreira nas pistas, em 1955, decidiu participar em quatro edições dos Jogos Olimpicos, na modalidade de vela, em várias classes. Em 1956 e 1960, participou na Star, enquanto que em 1964 esteve na modalidade de Dragon. Na sua última participação, em 1972, na cidade alemã de Munique, esteve na classe de Tempest. A sua melhor classificação foi um 12º posto em Melbourne.

Numa dessas participações, em 1960, o principe tailandês cruzou-se com outro ex-piloto: o argentino Roberto Miéres. Também retirado da competição, em 1958, competiu pelo seu país em Roma, pela classe Star. Nesta competição em particular, Miéres levou a melhor, conseguindo o 17º posto, dois lugares à frente de Bira.

Mas no meio disto tudo, por muito pouco estes nomes não eram acompanhados por outro piloto ilustre: Jackie Stewart. Em 1960, aos 21 anos, o escocês esteve muito perto de representar a Grã-Bretanha nos Jogos Olimpicos de Roma, também na modalidade de... tiro aos pratos. Por essa idade, tinha vencido competições nas Ilhas Britânicas - chegou a ser ao mesmo tempo o campeão inglês, galês e escocês - e competiu por um lugar nessa competição, mas foi dado a outro competidor. Provavelmente teria sido naturalmente escolhido para a delegação britânica para os Jogos Olimpicos de Tóquio, mas por essa altura, já se tinha envolvido no automobilismo.