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terça-feira, 24 de abril de 2012

Extra-Campeonato: ZX Spectrum, 30 anos

Eu pertenço a uma geração de transição: aqueles que eram crianças a meio dos anos 80, que ora jogavam futebol na rua até tarde da noite, ora iam para a casa do vizinho que tinha a melhor novidade eletrónica para jogar. E nessa altura, o supra-sumo era o ZX Spectrum de 48k, que fez esta segunda feira, 30 anos sobre a sua comercialização.

Definitivamente, começo a sentir o peso dos anos. Para quem não tem ideia do que isto significou, direi que antes disto, os jogos estavam nas arcadas, onde gastavamos uma moeda e jogavamos até acabar o tempo, ou as nossas "vidas". E isso quando aconteceu, em meados dos anos 70, foi uma revolução. E o ZX Spectrum, obra de um senhor chamado Clive Sinclair, criou uma onda semelhante aos que as pessoas têm agora para os iPhones e iPads. Eras alguém se tivesses um, principalmente na Grã-Bretanha, o país de origem. E nunca uma máquina causou, nem antes, nem depois, um tamnnho impacto, pois foi graças a ela que nasceu e cresceu uma industria de "software" cujas consequências ainda se sentem hoje.

Para os valores de hoje em dia, é ridículo: 48K, com uma memória RAM de 16Kbits, demorava-se cinco minutos para descarregar um jogo e o podermos desfrutar. Era um teste à nossa paciência de crianças, mas quando acabava, vali a pena. Os sons entraram na nossa memória, da mesma forma que entrou, para mim, o "Touch Me" da Samantha Fox ou a respiração ofegante de Darth Vader, no Star Wars.

A comemoração de tal feito fez-me recuar até aos meus nove, dez anos. Por volta de 1985, 86, na minha rua, cada um de nós tinhamos algo que os outros não tinham. O meu pai foi o primeiro a ter um video - e era um Sony BETA - e eu e o meu irmão traziamos os nossos amigos para vermos filmes. O meu vizinho de baixo, que hoje em dia é economista, tinha um desses bichos, um 48k. Era o nosso sonho: jogavamos horas e horas a jogos, que eram comprados a 250 escudos - que não eram mais do que cópias baratas do original, e do qual nem sempre resultavam - e jogávamos os jogos da moda.

O meu favorito? Como não poderia deixar de ser, era um de Formula 1. No tempo em que Bernie Ecclestone poderia sequer sonhar com este futuro, e onde as pessoas tinham a liberdade de fazer dinheiro às custas deste senhor, apareceu este jogo, onde poderiamos gerir a nossa equipa favorita, numa de seis: Brabham, Ferrari, Lotus, Williams, McLaren e Renault. E claro, os pilotos que queriamos. Como era com base na temporada de 1984, poderiamos colocar tal qual como era nesse ano, mas também poderiamos antecipar o futuro, colocando Ayrton Senna e Alain Prost na McLaren, mas também seis novatos, conhecidos apenas pelos seus apelidos: Walker, Chambers, Rowland, Munday, Wood e Wheelhouse.

Três anos depois de ter começado a jogar esse, apareceu o Grand Prix Circuit, onde só podias escolher um de três equipas: Williams, McLaren e Ferrari. Era engraçado de guiar, embora no modo "easy" era fácil seres o campeão. Mas também era um grande jogo.

Para ter o meu primeiro ZX Spectrum, tive de me aplicar nos estudos, pois era o prémio - meu e do meu irmão - para o sucesso escolar que tivessemos na escola. Quando o meu pai comprou o primeiro, em 1988, creio eu, já era um ZX Spectrum de 128k, mais evoluido. Valeu a pena, de facto, ter um, e tive pena quando o vendi, alguns anos depois, a um velho amigo meu, pois eu já estava na Universidade e um novo brinquedo o tinha substituido no nosso lar: um PC para mim, um Sega Saturn, para o meu irmão. Hoje em dia, tenho uma PS3 em casa, mas é do departamento do meu irmão. Jogo raramente, mas quando o faço, é para matar as saudades. E é como andar de bicicleta: nunca mais se esquece.

Quanto ao Spectrum, tem alturas em que me lembro e vou ver os velhos jogos: os de automobilismo, os clássicos como Chuckie Egg, Bruce Lee, ou o Match Day.

Em relação a Clive Sinclair, pela sua contribuição para o desenvolvimento de uma nova industria, recebeu o grau de Cavaleiro em 1983, mas depois disso, tentou inventar um carro novo, o Sinclair C5, um elétrico de três rodas que mais parecia um triciclo. Apresentado em 1985, foi um fracasso total apesar de ter vendido... 17 mil veículos, um recorde para este tipo de veículo durante 26 anos, até que o Nissan Leaf o bateu, no final do ano passado.

Hoje em dia, ainda está envolvido no negócio dos computadores, mas irónicamente... não usa a Internet, que considera "um estorvo no processo de concentração para inventar coisas". Perfere usar o telefone do que o e-mail, por exemplo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

The End: Steve Jobs (1955-2011)

Terça-feira à tarde, quando cheguei a casa, dei comigo a ver um documentário da CNN sobre Steve Jobs. Sabendo sobre a sua condição física, fiquei logo com a sensação de que eles sabiam que a sua morte estava iminente, apesar de oficialmente a razão para isto tinha a ver com uma nova versão do IPhone, que foi apresentado nesse dia. Há cerca de uma hora, quando vi por acaso os obituários na Wikipédia, vi o nome dele e fiquei com a sensação de que "eu sabia que isso ia acontecer". É o instinto, digamos assim. Ou então sabiam da iminência deste inevitável desfecho.

Então, podemos dizer oficialmente: Steve Jobs morreu esta noite aos 56 anos, vítima de um cancro no pâncreas. Já batalhava com a doença há mais de seis anos, e pelo meio, em 2009, levou um transplante de fígado. A Apple diz esta noite no seu site oficial: "A Apple perdeu um génio visionário e criativo, e o mundo perdeu um ser humano incrível. Todos os que tivemos a sorte de conhecer e trabalhar com o Steve perdemos um querido amigo e um mentor inspirador. O Steve deixa uma companhia que só ele podia ter construído e o seu espírito será, para sempre, a base da Apple".

Viamos a ficar cada vez mais magro, pelas imagens e fotos. Vi uma imagem dele, de final de agosto, depois da sua carta de demissão, onde estava de pé, apoiado por outra pessoa, e estava só "pele e osso", como se diz. De uma certa maneira, aquela carta mais aquelas imagens, fiquei com a sensação de que se estava a despedir-se de todos os que ajudaram a transformar a Apple naquilo que é agora. Dos amigos, dos admiradores, da Terra e da vida à sua volta.

Nunca tive, nem tenho atualmente qualquer aparelho da Apple, mas já trabalhei com eles. São bons, é certo, são elegantes, simples e conseguem ser diferentes dos PC's habituais. Mas o que os tornou no culto que vemos hoje não é pela máquina. Isso é só metade dos motivos. A maneira como Jobs explicava os "gadgets" nas suas conferências de apresentação - e gostava daquilo que fazia, é certo - faz a outra metade.

Então... o que ele deixa? Bom, podemos dizer que tudo aquilo que vemos e fazemos num "personal computer" é o resultado da sua visão. A Apple tem 35 anos, foi fundada por ele e por outro Steve, Wozniak de apelido, numa garagem californiana na zona que depois se transformou em Sillicon Valley.

E tudo o que vemos e sabemos sobre computadores hoje em dia é o resultado da sua visão ou desejo do que ele queria para este tipo de tecnologia. Não só metia as mãos na massa, como tembém vendeu a sua ideia a milhões, como se fosse uma visão do futuro. E esses milhões ajudaram a moldá-lo, graças a ele. Hoje em dia, quando vemos a quantidade de pessoas que usam coisas da Apple, entendo as suas dores e sinto o vazio que eles passam agora. É como se tivessem perido o seu mentor, "deos ex-machina".

Mas isso só aconteceu em 2001, com o iPod, porque na década e meia antes, tinha passado por atribulações: foi despedido em 1985, fez a NeXT, fundou a Pixar, e quando a Apple comprou a NeXT em 1997, ele voltou para renovar a companhia. Primeiro como CEO "provisório" e em 2000, a vaga tornou-se permanente.

Há uma curiosidade que descobri sobre a sua fortuna: o seu salário anual era de... um dólar. Mas era detentor de 5426 milhões de ações da Apple, como era também detentor de 138 milhões de ações da Disney, resultado da venda da Pixar. No final, a sua fortuna esta estimada, em valores de 2010, em 8,3 mil milhões de dólares. Esperto, hein?

Agora os obituários estão todos a sair, feitos diligentemente nestas últimas semanas e meses. Alguns falarão dos seus feitos, outros falarão dos seus defeitos, especialmente a sua personalidade egomaniaca, que o tornou temível aos olhos dos que trabalharam com ele, mas todos falarão disto: é provavelmente uma das personagens mais relevantes da história da tecnologia, a par de Bill Gates. E os livros de história, independentemente do tipo de plataforma que ficarão no futuro, falarão sempre destes dois, que nasceram curiosamente no mesmo ano, como sendo... va lá, as pessoas que tornaram a tecnologia acessível a todos. Ars lunga, vita brevis, Steve!