Ou seja, o equilíbrio é a norma. É mesmo norma - os regulamentos são feitos nesse sentido, e todos os "truques" que os mais tradicionalistas rejeitam, como o Attack Mode, servem para o espetáculo - e o facto dos pilotos e os carros andem lado a lado em boa parte da corrida fazem com que os espectadores andem sempre empolgados, esperando, talvez, pela próxima batida contra o muro, porque boa parte das corridas são circuitos urbanos, e bater no muro é um risco inerente.
Contudo, quando a competição elétrica se prepara para uma grande alteração em termos de carros e de circuitos - vêm aí o Gen4, o elétrico mais potente de sempre, e o calendário terá mais três circuitos permanentes, Zandvoort, Brands Hatch e Austin - o falatório do momento foi como é que acabou este campeonato e como poderá ter surgido a primeira relação tóxica na história do automobilismo elétrico. E é entre dois ex-companheiros de equipa na Porsche.
Pascal Wehrlein e António Felix da Costa são talentosos e já ganharam campeonatos. Antes de 2026, Wehrlein triunfou em 2024, enquanto Felix da Costa foi campeão antes, em 2020. Apesar de ter 34 anos, mais três que Wehrlein, o piloto português é um dos "originais", pois correu na temporada inicial da Formula E, em 2014. E ambos foram companheiros de equipa na Porsche, entre 2023 e 2025. A relação, que a principio foi cordial, degradou-se com o tempo, porque é o mantra de todo e qualquer piloto: são extremamente competitivos, e batidas em corrida, no calor do momento, são o pão nosso de cada dia. É por isso que no final da corrida, eles falam uns com os outros explicando, pedindo desculpas por qualquer incidente, esperando que não levem desaforo para casa.
Só que ali, as coisas azedaram rapidamente por dois motivos: Wehrlein nunca teve bom feitio e Felix da Costa teve o azar de estar numa equipa alemã. Para piorar as coisas, no final de 2023, a Porsche pediu aos seus pilotos que abdicassem dos seus compromissos na Endurance, onde estava também Felix da Costa, ao serviço da Jota.
O português transferiu-se para a Jaguar, ir tendo com Mitch Evans, e deu-se bem. Duas vitórias seguidas nesta temporada e mais cinco pódios o colocaram a lutar pelo título.
Contudo, o fim de semana duplo de Londres, as provas finais do campeonato, viu-se algo que não se tinha visto antes. Jogando com a estreiteza da pista urbana do ExCel de Londres, a Porsche decidiu colocar os seus pilotos em táticas para bloquear os pilotos da Jaguar. Especialmente, com Nico Muller fora do título, ele foi usado para ser "tampão" de Wehrlein para que prejudicasse os pilotos da Jaguar. E deu certo: Wehrlein ganhou a primeira corrida, enquanto Felix da Costa era terceiro, deixando ele de fora para a última corrida do ano.
E o que fez? Decidiu ser piloto de equipa, e ajudar Evans para o título. E a tática era simples: marcação cerrada em Wehrlein, como Muller tinha feito a eles, na corrida de sábado.
Na corrida de domingo, foi uma carraça em relação a Wehrlein, fazendo marcação cerrada, e tentando ficar sempre na frente dele. E quase deu certo... em relação a Jake Dennis, piloto da Andretti. A certa altura, Dennis estava na frente do campeonato, e na volta 31, Wehrlein estava no meio de uma data de pilotos, lutando por lugar com Dennis quando tocou no envision de Joel Erksson, que fez pião na frente deles e os levou para o muro. Dennis ficou com o nariz partido, Wehrlein ficou preso em Eriksson e regressou, mas no fim do pelotão, fora dos pontos.
Mas isso não importou: ele era o bicampeão. A Jaguar ficou com os louros, ao ser o campeão de Construtores, e o diretor da Jaguar, Ian James, deixou um elogio ao piloto português pelo que fez na corrida - ele também não pontuou, porque gastou energia a mais por defender e atacar Wehrlein:
“O António, desde o minuto em que entrou para a equipa, tem sido incrivelmente colaborativo.”, começou por afirmar, sublinhando: “O que vimos dele hoje foi, uma vez mais, uma estratégia que foi executada na perfeição, uma condução muito, muito boa, uma condução dura, mas justa, e isso também ajudou a conquistar o campeonato.”, continuou.
Mas o que não conta aqui foi que as duas equipas estavam em marcação cerrada ao longo do fim de semana londrino e ambos se queixaram disso. Principalmente os muitos "break tests" por parte da Porsche, algo que o próprio Evans achou desnecessário, e mais chocante ainda, sem qualquer tipo de penalização por parte dos comissários, como afirmou no final da corrida de domingo:
“Acho que o tom foi definido ontem, a partir da volta dois da corrida de ontem. Obviamente, não vi bem o que o Antonio fez, vi uma pequena parte quando o consegui passar, mas basicamente fiz duas corridas inteiras assim. Para mim houve muito movimento na travagem, alguns ‘brake checks’, com os quais não estou de acordo. O facto de não ter havido um aviso ou uma penalização de cinco segundos foi chocante. Mas se foi assim que os comissários viram a situação, essa é a opinião deles. Eu só consigo ver pelo meu lado. Mas foi uma pena não ter conseguido passá-lo [Mueller] mais cedo na corrida. Mas ele fez tudo o que podia para me manter atrás, isso é certo.”
E claro, Wehrlein não ficou calado, nem o piloto português:
“Não sei se devo falar sobre isto, mas acho que as abordagens foram completamente diferentes. Provavelmente ontem a abordagem foi manter o Mitch atrás e ficar à frente dele. Hoje a abordagem foi destruir a minha corrida, tirar-me dos pontos, mesmo quando o Mitch já estava bem destacado na frente, mas continuaram a bloquear-me e a empurrar-me fora da pista. Sim, abordagens muito diferentes, mas nem vale a pena falar sobre isso, nem dar-lhes esse tempo.”, referiu o alemão.
“Cá se faz e cá se pagam. Obviamente temos muita história, um passado muito vincado com aquela marca, com aquele piloto. Mas mesmo ignorando isso tudo, os jogos que eles jogaram ontem, não gostei de ver. Quando vi começaram a fazer o mesmo na primeira volta da corrida de hoje, decidimos entrar no jogo deles, só que mais e melhor. O objetivo era claro, ser campeões do mundo por equipas, tínhamos que acabar à frente dos Porsche. Consegui posicionar-me da melhor maneira e não tenho nenhum arrependimento. Fizemos isso da melhor forma possível e conseguimos ser campeões do mundo por equipas. Não fizemos nada de mal, apenas o que nos fizeram, mas mais e melhor.”, respondeu o português, que mesmo assim afirmou que o título do alemão é merecido, e o elogia por ser um ótimo piloto.
Agora que se passaram alguns dias sobre esta corrida e o desfecho deste campeonato, e com pouco tempo até a nova geração de carros, não creio que ambos sejam os novos Alain Prost e Ayrton Senna, embora um incidente semelhante ao que aconteceu no GP do Japão de 1989 poderá acontecer a qualquer momento. Pensar que numa competição elétrica como esta, que ainda tem alguns dos pilotos de primeira geração ainda a correr - Felix da Costa é um deles - pensar que isto poderá consequências no futuro é uma hipótese a considerar.
E nisto, não estou sozinho.
































