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domingo, 11 de janeiro de 2026

Youtube Automotive Video: Melkus, o superdesportivo... da RDA

Sabia desde há algum tempo da história que falarei a seguir.

O Melkus foi uma marca de "superdesportivos" que foi construído na Alemanha do Leste entre 1969 e 1980, com um chassis de fibra de vidro e um motor de 1000 cc, cuja potência era baixa - cerca de 80 cavalos - mas o baixo peso fazia com que tivesse uma velocidade máxima de 175 km/hora. 

A história da Melkus e do seu carro - foram feitos 101 unidades - é o mais recente video do canal do Youtube "The Transport Chronicles".  

segunda-feira, 4 de março de 2024

Youtube Automotive Vídeo: A limousine de Erich Hoenecker (e mais)

A RDA acabou há 35 anos, com a queda do Muro de Berlim e a demissão de Erich Hoenecker, o seu líder, que tentou evitar a "perestroika" até ao limite, mesmo quando centenas de milhares de alemães fugiam pelo buraco que os húngaros e os checos abriram na Cortina de Ferro, no verão de 1989. 

Mas se achavam que os líderes andavam em carros russos... treta. Eles andavam em carros ocidentais, nomeadamente, um Citroen CX. E antes disso, iam em Volvos suecos. E alguns deles foram preservados, mesmo depois da unificação, em 1990. 

E claro, como já falei aqui no passado, todos os líderes do Leste gostavam de viver com todos os luxos, e isso inclui o Dacia 2000 (um Renault 20) de Nicolae Ceausescu, o ditador da Roménia. 

Para além disso, mostra-se um Volvo 760 GLE, que foi usado pelos membros do Volkskammer der DDR, ou seja a Assembleia do Povo da RDA.

Mas agora, mostro aqui o vídeo do carro de uma elite comunista... que gostava de coisas ocidentais.   

sábado, 11 de abril de 2020

Youtube Motorsport Video: 1989 Schleizer Dreieck


No penúltimo ano da existência da RDA, houve corridas no Schleizer Dreieck, uma pista que muitos consideravam como a Nurburgring do Leste. Com 6,2 quilómetros de extensão, há corridas desde 1923, ou seja há quase um século. Hoje em dia, ainda recebe corridas clássicas e modernas, mas a pista está reduzida a cerca de 400 metros.

Nesse ano de 1989, havia as provas da Formula Easter, mas também uma prova de turismos na memsa categoria. Na grande maioria, os carros apresentados são Ladas, contra dois Skodas checos. O video vale a pena ver, apesar os comentários serem em alemão.

domingo, 5 de abril de 2020

Youtube Motorsport Video: 1986 Schleizer Dreieck

Num dos meus grupos de automobilismo que sigo na rede social Facebook, andamos num jogo para puxar pelos nossos conhecimentos, ou pesquisar e descobrir coisas novas neste tempo de pandemia. E há uns dias, alguém colocou uma foto para tentar descobrir que proa se tratava. Reconheci alguns chassis e logo, logo, descobri o geral, mas não o particular. E com isso, voltou-se aos tempos em que a Europa estava dividida por uma Cortina de Ferro, e havia duas Alemanhas. Uma Ocidental, com BMW, Mercedes e Audi, e outra "Democrática", com Trabants e Wartburgs.

E nisto tudo, descobri uma competição que era o equivalente à Formula 3: o Formula Easter, e uma competição em particular, o "For Peace and Friendship Cup Series", que juntava pilotos de todos os países do Leste Europeu, como a RDA, Polónia, Hungria, Roménia, Bulgária, Checoslováquia, e União Soviética. E os chassis eram feitos ou na RDA ou na URSS, especialmente o Estonia, e que boa parte dos pilotos o usavam.

E as pistas eram muitas, algumas delas construídas para receber as competições ocidentais, como Brno e Hungaroring, porque essa gente tinha o dinheiro "forte" (marcos alemães ocidentais, francos franceses, florins holandeses, libras britânicas...) e outras menos conhecidas, como Schleitz, na então RDA, que com cerca de oito quilómetros, fazia lembrar o antigo Spa-Francochamps.

Assim sendo, coloco aqui a corrida de 1986 da "For Peace and Friendship Cup Series", onde na categoria de monolugares estão alguns dos pilotos mais conhecidos do outro lado da Cortina de Ferro. Para verem como eram as coisas no outro lado, não há muito tempo.

sábado, 11 de julho de 2015

Quando o motociclismo ia além da Cortina de Ferro (Parte 1)

Normalmente não falo sobre motociclismo por aqui - aliás, ele é sempre um assunto menor neste blog - mas há ocasiões onde a coisa é demasiado boa para deixar escapar. No fim de semana do GP da Alemanha de motociclismo, não quero deixar de falar de uma das suas catedrais, o circuito de Sachsenring, e um evento que faz hoje 44 anos que foi marcante, num tempo em que a Guerra Fria estava quente, e onde a Alemanha estava fragmentada e a reunificação era um sonho que passava no subconsciente das pessoas.

Ao contrário da Formula 1, cuja visita ao outro lado da Cortina de Ferro aconteceu apenas em 1986, numa Hungria que já abraçava um "socialismo à húngara", com alguma propriedade privada, no motociclismo, as visitas ao outro lado aconteciam bem antes. Em 1961, o campeonato do mundo visitava pela primeira vez a Alemanha do Leste, exatamente o mesmo ano em que se levantava... o Muro de Berlim. Quatro anos mais tarde, em 1965, o calendário iria acolher o Grande Prémio da Checolsováquia, numa versão do Masaryk Circuit, em Brno. Mais quatro anos se passariam até que a caravana da MotoGP fosse à Jugoslávia.

Contudo, já havia corridas bem antes: Sachenring existia desde 1927, primeiro como um circuito de rua, e depois como circuito permanente. Era ali que acontecia o GP da Alemanha, bem antes da II Guerra Mundial. Com o final do conflito, a zona caiu na área soviética, e dezanove anos depois, e já com a fundação da República Democrática da Alemanha, começaram a haver corridas no circuito. O primeiro grande vencedor foi Ernst Degner.

PARTE 1 - O PILOTO DO OUTRO LADO DO MURO

Degner, nascido em 1931 na atual Gliwicie, na Polónia, e orfão aos 15 anos - seu pai morreu antes da guerra e a sua mãe pouco depois do final do conflito - licenciou-se em engenharia no Instituto de Tecnologia de Postsdam em 1950, tendo pouco tempo depois começado a guiar em motos,  feitos por um amigo seu, Daniel Zimmerman. Essas motos de 125 cc começaram a bater as máquinas do estado, as MZ (Motorradwerk Zschopau, ou fábrica de motos de Zschopau, em português) que eram fabricadas na antiga fábrica da DKW, em Zwickau. Com o tempo, a marca notou as qualidades de Degner e o contratou.

Em 1956, Degner era piloto da fábrica, mas esse contrato só aconteceu depois de ter exigido que a sua namorada, Gerda Bastian, fosse empregada. Walter Kaaden, o o seu diretor desportivo, tinha conseguido encontrar uma técnica que permitia expandir as câmaras de combustão, permitindo colocar mais gasolina nos motores de dois tempos e ser mais eficaz. Depois de vitórias no campeonato alemão de 125cc, a MZ entrava no Mundial de motociclismo, na mesma categoria, começavam a surgir as primeiras vitórias. Em 1961, Degner era vice-campeão na categoria de 125cc, com vitórias em casa... e na Alemanha Ocidental, bem como no Troféu das Nações, em Monza.

Contudo, por esta altura, o Muro de Berlim já tinha sido erguido, e viajar para os países ocidentais era uma tarefa bastante dura. E quer ele, quer a sua familia - tinha-se casado com Bastian e já tinha tido um filho - estavam com vontade de fugir para o Ocidente. E assim elaborou-se um plano de fuga, bastante arriscado nesses dias. O plano era simples: a família iria com ele para assistir ao GP da Suécia, em Kristiansand, e no regresso iriam separados para a fronteira alemã ocidental. E Degner tinha outro motivo para irem separadamente: ele era mais uma vez candidato ao título, na classe 125cc.

Para isso, precisava de ficar na frente do seu rival, o Honda do britânico Tom Phillis. Tudo parecia indicar que isso iria acontecer, mas o seu motor falhou nas primeiras voltas e viu o seu rival ser sexto, mas não o suficiente para alcançar o título. Depois da corrida, pegou no seu Wartburg e fez uma viagem que só parou na fronteira franco-alemã, onde ele se reuniu com a sua família, sã e salva.

A deserção de Degner causou um fernesim na MZ, que acusou-o de ter sabotado o seu motor, e tentou impedi-lo de competir na corrida final, na Argentina, onde já tinha arranjado moto e uma licença da Alemanha Ocidental. As autoridades apresentaram uma queixa à FIM (Federation Internationale du Motociclisme) e este conseguiu impedir Degner de alinhar em Buenos Aires. Assim, Phillis alcançou o título, mas no final de 1961, a FIM, depois de ver o motor do seu MZ, chegou à conclusão de que a quebra do motor tinha sido acidental.

Imediatamente, Degner foi contratado pela japonesa Suzuki e foi morar para o país do Sol Nascente, onde no ano seguinte, conseguiu ser campeão na classe de 50cc, graças aos seus conhecimentos de mecânica, que ajudaram melhorar os motores nipónicos ao ponto de lhes dar o seu primeiro título. Contudo, no final de 1963, Degner sofreu um grave acidente durante o GP do Japão, quando guiava a moto de 250cc. No impacto, o tanque de combustivel abriu-se e explodiu, causando-lhe graves queimaduras no seu corpo. Levou mais de 50 enxertos na pele, mas recuperou para correr até 1966, vencendo em mais quatro corridas, incluindo em Dunrod, em 1965, na classe de 125cc. 

PARTE 2 - UM ALEMÃO INCONVENIENTE

Quem olhasse para o calendário motociclistico de 1970, este mostrava que das doze provas existentes, três aconteceriam do outro lado da Cortina de Ferro. A viagem começava a 24 de maio, quando iam a Opatija para correrem no GP da Jugoslávia. Depois, a 11 de julho, rumavam para Sachenring, para correrem o Grande Prémio da Alemanha do Leste, e na semana a seguir estavam em Brno para a corrida checa. Interessantemente, a corrida inaugural dessa temporada acontecia no lado ocidental da Alemanha, mais concretamente no Nordschleife.

Eram seis as classes que estavam presentes: 50cc, 125cc, 250cc, 350cc, 500cc e 500cc em sidecar. E nessa altura, já dominavam as lendas do motociclismo, como Giacomo Agostini, nos 500, e o espanhol Angel Nieto, nos 50 e 125cc.

Na classe 250cc dominava um alemão, Dieter Braun. Então com 27 anos de idade (nascera a 2 de fevereiro de 1943), tinha começado a correr em 1968 com... MZ, motos vindas do outro lado do muro. Tinha começado na classe 125cc, mas saltava para as 250, também conseguindo bons resultados. Em 1970 fez isso com uma Suzuki e ganhou as quatro primeiras corridas dessa temporada, acabando como campeão do mundo de 125cc, ao mesmo tempo que corria também com motos de 250 e 350cc.

Em 1971, Braun corria em três classes: 125cc com a Maico, uma fabricante alemã, e com a Yamaha nas 250 e 350cc. Nas 250cc, a sua temporada estava bastante melhor, com várias subidas ao pódio, mas faltava a vitória. E em Sachenring, a 11 de julho, essa vitória surgiu.

Por essa altura, as autoridades alemãs orientais usavam as corridas motociclisticas como um espelho do seu país perante o mundo, um dos poucos que este tinha. Era das poucas coisas desportivas do qual o Ocidente poderia vir e competir de igual para igual com os pilotos do Leste europeu, e a politica, como seria óbvio, não fazia parte. Mas naquele dia, as coisas ficaram fora de mão: é que até então, nenhum alemão ocidental tinha vencido por ali. Aliás, era normal os alemães ocidentais evitarem ir ao lado oriental, para evitar embaraços.

Mas naquele dia, não havia como evitar. Quando tocou o hino alemão, o público levantou-se e cantou-o em unissono, quase como que uma manifestação de rebeldia contra as autoridades vigentes, e de uma certa forma, um desejo de uma futura reunificação. Estes ficaram envergonhados e decidiram, que a partir dali, só poderiam aceder por convite. Em 1973, a FIM retirou a corrida alemã oriental do calendário e as motos só voltariam ao Sachenring em 1998, após a reunificação.

Quanto a Braun, ele ainda viria a vencer mais um título, em 1973, de 250cc, pela Yamaha, e correria até 1977, quando sofreu um grave acidente durante o GP da Austria, no Salzburgring.

(continua amanhã)  

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Extra-Campeonato: o Elvis Vermelho

No dia em que se fazem 30 anos sobre a morte de Elvis Presley, o "rei do Rock and Roll", descobri um artigo do "Diário de Noticias" que fala sobre Dan Reed, um anónimo cantor na América que se tornou num ídolo de milhões no Outro Lado da Cortina de Ferro, e que foi viver na Alemanha do Leste, morrendo em circunstâncias misteriosas em 1986. A razão do rescuscitar deste nome obscuro? Um documentário alemão que retrata a vida do "Elvis Vermelho".

"Chamava-se Dean Reed, nasceu nos EUA, era cantor de pouco sucesso no seu país e foi viver para a América do Sul , onde ganhou popularidade, era conhecido por "Mr. Simpatia" e se converteu ao marxismo. Em 1973, depois de ter entrado em anúncios e westerns spagheti em Itália, instalou-se na ex-RDA, transformando-se no "Elvis Vermelho" - a resposta do Bloco de Leste a Elvis Presley.


A incrível história deste baladeiro folk/country americano que se transformou num instrumento de propaganda comunista e anti-EUA, que defendeu a construção do Muro de Berlim e a invasão soviética do Afeganistão e participou na campanha eleitoral de Salvador Allende, mas nunca renunciou à cidadania americana e todos os anos entregava a declaração de impostos no país natal, é contada no documentário "Der Rote Elvis" (O Elvis Vermelho), de Leopold Grün, estreado na Alemanha.


Natural do Colorado, o all-american Reed, de cabeleira loura e sorriso de anúncio a pasta dentífrica, é, segundo Grün,"uma personagem ambivalente. Foi aclamado em toda a órbita comunista, porque era o americano que queimava bandeiras dos EUA, e era um perfeito desconhecido no país de onde procedia".


O filme conta com testemunhos de personalidades que conheceram Dean Reed, caso do actor Armin Müller-Stahl e da escritora Isabel Allende (que teve um fraquinho por ele) e mostra o criador de canções como "I Kissed a Queen", "Our Summer Romance" e "Whirly Twirly" a beijar Yasser Arafat, a erguer uma arma e uma guitarra no Líbano e a filmar na Praça Vermelha de Moscovo, juntamente com imagens dos piores filmes de propaganda em que participou na ex-RDA. São também lembradas as suas mulheres e amantes.


O ocaso da ideologia comunista coincidiu com a perda de popularidade de Dean Reed no Leste, e em 1986, o cantor militante foi encontrado morto num lago perto de sua casa, em Berlim Leste. A última mulher, Renate, disse que ele tinha saudades de casa, dos EUA. A versão oficial foi de que Reed se tinha afogado acidentalmente, enquanto os amigos falavam em suicídio e a família, nos EUA, dizia que ele tinha sido assassinado.


Chuck Laszewiki, biógrafo do cantor (Rock'n'Roll Radical: The Life and Mysterious Death of Dean Reed), teve acesso à sua ficha da Stasi e revelou no citado livro que Reed se suicidou. Mas as autoridades comunistas ocultaram o facto, com medo que "lançasse o desânimo" nos cidadãos da ex-RDA.