terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Os elefantes brancos do automobilismo ecclestoniano

Hoje apareceu na Autosport portuguesa um artigo interessante sobre os circuitos que foram usados para a Formula 1 e que foram deixados ao abandono. E o mais interessante e que isso não é novidade, já têm mais de vinte anos. Istambul, Buddh, Yeongam e Ti-Aida são alguns dos exemplos de pistas onde depois da Formula 1, só ficou o deserto. E o melhor exemplo da megalomania "ecclestoniana", dos vicios dos novos-ricos e das centenas de milhões de dólares que foram deitados fora, semelhante a querer construir a casa pelo telhado...

Lembro-me sempre da história de Yeongam, uma pista no meio de nenhures na Coreia do Sul, e o facto de os espectadores terem muito pouca capacidade hoteleira e que por vezes, os jornalistas acabavam por ficar em motéis pouco recomendáveis, de camas redondas. A saga durou quatro temporadas, até que saiu do calendário, porque as coisas se tornaram num pesadelo para os organizadores e claro, para os governos locais. Mas por exemplo, em 2011, os membros das equipas chegaram ao local e tinham visto que tudo estava tal qual como deixaram no ano anterior... incluindo a comida nos frigoríficos e as embalagens nos caixotes do lixo. Tudo por causa de uma providência cautelar contra a organização, e que impediu de mexer nas coisas de forma preventiva.

Mas o artigo de Luis Vasconcelos lembra de Buddh, na India, que acabou por não vingar por causa da enorme e inepta burocracia indiana que queria cobrar o Grande Prémio como... entretenimento e não como uma manifestação desportiva (de uma certa maneira, quem teve a ideia não deixa de ter razão), e de Istambul, que andou no calendário entre 2005 e 2011, e que o governo local se livrou dele depois de um certo dia, ter sido multada por ter colocado o presidente de uma entidade reconhecida por... ninguém, a não ser os próprios turcos, a entregar a taça ao vencedor da corrida. O incidente aconteceu em 2006, e o senhor em questão era o presidente da "República do Chipre do Norte", a entidade turca que ocupou o norte do Chipre, em 1974, numa invasão do exercito turco para impedir que o país se unisse aos gregos numa "Enosis", apos uma tentativa de golpe de estado por parte da extrema-direita grega.

Como a organização era sustentada pelo governo turco, e depois da multa (avaliada em 8,5 milhões de euros), o governo desinteressou-se de injetar dinheiro para ficar com a pista no calendário. E se de Yeongam e Buddh não lamentamos os tilkódromos, neste caso, sentimos a falta da Curva 8, pois por acaso, este até foi um circuito feliz, bem desenhado, ao nível dos melhores. Só que depois da formula 1, não houve nada de relevante a cair por lá - nem Endurance, nem WTCC, nem o que quer que seja - e o abandono por lá começa a ser evidente.

O caso de Ti-Aida é mais idoso, pois falamos de meados dos anos 90. Duas edições, em 1994 e 1995, de um circuito muito lento e sinuoso, aborrecido e isolado do resto do Japão - lembro que a edição de 1995 foi adiada devido a estragos nas estradas de acesso devido ao terramoto de Kobe - depois disso não trouxe muito mais do que o WTCC, no inicio desta década. Nem sei se as provas locais, como a SuperFormula, visitam aquele local... mas quero acreditar que sim.

Em suma, o legado da Formula 1 nos últimos 15 anos quase faz lembrar os estados falidos e que ergueram obras megalomanas nos tempos das vacas gordas. Mas nada disso impede que o anão negoceie novos circuitos a valores cada vez mais exorbitantes - os alegados 72 milhões de euros por ano que o Qatar poderá dar podem ser um exemplo disso - e esse dinheiro irá para todos... menos os mais necessitados.

2 comentários:

Por Dentro dos Boxes disse...

Infelizmente esse é o jeito ecclestoniano de ser...

e alguns desses circuitos são belos mas estão no ostracismo...

uma pena...

Ricardo Kakazu disse...

O Circuito de TI Aida hj é conhecido como Okayama International Circuit, vai ser a etapa de abertura da Super GT e a segunda etapa da Super Formula.