quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Giallo in Testa Rossa"

No final de 1999, a Stewart estava nas bocas do mundo. A equipa de Jackie e Paul Stewart tinha conseguido o quarto lugar no mundial de Construtores, com 36 pontos e uma vitória no GP da Europa, no Nurbrurgring, através de Johnny Herbert. Nessa altura a Ford decidiu comprar as operações à familia por 80 milhões de dólares, fazendo-o (ainda) mais rico e decidiu rebatizá-lo de Jaguar. Quatro anos mais tarde, ela foi vendida à Red Bull, e a marca da oval saiu dali com o rabo entre as pernas, sem ter vencido qualquer corrida e passando à história como um dos melhores exemplos de como a cultura corporativista destruiu uma equipa de Formula 1.

Houve outros ao longo da década passada - Honda, Toyota - onde se derreteram centenas de milhões de euros para não ganharem nada, e quando os resultados contabilisticos mostraram que tiveram um enorme prejuízo, a primeira coisa que fizeram foi fugir com o rabo entre as pernas e a primeira coisa que fizeram foi desligar-se do automobilismo, nomeadamente da Formula 1. Mas não foi só daí, pois a Peugeot (Grupo PSA) fez a mesma coisa em 2012, quando decidiu afastar-se da Endurance, quando viram que tinham um enorme buraco nas suas finanças.

Falo disto tudo por causa da Ferrari. A Scuderia é a equipa com maior tradição na Formula 1, e recebe rios de dinheiro da FIA, mas desde que Sergio Marchione tomou conta da equipa, parece que as coisas "andam de cavalo para burro". Pelo menos, este ano, como é sabido, a Ferrari era candidata a ser rival da Mercedes na luta pelo título e arrisca o ano a acabar sem vencer corridas, e superada pela Red Bull. E para piorar as coisas, a saída de James Allison da equipa parece ter piorado as performances na Scuderia.    

Agora, esta quarta-feira, Luca Baldissieri, antigo chefe dos engenheiros, detonou a equipa numa entrevista ao Corriere dello Sport, dizendo que a equipa não passa de "um grupo de pessoas assustadas". “Nem o Sergio Marchionne (presidente) nem o Maurizio Arrivabene (diretor da equipa) têm experiência nas corridas, e por isso a cultura da equipa perdeu-se. Já não são uma equipa, mas um grupo de pessoas assustadas. Há um clima de medo, ninguém corre riscos por medo de falhar e cair em desgraça”, começou por dizer.

Baldissieri é critico da liderança horizontal que a Scuderia adotou nos últimos anos, afirmando que uma liderança hierárquica seria o mais ideal para a marca:

A cadeia de comando na Fórmula 1 tem que ser mais do que vertical, tem que ser ‘militar’. Os número um estão lá para mostrar o caminho, motivar as pessoas, decidir, e se alguém comete um erro, não deve ser despedido e isso aconteceu a James Allison, que é uma grande perda na equipa”, continuou.

O Mattia [Binotto, que substituiu James Allison] sabe como motivar as pessoas, tem grande experiência mas não é um diretor técnico. Ele sabe que não pode desenhar um carro e não tem os conhecimentos dos chassis, aerodinâmica e mecânica. Mas seria um bom chefe de equipa”, concluiu.

A Autosport portuguesa escreveu um artigo sobre aquilo que se tornou a Ferrari no último ano e meio. Aparentemente, Sergio Marchionne julgou que governar a Ferrari seria o equivalente a mandar no grupo Fiat ou numa corporação qualquer, e esse foi grande erro. O Joe Saward escreveu sobre isso por estes dias e afirmou que é altamente provável que irá haver novas modificações na equipa nos próximos tempos, e até os próprios pilotos estão em risco, pois Marchionne já avisou Sebastian Vettel que a sua presença em 2018 está em dúvida.

Contudo, outra coisa também se pode ler no que se passa na Ferrari. O conservadorismo dos técnicos, e dos engenheiros também ajuda a que os carros não sejam os melhores, ou não sejam tão arrojados como seriam os Mercedes ou os Red Bull, que se esforçam em apanhar os Flechas de Prata. E mais interessante ainda, os carros vermelhos tem mais dificuldades em trabalhar com os Pirelli do que a concorrência mais próxima.

E claro, os pilotos têm dúvidas. Vettel provavelmente começa a pensar que se arrependeu em ter ido para lá, e anda um pouco motivado, já pensando que o carro de 2017, agora com os novos regulamentos, seja mais veloz do que a concorrência. Mas sem Allison, que estava a desenhar o carro do ano que vêm, é provável que ele seja um "coito interrompido", e que Mercedes, Red Bull ou outra equipa qualquer faça um chassis mais capaz do que eles, e se isso acontecer, eles ficariam mais atrasados. Até que ponto? Só espero que não seja o desastre de 1992...

Claro, para Maurizio Arrivabene, tudo se resume à... falta de sorte. Mas a imprensa local não cai nessa, e diz que dispensar alguns dos grandes experts foi uma má decisão. Nicolas Tombazis, por exemplo - agora a trabalhar na Manor - e os próprios Baldissieri e Allison, eram excelentes profissionais e agora, a Ferrari poderá estar a sofrer com isso. E a pressão para que façam algo antes que seja tarde para salvar as cabeças de Arrivabene ou Marchione, começa a aparecer, e é bem forte.

Uma coisa é certa: por estes dias, trabalhar na Scuderia não é fácil, e o futuro não se avizinha muito bom. Veremos o que o chassis de 2017 nos mostrará.

Para quem está intrigado com o título, o "Giallo" é italiano para amarelo, mas também é um género de terror inventado por eles nos anos 70 do século passado que misturava elementos de horror com algum erotismo, e o cenário era geralmente amarelo, devido ao filtro amarelo que metiam nas lentes da câmara. O grande realizador desse género foi (e ainda é) Dario Argento.

1 comentário:

Jose Barbosa disse...

A Ferrari tem aquilo que merece e que procurou. A saída de cena de Montzemo e a entrada do Marchioni e do Arrivamal não podia descambar noutra coisa. Neste momento tem de começar tudo de novo d destruir o topo da pirâmide, não Meyer os pilotos e técnicos ao estalo