quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Gerard Ducarouge, visto por Maurice Hamilton

Não tem faltado por aí tributos escritos a Gerard Ducarouge, falecido esta terça-feira aos 73 anos. Um dos que mais gosto de ler é o jornalista britânico Maurice Hamilton, que tendo escrito para vários sítios como o Autosport ou o Grand Prix, e agora na ESPN americana. Hamilton mantêm um blog por lá e foi aí que escreveu o seu tributo a Ducarouge, lembrando da sua passagem pela Ligier, e 1979 e 1980, onde tinha um carro para lutar pelo título mundial, mas por algumas razões, que poderão ir desde o azar até à falta de profissionalismo, impediram que Jacques Lafitte tentasse uma verdadeira candidatura ao título mundial.

(...) Ducarouge será mais lembrado pelas ocasionais, mas gloriosas, inconsistências do seu trabalho. Em 1979, as equipes de Formula 1 terminou as duas primeiras corridas do ano totalmente convencidas de que os Ligier estavam num campeonato a parte após Jacques Laffite e Patrick Depailler terem completamente dominado na Argentina e no Brasil.

O impressionante chassis JS11 azul pálido era imensamente forte, Ducarouge ttinha descoberto a importância de seu carro ser capaz de sustentar as cargas criadas pela nova era efeito-solo. Então, lenta mas seguramente, a equipa totalmente francesa (exceto para o Cosworth V8) começou a perder o seu caminho. E o ponto era que Ducarouge não estava inteiramente certo por que isso estava acontecendo.

Rumores diziam que ele havia apontado todos os "setups" usados na América do Sul na parte de trás de um pacote de Gitanes - e que tinha perdido o pacote. O mais provável teve a ver com a decisão de mudar túneis de vento (por razões políticas) a meio da temporada e deficiências básicas, tais como a incapacidade para reconstruir o carro de Depailler - que se tinha despistado quando liderava na Bélgica - exatamente como estava antes.

Seja qual for a razão, a Ligier só levaria mais uma vitória nessa temporada, quando, por direito, eles devem ter ganho o campeonato. Uma nova versão, o JS15, tinha o mesmo potencial em 1980, com Didier Pironi (que havia substituído Depailler) a ganhar na Bélgica e ter feito a pole no Mônaco até o carro pulou da engrenagem e bateu na barreira. Pironi estava a liderar novamente na Espanha, só para ver uma roda dianteira a sair sem aviso prévio. Aflição óbvia de Ducarouge não foi ajudado por saber a próxima corrida seria... em casa da Ligier.

As cenas nas boxes em Paul Ricard naquele fim de semana eram algo para ser visto. Como se Ligier não tivesse pressão suficiente, alguma mente brilhante tinha decidido permitir que a Gitanes filmasse um anúncio com atores, luzes, câmeras e todos os apetrechos. Nos boxes. E no dia da corrida.

Ducarouge já estava num estado problemático. Com Laffite na pole-position, tinha acontecido um vazamento irreparável no depósito de combustível na noite anterior, forçando os mecânicos a trabalhar a maior parte da noite, mudando tudo para o carro reserva - que Jacques descobriu que era quase inguiável durante o 'warm-up', na manhã de corrida.

Em seguida, a equipa de filmagem mudou-se para as boxes e, para agravar a agitação de Ducarouge, um suporte de metal caiu sobre sua cabeça ordenadamente penteada. O cabelo que ainda tnha sobrado esteve perto de ser arrancado quando não só Ligier perdeu a liderança logo após o meio da corrida, mas também eles seriam batidos pelos britânicos, na forma da Williams Grand Prix Engineering.

A Williams piorou a situação dos carros azuis duas semanas depois em Brands Hatch. Pironi e Laffite iniciaram a corrida na linha da frente, distanciaram-se, só para ser problemas pelos seus novos, mas maiores rodas dianteiras, que tiveram rachaduras e que levam a furos catastróficos. E foi assim que a Ligier, em aparentemente no modo de auto-destruição, desperdiçava o seu potencial com falhas mecânicas ou brigas entre os seus pilotos. (...)

Com sabem, Ducarouge foi despedido a meio da temporada de 1981, depois de um inicio de temporada desastroso - tinham voltado aos Matra V12 - apesar de Jacques Lafitte ter lutado pelo título mundial contra Alain Prost, Carlos Reutemann e Nelson Piquet. Da maneira como as coisas aconteceram, não se ficarai admirado que ele tenha sido uma espécie de bode expiatório.

Como se sabe, ele não ficou muito tempo desempregado, já que a Alfa Romeo adquiriu os seus serviços. Os carros de 1982 e 1983, especialmente o 183T, eram bons desenhos... quando o motor colaborava, pois este era bem glutão. Contudo, uma polémica desclassificação de Andrea de Cesaris nos treinos do GP do Brasil levou ao despedimento de Ducarouge - mais uma vez, um bode expiatório conveniente - e a Lotus foi buscá-lo quase de imediato, eles que viviam uma crise grave após o subito desaparecimento de Colin Chapman

Para terem uma ideia, até ao GP da Grã-Bretanha, a Lotus tinha marcado... um ponto. E foi com o modelo 92 aspirado, guiado por Nigel Mansell.

"A marca do talento de Ducarouge tinha sido um aceno de aprovação de nada mais, nada menos do que Colin Chapman, o gênio por trás da Lotus. Ele tinha ficado impressionado com o seu trabalho com a equipa Matra-Simca no início de 1970. Ducarouge, acabado de completar a sua passagem pela Alfa Romeo  - onde era conhecido como 'Ducarosso' - foi escolhido por Peter Warr para se juntar à Lotus seis meses após a morte de Chapman em 1982. 

Sua primeira de muitas peças memoráveis de trabalho foi descartar o pesado Lotus 93T e, num tempo recorde de cinco semanas em Junho/Julho de 1983, a produzir o 94T, um carro elegante que Nigel Mansell levou, mais ou menos em linha reta para a uma empolgante quarta posição em Silverstone. Esse carro, na sua impressionante mistura de cores preta e dourada da JPS, viria a se tornar um modelo para o icónico 97T com o qual Ayrton Senna ganhou seu primeiro grande prémio, em Portugal, em 1985.

Ducarouge descreveu a si mesmo como "um homem com pressa, não acostumado a trabalhar em projetos de longo prazo", uma auto-avaliação que, na realidade, disfarçava uma abordagem metódica." (...)

Quaisquer que sejam os tributos que estejam a ser escritos para honrar Gerard Ducarouge, o mais interessante é saber a história de uma pessoa que foi ao mesmo tempo fascinante e marcante. Pelos carros que desenhou, pelo impacto que causou em toda uma geração de pilotos e engenheiros. E a sensação - que sempre tive, confesso - de que foi um engenheiro genial, embora algo subestimado perante outros génios seus contemporâneos como Gordon Murray ou John Barnard.

1 comentário:

Hecto Silva disse...

Ducarouge foi um grande projetista e ganhou um título o de 1969 com as Matra de Stewart. O grande erro de Ducarouge é que nunca pegou uma equipe rica. As Matra, Alfa, Ligier e Larrouse faltava estrutura e dinheiro, a Lotus era mais ou menos em estrutura, mas estava muito endividada depois da morte de Colim Chapman. Senna convidou Ducarouge para ir com ele mais Boutsen para a Ferrari, mas Ducarouge conseguiu convencer Senna de ficar mais um ano na Lotus com motor Honda, só que o Honda que a Lotus pegou era inferior ao Honda da Williams em uma especificação. Em 1988 Senna foi para a Mclaren e mais uma vez convidou Ducarouge a ir com ele para a McLaren. Esta estória foi confirmada pelo Ron Dennis. Com a morte de Senna em 1994, Ducarouge abandonou a F1. Que pena que ele não foi reconhecido...