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quinta-feira, 30 de abril de 2026

As imagens do dia






Depois de um mês de ausência, o Mundial de Ralis de 1986 iria correr-se na ilha da Córsega, no sul de França. Entre os dias 1 e 3 de maio, os carros iriam enfrentar 30 especiais de classificação, todos em asfalto, perante estradas à beira do precipício. Um pouco como Monte Carlo, mas ali não neva e já estamos na primavera, naquilo que os locais chamam de "ilha da Beleza".

O Tour de Corse existia desde 1956 e se disputava em novembro. O seu prestigio, como "Rali das Dez Mil Curvas" cresceu ao longo dos anos seguintes, especialmente quando Sandro Munari ganhou em 1967, a bordo de um Lancia Fulvia Coupé. A prova já fazia parte do europeu de ralis e em 1973, foi um dos originais que entrou no primeiro campeonato do mundo, ao lado de Monte Carlo, os Mil Lagos, na Finlândia, o rali de Portugal e o Rali Safari, no Quénia.

O rali foi essencialmente um reduto francês, com as excepções de 1976, quando Sandro Munari ganhou, com o seu Lancia Stratos, e em 1983 e 84, quando foi a vez de Markku Alen ganhar, dessas duas vezes num Lancia 037 Rally. Nessa altura, o rali já acontecia em maio, e partia de Ajaccio, a capital da ilha.

Para a edição de 1986, que novamente partia de Ajaccio, os Lancia participavam com três carros, três Delta S4 para Markku Alen e o seu navegador, Ilia Kimivaki, o italiano Massimo Biason e o seu navegador, Tiziano Siviero, e outro finlandês, Henri Toivonen e o seu navegador, o italo-americano Sergio Cresto. Os seus maiores rivais nesse rali, sem os Audi, eram os Peugeot, que tinham inscrito três carros, um para o finlandês Timo Salonen, navegado por Seppo Harjane, e os outros dois para os franceses Bruno Saby (e o seu navegador, Jean-Francois Fauchille) e Michele Mouton, que alinhava ao lado da sua navegadora, a italiana Fabrizia Pons.

Outras marcas lá estavam, como a MG, que tinha inscrito dois oficiais para Tony Pond (navegado por Rob Arthur) e Malcom Wilson, que tinha Nigel Harris a seu lado. O terceiro carro era para um local, Didier Auriol, Para além disso, também estava presente o vencedor do rali em 1985, o veterano francês Jean Ragnotti, alinhava com um Renault 11 Turbo de Grupo A, ao lado de Pierre Thimonnier.

Para a Lancia, era um regresso emotivo. Um ano antes, a 2 de maio, durante o primeiro dia do Tour de Corse, um dos seus carros, um 037, guiado pelo italiano Attilio Bettega, despistou-se na quarta especial, perto de Zerubia, e o seu piloto teve morte imediata, atravessado pelo ramo de uma árvore que entrou dentro do seu carro. O seu navegador, Maurizio Perissinot, tinha escapado ileso.

Contudo, se mostravam emoções, eram aqueles de euforia por competirem. Quanto a organização deu os números a Markku Alen, calhou-lhe o numero 1, a Salonen o 2, a Pond o 3 e a Toivonen calhou-lhe o número quatro. O mesmo que Bettega usava no seu rali fatal, um ano antes. Mas se ele alguma vez reparou nessa coincidência, tinha outras preocupações: estava doente e também sabia que precisava de um bom resultado, se queria ter chances no campeonato. 

Pela frente, 30 especiais de classificação, sempre rápidas e emocionantes. No primeiro dia, 1 de maio, máquinas e pilotos saíam de Ajaccio, rumo a Bastia, passando por Sartène, Quenza, Migliacciaro e Ponte-Leccia, em onze especiais de classificação.   

domingo, 18 de dezembro de 2022

Youtube Motorsport Docimentary: Michele Mouton, a Rainha da Velocidade

É domingo, dia de final de Campeonato do Mundo de futebol, mas há espaço para o automobilismo. E descobri isto no Youtube - corram, antes que tirem do ar! - um documentário sobre Michele Mouton, provavelmente a melhor mulher-piloto da história do automobilismo. Vencedora de quatro provas do Mundial de ralis, há 40 anos, ela foi vice-campeã do mundo, depois de ter ganho em Portugal, Acrópole e Brasil, três dos ralis mais duros do mundo na altura, e lutou pelo campeonato até ao fim com Walter Rohrl

É um documentário com cerca de hora e meia, e soube há uns dias que ganhou um Emmy pelo melhor documentário. Se alcançou um prémio prestigiado como este, então é sinal de que é mesmo bom. Logo, eis um programa para o último domingo antes do Natal. Que tal?

 

terça-feira, 8 de março de 2022

A imagem do dia


Hoje é o Dia Internacional da Mulher, e como este lugar é para falar de carros, este ano calha perfeitamente bem, pois assim falo de algo que aconteceu, fez ontem 40 anos: a única vitória de uma mulher no Rali de Portugal. Mas a vitória de Michele Mouton - a segunda da sua carreira - ao volante do seu Audi Quattro numa prova que na altura tinha 40 (!) especiais de classificação, que dava uma volta ao pais, é digna de registo.

Os Grupo B estavam prestes a aparecer - aliás, fala-se que o Quatro foi o primeiro desses carros - mas em 1982, ainda tinha modelos como o Opel Manta 400, o Talbot Sunbeam Lotus, o Ford Escort 1800, entre alguns outros, todos com duas rodas motrizes. O Quattro era revolucionário - e curiosamente, estreou-se como carro zero num Rali do Algarve, em 1980...

Mas a maior revolução aconteceu quando eles contrataram Mouton, em 1981. Tinha mostrado todo o seu talento em carros como na Alpine e na Fiat, mas aquilo era a sua primeira experiência como piloto de fábrica. Assistida pela italiana Fabrizia Pons, aproveitou bem, primeiro ao triunfar em Sanremo, em outubro do ano anterior, surpreendendo muita gente, apesar de saberem que o Quattro era um excelente carro, mas em 1982, não tinha começado bem a temporada, pois batera em Monte Carlo. Um quinto lugar na Suécia compensou um pouco, mas não muito. 

Chegados a Portugal, a Audi alinhava com Mouton, o finlandês Hannu Mikkola e o austríaco Franz Wittmann. E antes da partida, avisava: “Quando corro é mesmo para ganhar! Dou-me bem com a terra de Arganil, do Buçaco, de Fafe, da Cabreira. E será aí, não o escondo, que irei atacar forte…”, disse, numa reportagem do Diário de Noticias.

E os que viam nas bermas da estrada não deixavam de a admirar, desabafando, quando passava: “Aí vem ela. Tem mais tomates que eu.

Das 40 especiais, ela triunfou em 17 e aproveitou bem a desistência do líder do campeonato, Walter Rohrl, para ficar com a liderança e não a largar até ao final, que aconteceria nas classificativas em redor da Serra de Sintra, perante dezenas de milhares de espectadores, para além das passagens no Autódromo do Estoril. Mouton acabou na frente do Toyota do sueco Per Eklund, do outro Audi de Wittmann e do Ford Escort de Carlos Torres, o melhor português e melhor privado. 

O segundo triunfo de Mouton já não era uma surpresa. Os pilotos já tinham reagido ao choque e agora a observavam como um dos seus. O que ainda não sabiam era que ia atrás de Rohrl e se iria candidatar ao título. 

quarta-feira, 23 de junho de 2021

A imagem do dia


Michele Mouton faz hoje 70 anos. A melhor mulher-piloto da história dos ralis comemora esta data no ano em que passam 40 anos sobre a sua primeira vitória - e a primeira de uma mulher numa prova do WRC - quando ela foi a melhor no Rali de Sanremo de 1981, ao lado da sua navegadora, a italiana Fabrizia Pons.

Mas o melhor ano dela foi a temporada de 1982, quando a bordo do Audi Quattro, conseguiu três vitórias e o vice-campeonato. Contudo, houve dois momentos importantes para a piloto. A primeira, poderia ter acabado muito mal. A segunda, foi um momento muito frustrante. 

Primeiro, em Monte Carlo, quando Mouton ia entre os primeiros quando chegou à 12ª especial da prova. Ali, quando o carro escorregou numa camada de gelo, a piloto perdeu o controlo do seu carro e bateu forte contra o muro a 110 km/hora, com o carro destruído e a dupla magoada, com contusões na navegadora e lesões no joelho direito por parte de Michele. Foi o susto, verdade, mas depois regressou para a prova seguinte, na Suécia, onde acaba na quinta posição.

E depois, as vitórias em ralis difíceis. Primeiro, em Portugal, em março, e depois, em junho, na Acrópole (a foto que ilustra este post), nas difíceis classificativas gregas, onde os carros que chegam ao fim são os vencedores. Mas é a partir dali que o resto do mundo começa a ver Mouton como... candidata ao título. Sim, uma mulher!

E mais ainda quando em setembro, ela vence um rali do Brasil onde apenas seis carros chegam ao final. A quatro provas do seu termino, que poucos ainda tinham dúvidas do seu carro, era verdade. Mas pensavam que seria nas mãos de Bjorn Waldgaard, Hannu Mikkola e Stig Blomqvist, por exemplo, não de uma mulher. E quem queria fazer de tudo para evitar que ela triunfasse era Walter Rohrl. Que não era piloto de outra marca alemã, a Opel.

O "showdown" acabou por acontecer na Costa do Marfim, um dos dois ralis africanos do calendário e um dos mais destruidores. E a Audi... nem era para lá ir, mas como o campeonato estava em jogo, inscreveram os seus carros. E para ela, ainda tinha mais um motivo para triunfar: o seu pai estava a morrer de cancro. Tinha sido ele, dono de uma loja de flores, que incentivara a sua filha a prosseguir a sua paixão automobilística, e mesmo no seu leito de morte, disse para dar o seu melhor e tentar o título.

Ela e a sua navegadora, Fabrizia Pons, lá foram para a savana. Correram com 30ºC e cem por cento de humidade, 70ºC dentro dos seus habitáculos (!) e imenso pó, e no primeiro dia cumpriram... 1200 quilómetros de especiais, com ela uma hora na frente da prova face a Rohrl. Imaginam uma coisa destas hoje em dia no WRC? Pois... 

Mesmo com problemas no seu carro, depois de dois dias, Mouton tinha tudo controlado, apesar de problemas com problemas de transmissão. A Audi fazia de tudo para que ela pudesse arrancar e correr. Houve problemas com a injeção elétronica, e foi tudo substituído o mais depressa possível. Mas a 600 quilómetros do fim, quando Rohrl estava em cima dela para a passar e ficar com a liderança, despista-se e o carro fica muito danificado. Ainda tentou continuar, mas cinco quilómetros mais adiante, baixou os braços. 

Rohrl disse depois que teria aceitado o vice-campeonato para Mikkola, mas não para Mouton porque era uma mulher. Anos depois, corrigiu as suas afirmações, mas nunca corrigiu a sua apreciação dela: era uma piloto tão boa como eles todos. E quando foi segunda classificada no Rally RAC, de uma certa forma, o título mundial estava realmente ao seu alcance. 

Mouton pendurou o capacete em 1986, no Rali da Córsega, mas pouco antes, tinha vencido no Pikes Peak, num Audi Quatto II. Afirmou que depois dos Grupo B, não haveria mais nada a correr. Dedicou-se a montar o Race of Champions e agora é dirigente da FIA dedicada aos ralis. E claro, Feliz Aniversário!  

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Youtube Motorsport Video: Josh Revell fala sobre Michele Mouton

Bom saber que as novas gerações estão a descobrir sobre algo que vi na minha infância, sobre Michele Mouton, a piloto francesa que domava os Audi Quattro de Grupo B entre 1981 e 1985, e que teve uma carreira muito boa no Mundial de Ralis, que foi vice-campeã do mundo em 1982, e triunfou em quatro provas, incluindo o Rali de Portugal de 1982. 

E hoje, o Josh Revell decidiu fazer um video a homenagear a ex-piloto francesa, que hoje em dia trabalha na FIA na parte dos ralis. 

quarta-feira, 11 de março de 2020

Youtube Rally Ad: A homenagem da Lego à Audi... e a Michelle Mouton

A Audi comemora em 2020 os 40 anos da tração integral, conhecido no mundo pela palavra "Quattro". O seu carro de ralis, que se mostrou pela primeira vez no Rali do Algarve como "carro zero", acabou por dar títulos mundiais a Walter Rohrl, mas também deu ao mundo... Michele Mouton. Provavelmente a melhor mulher-piloto do século XX, venceu quatro provas, todas ao serviço do Audi, tendo conseguido o vice-campeonato em 1982.

Assim sendo, a Lego decidiu comercializar um Audi Quattro S1 de 1984, com um boneco da Michelle Mouton. E aqui podem ver o video disso.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Youtube Motrosport Trailer: Um jantar de heróis

Isto aparenta ser um filme bem interessante: quatro pilotos vão uma noite para uma casa, algures no Reino Unido, para um jantar, onde falam das suas carreiras, das suas vitórias e dos seus perigos. Michele Mouton, vice-campeã do mundo em 1982 e a única mulher a vencer ralis do WRC, num Audi Quattro; Mika Hakkinen, bicampeão do mundo de Formula 1; Tom Kristensen, nove vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans, quase todas pela Audi, e Felipe Massa, vice-campeão do mundo em 2008 e piloto da Ferrari e Williams.

O filme é realizado por Manish Pandey, o mesmo de "Senna", e no jantar, os quatro acabam por falar de um quinto piloto, não presente, mas que paira nas suas vidas, como se fosse um espectro: Michael Schumacher.

Assim sendo, eis o trailer. 

sexta-feira, 8 de março de 2019

A imagem do dia

Michele Mouton e Fabrizia Pons, sua navegadora, comemorando no pódio a sua vitória no Rali da Acrópole de 1982. São poucas as mulheres no automobilismo, e há categorias que respeitam mais as mulheres que outras, quando vêm que têm talento. E quando têm uma chance para brilhar... brilham. É interessante saber que a Formula E já acolheu mulheres como Katherine Legge e Simona de Silvestro, quando a Formula 1 acolheu pela última vez uma mulher-piloto em 1992.

Mas hoje quero lembrar de Michele Mouton, se calhar uma das mais bem sucedidas mulheres no automobilismo. Vencedora de quatro provas do WRC, vice-campeã do mundo de 1982, vencendo nesse ano três ralis: Portugal, Grécia e Brasil. Nenhuma delas considerada das mais fáceis do mundo. Hoje em dia, aos 67 anos, Mouton é respeitadissima, especialmente por ter andado em carros do Grupo B, desde o Audi Quattro ao Peugeot 2015 Ti16, o carro onde andava quando fez o seu último rali, o da Córsega, em 1986.

Mas no seu tempo de corredora, não havia esse respeito. Nascida em Nice a 23 de junho de 1951, filha de um jardineiro, chamavam-na de "vulcão negro" devido ao seu temperamento. Começou a guiar aos 14 anos no Citroen 2 CV do seu pai, e cedo meteu-se no automobilismo, o meio mais masculino possível, onde as mulheres pouco passavam de... objetos. Andou primeiro num Alpine, onde deu uns pulos nas pistas. Em 1975, ao lado de mais duas mulheres - Christine Dacremont e Marianne Hoepfner - venceu na categoria de dois litros nas 24 Horas de Le Mans... e não foram as mulheres mais bem classificadas!

Dedicou-se aos ralis, primeiro num Alpine, depois num Fiat, com o 131 Abarth, até ir para a Audi, que tinha o seu modelo Quattro, com quatro rodas motrizes, bem mais eficazes e menos espectaculares que as duas rodas motrizes. O seu primeiro resultado de relevo foi no Rali de Portugal de 1981, onde foi quarta classificada, mas em Sanremo, mais tarde no ano, chocou toda a gente ao ser a vencedora. A primeira mulher a vencer na história do Mundial WRC.

Mas ninguém queria acreditar. Ari Vatanen, antes desse rali, tinha até dito: "Estou confiante, nunca perdi, nem perderei, contra uma mulher".

Em 2008, Mouton, numa entrevista para a Rallysport Magazine, lembrou-se dessa vitória, absolutamente inesperada e chocante para o "establishment" de então.

"Eu me lembro não apenas porque foi uma vitória, mas também porque foi uma grande luta até ao último dia. Fabrizia [a italiana Fabrizia Pons, sua nevagadora] me lembrou na outra noite que tínhamos um problema com as pastilhas de travão, então perdemos muito tempo. Terminamos a um dia para o final, 32 segundos na frente de Ari Vatanen. Nós dirigimos para a última especial, [que seria] de noite. Voltamos para o hotel e eu não consegui dormir, quatro horas pela frente e sem dormir. Então chego ao inicio da etapa, tem cerca de 42 km de comprimento, olho para Fabrizia e disse: 'Tudo bem, esquecemos tudo e fingimos que estamos de novo na primeira especial do rali, porque um de nós vai perder'. E assim, Ari bateu numa pedra e nós vencemos o rali."

Mas a sua grande temporada foi a de 1982. O Audi Quattro era o carro a bater, contra os cada vez mais obsoletos Ford Escort RS2000 e os Opel Ascona 400 ou os Talbot Lotus. Bateu forte em Monte Carlo, mas depois voltou a vencer em Portugal, na Grécia e no Brasil. Depois de um quarto lugar em Sanremo, o WRC partia para a Costa do Marfim, onde lutava com Walter Rohrl pelo título. Foi um rali difícil: cinco mil quilómetros de extensão, ao longo de cinco dias, as temperaturas andavam constantemente nos 30ºC e cem por cento de humidade, as estradas eram difíceis, e ainda antes da prova, teve a noticia de que o seu pai - e seu primeiro fã - tinha sucumbido a um cancro.

O rali foi uma luta entre Rohrl, Mouton e o finlandês Hannu Mikkola. As temperaturas dentro do carro chegavam "a uns meros" 70º Celsius, do qual só os mais fortes sobreviviam. No final do dia, ela era terceira, e era mais que suficiente para ser campeã, mesmo se o alemão vencesse. A meio do rali, tinha uma vantagem de 25 minutos sobre o alemão, mas problemas na sua transmissão fizeram que essa diferença diminuísse para dezoito minutos. A 700 quilómetros da meta, Mouton cometeu um erro e capotou. Totalmente danificado, a francesa tentou andar adiante, mas tiudo acabou cinco quilómetros depois.

Rohrl venceu o rali e acabou por ser o campeão. E sentia-se aliviado, pois perder o título ter-lhe-ia sido cruel. "Teria aceite a derrota perante Mikkola, mas não perante Mouton. Não porque duvide das suas capacidades como piloto, mas porque é mulher". No final do ano, foi vice-campeã e eleita como a Piloto do Ano pela Autosport britânica.

Mouton retirou-se em 1986, depois de acabar com o Grupo B, fundou a Corrida dos Campeões e agora é comissária da FIA, procurando por novos talentos femininos no automobilismo. Mas neste Dia Internacional da Mulher, bom saber que este desporto, um dos mais masculinos - e mais machistas - teve já mulheres que andaram ao lado de homens e os ganharam. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

A imagem do dia

Michele Mouton comemora hoje o seu 65º aniversário. A melhor mulher-piloto de sempre, agora delegada da FIA para os Ralis, teve uma carreira memorável, especialmente no tempo em que esteve na Audi, ao lado de pilotos como Walter Rohrl ou Stig Blomqvist. As suas quatro vitórias aconteceram no periodo de 1981 e 82, quando a FIA tiha acabado de criar o Grupo B, e o carro era o mais veloz dos ralis.

O grande ano de Mouton é o de 1982, onde a consistência dela o colocou bem perto do título mundial, o que seria inédito na sua carreira. A bordo do Audi Quattro, a piloto, navegada pela italiana Fabrizia Pons, Mouton já tinha mostrado ao que vinha quando venceu em Sanremo, sendo a primeira mulher a vencer um rali do campeonato do mundo.

Mouton começou a correr por incentivo do seu pai, e pelo meio, andou nas 24 horas de Le Mans, conseguindo até um meritório 21º posto na edição de 1975, vencendo na classe dos dois litros, a bordo de um Moynet-Simca. Fazendo participações no Europeu de Ralis e nas etapas francesas do Mundial, até 1980, a Audi contratou-a por causa do seu talento, e demonstrou-o, primeiro, com um quarto lugar no Rali de Portugal, e depois, com a tal vitória.

Em 1982, competiu em todas as provas, excepto no Rali Safari, e deu logo nas vistas quando venceu o Rali de Portugal. Repetiu o feito em junho, no difícil rali da Acrópole, na Grécia, e em setembro, noutro difícil rali, o do Brasil, onde apenas seis carros chegaram ao fim.

Por esta altura, Mouton tinha uma chance única de vencer o Mundial, contra o seu companheiro de equipa, Walter Rohrl. O talentoso piloto alemão queria vencer o campeonato, e não admitia que fosse batido por uma mulher, apesar de reconhecer o seu talento, e o "showdown" entre ambos iria acontecer na Costa do Marfim, outro rali bem duro na África Ocidental.

Na véspera, Mouton soube que o seu pai, o seu maior incentivador na sua carreira, estava a sucumbir a um cancro. No seu estretor, ele pediu que desse o seu melhor, e ela foi, chegando a estar na frente do rali - e virtualmente, campeã do mundo - a mais de um minuto e meio do segundo classificado, Hannu Mikkola. Mas sobretudo, tinha mais de uma hora para o seu rival, Rohrl. E a aguentar temperaturas de 70 graus Celsius ao volante!

No final, o alemão esforçou-se para a apanhar, e os problemas de transmissão no seu carro, culminando com um acidente que a fez capotar, fizeram com que perdesse para Rohrl. Para ele, foi um alivio, porque "teria aceitado perder para Mikkola, mas não para Mouton. E não é por causa do seu talento, mas sim por ser mulher". Mouton ainda conseguiu ser segunda no Rali RAC, ficando com o vice-campeonato, e a Autosport britânica votou nela como sendo a melhor do ano.

Mouton continuou a correr até 1985 pela Audi, mas os acidentes de Henri Toivonen e de Marc Surer, num mês, fizeram abandonar o WRC de vez, dedicando-se à organização do Rali dos Campeões. Agora está na FIA, moldando os ralis do futuro. Feliz Aniversário! 

domingo, 22 de maio de 2016

A(s) image(ns) do dia




Fafe é sempre algo especial. Cheio de espectadores, todos eles amantes da competição. É o coração do rali português, e é sempre mimado pela organização. É como o Ouninpohja, na Finlândia, ou o Col de Turini, em Monte Carlo. E é por isso que é sempre "mimado" pela organização e este ano, os "manda-chuvas" da FIA lá estiveram. entre eles, uma ex-piloto e um ex-navegador e um ex-diretor da Peugeot Sport, nos anos 80. Por outras palavras, Jean Todt, presidente da FIA, e Michele Mouton, a responsável pelos ralis, lá estiveram. Talvez para matar saudades do tempo em que andaram por lá...

O Rali de Portugal lá voltará, num sitio onde muitos afirmam que eles nunca deveriam ter saído. E isto, claro, só demonstra o amor dos portugueses por este rali. E pelo automobilismo, também.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Igualdade e meritocracia

A discussão sobre as mulheres no automobilismo continua a decorrer por estes dias. E ao mesmo tempo que se comenta sobre mais uma ideia de Bernie Ecclestone, surgiu ontem a noticia de que o organização da Endurance, a WEC, irá banir as "grid girls" até ao final do ano. Uma medida que se elogia, dado que afastaria o estigma do machismo do automobilismo e convidaria mais mulheres a aparecer por lá.

Na conta oficial do Twitter, a organização do Mundial da Endurance comunicou da seguinte forma:

"As garagens, bancadas, tendas de hospitalidade e salas de media do Mundial WEC estão cheias de belas mulheres, sempre muito apreciadas por todos e não apenas antes das partidas. Temos muitas mais mulheres bonitas que trabalham com a WEC do que apenas aquelas que seguram os painéis numéricos. Nós acreditamos que os carros são as belezas e o espirito de Le Mans ecoa em tudo que fazemos" concluiu.

A decisão colocou a Formula 1 um pouco mais para trás e um pouco mais "fora de órbita" em termos de acompanhamento dos tempos, mas creio que essa decisão ainda não foi pensada a sério, quando ainda se discute a história das mulheres. No meio disto tudo, já apareceu Michele Mouton, agora a presidente da comissão que promove a integração das mulheres no desporto, a criticar fortemente a ideia de Ecclestone. 

"Estou irritada e muito desapontada por Ecclestone estar talvez a pensar nas mulheres só para o espectáculo", disse a ex-piloto francesa, vice-campeã do mundo em 1982 e vencedora de quatro ralis. "Mais, pela minha experiência como piloto, acredito verdadeiramente que as mulheres querem competir a um nivel igualitário relativamente aos homens. Elas têm provado ao longo de décadas que é possivel, mesmo que tenham sido poucas. Esta igualdade de condições permite um indicador realista das prestações e iniciativa desportista a ser a melhor do mundo, independentemente do género", concluiu.

Mouton têm razão no que diz. A sua carreira, mais ao serviço da Audi, conseguiu ser melhor do que pilotos como Walter Rohrl, Stig Blomqvist, Ari Vatanen, Markku Alen ou Hannu Mikkola, entre outros, e conquistou o respeito dos seis colegas, mesmo que tenham engolido as vitórias dela em lugares como Sanremo, o Rali de Portugal e o Rali do Brasil, ambos em 1982. E num passado não muito distante, a Formula 1 teve pilotos como Lella Lombardi, a unica que pontuou numa corrida de Formula 1. Nem que tenha sido meio ponto numa das corridas mais infames da história do automobilismo, o GP de Espanha de 1975.

Mas se discute o lugar da mulher no automobilismo e torná-la menos sexista, também se discute a ideia de "quotas". Ao ler um artigo hoje no jornal português "A Bola", a ideia surgiu no último parágrafo do artigo. Honestamente, sou contra. E dois motivos vêm-me à cabeça: descer o nível dos pilotos e dar lugares a alguém que não merece, ou seja, promover a mediocridade. 

A IndyCar teve sempre mulheres, que correram contra homens porque acharam que mereciam - ou porque precisavam do dinheiro que elas tinham - e nunca reservou uma quota para elas. E se houve pilotos medíocres, como Milka Duno, também teve excelentes mulheres-piloto, que mereceram o respeito dos homens, como Danica Patrick e Simona de Silvestro. E Sarah Fisher, que também foi piloto, agora é manager da sua própria equipa, a Fisher Hartmann Racing, que este ano se fundiu com a Ed Carpenter Racing.

Arranjar uma quota feminina para o automobilismo é a mesma coisa que a ideia de Ecclestone de termos uma "Formula 1 feminina". Faz mais mal do que bem e só eternizaria o preconceito dos homens em relação ao sexo feminino, para além da promoção da mediocridade. Para quê ter uma piloto que seria uma chicane móvel? É por isso que prefiro mais a ideia meritocrática de uma piloto se degladiar contra os homens e os bater, para ganhar o respeito deles.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mouton no Brasil ou a possibilidade do regresso ao WRC

Leio via Flávio Gomes que Michele Mouton estará amanhã em São Paulo para saber da possiblidade do Brasil acolher uma etapa do Mundial WRC a partir de 2013, trinta anos depois da última vez que este no calendário. Segundo o site brasileiro Grande Prémio, a ideia era de fazer um rali entre Rio de Janeiro e São Paulo, com uma passsagem por Campos do Jordão, o sitio onde o rali teve a sua base nas edições de 1981 e 82.

Mouton, ex-piloto de ralis e atual diretora da FIA para o WRC, está desde há algum tempo tentando modificar a estrutura dos ralis, no sentido de regressar a um passado em que este tipo de provas era mais de resistência do que as atuais provas de velocidade, concentradas numa área pequena, oncluidas no tempo de Max Mosley. E está a haver alguns resultados: em 2012, o Rally de Monte Carlo irá regressar ao calendário, após alguns anos de ausência.

Contudo, apesar do crescente interesse dos pilotos brasileiros no WRC - primeiro com Daniel Oliveira e depois com Paulo Nobre - vai ser complicado encaixar o Rali do Brasil no WRC. Para além do país não ter tradição neste desporto, e as edições terem sido um fracasso devido a questões politicas entre o então presidente da confederação de São Paulo e o seu organizador, Francisco Santos - sim, o homem que fazia os anuários de Formula 1. O que se garante que as coisas se modificaram em trinta anos?

Outra coisa que se tem a ver em conta: o Mundial tem treze provas, e candidatos não faltam, numa competição eurocêntrica. Monte Carlo, Suécia, Portugal, Catalunha, Alsácia, Sardenha, Alemanha, Finlândia, Acrópole e Gales são dez dos treze ralis que compõem o calendário de 2012, mais de três quartos do mundial. Os restantes são Nova Zelândia, Argentina e México. A entrada do Brasil seria muito provavelmente num contexto de rotação, algo que Austrália e Nova Zelândia fazem, e não sei se seria algo rentável ter Sebastien Löeb, Mikko Hirvonen, Sebastien Ogier, Jari-Matti Latvala ou Dani Sordo uma vez a cada dois anos. Para não falar das "aves raras" Ken Block e Kimi Raikkonen - caso eentretanto não volte às formulas.

Em suma: espera-se que a visita valha a pena. Mas "enfiar" o Brasil no WRC tem os seus riscos. E os eventos do passado não ajudam.

terça-feira, 29 de março de 2011

Mouton quer reinventar os ralis

Michelle Mouton dispensa apresentações para os conhecedores. Atualmente com 59 anos de idade, foi piloto de ralis nos anos 80, correndo pela equipa oficial da Audi. Venceu quatro ralis entre 1981 e 1982, ano em que foi vice-campeã do mundo. Duas vezes vencedora da subida de Pikes Peak, nos estados Unidos, ainda correu pela Peugeot até abandonar a competição no final da temporada de 1986, após a saída dos Grupo B de cena, afirmando que tinha perdido a vontade de competir. Depois disso, decidiu ficar nos bastidores, onde ajudou a organizar e a fazer crescer a Race of Champions, prova onde no final de cada época, pilotos de vários quadrantes competem entre si em várias máquinas.

Desde o inicio do ano que Mouton faz parte da FIA, convidada por Jean Todt, ele mesmo um antigo navegador de ralis. Esteve em Portugal como observadora e concedeu uma entrevista à jornalista Edite Dias, que foi publicada na edição de hoje do jornal "A Bola".


«PRECISAMOS DE REINVENTAR O MUNDIAL»

. Michelle Mouton está de volta
. A unica mulher a vencer uma etapa do Mundial de ralis é o novo rosto da FIA

. Noturnas e ralis feitos à medida são algumas das suas convições


"A primeira e unica mulher até hoje a vencer uma prova do Campeonato do Mundo de Ralis está de volta. Passaram 30 anos desde que Michelle Mouton venceu em San Remo, ao volante do seu Audi Quattro e sentado ao lado da sua navegadora, a italiana Fabrizia Pons. Um ano depois, em 1982, venceu o Rali de Portugal, foi a melhor também no Brasil e na Acrópole e terminou a época como vice-campeã do mundo. Agora está de volta e esteve em Portugal, no Algarve, nos troços, um pouco por todo o lado, empossada há pouco mais de um mês pelo presidente da FIA, Jean Todt, como observadora, para já, do Mundial. Mas a tarefa é outra, conforme contou a "A Bola". «Precisamos de repensar, reinventar o Mundial. Precisamos de mais público, de aproximar os pilotos, os carros das pessoas», afirmou, convicta, a francesa de 59 anos.

«Lembro-me bem do que aqui vivi em 1982. Foi fantástico, havia muito mais público. É por isso que defendo que defendamos um novo conceito de ralis e estudamos como pode ser feito. Na minha opinião, deve haver uma identidade própria para cada prova do Mundial. A Finlândia não é igual à Grécia ou Portugal, logo os troços, as horas, devem ser adaptados à realidade de cada local» insistiu a piloto que garante que não saudades. «Às vezes conduzo, mas não gostava de voltar. Está tudo muito diferente agora, naquela altura era adrenalina pura, era tudo real e vivido com intensidade. Agora é tudo diferente. Já passaram 25 anos, mas não tenho a certeza que as coisas estejam melhores agora» atira, serena.

FAZ FALTA UMA MULHER

Durante o Rali de Portugal, muitos disseram já que a ideiade experimentar uma classificativa noturna, tão a seu gosto, já na Grécia, saiu da sua influência, que pretende estender também nas mulheres. «Faz falta uma mulher no desporto motorizado. Não especificamente nos ralis, embora, claro, gostasse de ver uma, mas no desporto em geral. E não falo apenas de pilotos, falo de pessoas com outras responsabilidades, falo de engenheiras, falo de todas as áreas» alerta a francesa.

MULHERES AO VOLANTE, ESPETÁCULO CONSTANTE

A francesa não se intimida com as graçolas latinas sobre a capacidade das mulheres ao volante e tomou como sua, com legitimidade incontestável, a missão de descobrir uma mulher com capacidade para se sentar ao volante nas melhores competições do mundo. E apesar de recente nessa nova missão, já deitou mãos à obra, criando uma espécie de academia para raparigas entre os 13 e os 15 anos. Uma já foi escolhida em parceria com a Volkswagen Motorsport e recebeu um carro para competir na Scirocco R-Cup em 2011.

«Faz falta», repete, consciente do longo trabalho que tem pela frente. «No meu tempo tudo era permitido, acredito que era muito mais divertido» avalia Mouton, que não assistiu a todas as classificativas portuguesas, que acabaram por consagrar Sebastien Ogier (Citröen), mas revelou-se atenta ao que considera o distanciamento do público com o rali. «Não sei se terá tido a ver com o fato da super especial ter sido feita em Lisboa, longe do resto do rali, mas achei pouca gente nos troços que visitei. Estou habituada a muitos espectadores», explicou um dos novos rostos da FIA, que confirmou que o calendário do Mundial de ralis de 2012 deve ser anunciado no final desta semana.

domingo, 28 de novembro de 2010

Youtube Race of Champions: o capotanço de Michele Mouton



Como sabem, este é o fim de semana da Corrida dos Campeões, que este ano acontece na cidade alemã de Dusseldorf. E mo meio de todos os campeões e bons pilotos que andam por lá, incluindo os portugueses Alvaro Parente e Filipe Albuquerque, também há o momento das demonstrações, especialmente da sua criadora, a ex-piloto francesa Michele Mouton.

Mouton sempre tem a oportunidade de guiar uma das máquinas que andou durante a sua carreira, o Audi Quattro. Só que esta noite, decidiu levar o carro um pouco longe demais e capotou a baixa velocidade... o impagável é ver as caras de Michael Schumacher e Sebastien Vettel quando viam a demonstração dela.