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terça-feira, 10 de junho de 2025

A história da Osella (segunda e última parte)


Na segunda e última parte da história da Osella falo do período entre 1983 e 1990, o tempo onde esteve presente com os motores Alfa Romeo Turbo, num tempo onde foram mais os baixcos que os altos, pelo menos até à chegada de Gabriele Rumi, que no final de 1990, depois de ter sido patrocinador da marca, decidiu ficar com a totalidade da equipa, continuando com outro nome. Durante essa tempo, a equipa teve gente como Piercarlo Ghinzani, Nicola Larini, Alex Caffi e Gabriele Tarquini, entre outros. 

Para a temporada de 1983, surge um novo chassis, o FA1D, mas com um prazo no horizonte: é que entretanto, Osella tinha feito um acordo com a Alfa Romeo para poder usar os seus motores Turbo de 8 cilindros. O carro apareceu em Imola, nas mãos de Corrado Fabi, irmão de Teo Fabi e campeão da Formula 2 no ano anterior. O segundo piloto, outro italiano, Piercarlo Ghinzani, também andaria no Turbo, mas apenas a partir do GP da Grã-Bretanha. Eles andariam no novo chassis, o FA1E, onde não conseguiram mais que um 10º posto na Áustria, já que acabaram poucas vezes as corridas, devido à fragilidade dos componentes.

Para 1984, alinha com o FA1F, uma cópia quase evidente do Alfa Romeo 183T, e com Ghinzani ao volante. Mas a equipa, que inicialmente só queria alinhar com um carro, acabou por alinhar um segundo, para o austríaco Jo Gartner. Ele começa em Imola, com um motor Cosworth aspirado, mas a partir de Brands Hatch, alinha com o Alfa Romeo Turbo. E por essa altura, a Osella tinha tido outro milagre: voltaram a pontuar.

Ghinzani tinha conseguido alguns resultados interessantes, nomeadamente um sétimo posto no Mónaco, mas em Dallas, e debaixo de imenso calor, Ghinxani conseguira um 18º posto na grelha e tudo aguentou para poder chegar ao final na quinta posição, obtendo dois pontos e claro, muitos motiwos de festa. E poderiam ter conseguido mais em Monza, palco do GP italiano. Ali, noutra corrida de atrito, os dois Osellas chegaram ao final, com Gartner em quinto e Ghinzani em sétimo. Mas como a equipa tinha alinhado inicialmente com apenas um carro, e Gartner apareceu apenas na segunda metade da temporada, esses dois pontos acabaram por não contar. 

No final, foram dois pontos, que eram para ficar na 12ª posição em termos de Construtores. 

Curiosamente, apesar de estarem na Formula 1, não era exclusivo. Eles construíam chassis para os Sports Cars, e alguns deles chegaram à competições como a CanAm americana. Na classe de 2 litros, o italiano Armando Trentini conseguiu acabar a temporada no terceiro lugar num chassis PA10 de Montanha, com dois lugares, numa competição cheia de carros que não eram mais que Formula 2 com rodas cobertas.  

Para 1985, regressavam para um só carro, e com Ghinzani como piloto. O novo chassis, o FA1G, era a evolução dos chassis anteriores, mas a meio da temporada, ele foi para a Toleman, e no seu lugar apareceu o neerlandês Huub Rothengarter. E foi com ele que conseguiram o melhor lugar da temporada, com um sétimo posto na Austrália. 


A partir de 1986, com o aumento dos custos e a pouca fiabilidade dos motores Alfa Romeo, Osella começou a aceitar pilotos pagantes. Se Ghinzani estava de volta, vindo da Toleman, o segundo lugar foi dividido entre o alemão Christian Danner, e após este ter ido para a Arrows, para substituir o acidentado Marc Surer, o canadiano Alan Berg, com o lugar a ser cedido para o italiano Alex Caffi no GP de Itália. Com eles todos, não alcançou qualquer ponto.

Caffi ficou na equipa em 1987, e Osella reduziu a sua participação para um só carro, com o segundo lugar a ser usado por gente como Gabriele Tarquini e o suíço Franco Forini, mas apenas em algumas corridas, nunca a tempo inteiro. Em 1988, Caffi foi para a novata Dallara, e para o seu lugar veio Nicola Larini. Continuava a ter motores Turbo, que tinha o seu nome, mas na realidade, não eram mais que motores Alfa Romeo sem a marca do Quadrifólio Verde. E o nome do chassis para esse ano não calhou bem: era a versão L do chassis FA1, que para os ingleses não significa coisa boa...         



UMA NOVA ERA


Em 1989, chega a era dos motores atmosféricos, de 3,5 litros, e Osella arranja motores Cosworth de 8 cilindros. Normalmente bons e fiáveis, construiu um chassis adequado para a ocasião, o FA1M, e inscreve dois carros, para Larini e o regressado Piercarlo Ghinzani. Como não tinha tido resultado de relevo, numa temporada onde havia 40 carros inscritos, tinham caído na pré-qualificação, e nem sempre conseguiam passar. No Canadá, Larini qualifica-se e a certa altura, debaixo de chuva, anda tão bem que chega a correr em lugares de pódio, na frente de... Ayrton Senna! Contudo, na volta 34, quando era quarto, sofreu problemas elétricos e acabou por desistir. e nãso fosse isso, teria conseguido evitar a pré-qualificação na segunda metade da temporada.

Mas na segunda parte da temporada, os dois carros andaram melhor, conseguindo sair frequentemente nas pré-qualificações, especialmente Larini. E no Japão, até conseguiu um décimo lugar na grelha. Contudo, a parca fiabilidade fez com que não conseguisse pontuar em alguma vex.


Para 1990, com Ghinzani retirado e Larini transferido para a Ligier, Osella contratou o francês Olivier Grouillard, que vinha... da Ligier, e decidiu correr com um só carro. Um dos seus patrocinadores era Gabriele Rumi, que tinha uma firma que construía jantes de liga leve: Fondmetal. Ele decidiu patrocinar a sua equipa, com a condição de ficar progressivamente com ela. Com o carro a entrar em nove das 16 corridas dessa temporada, com um oitavo lugar na grelha em Phoenix como melhor resultado, ele não conseguiu pontuar, no final do ano, Rumi comprou o resto da equipa e decidiu chamar de Fondmetal. Ela prosseguiu até 1992, mas sem grande sucesso. 

No final, a Osella conseguiu, em 172 participações, 132 das quais em corridas, espalhadas em onze temporadas, cinco pontos.

Depois da aventura da Formula 1, Enzo Osella continuou a construir chassis para a as corridas de montanha. Aliás, ele nunca tinha deixado de fabricar durante a sua estadia na Formula 1, pois achava que era uma maneira de fazer entrar receitas na sua fábrica.  Alguns dos melhores pilotos de montanha, como o italiano Mauro Nesti, nove vezes campeão europeu da categoria e detentor de 17 títulos italianos, sempre usou carros da Osella. Depois, outro italiano, Pascale Irlando, correu neles para conquistar quatro títulos em 1995, 1997, 1998 e 1999.  Outros pilotos como  Franz Tschager e Martin Krisam continuam a usar carros da Osella nas suas corridas de montanha.

Hoje em dia, a Osella ainda existe, e continua a produzir carros de competição.   

quinta-feira, 18 de abril de 2024

A(s) image(ns) do dia




Ayrton Senna saía do GP do Pacífico sob brasas. Apesar do acidente da primeira volta não ter sido por culpa dele - tinha sido tocado de traseira por Mika Hakkinen e depois, foi batido de lado pelo Ferrari de Nicola Larini - o facto do seu rival ter saído daquele Grande Prémio com duas vitórias e 20 pontos, deixando o segundo classificado, Rubens Barrichello... a 13, parecia deixá-lo atordoado por pensar não ter concorrência. 

Ao longo da corrida, Senna ficou no muro das boxes a ver passar Michael Schumacher, no seu Benetton. E não foi para ver passar os carros: já existiam rumores sobre a legalidade do Benetton B194, projetado por Ross Brawn. E porquê coloco aqui imagens de Nicola Larini? Pois bem, parece que os rumores tinham um fundo de verdade. 

Larini, piloto de testes da Scuderia, estava ali a substituir Jean Alesi, que se tinha lesionado no pescoço num acidente de testes. Ali, em Aida, disse à imprensa italiana que eles estavam a usar controlo de tração no seu carro numa das sessões de treinos. E isso tinha sido uma das ajudas que a FIA tinha banido antes da temporada começar. Claro, ele apressou-se a desmentir o que tinha dito, mas a polémica estava instalada.  

Toda a gente sabe que quando a FIA decidiu banir as ajudas eletrónicas, oram embora coisas como o controlo de tração e a suspensão ativa. Mas Max Mosley queria ir mais longe, chegou a pensar em banir as caixas de velocidades semiautomáticas, mas as equipas não deixaram que isso acontecesse. Bem vistas as coisas, dos items banidos no final de 1993, apenas o controlo de tração foi retomado, anos depois. E saber que isso reentrou nos carros demonstra que aquelas eram máquinas potentes e os pilotos tinham dificuldades em domá-los.   

Mas independentemente do que se passava, Senna estava confuso. E pior, foi apanhado de surpresa por Schumacher. 

Temos de entrar na mente de Senna para entender mais um pouco o cenário desta primavera de 1994: o próprio piloto sentia-se órfão de Alain Prost. A sua mente, ao longo de quase toda a sua carreira, sempre esteve dirigida a ele, era o seu ponto de referência. A temporada de 1994 era a primeira onde sabia que ele não regressaria mais, o capacete pendurado era definitivo, apesar da tentativa de Ron Dennis de o ter na McLaren, agora que tinha motores Peugeot.

Senna... não direi que estava perdido, mas subestimou Michael Schumacher. Sabia que era bom, mas não tinha reagido à "explosão" do alemão, que independentemente de poder ter um carro... controverso (as acusações nunca foram provadas), estava a demonstrar naquele momento aquilo que agora sabemos: um dos melhores pilotos de sempre. Mas Senna não reparou, foi apanhado de forma desprevenida, no meio de pensamentos sobre a "orfandade" por causa de Prost, e a luta para fazer no FW16 um carro que pudesse ser agradável, controlável, domável para ele. E não era nada disso.

E foi com esse estado de espírito que Senna partiu para Imola. Aqueles não eram tempos agradáveis. Ninguém entendia este cenário, e o primeiro a não entender era ele. 

domingo, 3 de maio de 2009

WTCC - Ronda 3, Marrakech (Corridas)

Foi o dia da Chevrolet nas apertadas ruas de Marrakech, na estreia do WTCC em paragens marroquinas e africanas. Robert Huff, na primeira corrida, e Nicola Larini na segunda, deram à Chevrolet as suas primeiras vitórias com o novo modelo Cruze, beneficiando do facto de estarem mais leves que os Seat Leon TDi, os grandes dominadores desta temporada, que lhes dera na véspera a pole-position.

Na primeira corrida da tarde, disputada nas apertadas ruas marroquinas, Robert Huff liderou a corrida do princípio ao fim e conquistou a primeira vitória do ano para o Chevrolet Cruze, apesar de aguentar os ataques de Gabriele Tarquini, que tentou aproximar-se do inglês em algumas ocasiões, mas sem sucesso. Jordi Gené garantiu a subida ao lugar mais baixo do pódio de pois de ultrapassar Yvan Muller a duas voltas do fim. Depois veio Tiago Monteiro, que nas últimas voltas conseguiu aproximar-se de Muller. Assim sendo, o piloto português conseguiu os seus primeiros pontos.

"Globalmente foi um fim-de-semana complicado para a equipa e também um pouco frustrante para mim mas, apesar de tudo, positivo. Em ambas as partidas sabia que era preciso muito cuidado, porque a pista é muito estreita e em especial na partida lançada os carros chegavam à primeira curva muito depressa. Por outro lado sabia que é muito difícil ultrapassar e que os pneus iriam perder eficácia rapidamente, pelo que teria obrigatoriamente que atacar. Cheguei depressa ao quinto lugar e nas últimas voltas estava mais rápido que o Yvan (Muller) mas para o ultrapassar teria de arriscar demasiado." afirmou o piloto português.

Na segunda corrida, Nicola Larini beneficiou do facto de ter um carro mais leve e partir do terceiro lugar da grelha (acabara em sexto, atrás de Monteiro) para ganhar uma posição na partida. Esteve em segundo até pouco depois da primeira metade, quando roubou a liderança e consequentemente a vitória, após um toque no BMW 320i de Jörg Müller. Foi a segunda vitória da Chevrolet no fim-de-semana e a primeira do italiano desde que o Campeonato passou a designar-se Mundial.


Yvan Muller segurou o segundo posto e o consequente comando do campeonato, apesar da constante pressão do outro Chevrolet de Rob Huff, enquanto Jörg Müller manteve o quarto lugar à frente de Gabriele Tarquini. Tiago Monteiro teve um mau arranque perdeu vários lugares, mas conseguiu recuperar posições, ultrapassando o local Mehdi Bennani, que tinha ganho o Troféu dos Independentes na primeira corrida, aproveitou o abandono de Alain Menu e a travagem queimada de Andy Priaulx, depois de várias voltas a pressionar o piloto britânico, para chegar à sétima posição final e amealhar dois pontos para o campeonato.

No final do fim de semana marroquino, Tiago Monteiro afirmou que os resultados ficaram um pouco aquém das suas expectativas, pois ele julgava que tina andamento para chegar ao pódio: "É muito complicado ultrapassar aqui em Marraquexe. A partida correu mal e soube logo que iria ter uma corrida trabalhosa. Foi divertido por um lado porque estive envolvido em lutas espectaculares como com o Priaulx, mas por outro lado houve momentos frustrantes em que perdi muito tempo para ultrapassar pilotos bem mais lentos e que se limitavam a proteger a linha de trajectória. Apesar dos problemas no arranque depois a afinação resultou em pleno e na última volta rodei a um décimo do primeiro. Pessoalmente estou satisfeito porque, apesar das dificuldades, pontuei nas duas corridas e desta vez as adversidades não calharam a mim. A regularidade é muito importante no WTCC e queria acabar com o jejum de pontos. Para a SEAT o fim-de-semana foi marcado por pequenos problemas e esta foi a primeira ronda do ano em que não ganhámos. Com o lastro que tínhamos (40kg) e o tipo de circuito em que estávamos a vitória seria muito difícil. Mas continuamos na frente do campeonato e isso é o mais importante", sublinha Tiago.

No campeonato, Yvan Muller é o lider, com 43 pontos, seguido de Gabriele Tarquini, com 31, e de Rykard Rydell, com 30. Tiago Monteiro está na 11ª posição, com seis pontos. Na próxima ronda, o WTCC chega a território europeu, mas continua a correr em circuitos citadinos. O escolhido é o traçado de Pau, em França, a 16 e 17 de Maio.

Entretanto, esta noite, a organização do WTCC anunciou que vai suspender os resultados de hoje até fazerverificações finais nos Seat de Yvan Muller, Gabriele Tarquini, Tiago Monteiro e Jordi Gené. As razões são ainda desconhecidas, e não se sabe qual é a parte do carro em questão, mas é algo que terá desenvolvimentos nas próximas horas.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Os Três Dias de Imola - Parte 3


Domingo, 1 de Maio de 1994


Quando o sol de levantou, todos ainda digeriam as ondas de choque da véspera. Quem fosse a uma banca de jornais para comprar a edição daquele dia, não poderiam escapar às chamadas de primeira página, onde se viam, em fotos grandes, ou os destroços do carro de Ratzenberger, ou o estertor final do piloto austríaco, enquanto que os paramédicos tentavam desesperadamente salvá-lo. Toda a gente sabia que o piloto da Simtek tinha morrido na hora, mas o facto de só ter sido declarado morto no Hospital de Bolonha, quase duas horas depois do acidente, era uma forma simples da FIA impedir o cancelamento da corrida pelas autoridades locais, e os subsequentes prejuízos que tal coisas poderia ter em termos económicos.


Ayrton Senna estava nitidamente preocupado. Não só pelos acontecimentos da véspera, mas também por saber que o seu carro não era o mais estável do pelotão. Sabia das modificações que tinham sido feitas, nomeadamente a coluna de direcção modificada do seu FW16, para que pudesse adaptar-se ao seu estilo de condução. Isso o tornava nervoso e instável. E tinha dito isso na manhã desse dia à imprensa: “


No warm-up da corrida, Senna tinha de fazer uma descrição da pista à cadeia de TV francesa TF1. Antes da transmissão, e sabendo que o seu rival Alain Prost era agora um dos comentaristas, Senna afirmou algo inédito: “Em primeiro lugar eu queria mandar uma mensagem para Alain Prost: Alain, eu sinto a tua falta”. Sensibilizado, o francês retorquiu o cumprimento e foi apertar a mão de Senna pouco antes da corrida.


Entretanto, decidira levar consigo no seu bolso uma pequena bandeira austríaca, para que em caso de vitória, pudesse dedicá-la a Roland Ratzenberger. Senna era de facto alguém que se importava com os seus colegas. Ao longo da sua carreira, isso fora demonstrado por várias vezes, especialmente em 1992, quando em Spa-Francochamps, foi o primeiro a parar para ajudar Eric Comas, no seu Ligier-Renault, vitima de um forte despiste na zona de Staevlot. Nessa altura, decidira que já era tempo de reactivar a GPDA (Grand Prix Drivers Association), para defender os interesses dos pilotos, principalmente na área da segurança, e decidira transmitir essa ideia aos seus companheiros. A coisa aconteceu, mas Senna não pode ver os frutos do trabalho.


Todos decidiram correr, incluindo a Simtek, que não tinha vontade, mas que foi pressionada, alegadamente por Bernie Ecclestone, para alinhar David Brabham na grelha. Não era aquilo que desejavam para fazer o luto pelo seu piloto, mas o espectáculo que movia centenas de milhões de dólares por dia, muito do qual ia parar aos bolsos do próprio Bernie, tinha de continuar.


Senna continuava nitidamente preocupado. Tão preocupado que, na altura em que deu a sua habitual volta de aquecimento antes de se colocar na pré-grelha, deu três voltas, em vez das habituais duas. Ainda tinha imensas dúvidas sobre tudo: o carro, as escapatórias do circuito, a segurança… tudo. Provavelmente tinha a noção de que aquele poderia ser o seu fim, e se o teve, andou muito tempo a hesitar, antes de o aceitar, eventualmente esperançado de que ainda existisse uma escapatória. Esses pensamentos que assolavam Senna nos minutos anteriores à primeira partida foram levado para o túmulo consigo.


Poucos minutos antes das 14 horas, os 26 carros rolavam em pista para a volta de aquecimento. Senna e Schumacher estavam na primeira linha, Berger e Hill na segunda, Letho e Larini na terceira, Frentzen e Hakkinen na quarta, e a fechar o “top ten”, Katayama e Wendlinger. Lamy era 22º, no seu Lótus, e o lugar de Ratzenberger, que tinha conseguido a qualificação, na 25ª e penultima posição, fora deixado vago em sinal de respeito.


Quando a partida foi dada, todos os carros se lançaram para Tamburello. Mas um carro ficara parado: é o de J.J Letho. Todos se tentam desviar dele, e nos segundos que se seguem, todos esperam que nada aconteça. Mas no meio da confusão da partida, no fundo do pelotão, vem Pedro Lamy, que ignorando o que se tinha passado centenas de metros à sua frente, só se apercebe do Benetton parado em cima da hora. E não evita o choque.


O carro fica sem lado direito, arrancado pelo outro chassis, e os seus milhares de pedaços caem nas bancadas, ferindo quatro pessoas. O Lótus vai parar do outro lado da pista, com o piloto português ileso. Temeu-se por um cenário semelhante ao de Riccardo Paletti, doze anos antes, mas aqui, o Lótus só atingiu o Benetton de lado, e não de frente. Mas isso fez com que entrasse o Safety Car, para limpar os milhares de pedaços de carbono espalhados pela pista.


Por esta altura, eu desconhecia todos estes eventos. Estava em viagem, a caminho de Coimbra, para visitar os meus avós. Tinha plena consciência de que iria falhar o início da corrida, e só esperava que os acontecimentos de ontem tivessem acabado por ali. Estava enganado, mas todos nós tínhamos esse pensamento…


Nas seis voltas seguintes, o Safety Car, um Opel Vectra da organização italiana, ordenava os carros tal como estavam no final da primeira volta: Senna, Schumacher, Berger, Hill e Larini. Nessa altura, os carros tinham um fundo plano, que ficava a poucos centímetros do chão, para evitar qualquer tipo de efeito-solo naqueles carros. Numa situação destas, os carros perdiam pressão nos pneus, que fazia com que essa distância se aproximasse ainda mais. Essa perda de pressão dos pneus é considerada até hoje como uma das causas mais prováveis do despiste de Senna, volta e meia depois do recomeço da corrida.


Quando assisti pela primeira vez ao minuto e meio que seguiu entre o recomeço da corrida e o impacto de Senna na (falsa) Curva Tamburello, veio à minha mente outro evento que tinha visto oito anos antes: a explosão do vaivém Challenger, a 28 de Janeiro de 1986. Ambos os eventos têm o seu paralelismo: foram transmitidos em directo, perante milhões de pessoas pelo mundo inteiro. E as câmaras captaram os momentos do impacto. E ver um desastre a acontecer, nessa altura (e tive a mesma sensação sete anos mais tarde, quando dos eventos do 11 de Setembro de 2001), fica-se com uma sensação estranha de que tudo está a acontecer, és testemunha, mas não podes fazer nada. Sentes-te impotente, é só.


Após o impacto, a bandeira vermelha é mostrada e a corrida interrompida. Os paramédicos acorrem aos destroos do Williams número 2, tentando socorrer o piloto. As manobras de reanimação decorrem durante largos minutos, sem grande resposta. Os paramédicos só retiram o capacete do piloto com a presença do Dr. Syd Watkins, o médico da FIA. Quando o fazem, uma larga poça de sangue sai do capacete, sinal de que tinha havido uma enorme hemorragia, causada (soube-se depois) pela peça do braço de suspensão direita, no momento em que o carro bateu no muro. Essa peça entrou pela viseira do capacete, e causou um afundamento na face frontal, com perda de massa encefálica.


Senna deu um grande suspiro. Seu rosto estava tranquilo. Parecia em repouso. Tive ali, no momento em que o socorria, a estranha sensação de que sua alma tinha partido”, contou o Dr. Syd Watkins anos depois, na sua biografia.


Sem conseguir reanimá-lo pelas vias normais, teve de ser feita uma traqueotomia de emergência na pista, para evitar que morresse sufocado. Conseguida a operação, Senna é estabilizado e transportado de helicóptero para o Hospital Maggiore de Bolonha, o mesmo onde tinham estado Barrichello e Ratzenberger. Na pista, é a confusão total. Poucos não fazem ideia total do que está a acontecer. Conferencia-se durante mais de uma hora, e decide-se que a corrida seria dividida em dois: as seis voltas iniciais, mas as 53 voltas restantes, sendo o vencedor o piloto que somar os dois tempos. Nessa altura, o líder era Schumacher, com 5,3 segundos de vantagem sobre Berger.


Na segunda partida (foi nessa altura que cheguei a casa para ver os acontecimentos), Berger salta para a frente, tentando se distanciar de Schumacher. A ilusão dura dez voltas, altura em que fez o seu primeiro reabastecimento. Mas pouco depois, as vibrações anormais do seu carro, devido a um problema de suspensão, fazem com que abandone a corrida na volta 17. Após isso, Schumacher liderou tranquilamente a corrida, com o outro Ferrari de Nicola Larini num distante segundo lugar, e com uma estratégia de apenas uma paragem. Foi o melhor resultado do simpático piloto italiano, que agora piloto oficial da Chevrolet no WTCC. Depois vinha um pelotão liderado por Mika Hakkinen, no seu McLaren-Peugeot, que tinha atrás de si o Sauber de Karl Wendlinger, o Tyrrell de Ukyo Katayama e o Williams de Damon Hill, que sofrera um despiste nas voltas iniciais, e ficou uma volta abaixo do vencedor, Michael Schumacher.


Entretanto, por esta altura, já se sabia da gravidade do estado de Senna. Estava em coma, e já se falava que tinha tido uma paragem cardíaca em pleno circuito, mas que os paramédicos conseguiram estabilizar o estado de saúde. Nessa altura, boa parte da imprensa já ia a caminho do Hospital Maggiore de Bolonha, para saber de novidades. Às 16:30, o primeiro boletim clínico, emitido pela equipa liderada pela chefe da neurologia, Dra. Maria Tereza Fiandri, era desanimador: o piloto brasileiro apresentava “um traumatismo craniano profundo, choque hemorrágico e coma profundo”. Esta hemorragia tinha sido causada “pelo rompimento da artéria temporal superficial”, devido à entrada do tal braço de suspensão pelo capacete adentro. Nessa altura, os médicos ainda discutiam se deveriam operá-lo de urgência, para tentar estancar a hemorragia. Mas quando viram que a lesão estava localizada na caixa craniana, essa hipótese foi descartada, devido à delicadeza da operação, e as dúvidas sobre algum eventual bom resultado. Senna era agora um vegetal, mas a morte cerebral ainda não tinha sido declarada.


No Brasil, o país assistia em estado de choque a todos estes acontecimentos, e quem tinha coragem para assistir tudo na TV, ficava por lá, esperançado num milagre. Muitos não aguentaram e saíram de casa, mas muitos choravam e rezavam por algo que poderia não acontecer. E todos esperavam pelo próximo boletim clínico.


O pelotão da Formula 1 também estava chocado. Ainda por cima, depois do acidente de Senna, outro incidente também tinha ocorrido durante a corrida: na volta 44, quando o Minardi de Michele Alboreto fazia o seu segundo reabastecimento, uma das rodas ficou mal apertada e soltou-se descontroladamente, atirando alguns mecânicos da Lótus e da Ferrari para o hospital. Quando um mal acontece, vem sempre em grupo… No pódio, ninguém estava feliz, e o champanhe não foi aberto. O vencedor, Michael Schumacher, declarara que “Não sinto qualquer satisfação por esta vitória”. Mas momentos antes, quando saíra do carro, tinha comemorado efusivamente, como se nada tivesse acontecido. E a mesma coisa ainda tinha acontecido no pódio, ignorando a gravidade de toda a situação. Tais gestos tinham caído mal em muita gente, particularmente no Brasil.


Mas agora, o mundo inteiro estava a querer saber o que se passava em Bolonha. E quando a Dra. Fiandri apresentou o boletim médico seguinte, pelas 18 horas, era o fim: “O electroencelafograma de Ayrton Senna não apresenta qualquer actividade. Continuamos com a ventilação pulmonar. Mantêmo-no vivo apenas porque a lei italiana ainda assim o exige. Não há mais esperanças”, concluiu. Por outras palavras, estava cerebralmente morto. A sua morte física foi confirmada uma hora mais tarde, quando o seu coração entrou em paragem cardíaca. Tinha 34 anos.


A notícia da sua morte só foi noticiada no Brasil uma hora depois do anúncio oficial em Itália, às 20 horas na Europa. Por essa altura, o seu irmão Leonardo velava o corpo, acompanhado por Frank Williams, o homem que lhe deu o seu primeiro teste na Formula 1, onze anos antes. Era um sonho de Frank Williams tê-lo como piloto, e quando o teve, tal relação era abruptamente interrompida. Lavado em lágrimas, pedia desculpa ao seu irmão pelo acidente fatal ter acontecido ao volante dos seus carros, pois era algo que nunca tinha acontecido antes. Para um homem como ele, que estava em cadeira de rodas oito anos antes devido a um acidente de viação, mas que anunca desistiu dos seus propósitos, era um dia negro para ele.

domingo, 22 de março de 2009

WTCC - Ronda 2, Puebla (Corridas)

Apesar da grande altitude da cidade mexicana (mais de dois mil metros), os Seat não tiveram muitos problemas em ganhar as suas corridas, embora tivessem de contar com a oposição dos BMW.


Depois de nos treinos, a armada espanhola ter perdido a “pole-position” a favor do brasileiro Augusto Farfus, a primeira corrida começou com o sueco Rykard Rydell a passar Farfus nos primeiros metros… e mais não saiu dali. A corrida foi um duelo entre a marca espanhola e a alemã, com Rydell a aguentar os ataques de Farfus e depois do inglês Andy Prilaux. Gabriele Tarquini e Yvan Muller também tentaram imiscuir-se na luta pela liderança, mas não foram muito felizes. O italiano foi quinto, depois de um toque e do desgaste dos pneus no final da corrida, no asfalto abrasivo da pista mexicana. O francês, que compartilhava a liderança com Tarquini, acabou na quarta posição.


Pior sorte teve Tiago Monteiro. O piloto português, sexto na grelha, depois de lutar pelos lugares da frente com Prilaux, um toque na quarta volta o fez entrar em despiste e cair para a última posição, fazendo depois uma corrida de recuperação até ao 11º lugar final, ultrapassando vários pilotos, e dois dos três Chevrolet Cruze oficiais, que sofrem por esta altura os típicos problemas de juventude do carro. Mas Nicola Larini conseguiu acabar esta primeira corrida na oitava posição, o que permitiu partir da pole-position na segunda corrida.


Nessa segunda corrida, ocorrida algumas horas depois, nova vitória Seat. Yvan Muller foi o vencedor, depois de suster durante grande parte da corrida as investidas do BMW de Andy Prilaux. A fechar o pódio ficou Rydell, que conseguiu terminar bem o seu fim de semana, depois da vitória na primeira corrida. Augusto Farfus foi quarto no seu BMW, enquanto que o melhor Chevrolet foi o de Nicola Larini, que acabou na décima posição.


Quanto a Tiago Monteiro... o azar continuou a perseguir. E desta vez, nem passou da primeira curva. Partindo do 11º posto, e na ânsia de alcançar os lugares da frente, bateu com o BMW privado de Stefano D'Aste, e ficou-se por aí. Quatro corridas... zero pontos.


O WTCC faz agora uma pausa de cinco semanas, até correr numa nova pista: Marrakesh, no sul de Marrocos, vai ser o palco da terceira jornada dupla do campeonato, e vai ser a estreia da competição por paragens africanas.