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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A imagem do dia


Ainda estamos a ressacar com o final da temporada de 2021, que aconteceu quase quatro semanas antes, no quarto - "ex aequo" - final mais tardio da história da Formula 1. Mas há 55 anos, a 2 de janeiro de 1967, o Mundial de Formula 1 tinha o segundo inicio mais cedo na história, superado apenas pela edição de 1965, que acontecera no dia 1º de janeiro. E no ano seguinte, esse recorde... seria igualado!

Mas mais que a a corrida que marcava a estreia de Kyalami no calendário da Formula 1, ficou também marcado pela história daquela que poderia ter sido o maior "patinho feio" da história. E não aconteceu por meras... sete voltas.

Em 1967, a Formula 1 ainda estava a adaptar-se aos motores de 3 litros, e nessa altura, apenas Honda, Maserati, BRM, Repco e Ferrari tinham-as nos seus carros. E eram todos V12. A Westlake estava a caminho, com o seu motor, para colocar no Eagle de Dan Gurney, mas não o traziam aqui, Ainda eram os Climax, que já tinham deixado de os desenvolver, e a Lotus ainda esperava pelo "seu motor", encomendado a Mike Costin e Keith Duckworth, e financiado pela Ford.

Poucos eram os pilotos de fábrica, e mesmo com os locais do muito ativo "campeonato sul-africano" de Formula 1, apenas 18 pilotos estavam presentes. E esses, todos eram bem experientes na coisa, como John Love.

Nascido a 7 de dezembro de 1924 na cidade de Bulawayo, a segunda maior da então colónia da Rodésia, começou a correr em meados dos anos 50 e foi campeão britânico de Turismo em 1962, com um Mini Cooper. Por esta altura, era dos maiores pilotos no campeonato sul-africano, e em 1967, aos 42 anos, participava num Cooper desenhado para a Tasman Series, com um motor... de 2,7 litros!

Apesar destes "handicaps", conseguiu um surpreendente quinto lugar, a 1,2 segundos do "poleman". E na corrida, apenas aguardou pelos azares dos outros para poder subir na classificação geral. E vna volta 59, quando Denny Hulme teve de ir às boxes porque perdia óleo no seu Brabham-Repco, o veterano rodesiano estava na frente da corrida. Se um privado era raro na história da Formula 1, este, que era apenas para participar nesta corrida, num carro desfasado, mais raro ainda!

Nas quinze voltas seguintes, o Cooper esteve à vontade naquela pista abrasadora naquela tarde de verão austral, e parecia que estava tudo desenhado para algo que não acontecia desde Stirling Moss, com os seus Lotus da Rob Walker Racing. É certo que a Team Gunston era a melhor naquelas bandas, mas vê-lo lutar pela vitória, só era possivel por causa da situação do pelotão naquela altura do campeonato, tão cedo na temporada e com projetos ainda muito precoces. Havia sempre espaço para uma surpresa, e eles iam a caminho de uma bem grande.

Mas a seis voltas do fim, o sonho de Love teve de acabar. Não tinha combustível até ao fim, e teve de reabastecer. Quem aproveitou foi Pedro Rodriguez, que a bordo do seu Cooper-Maserati, foi para a liderança e não o largou até ao fim, conseguindo a sua primeira vitória para o seu país. E se era uma festa para ele e para o México, havia um problema: se ele fosse para o pódio, não haveria hino para ouvir. Quanto a Love, ainda chegou para o segundo lugar, sendo o único pódio da Rodésia na Formula 1 - Zimbabwe, depois de 1980. 

E foi o ponto alto de Love. Correu até meados dos anos 70 na Formula 1 sul-africana, sendo campeão por cinco vezes, e o maior piloto da região no seu tempo, correndo em máquinas como Lotus, March e Surtees, entre outros. Ganhou seis vezes o Grande premio local, antes de pendurar o capacete e gerir a sua própria equipa, enquanto era o representante local da Jaguar em Bulawayo, até morrer, a 25 de abril de 2005, vitima de cancro, aos 80 anos de idade. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

A imagem do dia

Hoje em dia, ver pilotos a comemorar o Ano Novo longe das suas familias porque no dia seguinte vão começar a correr, é algo do qual só vemos no Rally Dakar. Mas meio século antes, não havia "rally-raids" como este, mas sim o GP da África do Sul, no circuito de Kyalami.

Sim, Jim Clark, Graham Hill, Jackie Stewart, Dennis Hulme ou Jack Brabham estavam em paragens sul-africanas para disputar a primeira prova de um campeonato que só retomaria... quatro ou cinco meses depois, em paragens europeias. Pelo meio tinham a Tasman Series, e sempre achei estranho porque é que os GP's da Austrália e da Nova Zelândia não faziam parte do calendário da Formula 1. Para mim, a única razão tinha a ver com a potência dos carros que participavam nas Tasman Series, que era diferente em termos regulamentares. Bastava uma unificação das séries, e se calhar teriamos a Formula 1 a correr há mais de 50 anos na terra dos cangurus, em vez dos trinta e um que leva agora.

Mas em 1967, a corrida em Kyalami, que aconteceu no segundo dia do ano civil, tornou-se num dos mais memoráveis da história do automobilismo. Não tanto pela lista de inscritos algo exótica - os sul-africanos do campeonato local apareceram em força, para correr ao lado dos consagrados - mas por aquilo que foi e o que poderia ter sido.

Os mexicanos comemoram hoje os 50 anos da primeira vitória de Pedro Rodriguez, mas poderíamos comemorar o aniversário da vitória de... John Love. Quem? Provavelmente o primeiro (e único) rodésiano (agora zimbabweano) que alcançou um pódio. Ficou em segundo lugar na corrida, mas a pouco mais de dez voltas do fim... liderava, a bordo de um Cooper que tinha um motor Climax com especificações... de Tasman Series, modificado para ser parecido com um motor de 3 litros. E digo "modificado", porque na realidade, tinha 2,7 litros.

No final, o pequeno depósito de gasolina que ele tinha não lhe dava para percorrer tudo até ao fim, logo, a vitória caiu ao colo de Pedro Rodriguez. E para ele, aos 26 anos de idade, e a fazer a sua primeira temporada a tempo inteiro - já veterano e já com fama na Endurance - parecia que aquela vitória em paragens sul-africanas tinha valido a pena, mais de três anos depois de ver o seu irmão Ricardo morrer, vitima da Curva Peraltada. Pedro Rodriguez poderia ser um dos vencedores mais inesperados, mas era mais conhecido do que... John Love. E se a vitória de Rodriguez tem o seu quê de fantástico, a realidade é que passamos ao lado da vitória mais sensacional da Formula 1, e provavelmente uma das vitórias mais sensacionais da história do automobilismo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

GP Memória - Africa do Sul 1966

A meio da década de 60, o Ano Novo para muitos pilotos de Formula 1 era passado em paragens sul-africanas, onde se disputavam algumas corridas por lá, integrados no campeonato local de Formula 1 (Sim, existiu. E escrevi sobre eles há pouco tempo), e por vezes o dia de Ano Novo era aproveitado para correr a principal prova do calendário local: o GP da África do Sul.

Em 1966, iriam entrar as novas regras em relação aos motores, que iriam dobrar dos 1.5 litros para os 3 litros, com a maior parte das equipas a construírem motores V12. Contudo, isso era algo que ainda estava no começo, e teriam de arranjar algumas soluções provisórias enquanto os motores definitivos não estavam prontos. E na África do Sul, a corrida veio tão em cima dessa mudança de regulamento que decidiu ser uma prova extra-campeonato, já que iria ser corrido a partir do ano seguinte no circuito de Kyalami, que estava a passar por obras de remodelação.

Apesar disso, algumas equipas oficiais iram participar por ali. A Brabham trouxe dois carros para Jack Brabham  -o único que tinha um carro pronto de acordo dom as novas especificações - e Dennis Hulme, enquanto que a Lotus trazia dois modelos 33 com motor Climax para Mike Spence e Peter Arrundel, que regressava à competição após um ano de ausência devido a um acidente a meio de 1964 em Reims. Já Rob Walker trazia dois Lotus-Climax para Jo Siffert e Jo Bonnier, enquanto que Reg Parnell tinha dois Lotus, um com motor BRM para Innes Ireland, e outro com motor Climax para o australiano Paul Hawkins.

Um BRP também alinhava nesta corrida, para o americano Richie Ginther, enquanto que Bob Anderson alinhava com o seu Brabham BT11 privado.

Já do lado local, eram muitos pilotos, capazes de baterem o pé aos estrangeiros. A scuderia Scribante tinha Dave Charlton e Jackie Pretorious, o primeiro num Brabham-Climax e o segundo num Cooper-Climax, enquanto que o resto alinhava em inscrições individuais. John Love tinha dois carros em seu nome, ambos Cooper-Climax, com o segundo a ser corrido por Tony Jeffries, enquanto que Pieter de Klerk estava num Brabham, Douglas Serruier num LDS-Climax, Sam Tingle num LDS e Clive Puzey num Lotus-Climax. Para finalizar, estava o britânico David Prophet, num Lotus com motor Maserati.

Como seria de esperar, Jack Brabham e Dennis Hulme ficaram com a primeira fila da grelha, com Brabham a ser o melhor, enquanto que Mike Spence entre eles, na segunda posição. John Love era o melhor dos locais, sendo quarto na grelha no seu Cooper. Innes Ireland era o quinto, seguido por Richie Ginther, enquanto que Pieter de Klerk foi o sétimo, seguido por Bob Anderson, enquanto que a fechar o “top ten” estavam o Lotus de Jo Bonnier e o Brabham de Dave Charlton.

O dia da corrida acontecia debaixo de céu nublado e alguma chuva, apesar de ter parado por alturas do inicio da corrida. Na partida, Mike Spence conseguiu ser mais veloz do que os Brabham e ficou com o primeiro posto, enquanto que atrás, John Love tinha problemas e perdia tempo para ajustar o volante, antes de largar e recuperar o tempo perdido.

Na segunda volta, Brabham passou Spence e começou a afastar-se dele, ganhando segundo após segundo nas voltas seguintes, enquanto que ele aguentava Dennis Hulme, enquanto que Innes Ireland era o quarto, adiante de De Klerk. Entretanto, a pista começou a secar por completo e a distância entre Brabham e Spence estava estabilizada nos cinco segundos, ao mesmo tempo que aconteciam as primeiras desistências, com Ginther a despistar-se e a bater em Bonnier, sem consequências fisicas.

Outro dos que se despistaram foi Bob Anderson, com os comissários de pista a decidiram empurrá-lo para o colocar de novo na pista. Isso aconteceu, mas a organização decidiu depois desclassificá-lo por este gesto.

Nada de especial aconteceu até à volta 49, quando a bomba de injeção do carro de Jack Brabham avariou, colocando-o de lado e terminando ali a sua impressionante corrida. Isso deixou Mike Spence na liderança, e isso aconteceu até ao final, com quase duas voltas (!) de avanço sobre Jo Siffert. Peter Arrundell era o terceiro, enquanto que Dave Charlton foi o melhor dos locais, na frente de Sam Tingle e John Love. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (última parte)

(continuação do capitulo anterior)


A CAMINHO DO SEU FINAL


Em 1974, tornava-se evidente que os custos começavam a subir e cada vez menos pilotos e equipas eram capazes de conseguir os carros que queriam para uma competição local como aquela. Num pelotão onde metade dos carros não eram de Formula 1, começava-se a pensar na utilidade desses carros quando haviam alternativas mais baratas, quer na Formula 2, quer na Formula 5000, uma competição que existia desde o inicio da década, onde os motores eram derivados dos Ford e Chevrolet americanos, e que tinha sucesso um pouco por todo o mundo, desde os Estados Unidos até à Austrália.

Apesar do dominio na competição, Charlton e a Scribante decidiram trocar de carro em 1974 para um McLaren M23, enquanto que a Gunston alinhava com dois Lotus 72E para Ian Scheckter e Paddy Driver. Eddie Keizan continuava com o Tyrrell 004, enquanto que John Love tinha por fim pendurado o capacete para se dedicar a dirigir a equipa Gunston.

A temporada foi praticamente um duelo entre Charlton e Scheckter, Gunston contra Scribante. Charlton começou bem, vencendo as cinco primeiras corridas do ano, vencendo depois em Kyalami, no Rand Winter Trophy, enquanto que na segunda parte, Scheckter foi o melhor, vencendo as quatro últimas provas de seguida, depois de ter vencido no Natal Winter Trophy. Mas Charlton foi mais regular e venceu o campeonato com 76 pontos, mais nove do que o irmão mais velho de Jody Scheckter, que por esta altura já brilhava nas pistas mundiais com um Tyrrell 007.

Em 1975, o pelotão estava cada vez mais pequeno, e os custos cada vez maiores. Sem estrangeiros a competir no campeonato, e com um calendário exclusivamente sul-africano (naquela temporada não foram mais à Rodésia), a "corrida aos carros" continuava, com Scheckter a comprar um Tyrrell 007, que tinha pertencido ao seu irmão, enquanto que Charlton mantinha o McLaren M23.

Como em 74, o duelo voltou a ser Scheckter contra Charlton, dividindo as vitórias entre si. E as coisas foram ainda mais apertadas, pois o primeiro desistiu na prova inicial, em Killarney, e no Natal Spring Trophy, enquanto que Charlton fora desclassificado em Goldfields, devido a irregularidades quando fazia a troca de pneus nas boxes. Na véspera da corrida final, o Rand Spring Trophy, em Kyalami, e aproveitando a desistência de Scheckter no Natal Spring Trophy, Charlton liderava com 48 pontos, contra os 47 de Scheckter, e eles sabiam que quem acabasse na frente, ganharia.

A 4 de outubro, em Kyalami, oito pilotos alinhavam para aquele que viria a ser a última corrida da história da Formula 1 sul africana. Para além de Schrckter e Charlton, estavam também Guy Tumner, Tony Martin, Roy Klomfass, Len Booysen, Noddy Limberis e André Vervey. Eddie Keizan acabou por não participar na corrida.

No final foi um duelo entre ambos, mas Scheckter puxou pelo seu Tyrrell e no final das 32 voltas à pista, acabou como vencedor e tornou-se campeão nacional, batendo Charlton no seu jogo. Guy Tumner ficou com o lugar mais baixo do pódio, na corrida que fez descer o pano de uma era no automobilismo sul-africano.


E DEPOIS DISTO TUDO?


Em 1976, a federação sul-africana decidiu que o campeonato continuaria a ser disputado com carros da Formula Atlantic, mais baratos do que os Formula 1. Isso foi demais para a United Tobbacco, que decidiu retirar o apoio às equipas que sustentava, a Gunston e a Lextington. Para Charlton, que estava perto dos 40 anos, achou que era altura de novos horizontes, quer na Endurance, quer nos Turismos, continuando a correr até 1990.

Sem Charlton, Ian Scheckter dominou, vencendo nas quatro temporadas seguintes com chassis March, onde pelo meio iria fazer uma temporada na Formula 1, em 1977 pela March, que já estava no seu estretor. Como seria de esperar, não houve resultados relevantes. Voltou a vencer em 1983 e 84, quando a Gunston regressou ao automobilismo, e esses campeonatos continuaram até 1986, quando Wayne Taylor foi o vencedor num Ralt-Mazda de Formula Atlantic.

Quanto ao irmão, sem passar por ali, teve uma carreira ilustre. Vice-campeão do mundo em 1977 pela Wolf, foi campeão dois anos mais tarde, pela Ferrari, antes de se retirar no ano seguinte, aos 30 anos de idade. Não mais viveu permanentemente na África do Sul, tendo decidido viver primeiro nos Estados Unidos, onde teve um negócio bem sucedido na industria do armamento, e depois na Grã-Bretanha, onde tem um negócio de agricultura biológica.

John Love ainda andou nos anos 80 com a sua própria equipa nos Turismos sul-africanos, antes de se reformar e gerir um concessionário da Jaguar em Bulawayo, no Zimbabwe. Acabaria por morrer em 2005, aos 80 anos, vitima de um cancro, três anos antes do seu compatriota Sam Tingle, aos 87 anos, na Cidade do Cabo. Dave Charlton morreria em fevereiro de 2013, também vitima de cancro, aos 76 anos.

Hoje em dia, desde Scheckter, não houve mais qualquer piloto sul-africano na Formula 1, apesar da corrida sul-africana ter ficado no calendário até meados da década de 80, num tempo em que se desafiava abertamente o boicote desportivo ao regime do apartheid. Somente em 1985, depois de uma forte pressão internacional, é que a Formula 1 saiu dali, regressando apenas em 1992, quando esse regime acabou por cair. Contudo, desde 1994 que a Formula 1 não visita o país.

Em jeito de conclusão, a história de um campeonato nacional de Formula 1 parece ser algo estranho nos dias de hoje, dada a elitização da competição e o facto destes carros serem muito caros para o bolso médio, mas quem segue a história do automobilismo, sabe que houve um tempo em que ter um carro destes era bem mais barato do que na atualidade, e com as equipas a construirem vários chassis para venda, era possível uma história destas.

domingo, 20 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (Parte 4)

(continuação do capitulo anterior)


AS AVENTURAS NO EXTERIOR


Em 1971, Charlton manteve o Lotus 49, enquanto pensava em ter o seu sucessor, o modelo 72. Apoiado pela tabaqueira Lucky Strike, sabia que teria de estar competitivo para evitar os ataques da Gunston, que arranja um modelo March 701 para John Love e Brabham BT26A para Jackie Pretorious. E é ele que se torna no primeiro vencedor, em Killarney, a 9 de janeiro, no Cape South Easter Trophy. 

Mas a partir dali, Charlton vence as duas provas seguintes, em Pietmaritzburg e em Kyalami, antes de Love ser o vencedor em Goldfields, no seu March. Charlton respondeu em Bulawayo e em Kyalami, no South African Republic Festival Trophy, antes de Pretorious ser o melhor no Natal Winter Trophy, em Pietmaritzburg. 

Pouco depois, Charlton consegue um Lotus 72, para andar a par dos carros da Gunston, e vence em Kyalami, mas Love é o melhor no False Bay 100, em Killarney e em Bulawayo, no GP da Rodésia. Mas nas duas últimas provas do ano, no Rand Spring Trophy e no Welkom 100, Charlton vence ambas as corridas e revalida o campeonato a seu favor, com 72 pontos, contra os 48 de Pretorious e os 45 de Love.

Para a temporada de 1972, Charlton manteve o Lotus 72, mas a Scuderia Scribante pensou em alargar-se para além da paisagem local. Durante a temporada de 1971, Charlton correu pela Brabham no GP da Africa do Sul, e aproveitou a sua passagem pela Grã-Bretanha para ir buscar o seu Lotus 72 para participar no GP britânico, em Silverstone, incluido na equipa oficial ao lado de Emerson Fittipaldi e Reine Wissell. Charlton até se qualificou bem, na 13ª posição, mas o seu motor explodiu logo na primeira volta, terminando prematuramente.

Em 72, as coisas foram perfeitas para Charlton, dominando o campeonato. Só não ganhou três corridas, uma delas vencidas por um estreante de 27 anos, Eddie Keizan, que corria pela Alex Bignault Raging, a bordo de um Surtees TS9. John Love ficara com as restantes vitórias, no Natal Winter Trophy e no GP da Rodésia, ambos a bordo de um Brabham BT33.

Mas entre vitórias, ele e a Scuderia Scribante foram à aventura europeia. Primeiro, correndo na prova local, terminando prematuramente na volta dois, com um problema na bomba de combustível. Depois, participando nas corridas de França, Grã-Bretanha e Alemanha, realizadas em três dos circuitos mais desafiadores de então. Em Charade, Charlton não conseguiu marcar um tempo e não se qualificou, e na corrida seguinte, em Brands Hatch, foi apenas 24ª na grelha e a sua corrida acabou na 21ª volta devido a um problema na caixa de velocidades. Em Nurburgring, Charlton lutou para se qualificar, e a sua corrida terminou na quarta volta, depois de sofrer problemas fisicos.

No final, a aventura foi pouco produtiva para o carro que tinha em mãos, e terminava ali a aventura no competitivo mundo da Formula 1. E ao redor da esquina, outros compatriotas preparavam-se para seguir o seu rumo. Mas eles não passariam pelo crivo local...


A NOVA GERAÇÃO... E A IRONIA DO MELHOR DE TODOS


O melhor piloto de Formula 1 da história deste país carrega consigo uma grande ironia: nunca participou em qualquer corrida do campeonato local. Jody Scheckter era um piloto veloz de East London, mas quando saiu da Africa do Sul em 1971, era o irmão mais novo de Ian Scheckter, nascido a 22 de agosto de 1947 em East London. Ambos eram filhos do representante da Renault na cidade, e claro, começaram a correr em modelos 8 Gordini. Cedo mostraram talento, mas Jody foi para a Grã-Bretanha, correr na Formula 3, enquanto que Ian, depois de experimentar os monolugares, regressou à África do Sul para andar no campeonato local, tentando quebrar o domínio de Charlton e Love, um veterano que já caminhava para os 50 anos de idade.

Em 1973, o regulamento permitiu a entrada de carros de Formula 2, e este se alargou para um pelotão de 15 carros. Charlton continuou com o Lotus 72, enquanto que Keizan andava num Tyrrell 003 da Lexignton Racing. Love tinha continuado num Surtees TS9 da Gunston, tendo como seu companheiro de equipa Paddy Driver.

Contudo, desde a primeira corrida, Charlton não deu qualquer chance à concorrência. Excepto nas corridas de Bulawayo e Goldfields, ganhos respectivamente por Eddie Keizan e John McNichol, o piloto da Scuderia Scribante dominou a concorência e conseguiu o seu quinto campeonato consecutivo, com 40 pontos de avanço sobre Keizan. Scheckter foi quarto, com apenas 29 pontos.

Meses antes, contudo, Charlton foi protagonista pela negativa. Na segunda volta do GP da África do Sul, em março, ele, que partia do 13º posto da grelha, tinha conseguido subir ao oitavo posto quando tentou passar o BRM de Clay Regazzoni. A manobra correu mal e ambos colidiram, levando consigo o Surtees de Mike Hailwood. Charlton conseguiu levar o carro até às boxes, para acabar por desistir, mas na pista, o drama acontecia, quando o britânico tentava tirar o piloto suiço do seu carro em chamas, preso devido ao cinto de segurança. Hailwood conseguiu tirar o piloto de lá, mesmo com o seu fato de competição em chamas. No final do ano, a sua coragem valeu-lhe ser condecorado com a George Medal, a mais alta condecoração civil por bravura.

(continua no próximo capitulo)

sábado, 19 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (Parte 3)

(continuação do capitulo anterior)


O PRIMEIRO PATROCINADOR DA FORMULA 1


No primeiro de janeiro de 1968, foi abolida a lei que obrigava as equipas a pintarem os seus carros de acordo com as cores dos seus países. Ou seja, os britânicos não eram mais obrigados a andar de verde, os franceses de azul, os italiano de vermelho ou os americanos de branco com faixas azuis. E isso fez com que os carros pudessem ser pintados de acordo com os seus patrocinadores.

A lenda conta-se que o primeiro a fazer isso foi Colin Chapman, que contactou a Imperial Tobacco sobre se não queriam ter o seu produto nos Lotus de Jim Clark e Graham Hill, logo em janeiro, quando estivessem a correr na Tasman Series. A troco de 60 mil libras para a Formula 1 e a Formula 2, e porque Geoffrey Kent, o presidente da Imperial Tobacco, achou "patriótico patrocinar uma equipa de Formula 1", Chapman ficou creditado como o percursor dos patrocínios na categoria máxima do automobilismo.

Na realidade, não foi bem assim. Na passagem do ano de 1967 para 1968, os pilotos estavam em paragens sul-africanas para correrem na primeira prova do ano, em Kyalami, e entre os Brabham e Lotus verdes, os Ferrari vermelhos e os Matra azuis, havia uns estranhos carros laranjas e castanhos. Eram os carros de John Love, Sam Tingle e Basil van Rooyen, pintados com as cores do seu patrocinador, os cigarros Gunston. Love alinhava num Brabham, Tingle no seu LDS e van Rooyen no Cooper T79 que quase tinha levado Love à vitória no ano anterior. 

Não era um patrocinador novo, pois estava com Love desde 1962, mas nunca pode usar as suas cores nos chassis dos carros que ele arranjou ao longo desses anos. Contudo, com o fim do regulamento que restringia a decoração dos carros às cores nacionais, eles decidiram aproveitar logo no primeiro dia.

Contudo, em termos de corrida, isso de pouco lhes valeu, pois Love não conseguiu mais do que o nono lugar, e o único a chegar ao fim, sendo o melhor dos locais numa corrida marcada pela 25ª e última vitória de Jim Clark na sua carreira, quatro meses antes do seu acidente mortal, em Hockenheim.

Em termos de campeonato nacional, alguns pilotos aproveitaram a proximidade do GP para correrem na primeira prova do ano, em Killarney. Jean-Pierre Beltoise levou o seu Matra à corrida e foi o vencedor, na frente de Jackie Pretorious e Sam Tingle, enquanto que Dave Charlton e John Love desistiram. Mas depois, Love venceu as três provas seguintes, o Rand Autumn Trophy, o Coronation 100 e o Republic Day Trophy, com Pretorious o unico a acompanhá-lo. Basil van Rooyen ven eu no Natal Winter Trophy, numa altura em que Love já tinha um Lotus 49, para vencer em East London e no Rand Winter Trophy, em Kyalami. Jackie Pretorious e Dave Charlton venceram nas duas corridas seguintes, mas Love voltava a ser campeão, com um avanço de 14 pontos sobre a concorrência mais próxima.


A PASSAGEM DO TESTEMUNHO


Parecia que por esta altura não haveria rival para o piloto rodesiano a não ser um seu compatriota, Sam Tingle, este um pouco mais velho do que ele (em 1968 tinha 47 anos!), mas no horizonte já espreitava um piloto com talento, mas sem uma máquina à altura, pois parecia que a Gunston tinha dinheiro mais do que suficiente para conseguir as máquinas mais desejadas da competição. A grande rival da Gunston era a Scuderia Scribante, uma equipa feita no inicio da década por Neville Lederle, para os seus carros, mas que depois foi gerido por Alex Blignaut, que tinha sido piloto em 1963, sem resultados de relevo. Em 1966 passou para o dirigismo, quando Lederle abandonou o automobilismo, mudando o nome para Scuderia Scribante e recrutando Dave Charlton para ser seu piloto.

Nascido a 27 de outubro de 1936 em Brotton, no Yorkshire inglês, Charlton veio para a África do Sul aos dez anos de idade. Cedo abandonou a escola e envolveu-se no automobilismo, primeiro na mecânica, e depois começando a competir, logo em 1960, aos 24 anos, num Austin Healey, vencendo a sua primeira prova, em East London. Contudo, só se virou para o campeonato em 1965, com um Lotus 20 da Ecurie Tomahawk, não conseguindo qualificar-se para a corrida.

No ano seguinte, porém, foi para a Scuderia Scribante, onde ficaria o resto da sua carreira, tornando-se no grande rival de John Love. Venceu três corridas em 1966 (Khumalo, Lourenço Marques e Kyalami), acabando no terceiro lugar do campeonato, e no ano seguinte, duas em Kyalami (Rand Autumn Trophy e o Rand Spring Trophy), sempre num Brabham BT11, acabando de novo no terceiro lugar, atrás de Love e Tingle. Em 1968, a bordo de um Lola-Chevrolet, apenas venceu o Rand Spring Trophy, em Kyalami.

Em 1969, a fasquia ficou bem elevada. A Gunston tinha comprado um Lotus 49 para Love, e ele dominou a competição, enquanto que Charlton apenas conseguiu uma vitória em Khumalo, com o seu Lola. Sabendo que as coisas teriam de se mudar, se queriam quebrar o dominio de Love, teriam de ficar a par em termos de máquina, senão superá-lo. Assim sendo, também arranjaram a máquina do momento, um Lotus 49 ex-de fábrica.

A temporada de 1970 parecia que iria ser como as outras, pois Love vencera na prova de abertura, a 10 de janeiro, na Cape South Trophy, em Killarney. Charlton tinha desistido, mas na Highveld 100, a 31 de janeiro, em Kyalami, Charlton vencia, com Love em segundo, e o mesmo resultado se repetiria na Coronation 100, em Pietmaritzburg. Mas a 6 de junho, quando regressaram a Kyalami, para o South African Republic Festival Trophy, Charlton foi segundo, numa corrida ganha por Pieter de Klerk, mas o seu rival Love tinha sido apenas o sexto.

Apesar desta vantagem, parecia que tudo voltaria à estaca zero quando desistiu na Bulawayo 100, em terras rodesianas, pois o vencedor tinha sido Love. Mas a partir dali, Charlton venceu as cinco provas seguintes, terminando o campeonato como vencedor, com 69 pontos contra os 37 de Love. Pela primeira vez desde 1964, havia um campeão diferente, e Charlton, doze anos mais novo do que Love, era o símbolo do futuro.

(continua amanhã)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (Parte 2)

(continuação do capitulo anterior)


JOHN LOVE, O PRIMEIRO DOMINADOR


Em 1963, sem Hocking, os grandes rivais para o campeão Pieterse eram Pieter de Klerk e Neville Lederle, já que outros pilotos, como John Love, tentavam a sua sorte em paragens europeias. Como Pieterse, Lederle tinha também um Lotus 20 para correr no campeonato, e foi algo fácil para ele, pois se tornou campeão com seis vitórias em nove possiveis, contra dois de De Klerk e uma de Syd Van der Vyer. Pieterse não ganhou qualquer corrida.

Já quando a Formula 1 regressou a East London, a 22 de dezembro, Lederle tinha-se lesionado num acidente e não participou, enquanto que todos os pilotos relevantes estavam lá, incluindo John Love, que foi o melhor dos locais... isto, se excluirmos Tony Maggs, que tinha sido décimo na grelha e sétimo na corrida. Maggs continuava a correr a tempo inteiro pela Cooper, e tinha conseguido um segundo lugar no GP de França, numa temporada dominada por Jim Clark.

Maggs continuaria a correr lá fora em 1964, desta vez com um BRM ao serviço da Scuderia Centro Sud, mas quem regressava para correr no campeonato local era o rodesiano John Love, que aos 39 anos, e depois de um acidente que o colocou fora de cena por boa parte do ano anterior, voltava para contrariar o dominio dos sul-africanos.

Nascido a 7 de dezembro de 1924 em Bulawayo, Love tornou-se mecânico antes de competir, quando preparava os motores do seu compatriota Jim Redman. Ele arranjou um Cooper de Formula 3 com motor Norton, que o montou e o fez entrar nas suas primeiras corridas, na Rodesia natal. Em 1958, passou para os automóveis e adquiriu um Jaguar D-Type, onde venceu o GP de Angola, em 1960. Pouco depois, rumou à Europa, participando na Formula Junior a bordo de um Cooper inscrito pela equipa de Ken Tyrrell, e chegou a andar num Mini no BTCC britânico, tendo vencido o campeonato em 1962. Contudo, um grave acidente em Albi, em 1963, quando corria numa prova de Formula Junior, fez cortar as esperanças de ir mais longe no automobilismo mundial. 

Depois de recuperar das suas feridas no braço direito, voltou à Africa do Sul e correu no campeonato local, embora tivesse tido a chance de correr pela Cooper no GP de Itália de 1964, no lugar de Phil Hill. Contudo, não conseguiu se qualificar para essa corrida.

Love já participava no campeonato desde o seu inicio, e foi o primeiro não-sul-africano a vencer em 1961, a bordo de um Cooper-Maserati, no Van Ribbeck Trophy, em Killarney. No ano seguinte, venceu no Rand Autumn Trophy, em Kyalami, antes de se dedicar ao campeonato a tempo inteiro, em 1964. Nesse ano, tinha um Cooper-Climax T55 que tinha arranjado no final da temporada de 1962, para correr no GP sul-africano, e numa temporada com 14 corridas - a maior de sempre, com uma ida à Rodésia e outra a Moçambique - Love entrou a matar em Killarney e Pietmaritzburg, com Clive Puzey a ser o vencedor em Kyalami, na Rand Autumn Trophy.

Depois de três vitórias de Pieter de Klerk no seu Alfa Spacial, Love venceu as três seguintes, incluindo a corrida moçambicana, e só voltaria a vencer no Rand Spring Trophy, a 10 de outubro, mas foi mais do que suficiente para vencer o seu primeiro campeonato. O que não se sabia era que até 1970, ele seria o unico vencedor.

Sem participar na temporada de 1964, a Formula 1 veio à Africa do Sul no dia de Ano Novo de 1965, em East London, com uma série de pilotos locais, tantos que a organização decidiu instalar um limite de 20 carros para participar. Ali, apenas De Klerk, Love, Tingle conseguiram qualificar-se, para além de Tony Maggs, que iria fazer ali a sua última corrida na Formula 1, antes de correr no campeonato local. De Klerk foi o melhor, chegando na décima posição, a seis voltas de Jim Clark, o vencedor.

A temporada de 1965 começou com o australiano Paul Hawkins a ser o vencedor da primeira corrida do ano, o Cape South Easter Trophy, mas nas restantes treze provas, o vencedor foi um só: John Love, fazendo com que a revalidação do seu título fosse uma formalidade. O dominio de Love em 1966 foi um pouco menos óbvio, pois foi o vencedor em sete das treze corridas daquela temporada, com Dave Charlton a vencer em três e Sam Tingle a ser o vencedor numa prova, bem como o britânico Bob Anderson.


O DIA EM QUE O LOCAL QUASE GANHOU


Sem Formula 1 em 1966 por causa do novo circuito, esta voltou a contar no calendário em 1967, sendo o primeiro do ano, e logo... no dia 2 de janeiro. Na lista de inscritos estavam apenas quatro pilotos que alinhavam nesse campeonato: os sul-africanos Luki Botha e Dave Charlton, e os rodesianos John Love e Sam Tingle. Love alinhava com um Cooper-Climax que tinha sido feito para correr na Tasman Series, com um motor de 2,7 litros, bem menos potente do que os carros com 3 litros que já existiam, mas que ainda eram muito frágeis em termos de durabilidade. Contudo, esse motor era muito glutão e o consumo de combustível era bem maior do que o normal, e para isso, Love tinha arranjado um depósito de combustivel suplente para ver se conseguiria ir até ao fim.

Quanto aos outros, Charlton e Botha tinham um Brabham-Climax cada um, e Tingle alinhava com um LDS-Climax.

Apenas com 18 carros inscritos, era fácil para os locais conseguirem resultados de relevo. E assim foi: Love ficou com o quinto tempo, Charlton com o oitavo, ambos entrando no "top ten", entre os grandes pilotos do pelotão da Formula 1. Para ficar com uma ideia, ambos ficaram na frente de, por exemplo, Jackie Stewart!

Na partida, os Brabham ficaram na frente, com Dennis Hulme a comandar as operações, com Surtees e Love logo a seguir. Brabham despistou-se e caiu para o quarto posto, antes de desistir na volta 41, enquanto que Love passou Surtees para ficar com o terceiro posto.

As coisas ficaram assim até à volta 59 quando Hulme começou a ter problemas nos seus travões, obrigando-o também a parar, no sentido de os reparar. O tempo perdido fez com que o líder fosse, sensacionalmente... John Love! E num carro desfasado!

Nas voltas seguintes, a veterania de Love fez com que pudesse andar de forma calma e consistente, poupando a mecânica enquanto podia e mantendo as distâncias. E à medida que se aproximava do fim, parecia que o impossível iria acontecer: uma vitória surpresa de um piloto que não fazia qualquer temporada completa no Mundial de Formula 1.

Contudo, a sete voltas do fim, o sonho acabou. Love notou que o seu Cooper não teria o combustível suficiente para chegar ao fim, e teve de ir às boxes para fazer um reabastecimento. Assim sendo, a liderança caiu nas mãos de outro piloto estreante nestas andanças, o mexicano Pedro Rodriguez, a bordo de um Cooper-Maserati, e só teve de o levar até à bandeira de xadrez, conseguindo estrear-se na galeria dos vencedores. E Love chegou ao segundo posto, a sua melhor posição de sempre, e a única vez que um rodesiano subia ao pódio de um Grande Prémio de Formula 1.

Em termos do campeonato local, Love continuou com o Cooper, mas trocou a meio do ano para ter um Brabham BT20, usado pela equipa oficial em 1966, mas mesmo com o carro antigo, venceu três corridas, antes de conseguir mais cinco com o carro novo, e sewndo campeão com trinta pontos de avanço com o seu maior rival, Dave Charlton, a ser o vencedor apenas no Rand Autumn Trophy e no Rand Spring Trophy, ambos em Kyalami.

(continua amanhã)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A quase zebra de Kyalami

(...) Contra eles estavam a fina-flor do automobilismo local. Inscritos estavam Dave Charlton e Luki Botha, bem como dois rodesianos, Sam Tingle e John Love, ambos veteranos com mais de 40 anos de idade.

 A corrida iria acontecer num novo autódromo, construído nos arredores de Joanesburgo, de seu nome Kyalami. Traduzido do zulu, significava "minha casa" e era de fato uma casa adequada para a Formula 1 e para o automobilismo local, apesar de já existir desde 1961 e de ter tido um evento de ensaio no ano anterior, vencido por Mike Spence. (...)

 (...) As coisas ficaram assim até à volta 59 quando Hulme começou a ter problemas nos seus travões, obrigando-o também a parar, no sentido de os reparar. O tempo perdido fez com que o líder fosse, sensacionalmente, o de um piloto local! Nas voltas seguintes, a veterania de Love fez com que pudesse andar de forma calma e consistente, mantendo-se as distâncias, e à medida que se aproximava do fim, mais parecia que o impossível iria acontecer, uma vitória surpresa de um piloto que não fazia qualquer temporada completa no Mundial de Formula 1, e ainda por cima, num carro que não era feito para esta competição. Contudo, não iria ser o dia dele. A sete voltas do fim, notou-se que o seu Cooper não teria o combustível suficiente para chegar ao fim, e teve de ir às boxes para reabastecer. Assim sendo, a liderança caiu nas mãos de outro piloto estreante nestas andanças, Pedro Rodriguez, e só teve de o levar até à bandeira de xadrez, dando a primeira vitória de sempre a um mexicano. (...) 

Há precisamente 45 anos, a Formula 1 chegava a um novo circuito na Africa do Sul. Em Kyalami, logo após o Ano Novo, o pelotão competia no quente verão austral e as surpresas foram muitas. Por pouco, um piloto local ia vencendo uma corrida e no final, o piloto que subiu ao lugar mais alto do pódio foi um estreante, que tinha ido para a Cooper... numa base provisória. Para Pedro Rodriguez, foi o passaporte para se manter permanentemente na Formula 1, mas para John Love, por pouco não alcançou algo inédito. Ainda por cima numa máquina desenhada inicialmente para a Tasman Series... 

 Tudo isso e muito mais podem ler hoje no Portal F1.com

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O piloto do dia - John Love

Esta semana continuo com os pilotos vindos de África. Depois de Tony Maggs, falo de outro piloto que foi um dos grandes do seu tempo no campeonato nacional de Formula 1, ganhando por cinco vezes, mas também foi protagonista de uma corrida fora do vulgar no Ano Novo de 1967, no Circuito de Kyalami. Senhoras e senhores, hoje falo de John Love.


John Maxwell Lineham Love nasceu em Sailsbury, na Rodésia (actual Bulawayo, no Zimbabwe) no dia 7 de Dezembro de 1924 (faria agora 83 anos). Começou a sua carreira após ter combatido como soldado na II Guerra Mundial, participando em provas de motociclismo ao longo da década de 50.


Contudo, em 1958 virou-se para o automobilismo, com um Jaguar D-Type, onde ganhou várias provas em África, entre os quais o Grande Prémio de Angola de 1960, em carros de Sport. Nesse ano, vai correr na Europa, com um Lola de Formula 2, onde obtêm alguns bons resultados.


No ano seguinte, volta à Europa para dirigir os Coopers de Formula Junior, na equipa de Ken Tyrrell, tendo como companheiro de equipa o sul-africano Tony Maggs. Foi uma dupla bem sucedida, e em 1962, Tyrrell chama Love para correr no Campeonato de Turismos Britânicos, com uma Mini Cooper, tornando-se campeão. Entretanto, começou a entrar na Formula 1, no Grande Prémio da Africa do Sul, onde termina na oitava posição.


Em 1963, volta à Europa, para correr em Formula Junior, mas sofre um grave acidente no circuito francês de Albi, onde fractura seriamente o braço esquerdo, fazendo encerrar a sua carreira internacional, bem como as hipóteses de correr a tempo inteiro na Formula 1. Aliás, nesta altura, ele tem 38 anos...


Sendo assim, resta o campeonato sul-africano de Formula 1, onde era um classico favorito ao título nacional. É assim que participa nos Grandes Prémios de Formula 1, como um piloto local que aproveitavam a participação dos pilotos internacionais para medirem forças. em 1964 ganha o primeiro dos seus seis títulos na Springbok Series, o título oficial do Campeonato sul-africano de Formula 1.

Contudo, em 1967, uma série de factores farão com que John Love seja a personagem central de uma fantástica, senão inesperada história na Formula 1, quando se vê na hipótese de se tornar no primeiro piloto local a ganhar um Grande Prémio de Formula 1!


A história é simples: a 2 de Janeiro de 1967 começava a nova Formula de três litros. Contudo, muitos dos carros ainda não estavam prontos como motores adequados, tendo alguns deles juntado dois motores Climax de 1.5 Litros para fazerem um motor de 3 Litros. Os motores Cosworth só iriam aparecer meses mais tarde, e safavam-se como podiam. A Lotus usava motores BRM H16, que Clark disse um dia serem "os piores que alguma vez conduzi". Para piorar as coisas, o calor (verão austral) e a altitude (1500 metros) só traziam vantagens aos pilotos da casa.


Nestas circunstâncias, John Love, com um Cooper T79 privado, usado por Bruce McLaren para as Tasman Series, com dois anos de idade, aproveitou estas circunstâncias para marcar o quinto tempo nos treinos, e depois aproveitar as desistências e problemas dos Lotus de Graham Hill e Jim Clark para subir na classificação, onde a meio da corrida era terceiro, com Jack Brabham e Dennis Hulme à sua frente. Contudo, o piloto australiano atrasou-se e mais tarde, Hulme teve que ir à boxe com problemas nos travões. A 20 voltas do fim, John Love era o líder!


Foi um sonho que durou até a seis voltas do fim. Um vazamento de combustível levou-o a ir para as boxes e colocar gasolina suficiente para acabar a corrida. Quem se aproveitou disto foi o mexicano Pedro Rodriguez para alcançar a primeira vitória da sua carreira, num Cooper-Maserati. Love teve que se contentar com um segundo lugar. No final da época, classificou-se na 11ª posição, com seis pontos.


Até 1972, participou nos Grandes Prémios sul-africanos, guiando carros como Cooper, Brabham, Lotus, March e Surtees. Após isso, virou-se para a direcção de equipas nos Superturismos sul-africanos, na década de 80. Para além disso, tornou-se no representante da Jaguar no agora Zimbabwe. Morreu, vítima de cancro, a 26 de Abril de 2005, aos 80 anos.


A sua carreira na Formula 1: 10 corridas, em 10 temporadas (1962-65, 1967-72), um pódio, seis pontos.



O feito de Love foi durante muito tempo o maior que aquele canto de África teve, até ao aparecimento em cena de Jody Scheckter, alguns anos mais tarde. Contudo, o feito alcançado naquela tarde de Verão austral de 1967 foi algo incomparável, ainda mais para os dias de hoje.


Fontes:


http://en.wikipedia.org/wiki/John_Love
http://www.f1rejects.com/
http://www.historiasdaformula1.blogspot.com/
http://www.grandprix.com/gpe/drv-lovjoh.html