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sábado, 1 de novembro de 2014

Formula 1 2014 - Ronda 17, Estados Unidos (Qualificação)

Ao aproximarmos do fim desta temporada, vemos que a unica coisa que poderia tirar a luta pelo título entre os pilotos da Mercedes apareceu em força. Enfim, pensando bem, já sabíamos que isto iria acontecer, e quando aconteceu, o pelotão não ficou indiferente, tanto que correram rumores sobre um possível boicote. Se não sabíamos ou não queríamos saber antes, agora não há fuga possível: a Formula 1 está em crise.

Se na pista, parecia que Lewis Hamilton fazia o seu melhor, colocando o seu carro no topo da tabela de tempos, nos bastidores, as pessoas falavam de dinheiro, de uma nova maneira de distribuir o bolo que Bernie Ecclestone dá todos os anos às equipas. É verdade que dá às grandes e deixa às medias à sua sorte, dizendo uma espécie de "temos pena" aos que não aguentam as despesas e se vão embora, porque parece que há sempre uma carta na manga. E claro, se Bernie pedir à Ferrari, McLaren, Mercedes e Red Bull um carro extra, tudo se resolve, porque elas têm dinheiro para isso, dão dinheiro para isso. Parece que os 35 milhões necessários para colocar um carro extra existem aos pontapés em Milton Keynes, Estugarda, Salzburgo ou Maranello...

Com as nuvens negras no ar, a qualificação começa em Austin com apenas 18 carros em pista. Daniil Kvyat, Sebastian Vettel e Jenson Button tinham penalizações por causa do motor e da caixa de velocidades (no caso do britânico da McLaren). E claro, decidiram modificar o Q1 e o Q2, fazendo com que desta vez quatro carros sejam eliminados em cada uma dessas duas sessões.

Ao fim de 18 minutos, tivemos resultados interessantes: se a Romain Grosjean e a Esteban Gutierrez esperávamos que estivesse nesse lugar, e Sebastian Vettel, porque "decidiu fazer o minimo olimpico", já Jean-Eric Vergne foi uma pequena surpresa, pois não estava nem com penalização, como estava o seu companheiro de equipa. E o mais estranho é que acontece um ano depois de termos visto Vettel e Grosjean na primeira fila na qualificação de 2013...

Passando para a Q2, não houve grandes novidades. As trocas dos médios para os macios, por causa da temperatura do asfalto, deram algumas mexidas interessantes, e no final, Nico Rosberg conseguiu tirar... um segundo a Lewis Hamilton. E entre os que conseguiram chegar ao "top ten", Adrian Sutil conseguiu entrar na Q3 pela primeira vez na temporada, em prejuízo de Pastor Maldonado.

Contudo, vai ser a parte final da qualificação que será a parte mais interessante. O primeiro a dar nas vistas foi Valtteri Bottas, com 1.36,906. Massa tentou, mas não conseguiu, mas Nico Rosberg reagiu, conseguindo um tempo seis décimos melhor do que o piloto da Williams. Hamilton chegou atrás dele por cerca de 0,1 segundos, mas ficava com o segundo melhor tempo. Mas parecia que o piloto inglês tinha chegado ao seu limite, o que poderia significar que o alemão estaria a caminho de uma pole-position.

A cinco minutos do fim, todos trocaram de pneus para ter um jogo final para conseguir marcar o seu tempo na grelha. A excepção era Adrian Sutil, que tinha ficado na boxe, poupando jogos de pneus para amanhã. Na última tentativa, o alemão tirava os melhores tempos intermédios e tirava 1,36,067. Hamilton tentava a sua sorte, mas tinha menos 376 centésimos do que o filho de Keke Rosberg e era o poleman de Austin. Valtteri Bottas ficava com o terceiro melhor tempo, à frente de Felipe Massa, Daniel Ricciardo e Fernando Alonso.

No final, a Mercedes conseguia pela sexta vez consecutiva o monopólio da primeira fila da grelha de partida neste temporada, a décima de 2014, o que demonstra esta temporada. E os pilotos que ficaram atrás deles só demonstram um pouco a hierarquia atual, mesmo sem a presença das equipas que compunham o fundo do pelotão. E amanhã iremos ver se a corrida nos mostrará alguma surpresa agradável... ou não.

A ameaça de boicote paira sobre Austin

O rumor veio forte, vindo da Twittersfera. Aparentemente, Lotus, Sauber e Force India ameaçaram boicotar a corrida de domingo caso as suas vozes fossem realmente ouvidas no agora famoso "Grupo de Estratégia". Todas estas equipas vieram logo desmentir o boato, vindo principalmente dos jornais ingleses, mas parece que a ideia ficou no ar: com a Marussia e a Caterham ausentes de Austin, com a grelha reduzida a 18 carros, algumas das equipas do meio do pelotão começaram a "bater o pé" para dizer que ou se mudam as coisas - nomeadamente os pagamentos que a FOM dá às equipas, por exemplo - ou iriam fazer algo que espantaria o mundo.

E o sitio onde iriam fazer não é virgem. Não, não é Austin, mas sim Indianápolis, onde nove anos antes, apenas seis carros alinharam na corrida, depois de que as equipas que tinham pneus Michelin decidiram não alinhar na corrida devido às suas preocupações com os seus pneus na oval americana, depois do forte acidente de Ralf Schumacher durante os treinos livres de sexta-feira.

Ver algo parecido nove anos depois seria algo para envergonhar de novo a Formula 1, precisamente no mercado onde querem conquistar o público. Ou se preferirem, onde Bernie Ecclestone adoraria colocar metade do campeonato, se pudesse.

Entre os que não acreditam nisto e os que secretamente adorariam ver o circo a arder, francamente estou no lado das bancadas, esperando para ver o que vai acontecer. Espero sempre o inesperado, e a acontecer, seria mais um episódio dos tempos conturbados que esta Formula 1 vive. E provavelmente, cada vez mais, vejo que a FIA poderá ter de intrevir, para tomar conta deste desporto. Eles podem, se quiserem. E tenho a sensação de que Jean Todt está a ver comigo, na bancada, esperando pelo momento em que o incêndio alcance o seu auge. Para depois pegar nas cinzas e fazer as coisas à sua maneira. Pode não ser em Austin, Interlagos ou Abu Dhabi, mas vai acontecer. É inevitável.

E a solução do terceiro carro apenas poderá adiar o fim, digo eu.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O apelo de Vatanen ao boicote e o seu significado

Os rumores de que a União Europeia pode estar a pensar em apelar ao boicote desportivo à Rússia estão a fazer agitar os corredores da FIA, pois irá este ano a Formula 1 irá pela primeira vez à Rússia. E esta quinta-feira, o finlandês Ari Vatanen tornou-se na primeira personalidade desportiva de relevo a apelar ao boicote. Antigo candidato às eleições na FIA, em 2009, e agora membro de uma comissão da FIA, comentou hoje ao jornal britânico Daily Telegraph, dando as razões pelos quais é valido o boicote europeu ao GP russo e do qual a FIA deveria seguir.

"Iremos apoiar um regime que está por trás deste derramamento de sangue? Ou vamos dizer que isso não é correto? [Se não fizermos nada] seria enviar uma mensagem de aceitação para a Rússia. Diria que toleramos, talvez não de forma explícita, mas pelas nossas ações que nós toleramos o que está acontecendo, porque ele é usado em propaganda."

"Costuma-se dizer que na Fórmula 1 não deve misturar política e desporto, mas o regime russo já está a misturar política e o desporto de uma forma descarada, por isso temos de responder. É por isso que Bernie e os proprietários deviam cancelar a corrida.", comentou.

"É uma situação sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, e nós temos que nos perguntar como a história vai se lembrar de nós e aquilo que fez ou deixou de fazer.", concluiu.

Contudo, não vai ser fácil: Bernie Ecclestone quer a corrida e o acordo é bem "gordo": 120 milhões de libras por cinco anos, acordados diretamente entre os "anõezinhos" Bernie e Putin, e faltam cinco semanas para que tal aconteça, já que a corrida está marcada para o dia 12 de outubro. E quanto à posição de Jean Todt, ele afirma que as suas declarações são parcialmente suportadas pelo presidente da FIA.

O Jean sabe dos meus comentários, falamos disso. Penso que partilha parcialmente a minha visão. Estamos de mãos atadas. Não posso dizer coisas mais aberta e livremente do que ele. Não estou a dizer que ele concorda com tudo o que eu digo, mas ele tem uma margem de manobra muito mais reduzida, não pode fazer grandes mudanças de um dia para o outro”, comentou.

A interpretação destas declarações está a ser vista por alguns meios desportivos como um teste, afirmando que Vatanen é uma espécie de "Cavalo de Troia" no sentido de testar as águas sobre tal hipótese, para ver qual será a reação das pessoas acerca desta hipótese. É certo e sabido desde há algum tempo que há uma guerra surda entre Todt e Ecclestone, mas o francês não quer entrar em guerra aberta com o britânico, sob o risco de cindir a Formula 1 em duas entidades.

O tempo irá mostrar as reações a este apelo não só na Formula 1, mas fora dessa bolha no qual eles vivem. Faltam cinco semanas para Sochi.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

As sanções internacionais e a ameaça de boicote sobre o GP da Rússia

A cada dia que passa sobre o conflito russo-ucraniano, e as hipóteses de sanções quer por parte da União Europeia, quer dos Estados Unidos aumentam, dado que os russos parece que se envolvem cada vez mais no leste do país, com o envio de armas - e ao que parece, tropas - o nervosismo cresce dentro do meio da formula 1 sobre o GP da Rússia, em Sochi, a 12 de outubro. É sabido que Bernie Ecclestone está disposto a levar a corrida para adiante, mas poderá ter as coisas dificultadas pois hoje surgiram rumores de que a Europa e os Estados Unidos poderão recomendar um boicote cultural e desportivo à Rússia. E isso poderá passar pelo Grande Prémio e pelo Mundial de Futebol, que ser realizará em 2018.

Nos próximos dias existirão reuniões da NATO, en Swansea, no País de Gales, e na sexta-feira, a União Europeia revelará o pacote de sanções que aprovou na semana passada em Bruxelas. E a imprensa internacional fala que serão sanções bem duras à Rússia, que poderão envolver desde restrições no mercado de capitais, embargo tecnológico e por último, isolamento internacional de eventos desportivos e culturais. E se o Mundial de 2018 ainda é um evento distante, já a Formula 1 é mais próximo, e isso está a causar ainda mais nervosismo, apesar das repetidas garantidas por parte de Bernie Ecclestone de que a corrida se realizará.

"Boicotar realizações desportivas internacionais passará a ideia de um regresso à Guerra Fria", afirmou um analista do grupo de consultadoria Euro Asia Group ao jornal Financial Times. "Contudo, isto vai ferir mais os russos do que propriamente a União Europeia", concluiu.

Contudo, Bernie Ecclestone continua a afirmar que apesar das ameaças, tudo vai acontecer conforme o planeado. E é ele próprio que diz que "temos um contrato e respeitamos contratos", como ele também elogiou Vladimir Putin e a maneira como ele faz as coisas. "Ele é confiável. Ele quer que a corrida aconteça e vamos fazer com que ela aconteça", afirmou numa entrevista ao jornalista Chris Sylt.

Que Bernie adora pessoas com poder, isso não é novidade. Já elogiou Adolf Hitler, Robert Mugabe e Margaret Thatcher no passado, e Putin encaixa no estilo de pessoa autoritária que ele sempre gostou e gosta. Contudo, sabe-se há muito que a história do GP russo mexe com as pessoas dentro do meio, e isso viu-se há mês e meio, quando no fim de semana do GP da Hungria, os rebeldes russos na Ucrania abateram um avião malaio. Logo, surgiram as perguntas sobre se ainda estariam dispostos a ir à Rússia. E isso incomodou o pessoal da Formula 1, como Christian Horner, da Red Bull.  

Contudo, a ideia do boicote cultural e desportivo é algo que a União Europeia poderá deixar para mais tarde, caso haja um agravamento da situação no Leste do país, apesar de existir conversações em Minsk entre ambos os lados para chegar a um acordo de paz. Contudo, é melhor esperar pelo final da semana para saber o que Estados Unidos e Europa decidirão fazer para penalizar a Rússia, e até que ponto este conflito no Leste ucraniano irá afetar a Formula 1.

Se o pior acontecer, as tensões no próprio paddock aumentarão certamente, pois faltam nesta altura cinco semanas para o Grande Prémio. E mais perguntas incómodas serão colocadas, a começar agora, em Monza...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Noticias: Raikkonen ignora eventual boicote da GPDA

Se o fim de semana do Grande Prémio da Alemanha está a decorrer sem incidentes até agora, todos pensam na ameaça feita ontem pelos pilotos da GPDA (Grand Prix Drivers Association), que afirmou abandonar a corrida caso haja novos rebentamentos de pneus. Até agora, nada houve - provavelmente porque a Pirelli desta vez trouxe pneus com um cinturão de kevlar - mas são interessantes as declarações que Kimi Raikkonen fez esta tarde, sobre esta matéria.

O piloto finlandês é um dos três que não faz parte da GPDA - os outros dois são o seu compatriota Valtteri Bottas e o alemão Adrian Sutil - e disse de sua justiça quando foi questionado sobre a hipótese de não correr, como os outros: “Todos têm sua opinião. Vou correr quando eu quiser e é isso.” E sobre os novos pneus, o piloto da Lotus também se mostrou tranquilo. “Já tínhamos visto no Canadá que esses pneus são um pouco melhores, então não espero que seja diferente. Os pneus são mais ou menos os mesmos, então não espero que faça nenhuma diferença.”, concluiu.

E parece que, a ver o que se passou nos treinos livres de hoje, que a Pirelli fez um bom trabalho para evitar novos furos. Uma cobertura de kevlar e alterações na pressão dos pneus fizeram com que não existisse mais furos, mas o fim de semana mal começou. E ainda falta muito para que toda a gente possa respirar de alivio...

Mas já agora: se o pior acontecer, Bottas e Sutil também ignorarão o boitoce? 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Última Hora: GPDA ameaça de boicote o GP da Alemanha

Já se falava disso logo no domingo, no final da tarde inglesa, em Silverstone. Mas depois houve silêncio, esperando talvez cabeças mais frias. Mas esta quinta-feira à tarde, em Nurburgring, voltou a ameaça: os pilotos abandonam a corrida de Nurburgring caso se repitam os problemas com os pneus ocorridos há cinco dias, na pista britânica.

A GPDA emitiu um comunicado, onde apesar de manifestarem confiança de que as alterações feitas pela Pirelli resolvam os problemas pendentes, expressaram também as suas profundas preocupações com o estado dos pneus e ameaçaram que caso algum desses problemas volte a acontecer durante as sessões livres ou na qualificação do GP alemão, os pilotos se recusarão a correr.

A Grand Prix Drivers’ Association (GPDA) deseja manifestar as suas mais profundas preocupações acerca dos eventos que ocorreram em Silverstone", começa por afimrar o comunicado. "Estamos confiantes de que as mudanças feitas aos pneus obtenham os resultados desejados e que problemas semelhantes não ocorram durante o fim de semana deste Grande Prémio."

"Estamos preparados para guiar os nossos carros até ao limite, como todos os nossas equipas, fãs e patrocinadores nos esperam que façamos. Contudo, os pilotos decidiram que caso novos problemas aconteçam durante o Grande Prémio da Alemanha, iremos imediatamente retirar-nos do evento, pois estes problemas são perfeitamente evitáveis, e colocam em perigo as vidas dos pilotos, dos comissários de pista e dos fãs", concluiu.

A ameaça está feita, e agora o GP da Alemanha ganhou mais atenção. Só que ela é das mais indesejadas...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

As polémicas e ameaças sobre os pneus rebentados de Silverstone

Os eventos de ontem, em Silverstone, deixaram as pessoas que seguem a Formula 1 muito abaladas com os constantes furos que aconteceram a alguns pilotos, como Lewis Hamilton, Sergio Perez ou a Jean-Eric Vergne. A Pirelli já disse que iria analisar os pneus afetados e a FIA, na figura de Jean Todt, já convocou uma reunião para quarta-feira, na sede de Paris, com a Pirelli e outros responsáveis. E Martin Whitmarsh já deixou no ar a hipótese de boicote ao GP alemão.

Sobre a corrida em si, fala-se hoje que Charlie Whitting, o representante da FIA nos circuitos, esteve muito perto de ter interrompido a corrida por razões de segurança. Whitting admitiu isso, em declarações à Autosport britânica: "Tal ideia me ocorreu, é verdade. Não lhe vou dar detalhes sobre quantos mais furos teriam de acontecer, mas sabia que estaria a colocar os comissários em risco sempre que eles iriam para a pista para retirar os destroços".

Os engenheiros falavam ao longo da corrida que as zebras nas curvas 3 e 4 poderiam ser os responsáveis pelo desgaste prematuro dos Pirelli, e ao longo da corrida, fartaram-se de alertar os pilotos para os evitarem. No final, um Paul Hembery de semblante carregado afirmava: “Obviamente que houve alguns problemas com as falhas nos pneus traseiros da esquerda que não vimos anteriormente. Estamos a enfrentar esta situação de forma muito séria e estamos neste momento a investigar estes pneus para determinar a causa o mais rápido possível, antes do próximo Grande Prémio na Alemanha.", começou por dizer.

"Para já, não podemos dizer muito mais até termos investigado totalmente e analisado todos os incidentes, o que é a principal prioridade. No entanto, podemos excluir problemas no novo processo de fusão de elementos, que introduzimos nesta corrida. Pode haver algum aspecto neste circuito que tem um impacto específico na última versão do nossos pneus de especificação 2013, mas neste momento não queremos especular antes de termos recolhido todas as provas necessárias a saber o que se passou e tomando os passos apropriados para resolver esta questão.”, concluiu.

Hembery recordou também que a Pirelli há muito tinha solicitado alterações na composição dos pneus, o que não foi possível devido a ser necessário que todas as equipas concordem com a mudança. E nesse campo, a Lotus, Force India e Ferrari não tinham concordado. Pode ser que agora se levantem esses obstáculos, mas mesmo que aconteça hoje, só entrariam em ação na Hungria, o que deixaria o GP da Alemanha, que vai acontecer no próximo domingo, com pilotos e equipas numa situação aflitiva.

E por causa disso, Martin Whitmarsh, patrão da McLaren e chefe da FOTA, começa a falar abertamente na possibilidade de boicote à corrida de Nurburgring, devido às preocupações com a segurança. Numa entrevista à Sky Sports, afirmou: "Existe o perigo de um boicote se as equipas não ficarem convencidas e os pilotos não ficarem convencidos que podem correr em segurança", começou por dizer.

"Mas não é isso que necessitamos na Formula 1. Encaramos anteriormente algumas situações antes, como em Indianápolis [GP dos Estados Unidos de 2005, onde apenas seis carros alinharam à partida], e isso foi terrivel para o nosso desporto. Logo, esta não é altura de paontar dedos mas sim de trabalhar juntos e encontrar soluções para este problema", concluiu.

Contudo, a edição de hoje da Autosport britânica fala que os eventos poderão ter sido o resultado daquilo que os engenheiros chamam de "tempestade perfeita": no desenho das zebras, na pressão dos pneus e no desenho da pista, que fizeram com que os pneus se desgastassem ainda mais, causando os furos que todos nós vimos na televisão. Mais detalhes dessa análise podem ser lidos aqui.    

Em suma, tudo isto por causa de um elemento de segurança que fracassou de forma estrondosa. Os próximos dias serão muito interessantes de seguir para saber o que a FIA irá fazer nesse campo, onde muitos cenários estarão, certamente, em cima da mesa.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O GP do Bahrein, visto pelos Repórteres Sem Fronteiras

Descobri esta graças ao "McLarenista confesso" Becken Lima: a campanha dos Reportéres Sem Fronteiras contra a realização do GP do Bahrein, usando a famosa imagem do homem que enfrentou uma coluna de tanques na Praça de Tienamen, em junho de 1989.  

Por muito que Bernie Ecclestone e a FIA diga que está tudo bem, há demasiada coisa podre no Emirado do Bahrein para ignorar... os barenitas não gostaram da decisão da FIA, e como já sabem que o circo vai chegar à cidade, vão fazer o seu melhor para que a estadia seja inesquécivel.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

5ª Coluna: As certezas a doze dias do Bahrein

Quem vê esta fotografia, que encontrei ontem no site Grande Prêmio, parece que está tudo em paz e sossego, vivendo no melhor dos mundos. Mas na realidade, há manifestações e os habitantes são hostis com a presença da Formula 1, pois acham que está ao serviço de um governo repressor, do qual pretendem derrubar para encetar reformas democráticas. E pior do que isso, a cada dia que passa, mais parece que a organização da Formula 1 deseja estar no lado hostil da situação, julgando que está a fazer um favor. Na realidade, poderá estar a destruir a sua credibilidade.

Nas últimas horas - e dias - assistiu-se a uma espécie de "blame game" onde cada uma das partes diz que não tem qualquer poder para adiar ou cancelar o Grande Prémio. Como disse ontem, Bernie Ecclestone afirma que não pode obrigar as equipas a irem a lugar onde não querem ir, mas imediatamente a seguir, diz que caso o façam, será visto como uma quebra do contrato. Poucas horas depois, a FOTA, a associação das construtoras da Formula 1, diz que não cabe a elas cancelarem o Grande Prémio, pois é uma prova organizada pela FIA.

Mas sei que isso já tinha sido referido no inicio de março, quando um grupo de deputados britânicos tinham pedido à entidade liderada por Jean Todt para que não fossem ao Bahrein. E eles responderam que quem organiza o calendário é... Bernie Ecclestone. Em que ficamos? Na culpa que morre solteira. Ou que nenhuma das partes quer ser a que dá o "passo decisivo", pois assim não terá de devolver os mais de 40 milhões de dólares que a familia real do Bahrein pagou para ter a Formula 1 por lá.

Mas ontem à noite, o jornal "The Guardian" afirmava que Jean Todt, o presidente da FIA, e Bernie Ecclestone tinham chegado a um acordo para convencer as equipas para irem ao Bahrein e que iriam convencê-los esta sexta-feira, em Xangai, de que tudo está seguro, apesar dos protestos populares. Há uma boa razão para que ambas as partes tenham esta convergência de opiniões, e isso se chama de "influência". O Bahrein tornou-se, graças aos seus multios milhões, numa potência junto da FIA, e por causa disso, esta temporada teceberá quase tudo que tenha rodas e um volante, à excepção do WRC. Haverá duas rondas da GP2, o Mundial de Resistência estará por lá em setembro, e uma das finais do Mundial de karting será nesse emirado. E tudo graçasa aos gostos automobilisticos do filho do emir...

Com as equipas a terem de decidir até este final de semana, as pessões, como podem entender, são grandes. E os receios crescem na mesma proporção. Um bom exemplo desse receio é o que o Luis Fernando Ramos, o Ico, escreveu esta quarta-feira na sua coluna no site Total Race. O título que ele usa diz tudo: "Insensatez", e este parágrafo é revelador da mentalidade dominante na categoria: 

"O pior é que precisamos lamentar mais a inabilidade da Fórmula 1 de sair dessa situação do que a instabilidade no Bahrein. Ao menos, manifestações populares contra regimes totalitários sinalizam mudanças. Mas o regime totalitário da F-1 coloca seus interesses financeiros acima de tudo. Até mesmo acima da imagem da categoria, que merecerá todos os adjetivos de estúpida, arrogante e mercenária se fizer seu show para as arquibancadas sempre vazias do circuito do Sakhir enquanto, a poucos quilômetros dali, a polícia sentar o pau no povo do país." 

"E todo esse desgaste absolutamente desnecessário em meio a um campeonato que começou muito bacana na esfera esportiva. Chegou a hora da F-1 viver sua revolução política."

Sei que os barenitas não raptam pessoas, mas acho que se planeassem uma "Operação Ecclestone" para perturbar o Grande Prémio, não ficaria admirado. 

domingo, 8 de abril de 2012

Sobre o Bahrein, a quinze dias da corrida

A duas semanas do GP do Bahrein, nunca se falou tanto do pequeno emirado como foi neste final de semana. Vi noticias nos canais internacionais como na CNN e na BBC. A Al-Jazeera, que já falava desde há algum tempo, voltou à carga. E tudo não só por causa da chegada da Formula 1 à região, mas também por um novo fato, e se chama Abdulhadi Alkhawaja

Quem é ele? É um proeminente ativista dos Direitos Humanos, com uma dupla nacionalidade barenita e dinamarquesa, preso devido ao seu envolvimento nos protestos e agitação social no ano passado. Preso e condenado a prisão perpétua no ano passado, Alkhawaja decidiu há 59 dias entrar em greve de fome, até que as suas exigências de uma amnistia geral sejam atendidas. E pelas últimas noticias, pode estar à beira da morte, pois está muito fraco. E caso ele morra antes do - ou no final de semana de - dia 22 de abril, dia do Grande Prémio, as coisas poderão piorar bastante mais, com centenas de milhares de pessoas na rua e potencial para destruição de pessoas e bens. 

Kevin Connolly, o correspondente da BBC naquela região, afirmou sobre esta situação: "As autoridades estão desesperadas por terem a Formula 1, pois é um símbolo da sua normalização politica e aproximação ao Ocidente. E os protestantes sabem que a chegada da Formula 1 ao seu país é uma oportunidade de aparecerem de novo nas primeiras páginas de uma forma que nem sempre acontece".

As pressões são muitas, quer para um lado, quer para o outro. Há neste momento, como muitos sabem, uma batalha nas redes sociais, como o Twitter e o Facebook, para que se boicote o GP barenita. E também muitas pessoas nessas redes sociais pensam que se os pilotos agissem individualmente, ou em grupo, afirmando que não querem correr ali por temerem a sua segurança, ou porque são solidários com o povo local e o seu sofrimento, ou então porque não são marionetas politicas de ninguém, as coisas seriam diferentes. Sim, mas eles estão "presos" a compromissos das equipas, dos patrocinadores, dos financiadores. Calam-se hipócritamente, dizendo o que vão na alma apenas "off the record". E não são só eles: os mecânicos, os engenheiros... todos eles temem pelo Bahrein. E temem também que a Formula 1 veja a sua reputação manchada por isto.

Mas nada dizem, porque quem manda no circo é Bernie Ecclestone. Ninguém gosta de meter a boca no trombone e incomodar o velho anão, que quer ajudar a familia real barenita, e especialmente o principe herdeiro, que é um verdadeiro "petrolhead". Afinal de contas, para Ecclestone, certamente ele não deve ter ninguém que queira dar 60 milhões de dólares somente para ser a corrida de abertura do campeonato, como fizeram em 2010, e como iam fazer em 2011. 

Ironicamente, graças ao testemunho do Luis Fernando Ramos, vulgo o Ico, descobri hoje que ir ao Bahrein é bastante mais fácil do que pedir um visto à China. Não sei se tem a ver com a dimensão dos países ou se tem a ver com o tipo de visitante, mas toda a gente no meio diz que muito provavelmente, não fará a viagem nem à China, nem ao Bahrein. E não tem a ver com a situação dos Direitos Humanos em ambos os países, mas mais com motivos práticos e de burocracia.

E com isto tudo, cada vez mais me convenço que a "Formula Ecclestone" vai para esses lugares apenas por causa do dinheiro... 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

5ª Coluna: porque é que decidi boicotar o GP do Bahrain

Como qualquer amante do automobilismo, sou bastante critico da posição atual da Formula 1, do rumo que esta está a tomar, devido à sua busca quase incessante de dinheiro, especialmente na Ásia e Médio Oriente, por parte de Bernie Ecclestone. Esta semana lia o The Mole, o blog provavelmente mais "insider" da Formula 1 que pode existir, e dizia que a principal razão pelo qual a Formula 1 estava no Golfo Pérsico, por exemplo, era que a CVC Capital Partners, que comprou a FOM (Formula One Management), tinha feito algures em 2006, um enorme emprestimo - mais de mil milhões de dólares - e uma das maneiras de pagar rapidamente esse empréstimo era o de ir para a Ásia, para países como Singapura, India, China ou Bahrein, era que ganhariam um "status" e respeitabilidade na cena internacional. Em suma, tiques de novo-rico.

E com Bernie Ecclestone a mandar no circo, como faz há mais de 35 anos, onde ele quer é onde vai. E foi por isso que a Formula 1 está no Bahrein: porque as autoridades locais lhe pagam sem problemas 40 milhões de dólares para o ter, numa ilha pequena, no meio do Golfo Pérsico, e com uma população de menos de um milhão de habitantes. Tem um enorme poço de petróleo debaixo dos seus solos, e com o preço do petróleo pela hora da morte, ganham milhares de milhões de dólares, só nessas receitas.   

Contudo, estes são tempos agitados. O Médio Oriente vive a sua Primavera Árabe, com revoluções na Tunisia e Egito, com gerras civis na Líbia e Síria, ditadores pendurados na ponta de uma corda, como aconteceu a Muhammar Khadaffi, e o Bahrein não foi excepção. Houve agitação social em fevereiro desse ano, e este foi tal que as autoridades não tiveram outra alternativa que cancelar o Grande Prémio, que iria ser a primeira corrida do ano. E para isso, tinham pago... 60 milhões de dólares. 

Contudo, Bernie Ecclestone quer que a Formula 1 volte ao Bahrein este ano. Nunca desistiu disso. Tentou remarcar a corrida para outrubro de 2010, e só após muitos protestos, é que recuou nessa decisão. E agora quer levar para lá, custe o que custar, para compensar os 40 milhões - agora - que o regime barenita paga. Mas a situação não se acalmou, muito pelo contrário. Continuam as manifestações, as agitaçoes, as mortes. Podemos ser neutros até um certo ponto, mas não podemos ser surdos. Há sempre "linhas vermelhas" do qual estabelecemos em nós mesmos e do qual não atravessamos, pois faz parte da nossa "persona". 

E como Ecclestone tomou o partido de um lado, quando decidiu levar a Formula 1 para o Bahrein, contra tudo e contra todos, eu tomo o partido do outro. Ou seja, decidi boicotar o GP do Bahrein, da mesma forma que tomei a decisão de não falar sobre o GP da Hungria de 2010, após a decisão da Ferrari em que Felipe Massa de ceder a vitória a favor de Fernando Alonso.

Não acredito - e não me tentem convencer - que a Formula 1 "leve alegria ao povo barenita" como o governo quer fazer crer. Aliás, duvido que a Formula 1 naqueles lugares seja um desporto popular, como é na Europa. Sempre acreditei que a história do Bahrein não é mais do que o sonho de um "petrolhead" que está num lugar muito proeminente, o principe herdeiro. O governo gastou mais de 150 milhões de dólares para construir um circuito decididamente aborrecido, do qual a extensão de 2010 o fez aborrecer cada vez mais. Também sempre achei o GP do Bahrain um "corpo estranho" do qual uma pessoa pagou tudo o que Ecclestone pediu só para dizer aos seus amigos: "Vêm? Trouxe a Formula 1 ao meu lugar". Que a Formula 1 vive numa bolha, isso é certo. Mas sempre achei a Formula 1 no Bahrein um desses extremos.

Suspeito que se isto for para a frente, será um desastre de relações públicas. Nada impede os manifestantes de invadirem a pista e perturbarem os treinos ou a corrida. Certamente que a população fará demonstrações hostis, do qual a policia reprimirá com gás lacrimogéneo, coisa que fazem há muitas semanas. Recomendo-vos um artigo que li esta semana na versão inglesa da Al-Jazeera, onde se fala que esse ar crescentemente irrespirável poderá ter efeitos a longo prazo nas pessoas, especialmente nas crianças. Um dos piores pesadelos será eles fazerem manifestações no final de semana de Grande Prémio, do qual a policia poderá reprimir com gás lacrimogéneo, e isso afetar pilotos ou funcionários das equipas.

E também há outra coisa do qual eu boicoto o Bahrain: aquilo é um tilkódromo. Um aborrecido tilkódromo. Simboliza toda aquela modernidade irritativa e aborrecida e que nos impõem. Para mim, é como se fosse óleo de figado de bacalhau: engulo aquilo com dificuldade. Os únicos que deixo "escapar" serão Sepang e Istambul, e este último já não está mais no calendário da Formula 1. E pior do que isso, não "engulo" de todo a existência de um circuito urbano em Valencia, uma cidade que tem uma pista permanente como o Ricardo Tormo. Só porque é desenhado pelo Hermann Tilke? É mais um exemplo, se quiserem, de como a Formula 1 é há muito tempo uma "Formula Ecclestone".

Em suma: a Formula 1 não deveria tomar partido por ninguém. É uma competição desportiva e não politica, mas com Bernie Ecclestone ao leme, ou a puxar os cordelinhos, é infelizmente o dinheiro que manda. E muitas vezes no passado, os regimes autoritários pensaram muito em operações de relações públicas, para passar ao resto do mundo uma imagem de normalidade. Foi assim na Argentina entre 1977 e 1981, e um pouco no Brasil, no tempo do regime militar, foi assim na Africa do Sul no tempo do "apartheid", que foi a unica modalidade que visitava o país, muito depois do Comité Olimpico Internacional, a FIFA e até as organizações de rugby e cricket o tivessem banido. Até 1985, quando  grande parte dos governos ocidentais exigiu à então FISA para que cancelasse o Grande Prémio. Nesse aspecto, Bernie Ecclestone mostrou-se um teimoso de primeira classe, fazendo com que a corrida fosse adiante. Com estes episódios do passado, não é agora, no "baixo" dos seus 81 anos, que vai mudar de opinião ou cederá às pressões da maioria. É por isso que adora ditadores, regimes autoritários, ou se preferirem, os que pagam o preço que pede sem fazer perguntas...

Mas se Bernie Ecclestone pode tomar partido por governos autoritários, para poder receber do seu bolso o dinheiro que lhes pagam, eu também posso tomar partido. E o meu é simples: boicoto o GP barenita. E como eu, muitos pensarão e farão assim, mesmo os que não vão para lá cobrir o Grande Prémio e os que ficam como eu, sentados nas suas secretárias a escrever sobre aquilo que mais gostam.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Bahrein, ainda o Bahrein

Como já previa, à medida que o 22 de abril se aproxima, e também se aproxima o primeiro aniversário das manifestações na Praça das Pérolas, os ativistas voltam à carga e a policia, bem como o governo, reage da única maneira que sabem: a repressão e a violência. E com a aproximação dos "Dias da Raiva", as preocupações sobre o regresso da Formula 1 à pequena ilha do Golfo Pérsico aumentam exponencialmente, com apelos ao boicote e as inúmeras desconfianças da comunidade internacional sobre as boas intenções que o emirado emite, afirmando que "tudo voltou à normalidade".

Quanto jornalistas prestigiados como Nick Kristoff, do New York Times, afirmam que foram barrados de entrar no emirado pelas autoridades locais, e quando uma série de membros da Câmara dos Lordes escrevem uma carta aberta ao The Times de Londres, apelando à FIA para que deixe cair o GP do Bahrein, ficas tremendamente cetico sobre as noticias institucionalizadas pelas agências oficiais, por muito verdadeiras que elas sejam. E aqui estou a ser factual.

E mesmo quando o Joe Saward fala hoje do comunicado que alguns parlamentares britânicos, pro-Bahrein,  lançarem, afirmando que estão preocupados com as movimentações dos seus colegas, lançando um comunicado afirmando que o governo barenita lançou uma série de medidas, quer em termos de um inquérito independente para encontrar responsáveis pela repressão de março e abril do ano passado, afirmando que "a resposta do governo do Bahrein foi notavelmente diferente [do que alguns paises que viveram a Primavera Árabe, como o Egito, a Síria e a Líbia], convidando advogados especializados em direitos humanos, instaurou o Bahrain Independent Commission of Inquiry (BICI), para investigar [os abusos das autoridades] e decidiu implementar as suas recomendações."

Aqueles que desejam que o Bahrein continue no caminho das reformas não ajudarão em nada ao apelar ao cancelamento do Grande Prémio. Aliás, a presença de milhares de turoistas ocidentais e de jornalistas só trará maior incentivo às autoridades do Bahrein para continuar no caminho das reformas e demonstrar ao mundo a sinceridade das mesmas e que o seu apoio é fundamental", conclui o comunicado, emitido pelos depoutados Conor Burns e Thomas Docherty, respecticamente, presidente de vice-presidente Grupo Parlamentar Conjunto Reino Unido-Bahrein.

Pois bem, vamos fingir que isto não é um comunicado cosmético, de relações públicas. Pretendamos que a família real barenita é genuína na parte de pagamento de indemnizações às vítimas da repressão policial, que reintegrou as pessoas que foram demitidas devido à sua participação nas manifestações, entre outras medidas, que modificou as leis, o sistema judicial, entre outros, e que tudo voltou à normalidade e no dia 22 de abril, o mundo inteiro irá, alegre e feliz, ao Bahrein, ao aborreecido circuito de Shakir, ver mais uma vitória de Sebastian Vettel, no seu Red Bull, a espalhar o pseudo-champanhe daquela região, que proíbe o alcool, devido ao preceitos religiosos do Islão. A conclusão que chego é que este forte "lobby" governamental está a fazer tudo para que o GP do Bahrein seja realizado na data prevista, e isso mostra até que ponto a Formula 1 é uma questão de vida e de morte para a família real naquele país.

Contudo, à medida que os dias passam, fico com cada vez mais dúvidas sobre a realização da corrida. Não só por causa das manifestações por si, mas também por isto: numa era de comunicação total, onde se mostra tudo, quem quererá correr num país em "estado de sítio", eventualmente com tropa na rua e bancadas desertas? Mesmo que o governo pague às pessoas para irem ver a corrida no circuito, mesmo que dêm aos jornalistas vistos para assistirem ao Grande Prémio, como acontece noutros lados, pergunto-me se por muito que tentem fechar os olhos, não notar o desconforto que vai ser de andar por ali? De  quantos jornalistas que costumam cobrir as corridas não serão barrados no aeroporto, com a entrada negada por um motivo qualquer? E os que tiverem a sorte de entrar, será que a sua liberdade de movimentos não será "tutelada" por um simpático funcionário local, que dirá ao jornalista ou ao fotógrafo, onde ir ou não ir, que fotos tirar ou não tirar?

Francamente, não sei. Confesso ter imensas dúvidas. E não vejo outra justificação da FIA continuar por este caminho que não o financeiro, as tais "40 milhões de razões" que normalmente vem aos cem e tem cara de Benjamin Franklin, um dos "Founding Fathers", pais da independência americana e árduo defensor da democracia. Soa a irónico, hein?

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Noticias: Politicos britânicos pedem à FIA para que não vá ao Bahrein

Como todos sabem, o calendário de Formula 1 de 2012 tem um grande escolho chamado "GP do Bahrein". E a cada dia que nos aproximamos do dia 22 de abril, o incómodo que isso causa devido à agitação social que ocorre nessa ilha no Golfo Pérsico começa a ser notado. E o mais recente capítulo desse incómodo ocorreu hoje, quando após mais um incidente na ilha onde a policia cortou os dedos a um cidadão com passaporte britânico, oito representantes da Câmara dos Lordes escreveram uma carta aberta ao jornal "The Times" de Londres, apelando à FIA para que abdique de ir ao Bahrein na data prevista.

"Caro Senhor, Notamos com preocupação a decisão da Formula 1 de ir correr no Bahrein no mês de abril", começaram por afirmar os subscritores dessa carta aberta, descrita também no Autosport britânico. "A crise no Bahrein está a ser uma fonte de instabilidade na região do Golfo, e a falta de acções em direção à reconciliação politica preocupa a todos os que desejam ver o país em direção de uma maior responsabilidade democrática".

"Nos últimos dois meses, temos visto um entrincheirar de posições por parte dos dois lados que arrisca a que vozes mais extremas comecem a ditar o progresso deste conflito. Nesta altura, com manifestações diárias e as motres de civis, não acreditamos que este é o tempo certo para o regresso da Formula 1 ao Bahrein", continua a carta. 

"O Bahrein é um ponto de comércio e de negócios no Médio Oriente, e isto tras maior responsabilidade. Direitos Humanos e estabilidade económica são dois fatores indissociáveis e o governo barenita tem de fazer mais para persuadir organizações internacionais que o seu local é suficientemente estável para os negócios. Até que o governo tome medidas para reformar os sistemas eleitoral, penal e judicial, quer os obsrrvadores internacionais, quero os cidadãos comuns não tem a confiança suficiente de que o Bahrein está no caminho da estabilidade politica. Assim sendo, pedimos à FIA para que reconsidere a decisão de ir correr no Bahrein", conclui a missiva, assinada por membos do Partido Conservador como Lord Ahmad of Wimbledon and Lord Boswell, que como membro do parlamento tinha sido eleito pela circunscrição onde se situa o circuito de Silverstone, mais o Lord Ahmed of Rotherham, o primeiro nobre de origem muçulmana, e os Liberais-Democratas Lords Alton, Avebury and Baronesa Falkner of Margravine.  

E à medida que o dia do calendario se aproximar do tal dia 22 de abril, mais vozes irão certamente se levantar, com cada vez mais apelos ao boicote, algo que provavelmente só terá paralelo com os eventos de outubro de 1985, quando o mundo tentou convencer - sem grande sucesso, diga-se - de que a Formula 1 boicotasse o GP da Africa do Sul, devido ao regime do "apartheid". 

E tal como em 1985, a pessoa que mandava na Formula 1 é a mesma: Bernie Ecclestone. Que disse no mês anterior no jornal austriaco Salzburger Nachtirchten que está pouco preocupado. "Toda a gente fala muito dessa parte do mundo, mas o Bahrein é o país com menos problemas na região", afirmou na altura. E isto não vai ficar por aqui...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Acham que vamos ter Formula 1 no Bahrein?

Desde que se conhece o calendário de Formula 1 da temporada de 2012, no final do ano passado, que se sabe do espinho chamado GP do Bahrein, que está marcado para o dia 22 de abril no circuuito de Shakir. Toda a gente sabe que passear por esse emirado do Golfo numa altura tão complexa que está a ser as revoluções árabes, no qual o caso barenita é um exemplo de "como não se deve atender às necessidades de um povo", do qual só os sírios fazem pior.

A parte politica é conhecida de todos: os xiitas, que são a maioria da população, contra sunitas, de que faz parte a familia real, numa luta por direitos iguais em termos de não só a representação politica como também de outras coisas como acesso a empregos e a habitação condigna. As demonstrações fizeram mossa no inicio de 2011, de tal forma que o GP barenita, que deveria ser a primeira prova do ano foi cancelada. Só que após um período de repressão e acalmia, com inquéritos e julgamentos, tanto para o melhor (alguns policias foram condenados por abuso de poder) como para o melhor (médicos julgados e condenados por prestarem assistência a revoltosos), as coisas voltaram a ter um novo pico com a prisão e espancamento de um ativista da oposição, que fez com que o Centro de Direitos Humanos do Bahrein apelasse neste domngo a que equipas e pilotos boicotassem o GP barenita, vocalizando explicitamente aquilo que já se murmura desde há algum tempo.

Nabeel Rajab, o seu vice-presidente, expressou esse desejo. Numa entrevista a uma revista árabe, reproduzida pela BBC, afirmou: "Iremos fazer campanha para que... equipas e pilotos boicotem [a corrida]. O Governo deseja a Formula 1 [no seu país] para passar uma imagem ao mundo exterior de que tudo voltou ao normal. Se a Formula 1 vier, está a ajudar nessa mensagem, e perferíamos que ela não colaborasse. Tenho a certeza que os pilotos e as equipas respeitam os Direitos Humanos."

Claro, os organizadores já menorizaram esse apelo, e todos nós sabemos que o que respeita Bernie Ecclestone são as verdinhas. E ele é um sujeito que não é nada politicamente correto. Basta ir à história e ver que levava a Formula 1 na Africa do Sul nos tempos do "apartheid" até 1985, numa altura em que este país tinha sido expulsa de todas as entidades desportivas. Só nesse ano é que as pressões da comunidade internacional foram bem mais fortes do que o habitualmente suportável. E Bernie Ecclestone quer a corrida barenita porque... é uma grande fonte de receita. E ainda por cima, o principe herdeiro é um grande fã de automobilismo e a pessoa que está por trás da construção e realização dessa corrida. Um homem raro para Ecclestone, porque nos tempos que correm, quem é que estará disposto a dar 60 milhões de dólares num abrir e fechar de olhos para ser a corrida de arranque do campeonato?

Contudo, toda a gente sabe desde o inicio que o Bahrein é, no minimo, um incómodo. Todos sabem que não querem correr por lá, mas existem contratos para serem cumpridos e as penalizações serão bastante altas. Mas os patrocinadores são influenciáveis pelos seus consumidores e poderá haver ações coordenadoras de grupos para convencerem esses patrocinadores para que não vão até lá. E a própria população barenita pode se mobilizar para um "dia de raiva" nas semanas anteriores ao final de semana do Grande Prémio, a 22 de abril. Caso isso aconteça, - confrontos ou o estado de emergência no país - muito provavelmente as seguradoras poderão ameaçar o cancelamento dos seus seguros caso insistam na passagem por essa ilha do Golfo Pérsico...

Uma coisa e mais do que certa. Abril vai ser um mês muito quente naquelas bandas.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A situação atual e no fim, um apelo ao boicote ao GP barenita

Preferi escrever isto no final do dia pois queria ler as reações da gente ligada ao automobilismo à decisão da FIA de recolocar o GP do Bahrein a 30 de outubro, no lugar do GP da India, que em principio, será realizado a 11 de dezembro e será a corrida de encerramento do campeonato.

Nas horas que se seguiram ao anuncio oficial, a reação foi quase unânime: condenaram, de forma mais ou menos veemente, a decisão tomada pelo organismo comandado por Jean Todt, e cujos cordelinhos são movidos por Bernie Ecclestone. Ninguém tem dúvidas que foi Ecclestone que puxou as coisas para esse desfecho, pois foi ele o unico que defendeu o regresso da Formula 1 ao emirado, ainda em 2010, e no meio daquela agitação que ainda decorre, como vos falei ontem na minha habitual coluna.

Jornalistas consagrados como Adam Cooper ou James Allen já reagiram estando contra tal decisão. Joe Saward considera-a como "bizzara". Ex-pilotos como Stirling Moss e Martin Brundle também disseram no Twitter serem contra tal decisão, e mais reações surgirão ao longo das horas que se seguem. Quanto às equipas, depois do que a Red Bull disse, de modo oficioso, nada mais se ouviu falar, por agora, mas começa-se a entender que as equipas poderão marcar uma reunião para discutir este tema. Eles que sempre torceram o nariz para o regresso ao emirado, tem agora uma oportunidade de ouro para demonstrar para que serve a FOTA, se é uma união onde todos falam a uma só voz, ou algo inutil, que serve os interesses de equipa A ou B.

E esse é um ponto importante: equipas como a McLaren, Mercedes, Williams ou Ferrari que tem parcelas minoritárias pertencentes a fundos vindos do Golfo, como Qatar, Abu Dhabi ou Bahrein. Esses fundos são soberanos, ou seja, pertencem aos governos locais, e como sabem, já não eram conhecidos pelo seu bom comportamento em termos de direitos humanos, e agora com a "Primavera Árabe", e as respectivas reações, pior ainda.

O caso barenita é o mais exemplar deles todos naquela zona, e a sensação que fica é que a FIA volta para lá como forma de recuperar os 40 milhões de dólares que Bernie Ecclestone acordou com a familia real. Sempre acreditei nisso, por muito que ele diga o contrário, como disse esta manhã. E ao ver onde é que o Bahrein fica no "gordo calendário" de 2012, ao ser a prova de abertura, cinco meses depois desta corrida, só posso pensar que o Tio Bernie está obcecado com a sua parte de um bolo de 60 milhões de dólares.

Portanto, estamos a ver o autismo da FIA, de Jean Todt e de Bernie Ecclestone. Do anãozinho, nada de novo. Se ele elogia de quando em quando Adolf Hitler ou Robert Mugabe, é o sinal mais óbvio que ele não acredita na democracia, que o dominio de um homem só, decidindo como se fosse o representante de Deus na Terra é melhor do que todos decidirem em princípios elaborados num contrato social. Já fez isso no passado, quando a FIA ia alegremente à Africa do Sul nos anos 70 e 80, em plena era do dominio da minoria branca no pais, quando a FIFA, o Comité Olimpico Internacional e as federações de Cricket e Rugby expulsavam as selecções sul-africanas devido à sua politica de "apartheid". Só em 1985, quando algumas nações ocidentais apertaram os calos a algumas equipas, bem como os patrocinadores, é que deixaram de correr em Kyalami.

E é aí que quero pegar agora: há 25 anos atrás, o Ocidente foi bem sucedido em convencer a FIA a abandonar Kyalami. Será que não se poderá fazer o mesmo? Sei que a "realpolitik" muitas vezes tem dois pesos e duas medidas, e em muitos aspectos, os governos ocidentais não tem a mesma força para condenar o governo barenita da mesma forma que condenaram Muhammar Khadaffi ou Bashar Al-Assad. E mesmo assim, como sabemos, as reações foram diferentes: no caso libio, a NATO agiu, no caso sirio, pouco ou nada fazem para derrubar o regime dos Assad, enquanto que este massacra os seus concidadãos a seu bel-prazer.

Mas mesmo com a Realpolitik, os tempos são outros. Estamos numa altura em que a sociedade civil anda a descobrir as vantagens das redes sociais como o Facebook, porque não ser usado para apelar às equipas para que boicotem o GP barenita? Por mim, apesar de todo o meu cinismo e todas as minhas legitimas dúvidas, eu sou favorável a um boicote ao GP do Bahrein. Todos criticam a decisão e tal coisa seria bem vinda, e pressionar as equipas seria um primeiro passo para tal.

Um primeiro exemplo pode ser visto aqui, no site avaaz.org, onde em pouco mais de um dia já se conseguiu mais de 350 mil assinaturas um pouco por todo o mundo, e os numeros continham a aumentar, pelo que os 400 mil deverão ser atingidos lá por volta da meia-noite. A ideia é convencer a Red Bull em boicotar a corrida. E não é uma qualquer, como sabem: é a lider do campeonato e não tem ligações com os árabes, pelo menos na estrutura acionista. A revista britânica Motorposrt - que não é qualquer uma - também já apelou ao boicote. E fala-se que a Williams anda pelo mesmo caminho.

Em suma: a decisão de hoje foi apenas o começo da tempestade. Veremos como é que vai acabar.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Os 25 anos do último Grande Prémio sob o "apartheid"

Durante anos a fio, a Formula 1 foi provavelmente o unico desporto que correu na Africa do Sul durante o tempo do "apartheid", o odioso regime de segregação racial entre negros e brancos, instituido pelo Partido Nacional, de maioria "boer" e "afrikander", quando chegou ao poder em 1948 e lá permaneceu até às primeiras eleições multiraciais, em Abril de 1994, vencidas pelo ANC de Nelson Mandela.

A Africa do Sul sempre teve um campeonato local muito forte. Muitos chassis de Formula 1 lá ficavam após a primeira corrida do ano, normalmente disputada em Janeiro - primeiro em East London e depois em Kyalami - e pilotos locais de renome as guiavam, como John Love, Sam Tingle, Eddie Keizan, Jackie Pretorious, entre outros. Outros pilotos deram o salto, primeiro Tony Maggs e depois os irmãos Scheckter, de Durban: Ian, o mais velho e Jody, o mais novo, e que deu ao seu país e a Africa o unico título mundial, em 1979.

Mas ao longo dos anos 60 e 70, com a crscente pressão internacional para a abolição do regime do "apartheid", também causado pela teimosia do governo apresentar equipas segregadas nas várias modalidades (rugby, futebol, cricket e outros), aos poucos, eles foram abolidos das várias organizações internacionais. A sua última participação nos Jogos Olimpicos fora em 1960, em Roma, tinha sido banidos da FIFA, e no final da década, foram banidos de participar em testes de cricket e o organismo internacional de "rugby" desencorajou a ida de equipas inglesas, neozelandesas, australianas e irlandesas, entre outros, de jogar ou receber com os "Springbocks".

Mas aparentemente, a Formula 1 pouco se importou com isso. Fosse em Fevereiro, Março ou Outubro, no inicio ou no fim da temporada, arrumavam as coisas e iam tranquilamente para o rápido circuito de Kyalami, nos arredores de Joanesburgo, onde perante 60 ou 70 mil espectadores (todos brancos...) iam vibrar pelo seu piloto local ou pelos outros pilotos. E a assistir a tragédias, como o horrivel acidente de Tom Pryce, atingido pelo extintor que levava Jenson Van Vuuren, um comissário de pista com 18 anos e bagageiro no aeroporto Jan Smuts (agora OR Tambo International Airport)

Em 1985, por fim, as pressões tornam-se audíveis. Na própria Africa do Sul, a agitação social nas "townships" começava a ser grande, o governo minoritário de P.W. Botha estava intransigente em ceder, e tinha declarado o estado de emergência no país, e os governos um pouco por todo o mundo tentam impedir a realização do GP da Africa do Sul ou impedir que as equipas dos seus paises apareçam no país. Já havia boicotes de marcas, a pedido do governo americano, que também tinha colocado sanções económicas ao país, acentuando o isolamento internacional do regime da minoria branca. Há pressões sobre a FISA e a Jean-Marie Balestre para que se cancelasse o Grande Prémio, mas este manteve os planos, afirmando que tiveram mais do que tempo para protestar a realização dessa corrida, logo, não ia recuar na intenção da sua realização.

O boicote das equipas esteve no ar até à ulitma hora. A Ferrari ameaçou não ir à Africa do Sul, caso a McLaren não fosse, pois ambos estavam a lutar pelo título de construtores, que ainda não tinha sido atribuido. muitos pilotos encararam não correr na Africa do Sul, mas no final, ficaram a depender da sua decisão daquelas tomadas pelas equipas: se a equipa fosse, eles iriam correr.

E é nesse ambiente que a Formula 1 embarca em Joanesburgo, para a penultima corrida do ano, depois do título ter sido decidido na corrida anterior, em Brands Hatch. As francesas Renault e Ligier decidiram não participar, acedendo aos pedidos do governo francês de não comparecer na corrida. A Beatrice-Lola apareceu com Alan Jones, mas na manhã da corrida, a equipa retirou-se, alegando que o australiano estava doente. Mas aparentemente, dizia-se nos bastidores que a equipa de Carl Haas fora instruida pelo patrocinador para retirar o seu carro...

Alguns governos, como o finlandês e o sueco, tentavam convencer os seus pilotos, respectivamente Keke Rosberg e Stefan Johansson, para não irem competir a Africa do Sul, mas estes foram com as suas equipas. Alguns dos seus patrocinadores decidiram não colocar o seu produto nas carenagens das equipas, pois já sabiam que isso traria má publicidade. E os próprios pilotos tinham visões pessoais sobre isso... mas eram pagos para correr, e esta aconteceu a 19 de Outubro de 1985, um Sábado.

Alinharam 21 carros à partida e no final chegaram sete. A Williams fez dobradinha com Nigel Mansell e Keke Rosberg, que fez uma excelente corrida, após ter feito uma má partida, no final da sexta volta já era o lider. Alain Prost completou o pódio, enquanto que Stefan Johansson, Gerhard Berger e Thierry Boutsen completaram os lugares pontuáveis.

Apesar de tudo, ainda depois dessa corrida, a FISA e a FOCA de Bernie Ecclestone queriam continuar a correr na Africa do Sul, pois sabia-se que era um evento apoiado indirectamente pelo governo da altura, através do jornal "The Citizen". Só para terem uma ideia, à chegada das equipas e dos pilotos ao aeroporto, eram entregues a mecânicos, dirigentes e pilotos um salvo-conduto de forma a não terem nos seus passaportes o carimbo sul-africano, que poderia ser um motivo para barrá-los noutros paíeses... contudo, as pressões das cadeias de televisão e dos patrocinadores fizeram com que Ecclestone desistisse da ideia de vez.

A Formula 1 só voltaria a Africa do Sul e a Kyalami em 1992, quando as leis anti-apartheid foram abolidas de vez. Mas quando voltaram, o velho circuito de Kyalami tinha sido remodelado, e curvas como Carwthorne Corner não existiam mais, no seu lugar estava um condomínio de luxo.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O meu boicote ao GP hungaro e as razões por detrás de tal decisão

É mais do que óbvio que desde Domingo que o meu estado de espírito é de, no mínimo, cólera. Fúria, não no sentido de querer partir tudo, mas no sentido de que me espetaram uma faca nas costas, especialmente no sentido da traição.

Sim, sinto-me traído. Mesmo com 25 anos a ver automobilismo, e de ter habituado a assistir a coisas tão más ou piores do que vimos este Domingo, acho que o facto de uma equipa violar tão descaradamente regras escritas e não-escritas, e de ver pilotos a venderam a sua alma, abdicando da vitória em nome do superior interesse da equipa, é demasiado. É pisar uma "linha vermelha" (não, não há ironia) a pafrtir do qual determinada modalidade e seus respectivos resultados se tornam em algo parecido com uma farsa. E para aqueles que defendem este desporto perante outros que defendem os seus, deixa-nos indefensáveis.

O jogo de equipa existe desde os primórdios do automobilismo, praticado por génios como Alfred Neubauer ou Colin Chapman, mas tais coisas eram usadas em circunstâncias meramente excepcionais, com regras claras desde o inicio, deixando aos pilotos o critério de as acatar ou não. Ronnie Peterson teve essa escolha em 1978, quando Colin Chapman o acolheu de volta à Lotus, ano e meio depois de ter saído pela porta pequena, e aceitou. Neste caso em concreto, nada estava em jogo nesta altura do campeonato, o que nos deixa ainda mais indignados. Ver safar a Ferrari com uma multa é algo que me revolta, mas os pilotos são, se calhar, os menos culpados. Eles são meros funcionários, então o Massa é candidato numero um a Funcionário do Ano, como existe em qualquer loja do McDonalds...

Aquilo que vi foi uma manipulação descarada por parte de Stefano Domenicalli, uma pura violação das normas escritas e não escritas. Se foi um tiro no pé por parte da Scuderia, problema deles. E as declarações de Luca di Montezemolo, a chamar os criticos de "hipócritas", ou a defesa da Ferrari por parte de Bernie Ecclestone (desse senhor, já só espero que morra) só ajudam a alimentar o fogo.

Se ainda havia uma máscara, uma espécie de "comédia de enganos" nesta Formula 1, a Ferrari ajudou a deixar cair essa máscara. E ao dizer a verdade, de como as coisas são feitas, prejudicou mais do que beneficiou. E neste inicio do século XXI, onde se vive uma crise que está a ajudar a mudar as mentalidades, as pessoas querem ver a verdade desportiva nas modalidades que tanto gostam. Quer seja no futebol, onde se reclama pelo facto da FIFA e do International Board não quererem a introdução de tecnologia no jogo, apesar dos erros crassos se acumularem a cada semana, quer sejam noutros desportos, o facto de uma equipa dizer que "nós é que decidimos quem ganha", é fazer de nós trouxas. Idiotas. Burros que usam a cabeça de forma pavloviana, por estímulos.

O Daniel Médici escreveu no seu post de ontem à noite, o seguinte:

"A troca de posição entre os pilotos da Ferrari no GP da Alemanha violou muito mais do que a malfeita regra da proibição do jogo de equipe na Fórmula 1. Ela violou o pacto da Fórmula 1 com o espectador. Já abordei este assunto aqui uma ou mais vezes, mas creio que vale a pena entrar em detalhes neste caso específico. Em primeiro lugar, há de se convir que a proibição das ordens de equipe é uma dessas besteiras que se encontram aos montes no regulamento desportivo da categoria. Porque, em determinados casos, ela é aceitável: Gilles Villeneuve fez questão de não disputar o título em 1979 para ajudar o seu companheiro, sabendo que time lhe daria uma chance no futuro. Quando ela chegou, em 1982, Didier Pironi não aceitou - se ele tivesse cedido sua posição no GP de San Marino de 1982, talvez não fosse um ato condenável, porque não se trataria de uma questão comercial, mas de duas pessoas lutando por um objetivo comum. Isso também acontece, com muita frequência, nos finais de campeonato, e não há demérito nisso. (...)

Em suma, todos aceitamos o principio das ordens de equipa, mas somente em circunstâncias excepcionais, e em determinadas situações. Fora disso, é considerado manipulação, algo éticamente inaceitável e proíbido por lei. E a seguir, fala na violação de um pacto.

(...) "Se aquilo não era sério, então a Ferrari violou o pacto com o espectador. Ofereceu uma mentira como se fosse verdade. O espectador assiste à Fórmula 1 como esporte, na esperança de que os pilotos estejam brigando por suas posições porque querem mantê-las, não por mera encenação. Os espectadores sabem que há interesse comercial por trás de tudo, e, acima de tudo, que o esporte não é justo, nem sempre vence o melhor (e por que haveria de ser assim, se a vida não é?). Mas, para que isso seja tolerado, é preciso que, da largada ao final da última volta, as implicações com a conta bancária, as relações com o patrocinador não sejam os atores do evento. Uma equipe é uma empresa, mas ninguém torce para uma empresa em uma corrida - torcem para o que ela, como equipe, significa." (...)

E termina com o seguinte:

"O problema é que a TV permite o anonimato ao espectador. Falar aos quatro ventos que vai boicotar a Fórmula 1 é fácil, difícil é cumprir a promessa, já que ninguém pode fiscalizar se você a cumprirá ou não. Por isso, limito-me a fazer um protesto individual e desesperançado por meio deste blog: não haverá, nele, um comentário sequer sobre o GP da Hungria, a ser realizado no próximo dia 1o de agosto. Nenhuma palavra sobre o que acontece por sobre o asfalto de Hungaroring, pois não posso garantir se lá vai acontecer uma corrida ou a dramatização de uma. A restrição vale por um GP. Qualquer um que sai de uma faculdade de comunicação sabe que só há uma arma mais perigosa que as palavras: o silêncio. Meu silêncio não vai mudar o mundo, mas prefiro calar-me em nome de minha consciência. Quem sabe outras consciências não se sintam impelidas a fazer o mesmo."

Felizmente, os tempos mudam. Estamos a chegar ao final da primeira década do século XXI e nós começamos a ter, graças à Internet, um pouco mais de poder para sair da massa anónima da televisão. E com todos estes novos meios da Internet 2.0, como os blogs, o Twitter e o Facebook, para não falar do Youtube, podemos demonstrar, neste universo fragmentado, a nossa indignação sobre o que se passou, de forma indignada ou humorada.

Mas também nos demonstra que começamos a ter poder, e somos inteligentes o suficiente para que qualquer gesto, por mínimo que seja, pode ter impacto. Sou inteligente e tenho consciência, e estou tremendamente zangado com que aconteceu. E para demonstrar que este insulto a minha inteligência não passa sem dar cavaco, tomei uma decisão simbólica: vou boicotar o fim de semana húngaro.

Neste fim de semana, não farei qualquer post sobre a Formula 1, sobre o que se vai passar no circuito de Hungaroring. Esse embargo começará a partir na Quinta-feira, após a minha 5ª Coluna. Isso não significa que não vou ver a corrida. Irei. Não sou aqueles que digo "nunca mais vou ver Formula 1", por sei perfeitamente que nunca se diz nunca. Apenas recuso-me a falar da actualidade da Formula 1 até ao fim de semana do GP da Belgica, pois mais do que o boicote em si, pretendo fazer um período de "nojo", um período sabático, para ver e refletir se vale a pena falar da actualidade de uma modalidade que, neste momento, perdeu o meu encanto.

Como é óbvio, vou continuar a falar de automobilismo no fim de semana e nos dias que virão depois. Temos o Rali da Finlândia, para começar e ainda existem os 30 anos da morte de Patrick Depailler, que se comemoram neste Domingo, e do qual vocês estão a ver um ou dois posts meus sobre ele por dia. Provavelmente falarei sobre os campeonatos europeus de atletismo, que decorrem em Barcelona. É um desporto diferente, onde as manipulações tem mais a ver com o "doping" e os atletas dopados são severamente punidos pela entidade federativa. Em suma, este meu gesto - simbólico, é certo - serve para mostrar que a "facada nas costas" que me deram no passado Domingo, pela minha parte, não pode, e não vai, passar impune.