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sábado, 29 de julho de 2023

A(s) image(ns) do dia









Era para ser um dia de festa. Mas acabou em tragédia. E depois, quando se soube das circunstâncias, ela virou indignação. 

Como podem imaginar, não era nascido quando tudo aconteceu. Mas com o tempo, soube de tudo, das circunstâncias. Que estava um belo dia de verão no mar do Norte. que tinham ido 90 mil espectadores à pista para ver a corrida. Que foi uma prova onde os Tyrrell dominaram, com o escocês Jackie Stewart a levar a melhor sobre Francois Cevért e foi o local do primeiro pódio de James Hunt, naquela que foi a sua 26ª vitória, superando o seu compatriota Jim Clark no quesito do piloto mais vitorioso de sempre.

E era o regresso da Formula 1 a Zandvoort, depois de um ano de ausência, onde se gastou mais de um milhão de dólares para remodelações, nomeadamente uma nova capa de asfalto e guard-rails em toda a extensão da pista. 

Mas tudo isso foi esquecido por causa do acidente da volta sete. Se as pessoas achavam que é tudo romântico ter alguém que vive constantemente com o perigo e que a morte está sempre à espreita, ver tudo a acontecer diante dos teus olhos, num sábado à tarde, na tua sala de estar, à frente da tua televisão a cores - ou a preto e branco - acho que todo o teu romantismo se foi, naquele dia.

O que aconteceu ali foi homicídio por negligência. Porque - a comissão de inquérito depois afirmou isso, dois anos depois - que Roger Williamson ainda estava vivo depois do acidente e o começo do incêndio. Aliás, os comissários impediram que David Purley continuasse a tentar levantar o carro porque julgavam que ele tinha morrido no impacto, para além de não estarem equipados com fatos anti-fogo, por exemplo. Não foi. Nem eles se prontificaram a ajudar a levantar o carro e a levá-lo para o centro médico do circuito. E nem falo do diretor ter interrompido a corrida com uma bandeira vermelha. no inquérito, alegou que quando viu Purley a tentar empurrar o carro, pensava que era ele o acidentado e estava a colocar o carro de pé. 

Claro, pode-se afirmar "ah, mas a mentalidade é diferente na altura". Claro que era. O espetáculo tinha de continuar, e não interessava se fosse um "zé ninguém" ou o campeão do mundo. Mas, por incrível que pareça, o acidente de Williamson foi o virar de pagina em termos de mentalidade. Até entre os pilotos. Não foi por acaso que numa das fotos, pode-se ver o BRM de Niki Lauda a passar pelos destroços do March de Williamson. Tempos depois, disse que, se soubesse o que se tinha passado, não teria hesitado em parar e tentar salvá-lo. Bem vistas as coisas, pode agradecer ao sacrifício dele porque foi isso acabou por salvar a sua própria vida, quando três anos e três dias depois, quatro pilotos - Brett Lunger, Guy Edwards, Arturo Merzário e Harald Ertl - o retiraram do seu carro em chamas, no Nurburgring Norschleife. 

Dezenas de milhões de pessoas, um pouco por toda a Europa ocidental e América do Norte, viram, em direto e via satélite, a morte de uma pessoa diante dos seus olhos, e não esqueceram do que viram. E a partir dali, pediram para que agissem de forma mais robusta perante uma situação destas. E foi o que aconteceu, quando a segurança aumentou muito em termos de carros, circuitos, comissários e pilotos. 

Contudo, não impediu outros acidentes graves, como o de Niki Lauda, ou mortais, como Francois Cevért, Ronnie Peterson ou Gilles Villeneuve, mas ali a segurança melhorou imenso. As corridas são paradas - e até concluídas quando acontecem um acidente. Os circuitos são muito melhores, os comissários são mais ágeis - por vezes, exageram, como no caso das corridas à chuva. Mas a mentalidade "o espetáculo tem de continuar" já não existe mais. 

Aliás, já nem querem mais. O que desejam é um equilíbrio entre um lado e o excesso de cautelas em relação à segurança, especialmente quando o tempo se põe cara feia, como está na Bélgica nesta final de semana. 

Quem conhece a história, sabe como acabou: Williamson acabou por ser um dos maiores talentos desperdiçados do automobilismo, Purley, um antigo soldado de elite e herdeiro do maior fabricante de frigoríficos no Reino Unido, foi condecorado pelo seu ato de coragem, e morreu num acidente aéreo em 1985, oito anos depois de um grave acidente em Silverstone, na qualificação para o GP britânico. 

E hoje passa meio século. Muito provavelmente, quem ver as imagens dessa corrida, não esquecerá mais.    

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

A imagem do dia


Há 75 anos, nascia um dos talentos que nunca chegamos a conhecer. 

Bem vistas as coisas, toda esta carreira é a história da relação entre um jobem piloto muito talentoso, e alguém que notou esse talento e queria ir ao topo com ele. Serem campeões juntos. Um pouco como Ken Tyrrell e Jackie Stewart, ou Colin Chapman e Jim Clark. Era esse o relacionamento entre Roger Williamson e Tom Wheatcroft

A personagem mais velha é interessante: é um "working class hero" que em criança, se apaixonou por um circuito. E quando o descobriu que estava negligenciado, fez de tudo para o recuperar. E conseguiu. Esse circuito era Donington Park, e para além de recuperar a pista para as corridas de automóveis - fê-lo em 1979, quase 40 anos depois da última corrida - tinha dentro das suas instalações um museu cheio de carros de Formula 1 e outras categorias automobilísticas, centenas deles. 

Wheatcroft conheceu Williamson em 1971, quando este queria correr na Formula 3. E para mim, a maior demonstração do seu talento foi em junho de 1973, quando fizeram uma corrida de Formula 2 em Monza, a Lotteria. O britânico dominou-a de fio a pavio, sem dar qualquer chance a concorrência, que tinha gente como Patrick Depailler, Jean-Pierre Jarier, Vittorio Brambilla ou Jochen Mass.  

No inicio desse ano, tinha feito um teste com a BRM, e impressionou os seus dirigentes ao ponto de lhe oferecerem um contrato. Wheatcroft disse que seria preferível correr pela March porque tinha tido um desempenho ligeiramente melhor. E o lugar ficou para Niki Lauda, aparentemente. Tempos depois, o próprio Wheatcroft disse que a ideia era de arranjar um chassis McLaren e ir correr como privado em 1974, à semelhança do que acabou por fazer Mike Hailwood nessa temporada. 

David Tremayne, jornalista e autor britânico, afirma que ele, a par de Tony Brise e Tom Pryce, é um os campeões que poderiam ter sido, se não tivesse morrido entretanto. Era altamente provável que, se o projeto do McLaren tivesse ido adiante, teria sido piloto oficial em 1975 e ficado com o lugar na temporada seguinte, lutando pelo campeonato com Niki Lauda. Ou seja, não haveria James Hunt...

Mas por outro lado, com a ligação que ambos teriam, não seria descabido se Wheatcroft decidisse arranjar meia dúzia de mecânicos, dois ou três bons engenheiros, um projetista e um contrato com meia dúzia de motores Cosworth, e claro, um patrocinador que cobrisse as despesas. Bastava meio milhão de libras, porque talento... ele tinha.

Claro, essa é a grande pergunta do qual nunca teremos resposta. 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Youtube motosport Vídeo: Crystal Palace Race, 1970

Se estivesse vivo, Roger Williamson estaria a fazer 74 anos. Em tributo ao piloto que morreu tragicamente no GP dos Países Baixos de 1973, quando efetuava a sua segunda corrida na Formula 1, a bordo do seu March, coloco aqui este vídeo de 1970, numa prova de "saloon cars" até 1000cc, no circuito de Crystal Palace, com Minis e Ford Anglias, onde Williamson dominou a seu bel-prazer do inicio até à meta.  

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A imagem do dia


No dia em que se comemoram os 40 anos de Fernando Alonso, descobri este post do blog Volta Rápida, do Paulo Abreu, sobre Roger Williamson e aquilo que, na realidade, foi um dos melhores momentos da sua carreira automobilistica, e realmente, um dos motivos pelos quais ficas a pensar no que poderia ter sido, se não fosse o acidente do qual acabou por morrer, faz hoje 48 anos.  

Quem sabe sobre ele, ora lendo coisas sobre a sua vida, e em especial o livro "The Lost Generation", do David Tremanyne, sabe que a sua carreira está ligada a Tom Wheatcroft, que viu o seu talento e foi tratado como se fosse seu filho. Wheatcroft foi a pessoa que recuperou Donington Park, uma pista que acolheu automobilismo no final dos anos 30 e se tornou num depósito de veículos militares durante e depois da II Guerra Mundial e no inicio da década de 70, estava num estado de decadência.

No final de 1972, Williamson tornara-se tricampeão da Formula 3 britânica - nessa altura, havia diversas séries da Formula 3, todas sancionadas pelo BRDC, o British Racing Drivers Club - e o passo seguinte seria a Formula 2, antecâmara da Formula 1. Mas eles chegaram a testar carros como um BRM, e chegou a ter Lord Stanley a pedir-lhe para que fosse correr com ele, mas Wheatcroft pediu para que tivesse um pouco mais de paciência, que iriam arranjar um negócio melhor. 

Na Formula 2, os melhores chassis eram os da March, mas a GRD não ficava muito atrás, a par de Brabham, Surtees ou Chevron. Wheatcroft arranjou o carro e lá foram correr, mas a temporada foi dificil. Tirando o quinto lugar na etapa de Pau, em França, as coisas não correram bem para ele, e começaram a ver que o melhor seria trocar de chassis, já que o piloto que ia na frente, o francês Jean-Pierre Jarier, estava a dominar com um March oficial, que tinha um motor BMW.

O novo carro chegou às mãos deles em Rouen, onde acabaram por não alinhar, e a prova ficaram marcada pelo acidente mortal do escocês Gerry Birrell. A 29 de junho, era a etapa seguinte da temporada, o GP Lotteria de Monza, realizado na pista italiana. Adaptado ao carro, transformou-se da noite para o dia, começando com a pole-position. 

A corrida era repartida em duas mangas, de 20 voltas cada uma, e o maior rival de Williamson era o francês Patrick Depailler, que corria num Elf-Alpine da Coombs Racing. Depailler tinha ganho no Nordschleife no final de abril, contra gente como Derek Bell e o seu compatriota Bob Wollek, mas contra Williamson arriscava-se a vê-lo distanciar-se do seu campo de visão. 

E foi o que aconteceu: no final da primeira bateria, a distância entre ambos foi de onze segundos, a favor do britânico, com ele a liderar do principio ao fim e a marcar a volta mais rápida. E o mesmo aconteceu nas vinte voltas seguintes da segunda manga, nunca cedendo a liderança. No final, Williamson foi rei em Monza, com os franceses Depailler e Jacques Coulon a seguir.

O que ninguém sabia era que ele tinha não só feito o seu melhor desempenho da sua carreira, mas provavelmente uma das suas últimas. A seguir, veio a Formula 1, num March oficial, e um mês depois daquele desempenho estrelar, estava morto, vitima do acidente e consequente incêndio durante o GP a Holanda daquele ano. Se não fosse a Formula 1, estaria a disputar uma prova de Formula 2 no circuito sueco de Mantorp Park.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A imagem do dia

Esta imagem vai acabar a 5 de novembro. O museu que alberga uma das mais fabulosas coleções de automóveis de competição do mundo vai fechar. Não está no Brasil. Nem em Portugal ou num país qualquer do terceiro mundo. Está no centro da Grã-Bretanha, ao lado da pista de Donington Park.

O Museu de Donington Park vai fechar, e a noticia chocou os amantes de automóveis um pouco por todo o mundo. O anuncio foi feito por Kevin Wheatcroft, o filho do fundador, que refere "motivos familiares" para não continuar a manter o museu. 

E este é um bom motivo para falar do pai de Kevin, Tom. De como um sonho de infância fez salvar um circuito da sua ruína e de como ajudou um piloto como se fosse seu filho, acreditando que seria campeão, mas acabaria numa bola de chamas apenas na sua segunda corrida de Formula 1.

Em 1937 e 38, Donington foi palco do GP da Grã-Bretanha, e viu por ali os carros de Grand Prix, pilotados por gente como Richard Seaman ou Tazio Nuvolari, que durante os treinos da edição de 1938, atropelou um veado, do qual pegou na cabeça e fez dele troféu de caça! Quando rebentou a II Guerra Mundial, virou depósito de material militar e ficou assim... até muito depois da guerra.

Tom Wheatcroft nasceu em 1922, e fez fortuna na construção civil. Morava nos Midlands britânicos e viu as corridas em garoto e apaixonou-se. Guardou o circuito no seu coração, e quando soube da sua degradação, em meados dos anos 60, jurou que iria fazer de tudo para o recuperar. Quando viu que os terrenos iriam ser vendidos, não hesitou e comprou, procedendo à sua lenta recuperação. 

Quase ao mesmo tempo, batia à sua porta um jovem talentoso piloto chamado Roger Williamson. Queria apoios para a sua carreira na Formula 3, e Wheatcroft gostou do seu estilo de condução. Cedo se estabeleceu uma forte amizade, quase de pai para filho, e ele venceu três (!) títulos na Formula 3 britânica, em 1971 e 72. Em 1973, surgiu a oportunidade de ir para a Formula 1, pela BRM, mas ele disse para recusar. Os planos eram ambiciosos: comprar um McLaren M23 para 1974, correndo a sua própria equipa. Mas antes, teria de ganhar experiência, e a March deu a sua chance a partir do GP da Gra-Bretanha, no lugar de Jean-Pierre Jarier, que cumpria a sua temporada de Formula 2.

Infelizmente, tudo acabou a 29 de julho de 1973, na oitava volta do GP da Holanda, quando um pneu furou, bateu no guard-rail e o carro explodiu numa bola de fogo. As imagens do seu carro em chamas correram mundo, apesar das tentativas desesperadas de David Purley de o salvar. 

Wheatcroft prosseguiu a sua vida e em 1979, conseguiu inaugurar o seu circuito, Donington Park. Em 1993, levou a Formula 1 pela única vez na sua vida, e dez anos depois, inaugurou um memorial a Williamson, cinco anos antes de morrer. E no meio disso tudo, ajudou o museu a ser um dos mais importantes do mundo, com muitos dos carros a serem emprestados pelas equipas, para prestigiar ainda mais a sua coleção. E nesse museu, havia sempre um canto, uma estante só com os objetos e os troféus do seu piloto favorito, Roger Williamson. 

domingo, 29 de julho de 2018

Youtube Formula One Classic: GP da Holanda, 1973


A coisa bem interessante é que poderemos encontrar parte da temporada de 1973 no Youtube e na íntegra, sem narração e só com o som ambiente. Contudo, este GP holandês fica tragicamente marcado pelo acidente mortal de Roger Williamson, durante a 14ª volta da corrida. Bem como as tentativas do seu compatriota David Purley de o salvar. 

Ai está o video da corrida, ao vivo e a cores. E com todo o seu horror.  

GP Memória - Holanda 1973

Duas semanas depois da Formula 1 ter corrido em Silverstone e de se ter assistido à maior carambola da história do automobilismo até então, máquinas e pilotos rumavam a Zandvoort, para ser palco do GP da Holanda. A pista fazia o seu regresso à Formula 1, depois de um ano de ausência. Durante esse tempo, tinha sido palco de profundas obras de remodelação, que implicou o reasfaltamento da pista, um melhor sistema de drenagem de águas pluviais, novas escapatórias e barreiras de proteção, melhorando bastante a segurança.

O regresso fora saudado por pilotos, que elogiaram os esforços da organização. E no dia da corrida, esperavam-se 80 mil espectadores à volta da pista, pois estava um típico dia de verão. 

No pelotão da Formula 1, Jody Scheckter estava fora, por acharem que era "um perigo" para os outros pilotos, pois tinham-o culpado pela carambola que tinha acontecido no final da primeira volta da corrida britânica. A Ferrari estava ausente da prova, enquanto a Brabham não preencheu o lugar deixado vago por Andrea de Adamich após o seu acidente em Silverstone, que o deixara lesionado no tornozelo. Em contraste, na Iso-Marlboro, havia um novo piloto na equipa: o local Gijs Van Lennep.

Com 24 inscritos, Emerson Fittipaldi sofrera uma lesão na perna devido a um acidente nos treinos e apenas largaria da 16ª posição. Em contraste, o seu rival, Jackie Stewart, era segundo, atrás de Ronnie Peterson, o poleman. Francois Cevért era o terceiro, com Dennis Hulme a seu lado, no McLaren. Carlos Reutemann era o quinto, seguido pelo segundo McLaren de Peter Revson, e James Hunt, no March da equipa Hesketh. José Carlos Pace era o oitavo, no seu Surtees, e a fechar o "top ten" estavam o BRM de Jean-Pierre Beltoise e o Shadow-Ford de Jackie Oliver.

A corrida começou com Peterson na frente dos Tyrrell, seguido por Hulme, Pace e Revson. Niki Lauda atrasava-se devido a um despiste, caindo para o fundo do pelotão. Fittipaldi não aguentou as dores e acabou por abandonar na segunda volta.

As coisas estavam assim até à volta sete, quando um pneu do March do britânico Roger Williamson rebentou e ele bateu forte nos guard-rails, arrastando-se por mais de 150 metros depois do embate. A fricção causou um incêndio e um carro parou atrás para o tentar ajudar a tirá-lo das chamas. Era outro March, o privado de David Purley. Apesar de ter tentado virar o carro e apagar as chamas, os seus esforços foram inúteis e o britânico de 25 anos, visto como um dos mais promissores a chegar à Formula 1, acabaria por morrer sufocado devido aos fumos.

A corrida prosseguia com Peterson na frente, perseguido por Stewart e Cevért. As coisas andaram assim até à volta 66, quando o motor do sueco explodiu, deixando o escocês na frente, e assim foi até à meta. 

Stewart tinha razões para celebrar, porque agora tinha batido o recorde do seu compatriota Jim Clark, estabelecido cinco anos e meio antes, na África do Sul. Contudo, ao chegar à meta, foi avisado dos eventos e os festejos foram contidos, em sinal de respeito. Francois Cevért foi segundo, completando a dobradinha da Tyrrell, enquanto James Hunt era terceiro, no primeiro pódio da sua carreira. Nos restantes lugares pontuáveis ficaram o McLaren de Peter Revson, o BRM de Jean-Pierre Beltoise e o Iso-Marlboro de Gijs Van Lennep. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A imagem do dia

"Já tinha visto demasiada gente ser fritada em carros, por aquela altura. Quando passas pelos [restos dos carros de] Bandini, Schlesser, Courage e Williamson, mais um acidente daqueles foi simplesmente demais para mim. Foi uma decisão simplesmente pessoal"

Chris Amon, em 1976, falando sobre a sua retirada após o GP da Alemanha.

Quem corria na Formula 1 nos anos 60 e 70, sabia que jogava com a sua vida. Chassis leves e frágeis, segurança ao nivel zero, depósitos de combustivel ao lado dos pilotos, suficientemente frágeis para poderem romper-se em caso de acidente, era o cartão de visita para qualquer aspirante a piloto. Dizia-se que em média, um piloto não passaria por um acidente grave ao fim de sete temporadas, e um erro era a morte do artista... literalmente.

Quando Amon soube da morte de Jim Clark, em abril de 1968, ficou realmente abalado. Foi nessa altura que questionou se realmente estaria seguro andar naqueles carros, quando o melhor de todos tinha morrido numa banal prova de Formula 2. Contudo, prosseguiu.

Amon realmente retirou-se a uma idade relativamente cedo, pouco depois de completar 33 anos. Mas ele já tinha catorze temporadas em cima dele e estava cansado de andar a arriscar o pescoço por pouco mais do que uma descarga de adrenalina. E preferiu sair agora do que esperar que o destino o chamasse precocemente, como tinha acontecido a muitos. Apesar do azar em termos de Formula 1, teve sorte no meio disto tudo: ele saiu dali vivo.

A escoha da foto não foi incocente: ali, ele passava pelos restos calcinados de Roger Williamson, no GP da Holanda de 1973, com um inconsolável David Purley em primeiro plano.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A foto do dia

Eu nunca tinha visto esta foto até agora. Estava há uns dias no Facebook do Dú Cardim e isto demonstra até que ponto o automobilismo no passado era cruel, na parte doas acidentes mortais. E como os fotografos são capazes de tirar foto dessa crueldade. E o ar enjoado de David Purley quando os comissários retiram o cadáver de Roger Williamson, morto faz hoje 42 anos, impressiona.

Às vezes pensas se vale a pena mostrar isto ao mundo, mas pensando bem como foi aquele dia, sempre fiquei com a impressão que ali houve homicídio por negligência. Porque ele poderia ter sido salvo e não foi. A organização equivocou-se e deixaram-no morrer, simples.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A foto do dia

O aniversário foi ontem e nem é um numero redondo, mas vale recordar o que ele foi e o que valeu na sua curta e infelizmente trágica carreira. Ontem, Roger Williamson teria feito 67 anos e grande parte das coisas que fez na sua carreira deve-se ao homem com quem fala nesta foto: Tom Wheatcroft.

A história de ambos começa em 1971, depois de um GP do Mónaco de Formula 3, onde ele fica impressionado com a sua capacidade de pilotagem. Wheatcroft era um "self-made man" com uma paixão pelo automobilismo, e por essa altura, têm uma obsessão: recuperar o circuito de Donington Park, palco de corridas nos anos 30 e que tinha virado um depósito de carros para o Exército na II Guerra Mundial. Na altura, a Formula 3 na Grã-Bretanha tinha três campeonatos, todos patrocinados por gasolineiras, e todos os pilotos guiavam nelas, para obterem a maior quantidade de experiência possivel.

Em grelhas cheias e perante adversários que mais tarde andariam na categoria máxima do automobilismo - James Hunt, Jody Scheckter, Tom Pryce, Tony Brise eram alguns deles - Williamson conseguiu impressionar toda a gente. Venceu um campeonato em 1971 e mais dois em 1972, tornando-se num dos melhores pilotos do pelotão e entrando na historia da Formula 3 britânica como o piloto com mais títulos, a par de Dave Walker e Jim Russell, que mais tarde fundou uma escola de pilotagem.

Em 1973, Wheatcroft e Williamson quiseram dar o passo seguinte. Primeiro, em março, quando fez um teste com a BRM, que os impressionou, mas o seu amigo aconselhou a não aceitar o convite que entretanto lhe tinha sido dado. A razão era simples: ele queria-o ver num carro com motor Cosworth. Dias depois, o mesmo convite foi entregue a um jovem austríaco, de seu nome Niki Lauda, que o aceitou. 

A meio do ano, depois de ter vencido uma corrida de Formula 2 em Monza, nova oportunidade é dada, desta vez, para pilotar um March. Williamson iria correr no lugar de Jean-Pierre Jarier, que queria vencer o campeonato europeu de Formula 2, e a ideia era de ficar no resto da temporada. E após isso, os planos eram ambiciosos: Wheatcroft queria comprar um McLaren M23 para a temporada de 1974, para o ajudar a consolidar a sua carreira.

Como podem ver, a relação de Wheatcroft com Williamson era de pai para filho, semelhante a que Jackie Stewart tinha com Ken Tyrrell. Provavelmente as ideias seriam essas, mas não houve tempo para mais.Essa foi a grande tragédia que Wheatcroft carregou até ao final dos seus dias, em 2009. Ele sempre disse que o dia 29 de julho de 1973 foi o dia mais triste da sua vida, e que depois disso, perdeu o interesse na competição. Mas não em Donington Park, que o recuperou para o automobilismo e construiu um museu. 

Lá, no museu, há um canto com os troféus e o capacete dele, e nos seus jardins, uma estátua em tamanho real, descerrada por Wheatcroft e a irmã de Roger em 2003, trinta anos depois daquela tarde de Zandvoort.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A foto do dia (II)

Há 70 anos nascia uma pessoa que vale um filme de Hollywood. Falo de alguém que era filho de um fabricante de frigorificos, que fez fortuna nessa área, esteve no exército britânico e que certo dia, falhou o paraquedas ao saltar do seu avião. Que quando acabou a tropa, decidiu continuar a perseguir por adrenalina e a conselho do seu amigo e vizinho Derek Bell, resolveu que o automobilismo era um excelente substituto. Pegou no dinheiro do pai e comprou carros, andando pela Formula 3 e Formula 5000, até chegar à Formula 1 num March que tinha comprado, no mesmo dia em que James Hunt se estreava na categoria máxima do automobilismo.

Tudo corria normalmente até ao dia 29 de julho de 1973, numa localidade costeira da Holanda chamada Zandvoort.

A história é conhecida. O exemplo que deu contrastou com a crueldade da cena, que o mundo inteiro via nas televisões. Os equivocos da organização foram inversamente proporcionais à indignação que resultou, alguns afirmando exageradamente que eles tinham deixado morrer o piloto que estava debaixo daquele carro, capotado e a arder.

Quem conhece a história, sabem do que falo. O herói que tentou inutilmente salvar o outro piloto era David Purley, que faria hoje 70 anos de idade. O "mártir" era Roger Williamson, que era considerado uma das maiores esperanças do automobilismo britânico, três vezes vencedor do campeonato britânico de Formula 3.

Foi Zandvoort que todos passaram a conhecer David Purley. Foi agraciado com a George Medal pela sua atitude naquela tarde holandesa, e deixou a Formula 1 por uns tempos, para vencer o campeonato de Formula 5000 na Grã-Bretanha. Quatro anos mais tarde, decidiu voltar à categoria máxima do automobilismo, construindo o seu próprio chassis, o LEC. Pediu a ajuda a Mike Pilbeam, que tinha desenhado os derradeiros BRM, e com a ajuda de Mike Earle, que doze anos depois, ajudou a fundar a Onyx, fez alguns feitos antes de, num treino em Silverstone, aparecer de novo nas noticias. 

Pelas piores razões.

Purley tentava qualificar o seu LEC para um lugar na grelha, que mais parecia uma "dança nas cadeiras", pois nesse final de semana, estreavam-se, entre outros, o Renault Turbo de Jean-Pierre Jabouille e o terceiro McLaren oficial, oferecido a um jovem canadiano chamado Gilles Villeneuve. Purley bateu forte na curva Club, depois do seu acelerador ter ficado preso. Sofreu uma desaceleração de 179,6 G's, e várias fraturas nas costelas, fémur e tornozelos. Muitos temiam pela sua vida, mas recuperou. ainda correu na Formula Aurora, mas não mais na Formula 1.

Mas Purley nunca deixou de procurar por adrenalina. Voltou a um velho amor, a aviação (tirou o brevet aos 15 anos!), e tornou-se acrobata, sempre arriscando por mais e melhor. Até que um dia, a 2 de julho de 1985, exagerou com o seu avião e caiu ao mar, sem que nunca conseguissem recuperar o seu corpo. Mas hoje em dia, todos se lembram dele, da sua equipa, e daquela tarde de verão holandês. E quem sabe, um dia, o veremos num ecrã de cinema próximo de nós...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Youtube Formula 1 Classic: A Geração Perdida (Roger Williamson)


Ao longo da existência deste blog lembrei profusamente destes três pilotos: Tom Pryce, Tony Brise e Roger Williamson. Do talento destes três pilotos, das expectativas que existiam sobre eles e das suas prematuras mortes, ao longo dos anos 70, em acidentes altamente mediáticos: Williamson, no GP da Holanda de 1973 e Pryce, no GP da África do Sul de 1977. Pelo meio, o acidente aéreo que matou Brise, a 29 de novembro de 1975, no avião pilotado por Graham Hill.

O título "Lost Generation" (Geração Perdida) vêm de um livro escrito pelo jornalista britânico David Tremayne em 2006, onde se fala profusamente desses três talentos desaparecidos precocemente, e que poderiam ter abrilhantado ainda mais os anos 70 e 80 na Formula 1 para as cores britânicas. O primeiro video é sobre Williamson.

Porque tanto alarido sobre Brise e Williamson? Por causa do talento que tinham mostrado nas categorias inferiores. Para terem uma ideia, Williamson é até hoje um dos pilotos que mais títulos venceu na Formula 3 britânica, com três, enquanto que Brisem por exemplo, conseguiu vencer também na Formula Ford, Formula 3, Formula 2 e Formula Atlantic, quando foi o primeiro vencedor da corrida de Long Beach. Portanto, talento eles tinham bastante.

A carreira de Williamson foi ajudada por um homem: Tom Wheatcroft. Ajudou-o na formula 3 e a relação entre eles era de pai para filho. Quando no final de 1972, Williamson começa a ser fortemente assediado pelas equipas de Formula 1 - chegou a ter um contrato da BRM à sua frente - Wheatcroft pediu-lhe para esperar, que coisas melhores iriam aparecer. Acabou por ir para a equipa oficial da March, com a sua estreia marcada para o GP da Grã-Bretanha, em Silverstone, onde foi um dos pilotos eliminados na carambola da primeira volta.

O acidente de Zandvoort é sobejamente conhecido, e as suas circunstancias também. E ao longo dos anos desde que vi pela primeira vez aquelas filmagens, o meu sentimento de revolta ainda mantêm-se. E até que ponto é que ele era bom era que David Tremayne revela no seu livro que Tom Wheatcroft tinha conseguido um acordo com Teddy Mayer para que guiasse o terceiro McLaren para a temporada de 1974, que no final acabaria por ser de Mike Hailwood

domingo, 4 de agosto de 2013

Este mês, no Nobres do Grid...

(...) Na qualificação, onde Ronnie Peterson tinha levado a melhor, e Emerson Fittipaldi corria inferiorizado devido a um acidente que o tinha ferido numa das pernas, Williamson tinha sido o 18º na grelha, três lugares à frente de Purley. Na volta seis, um pneu furado faz com que Williamson bata nos “rails” pela esquerda na curva Scheivlak e ricocheteia, virado de pernas para o ar, arrastando-se pelo chão para o outro lado da pista. Nesse percurso de 275 metros durante o arrasto, o tanque riscou o asfalto, com o efeito similar ao de um palito de fósforo sendo friccionado contra a caixa, causando de imediato um incêndio. Quando o carro acabou por parar, Williamson estava vivo, consciente, preso, sem possibilidade de sair.

Testemunha do que tinha acontecido, pois seguia imediatamente atrás dele, David Purley encosta o seu March e corre em direção de Williamson, acreditando que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários de pista tentavam apagar o fogo com os seus extintores. Quando Purley chega, começa por tentar apagar o fogo, para depois tentar virar o carro ao contrário, com os comissários a assistirem passivos ao que se passava, pois julgavam que o carro que Purley estava a virar... era o dele!

Corre-se a lenda que, vendo o que se passava, Williamson reconheceu Purley e gritou: “Pelo Amor de Deus, David, tira-me daqui!”. Este fazia o impossível, e pedia aos comissários para o ajudar. Mas estes não o fizeram, devido ao fogo, que era cada vez mais intenso, e para piorar as coisas, a organização não tinha visto a coluna de fumo e interrompido a corrida, limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela. Um equívoco que acabaria por ser fatal. 

Ao fim de alguns minutos, desolado, Purley caminhou para fora dali. Entretanto, um carro dos bombeiros tinha sido finalmente levado para o local – com a corrida a decorrer - e apagaram o incêndio em pouco mais de um minuto. Mas ali, já era tarde demais: o promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto. (...)"

Esta semana recordei por aqui os eventos de Zandvoort, em 1973, mas também aproveitei a minha coluna mensal no site "Nobres do Grid" para recordar Roger Williamson e David Purley, que foram protagonistas, pelo pior, do Grande Prémio da Holanda desse ano. O facto de Williamson ter morrido à frente de toda a gente, e as tentativas desesperadas de outro piloto, que parou para o tentar salvar, ficou marcado para toda a história. 

Tudo isso e muito mais pode ser lido neste link

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Youtube Motorsport Classic: o rescaldo do acidente mortal de Roger Williamson

No dia em que se passa exatamente 40 anos sobre o acidente mortal de Roger Williamson, no circuito de Zandvoort, descobri numa simples pesquisa no Youtube estas duas reportagens feitas pela TV francesa, imediatamente após a corrida holandesa, onde se mostra o gesto nobre de David Purley de o tentar salvar e apesar de se louvar os avanços que tinham acontecido em termos de segurança dos carros e respectivos depósitos de gasolina, se critica o socorro dos comissários de pista e dos bombeiros locais para socorrer o piloto britânico de 25 anos.

Na primeira reportagem, temos o jornalista Edouard Seidler, do jornal "L'Equipe", que refere que o que se deveria fazer por ali era que os bombeiros e os comissários de pista deveriam ser formados pela FIA e pela CSI, a comissão desportiva internacional, para que pudessem ter uma melhor resposta em situações como esta. E que também fala que em casos como este, as corridas deveriam ser interrompidas sem apelo nem agravo, em nome da segurança e que os socorristas pudessem trabalhar sem que colocassem as suas vidas em perigo.

Na segunda reportagem, feita no dia a seguir, os convidados são um comissário de pista e o piloto Henri Pescarolo. Após terem de novo visto as imagens, Pescarolo afirmou que os pilotos, por norma, não param para socorrer os seus camaradas, pelo simples fato de para isso, estão lá os comissários de pista. Mas afirma que ele poderia ter sido salvo, caso os comissários estivessem melhor equipados e o socorro fosse mais eficaz. 

E nessa reportagem, o jornalista fala de uma estatística cruel: até então, onze pilotos tinham morrido nessa temporada, em várias competições automobilísticas. Dois deles tinham acontecido nas 500 Milhas de Indianápolis: primeiro Art Pollard, nas qualificações, e depois Swede Savage, na corrida, embora este tivesse morrido um mês e meio depois, devido a uma complicação médica. E os trinta dias anteriores tinham sido particularmente crueis: a 23 de junho, o escocês Gerry Birrell tinha morrido numa corrida de Formula 2 em Rouen, e uma semana antes de Williamson, a 21 de julho, outras duas mortes tinham acontecido, quando os pilotos Hans-Peter Jostein e Roger Dubos tinham morrido numa colisão nas 24 Horas de Spa-Francochamps. E finalmente, na véspera do acidente de Zandvoort, soube-se que outro piloto envolvido noutro acidente em Spa tinha sucumbido: o italiano Massimo Larini, tio de Nicola Larini.

Isto mostra o impacto que este acidente teve na altura. Foi de facto, um acidente cruel. Não no sentido do acidente em si e no nobre ato de David Purley em o tentar salvar, mas no facto dos comissários de pista o terem deixado um piloto morrer queimado no seu cockpit. Mesmo que a maior parte das pessoas dissessem que estavam equivocados - muitos pensavam que Purley era o piloto do carro virado! - algum piloto deveria ter apercebido de que algo de errado estava a acontecer por verem um piloto a insistir virar um carro, se este estivesse "fora dele".

Mas os pilotos não foram os culpados, aqui têm de se apontar aos comissários, à organização do circuito. Subestimaram a gravidade do acidente, equivocaram-se do que se passava e não mostraram uma bandeira vermelha para parar a corrida, nem que fosse para entrar o carro de bombeiros e ir apagar o fogo. De facto aconteceu, mas foi... com a corrida a decorrer! Dois anos depois, quando o inquérito foi concluído e os resultados divulgados à imprensa, concluiu-se que Williamson tinha morrido sufocado, e não no impacto, como os comissários explicaram inicialmente.

O acidente causou indignação na altura, e de uma certa forma, tornou-se num ponto de viragem. A segurança foi aumentada, quer nos carros, quer nos circuitos, quer nos espectadores. E as corridas foram mais vigiadas, para evitar negligências grosseiras como aquelas. Mas naquele ano em particular, onde quinze dias antes de Zandvoort todos respiravam aliviados pelo facto de ninguém ter morrido após uma carambola de onze carro provocado pelo despiste do McLaren de Jody Scheckter, ainda havia muito para fazer no sentido de modificar carros, pilotos e circuitos. Dali a dois meses e algumas semanas, em Watkins Glen, a Formula 1 voltaria a chorar o desaparecimento precoce de mais um piloto.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A extraordinária vida do aventureiro David Purley

Faz agora 28 anos que o britânico David Purley sofreu o seu acidente fatal, ao largo da sua Bognor Regys natal, a bordo de um avião de acrobacia, quando retomava a um velho amor, anos depois de ter tido uma carreira no automobilismo que sendo parca em resultados, foi rica em situações que o colocaram como um dos heróis do seu tempo. Pela sua coragem e pela sua capacidade de sobrevivência.

Inicialmente, esta matéria era para ser publicada na edição de julho da revista Speed, em conjunto sobre uma biografia de Roger Williamson, dado que no final do mês passarão 40 anos sobre o seu acidente fatal e as tentativas de Purley em o salvar, vistas em direto e ao vivo na televisão. Contudo, com a revista "em suspensão" devido ao facto do seu fundador e editor estar dedicado à sua vida universitária, achei que esta matéria não deveria ser desperdiçada num arquivo qualquer e então decidi colocar aqui, pois também vi que nunca fiz uma biografia decente sobre Purley, ao longo da história deste blog.

Assim sendo, aqui vai:

A EXTRAORDINÁRIA VIDA DO AVENTUREIRO DAVID PURLEY


Nunca venceu uma corrida de Formula 1. Aliás, sequer pontuou na sua curta carreira na categoria máxima do automobilismo. Mas graças à sua vida de aventureiro e os seus feitos vão muito para além da Formula 1. Nascido em berço de ouro, teve gosto de aventura, em busca de excitamento e adrenalina. Viveu apenas 40 anos, mas foi das mais incríveis e plenas. Hoje em dia, quando se fala do nome de David Purley, é por ter tentado salvar um companheiro seu, faz agora 40 anos.

BERÇO DE OURO, GOSTO DE AVENTURA

David Charles Purley nasceu a 26 de janeiro de 1945 na cidade de Bognor Regys, no West Sussex britânico. Era filho de Charles Purley, que tinha vindo de um berço pobre para construir, em conjunto com o seu irmão Frank Purley, a LEC Regriferation, que construiu frigoríficos a partir de 1947, quando ambos converteram a firma das munições que tinham fundado para ajudar no esforço de guerra britânico, na II Guerra Mundial.

Ao longo dos anos 50 e 60, o negócio dos frigoríficos prosperou de tal forma que Charles e Frank se tornaram em milionários, dada a necessidade das pessoas em ter um frigorifico. Para se ter uma ideia, em 1960, apenas 13 por cento das casas britânicas tinham um, comparado com os quase cem por cento que existiam nos lares americanos, por essa mesma altura.

Foi graças ao negócio de familia que David Purley cresceu. Mas o berço de ouro não inibiu o seu gosto pela aventura. Depois de ter sido educado no Seaford College e no Darlington Hall School, em Devon, David Purley descobriu cedo o prazer de voar e incentivado pelo seu pai, que decidiu que o seu filho iria ter tudo aquilo que ele tinha sido privado, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido. Contudo, pouco depois, Purley decidiu alistar-se no exercito britânico, mais concretamente, no Regimento de Para-Quedistas. Em 1967, esteve em Aden, atual Yemen, numa altua em que aquela zona do globo vivia tempos agitados. Mas antes, tinha passado pelo seu primeiro momento aflitivo, quando durante um salto de treino, ainda na Grã-Bretanha, o seu paraquedas falhou parcialmente a sua abertura.

Após ter cumprido o seu serviço no exército, em 1968, Purley foi ter com um velho vizinho e amigo seu, Derek Bell, que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra, começou a vencer algumas corridas… e a ter acidentes. Quando o seu carro virou sucata, decidiu comprar um Chevron, e continuou a correr até 1970, quando decidiu mudar-se para os monolugares.

RECOMPENSADO PELA INTENÇÃO

Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o negócio da família. Com isso, começou a participar em competições britânicas e europeias, onde entre outros pilotos que viriam a chegar à Formula 1, estava um compatriota seu: Roger Williamson.

Williamson era um dos melhores do seu tempo. Em parceria com Tom Wheatcroft, ele dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972 (nessa altura, existia mais do que um campeonato de Formula 3 na Grã-Bretanha!), mas apesar desse domínio, havia ocasiões onde Purley poderia brilhar. Em 1970, venceu uma corrida na Belgica, o GP des Frontieres, situado na localidade de Chimay, conseguindo bater por 0,3 segundos outro jovem britânico, chamado James Hunt. No ano seguinte, Purley repetiu a façanha no mesmo lugar, altura em que tinha trocado de chassis, desta vez indo para um Ensign, onde graças a ele, venceu mais duas corridas naquela temporada. Em 1972, mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.

Em 1973, começa a temporada na Formula Atlantic, mas pelo meio, arranja um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreve-o sob a bandeira da LEC Refrigeration e vai participar em algumas corridas. Estreia-se no GP do Mónaco, o mesmo local onde outro March foi inscrito, para James Hunt, onde não termina a corrida. A sua segunda prova será apenas em julho, em Silverstone, mas vai ter vida curta, pois sofrerá um despiste logo na primeira volta, imediatamente antes da carambola provocada pelo McLaren do sul-africano Jody Scheckter, onde ele colocará mais oito carros fora de prova.

Mas vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome fica conhecido pelo mundo inteiro. Partindo da 21ª posição nos treinos, na corrida tinha subido um pouco até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, que ali fazia a sua segunda corrida na Formula 1. Purley seguia imediatamente atrás e sem hesitar, parou o seu carro e foi a correr para os destroços do carro acidentado.

O March de Williamson tinha sofrido um furo a alta velocidade e batera fortemente nos rails de proteção, ficando de cabeça para baixo e a ser arrastado por mais de uma centena de metros até parar, em chamas e com o piloto preso nos destroços. Primeiro, Purley pegou num extintor que um dos comissários tinha trazido, tentando apagar as chamas. Depois tentou virar o carro, mas em ambas as ocasiões, não o conseguiu. Desesperado, apelou aos comissários e às forças policiais para que o ajudassem a virar o carro, mas estes estavam convencidos que Williamson tinha morrido no impacto.

Para piorar as coisas, os comissários de pista de Zandvoort, que estavam a ver as imagens pela televisão, não reagiram de imediato porque estavam convencidos que Purley estava a virar o seu próprio carro. Um carro de bombeiros chegou mais de oito minutos depois do acidente, mesmo com a corrida a decorrer. Quando as chamas foram apagadas e o carro virado, Roger Williamson estava morto. Tinha 25 anos.

Todos aqueles instantes foram vistos em direto pelo mundo inteiro e o acidente causou um natural choque. Um símbolo da crueldade do automobilismo e da pouca segurança existente naquele tempo, o gesto de Purley foi visto como um ato de salvamento sem igual. No final daquele ano, o governo britânico decidira condecorar Purley com a George Medal, a maior condecoração civil por bravura. Mas ele não tinha sido o único: alguns meses antes, no circuito sul-africano de Kyalami, Mike Hailwood tinha salvo o suíço Clay Regazzoni de morrer preso no seu BRM quando as chamas invadiram o seu carro após uma colisão com o antigo campeão de motociclismo.

CONSTRUTOR DE CHASSIS E 179,8 G’S DE IMPACTO

Purley voltou a correr num Formula 1 no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo. A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo no campeonato da categoria, a bordo de um Lola. Essa passagem revelou-se um sucesso, sendo campeão em 1976. Pelo meio, ele tentou qualificar-se no GP da Grã-Bretanha de 1974, a bordo de um Token, mas não foi bem sucedido.

Passado esse título na Formula 5000, decidiu que era altura de voltar à Formula 1. Mas não queria ir para lá só como piloto: decidira também que iria ser construtor. Pediu a Mike Pilbeam – que tinha desenhado o BRM 201 – que projetasse um, pediu a Mike Earle – que mais tarde formaria a Onyx – que cuidasse da equipa e sem testes e simuladores, como acontece neste inicio do século XXI, lá nasceu, num canto da sua fábrica de frigoríficos de Bognor Regis, o chassis LEC.

O carro, batizado como LEC CRP1, estreou-se em Jarama, palco do GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, palco do GP belga. E aí, Purley deu nas vistas. Numa corrida que começou sob piso molhado, mas com a pista a secar aos poucos, os pilotos iam às boxes para trocar pneus. Como nessa altura, tal coisa durava a “eternidade” de 30 segundos, Mike Earle mandou uma mensagem nas placas a dizer para se mantivesse na pista o máximo de tempo que pudesse. E por causa isso, a determinada altura, Purley estava nos lugares da frente!

Com o tempo, aparece o Ferrari de Niki Lauda, que o pressionou por muitas voltas, mas Purley não cedeu, incomodando o suficiente para perturbar o cerebral austríaco. Claro, isto teve efeitos na corrida, com Lauda a não chegar à vitória – quem venceu foi Gunnar Nilsson, na sua única vitória na Formula 1 - e Purley, que no final da corrida terminou na 13ª posição, perguntou de modo sarcástico a Earle: “Quem era o idiota do carro vermelho?” Lauda ouviu isto e ambos tiveram a seguir um aceso debate, onde Lauda chamou a Purley de “coelho” e este devolveu a graça, chamando-o de “rato”.

Purley não deixou passar em claro a graça, colocando a figura de um coelho na corrida seguinte, o GP da Suécia. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” no seu capacete, algo que foi levado com imenso humor no “paddock”.

No GP da Grã-Bretanha, disputada no veloz circuito de Silverstone, a quantidade de carros inscritos – entre eles o Renault Turbo de Jean-Pierre Jabouille e o terceiro McLaren do canadiano Gilles Villeneuve - levou a que os organizadores fizessem uma pré-qualificação. Aí, Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, quando fazia a curva Becketts, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção. Sofrera um impacto de 179,8 G’s de força, pelo facto do carro ter vindo de 173 km/hora para zero… em meros 66 centimetros, e ele estava esmagado no seu cockpit, com graves lesões nas pernas, na pelvis e no torax. Mas tinha sobrevivido.

UMA PERSONAGEM À PARTE

Purley esteve quase um ano a recuperar dos seus ferimentos, ao mesmo tempo que o seu carro era reparado. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do seu LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a sua carreira de piloto.

Após isso, Purley decidiu ajudar no negócio da família, mas não andou longe dos brinquedos. Voltou à sua primeira paixão, a aviação, e arranjou um Pitts Special para fazer a sua acrobacia, que o fazia sempre que podia.

Contudo, a 2 de julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua Bognor Regis natal, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.

Rob Widdows, outro jornalista britânico, tinha boas razões para recordar bem David Purley e o seu carácter. Escrevendo sobre a sua aventura da LEC em maio de 2012 na Motorsport britânica, afirmou “Os privados já desapareceram há muito da Formula 1. São ‘mavericks’, excêntricos, uma elite à parte. Purley era um convidado regular no meu programa de rádio ‘Track Torque’, e vinha regularmente acompanhado do seu amigo e vizinho, Derek Bell, ou da sua namorada de então, Gail. E às vezes vinha com ambos.

Certo dia, ele chegou tarde ao meu programa, e Bell explicou que o motivo foi porque Purley insistiu que queria caçar coelhos a partir da bagageira do seu Range Rover, e claro, isso fez-os atrasar. Noutra ocasião, ele decidiu por à prova a concentração do apresentador do programa de rádio, elevando a camisola de Gail, revelando assim a sua parte de cima.

Hoje em dia, pode-se ver os destroços do seu LEC acidentado no Donington Collection, uma das maiores coleções de bólides de Formula 1 em todo o mundo. O carro não está muito longe da memorabilia de Roger Williamson, o homem que tentou salvar em Zandvoort, naquela tarde de julho de 1973.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O local onde morreu Roger Williamson

Tenho um bom amigo meu, o Paulo Marques, que de vez em quando me manda muitas fotos de automobilismo, em especial a Formula 1. Entretanto, ontem, mandou-me umas imagens impressionantes de um local que muitos saberão qual é e o que aconteceu ali, mas que na atualidade é outra coisa.

A zona de Tunnel Oost ficou infamemente conhecida como o local onde, a 29 de julho de 1973, o March de Roger Williamson entrou em despiste e se incendiou. Intantes depois, outro piloto, o seu compatriota David Purley, encostou o seu carro e foi em seu socorro. Um socorro que foi visionado um pouco por todo o mundo, em direto e a cores, enquanto tentava salvar inutilmente Williamson, preso nos seus escombros, mas deixado morrer por uma série de equivocos dos comissários de pista. Pela sua atitude, Purley foi condecorado com a George Medal.

Quase 40 anos depois, aquela parte do circuito foi abandonada. A razão é simples: em 1989, a anterior proprietária do circuito abriu falência e os novos proprietários decidiram reconstruir o circuito, fazendo-o mais compacto, num total de 4100 metros, e aproveitando a parte que ia da meta até após a curva Sheivlak. Tunnel Oost, Panoramabocht e Bos uit ficaram de fora e desapareceram, dando lugar a um condominio com o seu respectivo parque desportivo.

Contudo, os vestígios estão lá: no parque, a faixa asfaltada que em tempos pertenceu ao circuito e tantos pilotos andaram por lá, dando o seu melhor, e foi também palco de uma tentativa heroica, desesperada ou inutil, ,as necessária, de salvar alguém. Não sei porquê, mas acho que esse dia na formula 1 merece ser lembrado com uma placa, um memorial ou algo do género, para que aquele dia no já distante ano de 1973 não seja esquecido.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sobre a impressionante e cruel morte de Roger Williamson

Poderia ser mais um a falar sobre o aniversário de Fernando Alonso, mas o piloto de Oviedo teve o azar de ter nascido precisamente oito anos dpeois de um dos acidentes mais impressionantes da história de Formula 1. E a maneira como isso foi captado em direto, para além dos esforços - bravos, mas inuteis - de outro piloto, que decidiu abdicar da corrida para socorrer um camarada preso nas ferragens, acho que merece ser referido todos os anos, como uma forma de recordar aos mais novos o muito que a Formula 1 caminhou até chegar ao padrão de segurança que temos hoje em dia.

É estranho como posso falar constantemente uma efeméride que aconteceu antes de nascer. Mas provavelmente a morte de Roger Williamson pelo impacto que tem, mesmo após tanto tempo, acho que impressiona qualquer um, quem quer que tivesse nascido por essa altura ou não. A ideia de nos ver uma pessoa a morrer diante de nós - e foram milhões, naquele dia, em Tv's a preto e branco e a cores - e mais do que isso, ver aquela pessoa, David Purley de seu nome, abandonar o seu carro e correr para empurrar o carro de Williamson da posição onde estava. E o mais impressionante, entre os vários factos que aconteceram nesse dia, era que ele estava vivo após o embate, e suficientemente consciente para pedir a Purley para que o tirasse dali, pois já estava a ficar sufocado com o monóxido de carbono que o iria matar.

Ao ver as imagens do desastre, via-se que bastavam três ou quatro pessoas para conseguir colocar o carro no chão, e retirá-lo dali e levá-lo para a enfermaria, e depois o hospital mais próximo. Provavelmente não teria tido ferimentos graves, mas a realidade foi que Roger Williamson morreu devido à negligência dos organizadores, dos comissários de pista, das autoridades de segurança do circuito de Zandvoort. E o irónico é que aquele circuito, palco de um acidente fatal três anos antes, com outro britânico, Piers Courage, tinha regressado ao calendário da Formula 1 em 1973, depois de ter ficado um ano de fora para profundas obras de melhoramento do seu circuito, com guard-rails e uma nova capa de asfalto.

Mas no final foi a negligência humana que matou Roger Williamson. O inquérito subsequente mostrou isso mesmo, e Ed Swarts, o diretor da corrida nesse ano, disse que “Foi tudo uma terrível má interpretação do que estava a acontecer.” E essa má interpretação custou a vida de um jovem de 25 anos.

David Purley, o homem que tentou salvar, foi condecorado com a George Medal, a mais alta distinção de bravura atribuido a um civil britânico. Poucos anos depois, em julho de 1977, voltou a ser noticia quando sobreviveu a um acidente nos treinos para o GP britânico, em Silverstone. Gravemente ferido, sobreviveu a um choque de 179,8 G's quando desacelerou num mero espaço de... 66 centímetros de 173 km/hora a zero. Os seus restos estão no museu de Donington Park, levado por Tom Wheatcroft, que tinha sido o manager de... Williamson. Acabou por se dedicar à acrobacia aérea e morreu num acidente em 1985.

Se quiserem ler a biografia de Williamson, podem vir aqui. E sobre os eventos daquele cada vez mais distante 29 de julho de 1973, nas dunas holandesas de Zandvoort, podem também vir aqui.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Youtube F1 Classic: Zandvoort 1973, GP da Holanda



No inicio do dia, coloquei aqui o post sobre Roger Williamson, pois hoje deveria ser o seu 63º aniversário natalicio. Acho que não valia a pena colocar qualquer video sobre isso, porque acho que é algo que já foi visto milhares de vezes. Contudo, no final do dia, encontro este achado: um video de toda a corrida, numa só vez, em vez se ser às fatias, sem comentário, nada. São cem minutos de corrida, pura e dura, a cores e de alta qualidade, para os padrões de 1973.

É um verdadeiro achado, diga-se, pois é raro ver isto de uma só vez, pois esta tecnologia providenciada pelo Youtube tem pouco tempo e somente uma minoria de videos tem isto. Portanto, se quiserem, vejam o video pelos vossos próprios olhos e observem como eram as coisas antes de vocês nascerem, se tiverem menos de 35 anos...

A curta vida e morte cruel de Roger Williamson

Poderia ter sido campeão do mundo. Tinha um enorme talento e tornou-se num excelente piloto na ultra-compatitiva Formula 3 britânica, a melhor do mundo. Muitos consideravam que Roger Williamson tinha talento não só para chegar à Formula 1, mas também para ser campeão do mundo, na senda de Jim Clark, John Surtees, Graham Hill e Jackie Stewart. Contudo, teve apenas duas chances para mostrar o seu talento, e ambas as suas corridas acabaram cedo. E uma delas tornou-se fatal, entrando nos livros de história do automobilismo não só pelo motivo mais cruel de todos, mas pela desesperada tentativa de um colega seu para o salvar.

" (...) A corrida prossegue, com os comissários somente a assinalar o local com bandeira amarela, pois julgavam que tal como tinha acontecido três anos antes com Piers Courage, que tinha tido um acidente fatal no mesmo local, ele também sofrera o mesmo destino. Mas subitamente, um carro para ao seu lado e tenta virar os restos do March: era o seu compatriota David Purley. De forma incrível, Williamson não tinha sofrido ferimentos graves, mas devido á maneira como o carro tinha ficado, não conseguia respirar devido aos fumos tóxicos que o seu carro emanava, devido às chamas.

As chamas eram muitas e fortes, mas os comissários nada fizeram, e para piorar as coisas, o seu chefe não mandou parar a corrida, pois julgava que, pelo que via na televisão, o carro que Purley estava a virar seria o dele. A não existência de uma comunicação direta com os comissário ali instalados fez aumentar ainda mais o equivoco, e o salvamento não se tornou urgente. Sabendo o que se passava, Williamson gritou desesperado: “Pelo Amor de Deus, David, tira-me daqui!”. Purley fazia o impossível, e pedia aos comissários para o ajudar. Mas estes não o fizeram, pois estavam desprotegidos contra as chamas vindas do carro. Quando o carro de bombeiros chegou – e ainda com a prova a decorrer – as chamas foram apagadas, mas o piloto não foi socorrido. Desesperado, Purley fez o possível, mas depois desistiu.

Incrivelmente, a corrida contiunuou e só tirou Williamson do local após a corrida, que nunca foi parada com bandeiras vermelhas. (...)"

Estes são os excertos dos momentos da cruel morte de Roger Williamson que escrevi hoje no sitio Podium GP em mais um artigo dedicado a história do automobilismo. Caso David Purley o tivesse salvo, hoje estaria a comemorar o seu 63º aniversário.

domingo, 1 de novembro de 2009

The End: Tom Wheatcroft (1922-2009)

O circuito de Donington Park deveria receber em 2010 o Grande Prémio de Inglaterra de Formula 1, e por isso está em obras. Mas a crise económica mundial e a falta do aval dos bancos para conceder empréstimos fez com que o projecto se atrasasse e perdesse a confiança de Bernie Ecclestone, o homem que dita quem recebe ou não a Formula 1. Este circuito é um dos mais antigos da Grã-Bretanha, e estava a passar pela sua terceira encarnação. A primeira aconteceu antes da II Grande Guerra Mundial, quando recebeu as Flechas de Prata em 1937 e 38, com vitórias de Tazio Nuvolari e Bernd Rosemeyer. A segunda aconteceu nos anos 70, quando foi recuperada para a competição, após anos de abandono como depósito militar. O homem que fez isso era um construtor civil, apaixonado por automóveis, que ajudou a carreira de Roger Williamson e disse certo dia que quando viu Ayrton Senna vencer em 1993 "sentiu-se como uma criança". Esse homem era Tom Wheatcroft e morreu ontem aos 87 anos.

Wheatcroft nasceu a 8 de Maio de 1922 em Castle Donington, não muito longe do circuito que lhe ocupou toda a sua vida. Somente teve 18 meses de educação formal, e cedo se apaixonou por automóveis, quando ia ver os Flechas de Prata a correr no circuito. "Você teria de estar lá para perceber. Ver os Mercedes W125 e os Auto Union V16 a darem mais de 200 km/hora na recta... o cheiro a gasolina, a velocidade, o barulho que faziam... nunca tinha visto nada antes", afirmou anos depois. Na II Guerra Mundial esteve numa unidade de artilharia do Exército Britânico e passado o final da Guerra, estableceu o seu negócio de construção civil, onde prosperou, conseguindo uma fortuna que hoje em dia está establecida em 120 milhões de libras.

No final dos anos 60, Wheatcroft exprime a sua paixão pelo automobilismo ao construir a sua própria equipa, a Tom Wheatcroft Racing. Em 1970 compra um Brabham BT30 para Derek Bell, no sentido de correr o campeonato de Formula 2. As coisas correram bem e acabou vice-campeão da categoria. Depois tentou a mesma sorte na Formula 1, comprando um Brabham BT26A para Bell, mas as coisas não foram bem sucedidas.

Em 1971, vê o seu circuito de infância, Donington Park, à venda. Comprou-a por cem mil libras e transferiu para lá a sua colecção de automóveis de competição antigos, naquilo que se transformou depois no Donington Grand Prix Exibition, que hoje em dia se tornou na maior do mundo, com extensas colecções de cárros como Vanwall, BRM, McLaren, Williams, Lotus, Cooper, entre outros. Para além disso, tem uma extensiva colecção de capacetes, de pilotos que marcaram eras na Formula 1, desde Juan Manuel Fangio até Fernando Alonso, passando por Graham e Damon Hill, Ayrton Senna, Jim Clark, James Hunt e Nigel Mansell, entre outros.

Recuperou o circuito e pô-lo a funcionar em 1977, como um "Motor Trial" devido a questões legais relacionados com a Assiociação de Caminhantes "The Ramblers", que tinha um contencioso com Wheatcroft devido aos direitos dos caminhos pedonais existentes na área do circuito. Algum tempo depois, a questão foi resolvida e foi-lhe concedida a licença.

Em 1972, Wheatcroft ressuscitou a sua equipa, toda ela construida à volta de um promissor piloto de Formula 3 chamado Roger Williamson. Numa altura em que existiam dois campeonatos nacionais de Formula 3, patrocinados por diferentes entidades, Williamson cometeu a proeza de vencer a todos, o que, acumulando com outra vitória em 1971, tornou-se no recordista da competição. Vendo o potencial para ir longe, comprou um March 731 para ele e foi correr em Silverstone, no GP de Inglaterra de 1973. A sua estreia durou apenas uma volta, pois envolveu-se no acidente causado pelo McLaren de Jody Scheckter, e que colocou onze carros fora de combate. Na corrida seguinte, na Holanda, Williamson despistou-se na volta oito e acabou por morrer preso no seu carro, pois este tinha capotado, apesar dos esforços corajosos de um dos seus adversários, David Purley, de o salvar. Até morrer, Wheatcroft disse que esse foi o dia mais triste da sua vida, e nunca o esqueceu: existe um pequeno canto no seu museu a recordá-lo, e uma estátua de tamanho real, inaugurada em 2003, no 30º aniversário da sua morte.

Wheatcroft não mais se envolveu no automobilismo desta forma, e a partir de então se dedicou mais ao circuito do seu coração. Sempre acalentou o sonho de receber a Formula 1, e cumpriu-o em 1993, quando recebeu o GP da Europa. A Formula 1 foi lá uma vez, mas foi o bastante para entrar nos livros de História. A primeira volta de Ayrton Senna, onde partiu mal, bloqueado por Michael Schumacher e perdendo duas posições para Karl Wendlinger e Michael Andretti passou depois esses pilotos e mais os Williams de Damon Hill e Alain Prost. Essa primeira volta foi memorável para todos, incluindo Wheatcroft, que mais tarde disse que tinha sido uma das melhores exibições que tinha visto na sua vida, feita por qualquer piloto.

Em 2007, a empresa fez um aluger dos seus direitos de superfície por 150 anos à Donington Venture Leisures Ltd (DVL), no sentido de fazer profundas obras de reabilitação da pista, no sentido de se candidatar a receber o GP da Grã-Bretanha, algo que fora conseguido em 2008, com um contrato que entraria em vigor a partir de 2010, substituindo Silverstone, e que teria duração de... 17 anos! Contudo, as rendas em atraso e os atrasos nas obras fizeram com que a empresa processasse a DVL no inicio de 2009. A questão ficou resolvida num acordo extra-judicial, mas por esta altura já era tarde demais para salvar o contrato, pois Bernie Ecclestone já tinha denunciado o contrato e a Formula 1 iria continuar em Silverstone em 2010.

Por esta altura, o negócio já estava nas mãos de um dos seus sete filhos, e Wheatcroft tinha-se retirado para cuidar da sua colecção. A sua reputação a amor pelos automóveis tinha-o levado longe e o seu museu, bem como a recuperação do seu circuito favorito, lhe garantiram o seu lugar na história do automobilismo britânico e mundial. Ars lunga, vita brevis.