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quarta-feira, 2 de julho de 2025

As imagens do dia (II)







Agora que andamos num "hype" sobre o filme da Formula 1, Hollywood e mais alguns lados deveria começar a pesquisar a sério sobre as suas personagens. Se aplicarem a sério, creio que encontrarão rapidamente algumas dezenas de personagens que merecem uma série no Netflix, caso não caibam - ou não tenham orçamento para tal. Um deles tem de ser David Purley. 

Nasceu num berço próspero a 26 de janeiro de 1945, em Bognor Regis, o seu pai tinha fundado a LEC Refrigeration, a primeira marca de frigorificos do Reino Unido, prosperando fortemente com o produto. Quando acabou os estudos, foi para o Exército, mais concretamente no Parachute Regiment. Treinado para ser oficial, o seu paraquedas não abriu num exercício, enquanto estava em formação. Ele afirmou que "perdeu um das suas nove vidas" no excercicio, e só se salvou quando acabou por aterrar em cima do paraquedas do seu sargento. Felizmente, não ficou muito ferido.

Depois de prestar serviço em Aden, decidiu abandonar a sua comissão para procurar algo mais interessante. Descobriu o automobilismo. 

É preciso que se diga por aqui que Purley era alguém que hoje em dia seria considerado como um "viciado em adrenalina", pois mais que adorar o automobilismo, gostava sobretudo da excitação que andar no limite lhe dava. E começou no final da década, guiando em AC Cobra nos vários "club races" no Reino Unido, até que em 1970, ter ido para a Formula 3, onde o seu grande feito foi de ter ganho no temível circuito de Chimay, na Bélgica, entre 1970 e 72. Esse circuito era um de estrada, semelhante ao de Spa-Francochamps, mas ali, os carros passavam no meio da cidade!

Em 1972, era piloto de Formula 2, onde conseguiu um terceiro lugar na corrida de Pau, em França, a bordo de um March 722. E no final da temporada, teve a sua primeira chance de guiar um Formula 1, Quando soube que a Connew procurava um piloto para participar na Victory Race, a corrida de final de temporada em Brands Hatch, ele se inscreveu, e pediu a eles um dispositivo elétrico de ignição agarrado ao volante, pois seria mais prático para ele. Eles fizeram isso, mas o dispositivo avariou quando estava na volta de aquecimento, e a corrida ficou por ali. 

Em 1973, decidiu comprar um March com o dinheiro da família - logo, aplicou as cores da LEC - e alinhou no GP do Mónaco, sem acabar. Curiosamente, nessa mesma corrida, estreava-se outro March, o de James Hunt, inscrito pela Hesketh. Alinhou em Silverstone, onde foi uma das vítimas da carambola da primeira volta causada pelo McLaren de Jody Scheckter. 

Contudo, foi na sua terceira corrida da sua carreira, em Zandvoort, que entrou na história. Pelas piores razões. 

Na sétima volta do Grande Prémio, Purley, que largara de 21º, ganhava posições quando viu o carro que ia na sua frente perder o controle, por causa de um pneu furado, embater no guard-rail e arrastar-se por algumas dezenas de metros até parar na berma, ao contrário e em chamas. Era o outro March do seu compatriota Roger Williamson, que era o piloto oficial da marca e participava no seu segundo Grande Prémio na categoria. 

Parando na berma, Purley foi a correr para o lugar e tentou empurrar o chassis para cima, no sentido de o poder retirar, pois estava preso. Contudo, estava a fazer sozinho, porque estava protegido contra o fogo. Os bombeiros e policias estavam mal protegidos, e a corrida sequer foi interrompida - mais tarde, os comissários afirmaram que se tinham equivocado quando viram Purley a empurrar, julgando que o carro fosse dele. Williamson morreu sufocado, perante as câmaras de televisão, que transmitiam a corrida para o resto do mundo. 

No dia seguinte, Purley aparecia nos jornais e nas televisões como um herói, apesar de não ter conseguido salvar Williamson. No final do ano, o governo britânico resolveu condecorar Purley com a George Medal, a segunda mais importante condecoração por atos de coragem, da mesma maneira como, alguns meses antes, Mike Hailwood conseguiu salvar Clay Regazzoni das chamas, durante o GP da África do Sul, em Kyalami.

Ele regressou à Formula 2, em 1974, correndo pela Chevron, conseguindo dois segundos lugares, acabando com 13 pontos e o quinto lugar no campeonato. No ano seguinte, fez o campeonato britânico de Formula 5000, com duas vitórias, e o quinto lugar 98 pontos. E em 1976, torna-se no campeão da Shellsport Series, con seis vitórias.

Concluído o campeonato, Purley decidiu regressar à Formula 1, montando a sua própria equipa. A LEC Refrigferation Racing, era um carro desenhado por Mike Pilbeam, ex-BRM, e gerido por Mike Earle, que mais tarde se tornou do fundador e dono da Onyx, estreou-se em Jarama, não se qualificando. Mas pouco tempo depois, no GP da Bélgica, Purley aproveitou bem a mudança do tempo para andar, a certa altura, no terceiro posto. Com a chuva a parar e o asfalto a secar, ele começou a ser apanhado por outros carros, até à altura em que foi apanhado pelo Ferrari de Niki Lauda. Ao vê-lo, decidiu dificultar a sua vida. E no final da corrida, um Lauda enfurecido, disse das boas a Purley, que respondeu-lo, chamado-o de "Rato", e respondeu a ele, apelidando-lo de "Coelho". Claro, Purley agarrou fortemente a ideia e colocou a silhueta do coelho no seu carro na corrida seguinte.

Em julho de 1977, aconteceu o GP da Grã-Bretanha, em Silverstone. Como estavam 31 carrios inscritos, a organização decidiu fazer uma pré-qualificação, com 14 carros, dos quais os cinco melhores passariam. Entre os pilotos, estavam dois estreantes, Gilles Villeneuve, num McLaren, e Patrick Tambay, num Ensign. E claro, Purley, no seu LEC. Um segundo separava os nove primeiros, e Purley estava no fundo dessa tabela. E foi quando tentava melhorar o seu tempo, durante a segunda parte da sessão quando perdeu o controlo do seu carro, por causa de um acelerador preso. Bateu forte no muro, e sofreu uma desaceleração de 179,8 G's. Levado para o hospital, ficou internado durante alguns meses para curar das fraturas, e sobreviveu. A desaceleração o colocou no livro dos recordes do Guiness, como a pessoa que sobreviveu à desaceleração mais violenta de sempre.

Purley ficou com uma perna mais curta do acidente, e foi operado na Bélgica para voltar a ter as pernas com comprimento idêntico. Regressou ao automobilismo em 1979, no seu LEC reconstruído, mas competiu na Formula Aurora, uma competição que acolhia chassis antigos de Formula 1. No final dessa temporada, decidiu abandonar o automobilismo, e virou-se para a acrobacia aérea.

A 2 de julho de 1985, quando viajava ao largo de Bognor Regis, sua terra natal, a bordo de um Pitts Special, um biplano acrobático, exagerou numa das manobras e bateu forte na água, matando-o de imediato. Tinha 40 anos de idade, e viveu a vida pela adrenalina. 

No lugar onde ante se situava a fábrica da LEC, está uma estátua a homenagear Purley e os seus feitos.   

domingo, 26 de janeiro de 2025

A imagem do dia (III)





A carreira de David Purley - do qual, se estivesse vivo, faria hoje 80 anos - foi a de um piloto que sobreviveu ao pior, e cometeu atos humanos dignos de registo. Recipiente do George Medal, a segunda condecoração mais prestigiada por coragem da Grã-Bretanha, por ter tentado salvar - e não ter ter conseguido - o seu colega Roger Williamson, durante o GP dos Países Baixos de 1973, Purley sobreviveu a um acidente durante o fim de semana do GP da Grã Bretanha de 1977 quando a bordo do seu LEC, o carro construído por sua própria encomenda, sobreviveu a 180 G's com ferimentos graves, ao ponto de só regressar à competição dois anos depois, não mais à Formula 1. 

Mas a história da LEC é uma bem interessante: como o herdeiro de uma firma de frigoríficos, antigo membro das forças especiais, de Bognor Regis, decide construir a sua própria equipa, numa altura em que muitos seguiam esse rumo, em meados dos anos 70.

Depois de Purley ter comprado um March em 1973, e ter corrido em cinco provas, com um nono posto em Monza como melhor resultado, ele decidiu rumar para outras competições como a Formula 5000, onde acabou por ser campeão em 1976, num Chevron. Foi aí que decidiu regressar à Formula 1, a bordo do seu próprio carro. Recorreu a Mike Pilbeam, que tinha construído o BRM 201, o último carro competitivo da marca, e também a um jovem talentoso em termos de gestão de equipas, Mike Earle - mais tarde seria um dos fundadores da Onyx - e construía aquilo que iria ser o LEC CRP1.

O carro até tinha alguns méritos, mas quando se estreou, no fim de semana do GP da Espanha, não conseguiu a qualificação, sendo 30º... em 31 carros inscritos. Na corrida seguinte, foi melhor: 20º na grelha. Numa corrida com tempo variável - primeiro chuva, depois o piso secou - Purley aproveitou bem ao ficar na pista enquanto os outros foram às boxes, chegando a andar nos pontos (terceiro classificado na volta 21!). E a certa altura, Niki Lauda acabou na traseira de Purley, com ele a fazer a sua vida bem difícil. Claro, o austríaco não achou graça alguma. 

No final de uma corrida ganha por Gunnar Nilsson, e apesar dele ter ficado em 13º, Lauda foi ter com ele para exigir satisfações, com ele a responder com algo parecido como "o coelho que caçou o rato". O "rato" era um dos nomes dados a Lauda. E na corrida seguinte, um autocolante apareceu ao lado do carro de Purley, com o símbolo do coelho. 

O carro classificou-se tranquilamente na grelha, apesar de nunca conseguir um lugar nos pontos - foi 14º na Suécia e desistiu em Dijon, palco do GP de França - e em Silverstone, ele iria participar numa pré-qualificação, com outros 13 carros, entre eles os McLaren de Gilles Villeneuve e de Brett Lunger, o Ensign de Patrick Tambay, ou o Penske-ATS de Jean-Pierre Jarier. Não era fácil - um segundo separou os nove primeiros classificados - e este aconteceu na quarta-feira antes do Grande Prémio.

O finllandês Mikko Kowaritzky foi o primeiro acidentado, num March, onde quebrou a sua mão direita. Pouco depois, Purley tentou a sua sorte, julgando que tinha carro para conseguir um bom resultado para seguir em frente, mas na curva Copse, o acelerador ficou preso e bateu contra a parede, e o carrio ficou esmagado, efeito-concertina. Purley sofreu imensas fraturas e ficou mais de um ano a recuperar, e a sua aventura acabou por ali. 

Em 1979, ele regressou à competição, mas na AFX Aurora, com o seu carro. Depois de algumas corridas, decidiu abandonar o automobilismo e acabou por se dedicar à acrobacia aérea. Morreu a 2 de julho de 1985, num acidente aéreo, ao largo da sua Bognor Regis natal. 

Dos dois LEC, um esteve exposto no museu de Donnington até 2011, altura em que o museu foi encerrado, e o segundo carro corre hoje em dia em competições históricas.  

sábado, 29 de julho de 2023

A(s) image(ns) do dia









Era para ser um dia de festa. Mas acabou em tragédia. E depois, quando se soube das circunstâncias, ela virou indignação. 

Como podem imaginar, não era nascido quando tudo aconteceu. Mas com o tempo, soube de tudo, das circunstâncias. Que estava um belo dia de verão no mar do Norte. que tinham ido 90 mil espectadores à pista para ver a corrida. Que foi uma prova onde os Tyrrell dominaram, com o escocês Jackie Stewart a levar a melhor sobre Francois Cevért e foi o local do primeiro pódio de James Hunt, naquela que foi a sua 26ª vitória, superando o seu compatriota Jim Clark no quesito do piloto mais vitorioso de sempre.

E era o regresso da Formula 1 a Zandvoort, depois de um ano de ausência, onde se gastou mais de um milhão de dólares para remodelações, nomeadamente uma nova capa de asfalto e guard-rails em toda a extensão da pista. 

Mas tudo isso foi esquecido por causa do acidente da volta sete. Se as pessoas achavam que é tudo romântico ter alguém que vive constantemente com o perigo e que a morte está sempre à espreita, ver tudo a acontecer diante dos teus olhos, num sábado à tarde, na tua sala de estar, à frente da tua televisão a cores - ou a preto e branco - acho que todo o teu romantismo se foi, naquele dia.

O que aconteceu ali foi homicídio por negligência. Porque - a comissão de inquérito depois afirmou isso, dois anos depois - que Roger Williamson ainda estava vivo depois do acidente e o começo do incêndio. Aliás, os comissários impediram que David Purley continuasse a tentar levantar o carro porque julgavam que ele tinha morrido no impacto, para além de não estarem equipados com fatos anti-fogo, por exemplo. Não foi. Nem eles se prontificaram a ajudar a levantar o carro e a levá-lo para o centro médico do circuito. E nem falo do diretor ter interrompido a corrida com uma bandeira vermelha. no inquérito, alegou que quando viu Purley a tentar empurrar o carro, pensava que era ele o acidentado e estava a colocar o carro de pé. 

Claro, pode-se afirmar "ah, mas a mentalidade é diferente na altura". Claro que era. O espetáculo tinha de continuar, e não interessava se fosse um "zé ninguém" ou o campeão do mundo. Mas, por incrível que pareça, o acidente de Williamson foi o virar de pagina em termos de mentalidade. Até entre os pilotos. Não foi por acaso que numa das fotos, pode-se ver o BRM de Niki Lauda a passar pelos destroços do March de Williamson. Tempos depois, disse que, se soubesse o que se tinha passado, não teria hesitado em parar e tentar salvá-lo. Bem vistas as coisas, pode agradecer ao sacrifício dele porque foi isso acabou por salvar a sua própria vida, quando três anos e três dias depois, quatro pilotos - Brett Lunger, Guy Edwards, Arturo Merzário e Harald Ertl - o retiraram do seu carro em chamas, no Nurburgring Norschleife. 

Dezenas de milhões de pessoas, um pouco por toda a Europa ocidental e América do Norte, viram, em direto e via satélite, a morte de uma pessoa diante dos seus olhos, e não esqueceram do que viram. E a partir dali, pediram para que agissem de forma mais robusta perante uma situação destas. E foi o que aconteceu, quando a segurança aumentou muito em termos de carros, circuitos, comissários e pilotos. 

Contudo, não impediu outros acidentes graves, como o de Niki Lauda, ou mortais, como Francois Cevért, Ronnie Peterson ou Gilles Villeneuve, mas ali a segurança melhorou imenso. As corridas são paradas - e até concluídas quando acontecem um acidente. Os circuitos são muito melhores, os comissários são mais ágeis - por vezes, exageram, como no caso das corridas à chuva. Mas a mentalidade "o espetáculo tem de continuar" já não existe mais. 

Aliás, já nem querem mais. O que desejam é um equilíbrio entre um lado e o excesso de cautelas em relação à segurança, especialmente quando o tempo se põe cara feia, como está na Bélgica nesta final de semana. 

Quem conhece a história, sabe como acabou: Williamson acabou por ser um dos maiores talentos desperdiçados do automobilismo, Purley, um antigo soldado de elite e herdeiro do maior fabricante de frigoríficos no Reino Unido, foi condecorado pelo seu ato de coragem, e morreu num acidente aéreo em 1985, oito anos depois de um grave acidente em Silverstone, na qualificação para o GP britânico. 

E hoje passa meio século. Muito provavelmente, quem ver as imagens dessa corrida, não esquecerá mais.    

domingo, 29 de julho de 2018

Youtube Formula One Classic: GP da Holanda, 1973


A coisa bem interessante é que poderemos encontrar parte da temporada de 1973 no Youtube e na íntegra, sem narração e só com o som ambiente. Contudo, este GP holandês fica tragicamente marcado pelo acidente mortal de Roger Williamson, durante a 14ª volta da corrida. Bem como as tentativas do seu compatriota David Purley de o salvar. 

Ai está o video da corrida, ao vivo e a cores. E com todo o seu horror.  

GP Memória - Holanda 1973

Duas semanas depois da Formula 1 ter corrido em Silverstone e de se ter assistido à maior carambola da história do automobilismo até então, máquinas e pilotos rumavam a Zandvoort, para ser palco do GP da Holanda. A pista fazia o seu regresso à Formula 1, depois de um ano de ausência. Durante esse tempo, tinha sido palco de profundas obras de remodelação, que implicou o reasfaltamento da pista, um melhor sistema de drenagem de águas pluviais, novas escapatórias e barreiras de proteção, melhorando bastante a segurança.

O regresso fora saudado por pilotos, que elogiaram os esforços da organização. E no dia da corrida, esperavam-se 80 mil espectadores à volta da pista, pois estava um típico dia de verão. 

No pelotão da Formula 1, Jody Scheckter estava fora, por acharem que era "um perigo" para os outros pilotos, pois tinham-o culpado pela carambola que tinha acontecido no final da primeira volta da corrida britânica. A Ferrari estava ausente da prova, enquanto a Brabham não preencheu o lugar deixado vago por Andrea de Adamich após o seu acidente em Silverstone, que o deixara lesionado no tornozelo. Em contraste, na Iso-Marlboro, havia um novo piloto na equipa: o local Gijs Van Lennep.

Com 24 inscritos, Emerson Fittipaldi sofrera uma lesão na perna devido a um acidente nos treinos e apenas largaria da 16ª posição. Em contraste, o seu rival, Jackie Stewart, era segundo, atrás de Ronnie Peterson, o poleman. Francois Cevért era o terceiro, com Dennis Hulme a seu lado, no McLaren. Carlos Reutemann era o quinto, seguido pelo segundo McLaren de Peter Revson, e James Hunt, no March da equipa Hesketh. José Carlos Pace era o oitavo, no seu Surtees, e a fechar o "top ten" estavam o BRM de Jean-Pierre Beltoise e o Shadow-Ford de Jackie Oliver.

A corrida começou com Peterson na frente dos Tyrrell, seguido por Hulme, Pace e Revson. Niki Lauda atrasava-se devido a um despiste, caindo para o fundo do pelotão. Fittipaldi não aguentou as dores e acabou por abandonar na segunda volta.

As coisas estavam assim até à volta sete, quando um pneu do March do britânico Roger Williamson rebentou e ele bateu forte nos guard-rails, arrastando-se por mais de 150 metros depois do embate. A fricção causou um incêndio e um carro parou atrás para o tentar ajudar a tirá-lo das chamas. Era outro March, o privado de David Purley. Apesar de ter tentado virar o carro e apagar as chamas, os seus esforços foram inúteis e o britânico de 25 anos, visto como um dos mais promissores a chegar à Formula 1, acabaria por morrer sufocado devido aos fumos.

A corrida prosseguia com Peterson na frente, perseguido por Stewart e Cevért. As coisas andaram assim até à volta 66, quando o motor do sueco explodiu, deixando o escocês na frente, e assim foi até à meta. 

Stewart tinha razões para celebrar, porque agora tinha batido o recorde do seu compatriota Jim Clark, estabelecido cinco anos e meio antes, na África do Sul. Contudo, ao chegar à meta, foi avisado dos eventos e os festejos foram contidos, em sinal de respeito. Francois Cevért foi segundo, completando a dobradinha da Tyrrell, enquanto James Hunt era terceiro, no primeiro pódio da sua carreira. Nos restantes lugares pontuáveis ficaram o McLaren de Peter Revson, o BRM de Jean-Pierre Beltoise e o Iso-Marlboro de Gijs Van Lennep. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

A imagem do dia

"Já tinha visto demasiada gente ser fritada em carros, por aquela altura. Quando passas pelos [restos dos carros de] Bandini, Schlesser, Courage e Williamson, mais um acidente daqueles foi simplesmente demais para mim. Foi uma decisão simplesmente pessoal"

Chris Amon, em 1976, falando sobre a sua retirada após o GP da Alemanha.

Quem corria na Formula 1 nos anos 60 e 70, sabia que jogava com a sua vida. Chassis leves e frágeis, segurança ao nivel zero, depósitos de combustivel ao lado dos pilotos, suficientemente frágeis para poderem romper-se em caso de acidente, era o cartão de visita para qualquer aspirante a piloto. Dizia-se que em média, um piloto não passaria por um acidente grave ao fim de sete temporadas, e um erro era a morte do artista... literalmente.

Quando Amon soube da morte de Jim Clark, em abril de 1968, ficou realmente abalado. Foi nessa altura que questionou se realmente estaria seguro andar naqueles carros, quando o melhor de todos tinha morrido numa banal prova de Formula 2. Contudo, prosseguiu.

Amon realmente retirou-se a uma idade relativamente cedo, pouco depois de completar 33 anos. Mas ele já tinha catorze temporadas em cima dele e estava cansado de andar a arriscar o pescoço por pouco mais do que uma descarga de adrenalina. E preferiu sair agora do que esperar que o destino o chamasse precocemente, como tinha acontecido a muitos. Apesar do azar em termos de Formula 1, teve sorte no meio disto tudo: ele saiu dali vivo.

A escoha da foto não foi incocente: ali, ele passava pelos restos calcinados de Roger Williamson, no GP da Holanda de 1973, com um inconsolável David Purley em primeiro plano.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A imagem do dia

Se estivesse vivo, David Purley faria hoje 71 anos. Um herói que merece sempre ser lembrado. Aqui, no Nurburgring, em 1973.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A foto do dia

Eu nunca tinha visto esta foto até agora. Estava há uns dias no Facebook do Dú Cardim e isto demonstra até que ponto o automobilismo no passado era cruel, na parte doas acidentes mortais. E como os fotografos são capazes de tirar foto dessa crueldade. E o ar enjoado de David Purley quando os comissários retiram o cadáver de Roger Williamson, morto faz hoje 42 anos, impressiona.

Às vezes pensas se vale a pena mostrar isto ao mundo, mas pensando bem como foi aquele dia, sempre fiquei com a impressão que ali houve homicídio por negligência. Porque ele poderia ter sido salvo e não foi. A organização equivocou-se e deixaram-no morrer, simples.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A(s) foto(s) do dia

Passam hoje 30 anos sobre o seu desaparecimento. E como já disse muito sobre ele ao longo destes anos, hoje vou ser sintético nas palavras: ele é um herói para os nossos tempos. Porque ao menos , David Purley tentou salvar Roger Williamson, quando muitos ficaram quietos. E precisamos de exemplos desses nestes tempos que correm.

Claro, foi herói por mais coisas, e no fim de semana do GP britânico, recordamos também o seu acidente de 1977, onde sobreviveu a 176,2 G's de força no seu próprio carro. E continuo a dizer que a sua vida vale um filme de Hollywood. Pode ser que um dia façam. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

A foto do dia (II)

Há 70 anos nascia uma pessoa que vale um filme de Hollywood. Falo de alguém que era filho de um fabricante de frigorificos, que fez fortuna nessa área, esteve no exército britânico e que certo dia, falhou o paraquedas ao saltar do seu avião. Que quando acabou a tropa, decidiu continuar a perseguir por adrenalina e a conselho do seu amigo e vizinho Derek Bell, resolveu que o automobilismo era um excelente substituto. Pegou no dinheiro do pai e comprou carros, andando pela Formula 3 e Formula 5000, até chegar à Formula 1 num March que tinha comprado, no mesmo dia em que James Hunt se estreava na categoria máxima do automobilismo.

Tudo corria normalmente até ao dia 29 de julho de 1973, numa localidade costeira da Holanda chamada Zandvoort.

A história é conhecida. O exemplo que deu contrastou com a crueldade da cena, que o mundo inteiro via nas televisões. Os equivocos da organização foram inversamente proporcionais à indignação que resultou, alguns afirmando exageradamente que eles tinham deixado morrer o piloto que estava debaixo daquele carro, capotado e a arder.

Quem conhece a história, sabem do que falo. O herói que tentou inutilmente salvar o outro piloto era David Purley, que faria hoje 70 anos de idade. O "mártir" era Roger Williamson, que era considerado uma das maiores esperanças do automobilismo britânico, três vezes vencedor do campeonato britânico de Formula 3.

Foi Zandvoort que todos passaram a conhecer David Purley. Foi agraciado com a George Medal pela sua atitude naquela tarde holandesa, e deixou a Formula 1 por uns tempos, para vencer o campeonato de Formula 5000 na Grã-Bretanha. Quatro anos mais tarde, decidiu voltar à categoria máxima do automobilismo, construindo o seu próprio chassis, o LEC. Pediu a ajuda a Mike Pilbeam, que tinha desenhado os derradeiros BRM, e com a ajuda de Mike Earle, que doze anos depois, ajudou a fundar a Onyx, fez alguns feitos antes de, num treino em Silverstone, aparecer de novo nas noticias. 

Pelas piores razões.

Purley tentava qualificar o seu LEC para um lugar na grelha, que mais parecia uma "dança nas cadeiras", pois nesse final de semana, estreavam-se, entre outros, o Renault Turbo de Jean-Pierre Jabouille e o terceiro McLaren oficial, oferecido a um jovem canadiano chamado Gilles Villeneuve. Purley bateu forte na curva Club, depois do seu acelerador ter ficado preso. Sofreu uma desaceleração de 179,6 G's, e várias fraturas nas costelas, fémur e tornozelos. Muitos temiam pela sua vida, mas recuperou. ainda correu na Formula Aurora, mas não mais na Formula 1.

Mas Purley nunca deixou de procurar por adrenalina. Voltou a um velho amor, a aviação (tirou o brevet aos 15 anos!), e tornou-se acrobata, sempre arriscando por mais e melhor. Até que um dia, a 2 de julho de 1985, exagerou com o seu avião e caiu ao mar, sem que nunca conseguissem recuperar o seu corpo. Mas hoje em dia, todos se lembram dele, da sua equipa, e daquela tarde de verão holandês. E quem sabe, um dia, o veremos num ecrã de cinema próximo de nós...

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Youtube Motorsport Classic: A construção de um Formula 5000, 1975

Este é um documentário que descobri na semana passada no Jalopnik, mas queria encontrar a oportunidade de o colocar por aqui. Achei que neste sábado à noite mais calmo, seria uma boa chance para o colocar. Para quem não sabe, a Formula 5000 era uma competição com o objetivo de ser mais barato do que a Formula 1, usando em vez dos motores V8 da Ford, motores da Ford e da Chevrolet. Esta competição surgiu nos Estados Unidos, mas popularizou-se na Grã-Bretanha, Africa do Sul, Austrália e Nova Zelândia.

Este documentário é de 1975 e foi feito na Grã-Bretanha. Aqui, mostra-se o processo de construção de um desses carros, um Chevron que seria guiado por David Purley, na sua equipa LEC Refrigeration. Nessa altura, toda a genta já conhecia Purley devido a aquilo que fizera dois anos antes em Zandvoort, quando tentou salvar inutilmente o seu compatriota Roger Williamson. Purley iria acabar por ser campeão da categoria no ano seguinte, antes de tentar regressar à Formula 1 com a sua própria equipa.

No documentário, pode-se ver mais duas personagens interessantes: Mike Earle e Greg Field. Eles iriam catorze anos depois tentar a sua sorte na Formula 1, na aventura chamada Onyx, que está a ser contada por estes dias pelo Leandro "Verde" Kojima, no seu sitio Bandeira Verde.

Enfim, apreciem o documentário.

domingo, 4 de agosto de 2013

Este mês, no Nobres do Grid...

(...) Na qualificação, onde Ronnie Peterson tinha levado a melhor, e Emerson Fittipaldi corria inferiorizado devido a um acidente que o tinha ferido numa das pernas, Williamson tinha sido o 18º na grelha, três lugares à frente de Purley. Na volta seis, um pneu furado faz com que Williamson bata nos “rails” pela esquerda na curva Scheivlak e ricocheteia, virado de pernas para o ar, arrastando-se pelo chão para o outro lado da pista. Nesse percurso de 275 metros durante o arrasto, o tanque riscou o asfalto, com o efeito similar ao de um palito de fósforo sendo friccionado contra a caixa, causando de imediato um incêndio. Quando o carro acabou por parar, Williamson estava vivo, consciente, preso, sem possibilidade de sair.

Testemunha do que tinha acontecido, pois seguia imediatamente atrás dele, David Purley encosta o seu March e corre em direção de Williamson, acreditando que ele estava vivo. Entretanto, o incêndio espalhava-se e os comissários de pista tentavam apagar o fogo com os seus extintores. Quando Purley chega, começa por tentar apagar o fogo, para depois tentar virar o carro ao contrário, com os comissários a assistirem passivos ao que se passava, pois julgavam que o carro que Purley estava a virar... era o dele!

Corre-se a lenda que, vendo o que se passava, Williamson reconheceu Purley e gritou: “Pelo Amor de Deus, David, tira-me daqui!”. Este fazia o impossível, e pedia aos comissários para o ajudar. Mas estes não o fizeram, devido ao fogo, que era cada vez mais intenso, e para piorar as coisas, a organização não tinha visto a coluna de fumo e interrompido a corrida, limitando-se a assinalar o local com uma bandeira amarela. Um equívoco que acabaria por ser fatal. 

Ao fim de alguns minutos, desolado, Purley caminhou para fora dali. Entretanto, um carro dos bombeiros tinha sido finalmente levado para o local – com a corrida a decorrer - e apagaram o incêndio em pouco mais de um minuto. Mas ali, já era tarde demais: o promissor piloto inglês de 25 anos, que tinha ganho tudo na Formula 3 britânica, estava morto. (...)"

Esta semana recordei por aqui os eventos de Zandvoort, em 1973, mas também aproveitei a minha coluna mensal no site "Nobres do Grid" para recordar Roger Williamson e David Purley, que foram protagonistas, pelo pior, do Grande Prémio da Holanda desse ano. O facto de Williamson ter morrido à frente de toda a gente, e as tentativas desesperadas de outro piloto, que parou para o tentar salvar, ficou marcado para toda a história. 

Tudo isso e muito mais pode ser lido neste link. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A extraordinária vida do aventureiro David Purley

Faz agora 28 anos que o britânico David Purley sofreu o seu acidente fatal, ao largo da sua Bognor Regys natal, a bordo de um avião de acrobacia, quando retomava a um velho amor, anos depois de ter tido uma carreira no automobilismo que sendo parca em resultados, foi rica em situações que o colocaram como um dos heróis do seu tempo. Pela sua coragem e pela sua capacidade de sobrevivência.

Inicialmente, esta matéria era para ser publicada na edição de julho da revista Speed, em conjunto sobre uma biografia de Roger Williamson, dado que no final do mês passarão 40 anos sobre o seu acidente fatal e as tentativas de Purley em o salvar, vistas em direto e ao vivo na televisão. Contudo, com a revista "em suspensão" devido ao facto do seu fundador e editor estar dedicado à sua vida universitária, achei que esta matéria não deveria ser desperdiçada num arquivo qualquer e então decidi colocar aqui, pois também vi que nunca fiz uma biografia decente sobre Purley, ao longo da história deste blog.

Assim sendo, aqui vai:

A EXTRAORDINÁRIA VIDA DO AVENTUREIRO DAVID PURLEY


Nunca venceu uma corrida de Formula 1. Aliás, sequer pontuou na sua curta carreira na categoria máxima do automobilismo. Mas graças à sua vida de aventureiro e os seus feitos vão muito para além da Formula 1. Nascido em berço de ouro, teve gosto de aventura, em busca de excitamento e adrenalina. Viveu apenas 40 anos, mas foi das mais incríveis e plenas. Hoje em dia, quando se fala do nome de David Purley, é por ter tentado salvar um companheiro seu, faz agora 40 anos.

BERÇO DE OURO, GOSTO DE AVENTURA

David Charles Purley nasceu a 26 de janeiro de 1945 na cidade de Bognor Regys, no West Sussex britânico. Era filho de Charles Purley, que tinha vindo de um berço pobre para construir, em conjunto com o seu irmão Frank Purley, a LEC Regriferation, que construiu frigoríficos a partir de 1947, quando ambos converteram a firma das munições que tinham fundado para ajudar no esforço de guerra britânico, na II Guerra Mundial.

Ao longo dos anos 50 e 60, o negócio dos frigoríficos prosperou de tal forma que Charles e Frank se tornaram em milionários, dada a necessidade das pessoas em ter um frigorifico. Para se ter uma ideia, em 1960, apenas 13 por cento das casas britânicas tinham um, comparado com os quase cem por cento que existiam nos lares americanos, por essa mesma altura.

Foi graças ao negócio de familia que David Purley cresceu. Mas o berço de ouro não inibiu o seu gosto pela aventura. Depois de ter sido educado no Seaford College e no Darlington Hall School, em Devon, David Purley descobriu cedo o prazer de voar e incentivado pelo seu pai, que decidiu que o seu filho iria ter tudo aquilo que ele tinha sido privado, tirou o brevet aos 16 anos. Nessa altura, era o mais jovem a fazê-lo no Reino Unido. Contudo, pouco depois, Purley decidiu alistar-se no exercito britânico, mais concretamente, no Regimento de Para-Quedistas. Em 1967, esteve em Aden, atual Yemen, numa altua em que aquela zona do globo vivia tempos agitados. Mas antes, tinha passado pelo seu primeiro momento aflitivo, quando durante um salto de treino, ainda na Grã-Bretanha, o seu paraquedas falhou parcialmente a sua abertura.

Após ter cumprido o seu serviço no exército, em 1968, Purley foi ter com um velho vizinho e amigo seu, Derek Bell, que começava a ter uma carreira bem sucedida nas corridas. Vendo o automobilismo como um bom motivo para manter os seus níveis de adrenalina, comprou um AC Cobra, começou a vencer algumas corridas… e a ter acidentes. Quando o seu carro virou sucata, decidiu comprar um Chevron, e continuou a correr até 1970, quando decidiu mudar-se para os monolugares.

RECOMPENSADO PELA INTENÇÃO

Nesse ano, comprou um velho chassis Brabham de Formula 3 e decidiu formar uma equipa, a LEC Refrigeration Racing, batizando-o com o negócio da família. Com isso, começou a participar em competições britânicas e europeias, onde entre outros pilotos que viriam a chegar à Formula 1, estava um compatriota seu: Roger Williamson.

Williamson era um dos melhores do seu tempo. Em parceria com Tom Wheatcroft, ele dominava a Formula 3, acabando por vencer três títulos entre 1971 e 1972 (nessa altura, existia mais do que um campeonato de Formula 3 na Grã-Bretanha!), mas apesar desse domínio, havia ocasiões onde Purley poderia brilhar. Em 1970, venceu uma corrida na Belgica, o GP des Frontieres, situado na localidade de Chimay, conseguindo bater por 0,3 segundos outro jovem britânico, chamado James Hunt. No ano seguinte, Purley repetiu a façanha no mesmo lugar, altura em que tinha trocado de chassis, desta vez indo para um Ensign, onde graças a ele, venceu mais duas corridas naquela temporada. Em 1972, mudou-se para a Formula 2, onde arranjou um chassis March. Não conseguiu mais do que um terceiro lugar nas ruas da cidade francesa de Pau, arrebatando apenas os quatro pontos dessa corrida.

Em 1973, começa a temporada na Formula Atlantic, mas pelo meio, arranja um March 731 de Formula 1. Tal como nas outras vezes, inscreve-o sob a bandeira da LEC Refrigeration e vai participar em algumas corridas. Estreia-se no GP do Mónaco, o mesmo local onde outro March foi inscrito, para James Hunt, onde não termina a corrida. A sua segunda prova será apenas em julho, em Silverstone, mas vai ter vida curta, pois sofrerá um despiste logo na primeira volta, imediatamente antes da carambola provocada pelo McLaren do sul-africano Jody Scheckter, onde ele colocará mais oito carros fora de prova.

Mas vai ser na terceira corrida em que participa, o GP da Holanda, que o seu nome fica conhecido pelo mundo inteiro. Partindo da 21ª posição nos treinos, na corrida tinha subido um pouco até à oitava volta, quando viu acidentar-se o outro March de Roger Williamson, que ali fazia a sua segunda corrida na Formula 1. Purley seguia imediatamente atrás e sem hesitar, parou o seu carro e foi a correr para os destroços do carro acidentado.

O March de Williamson tinha sofrido um furo a alta velocidade e batera fortemente nos rails de proteção, ficando de cabeça para baixo e a ser arrastado por mais de uma centena de metros até parar, em chamas e com o piloto preso nos destroços. Primeiro, Purley pegou num extintor que um dos comissários tinha trazido, tentando apagar as chamas. Depois tentou virar o carro, mas em ambas as ocasiões, não o conseguiu. Desesperado, apelou aos comissários e às forças policiais para que o ajudassem a virar o carro, mas estes estavam convencidos que Williamson tinha morrido no impacto.

Para piorar as coisas, os comissários de pista de Zandvoort, que estavam a ver as imagens pela televisão, não reagiram de imediato porque estavam convencidos que Purley estava a virar o seu próprio carro. Um carro de bombeiros chegou mais de oito minutos depois do acidente, mesmo com a corrida a decorrer. Quando as chamas foram apagadas e o carro virado, Roger Williamson estava morto. Tinha 25 anos.

Todos aqueles instantes foram vistos em direto pelo mundo inteiro e o acidente causou um natural choque. Um símbolo da crueldade do automobilismo e da pouca segurança existente naquele tempo, o gesto de Purley foi visto como um ato de salvamento sem igual. No final daquele ano, o governo britânico decidira condecorar Purley com a George Medal, a maior condecoração civil por bravura. Mas ele não tinha sido o único: alguns meses antes, no circuito sul-africano de Kyalami, Mike Hailwood tinha salvo o suíço Clay Regazzoni de morrer preso no seu BRM quando as chamas invadiram o seu carro após uma colisão com o antigo campeão de motociclismo.

CONSTRUTOR DE CHASSIS E 179,8 G’S DE IMPACTO

Purley voltou a correr num Formula 1 no GP de Itália, terminando a corrida no nono posto, que viria a ser a sua melhor prestação na categoria máxima do automobilismo. A partir do ano seguinte, concentrou-se na Formula 5000, competindo no campeonato da categoria, a bordo de um Lola. Essa passagem revelou-se um sucesso, sendo campeão em 1976. Pelo meio, ele tentou qualificar-se no GP da Grã-Bretanha de 1974, a bordo de um Token, mas não foi bem sucedido.

Passado esse título na Formula 5000, decidiu que era altura de voltar à Formula 1. Mas não queria ir para lá só como piloto: decidira também que iria ser construtor. Pediu a Mike Pilbeam – que tinha desenhado o BRM 201 – que projetasse um, pediu a Mike Earle – que mais tarde formaria a Onyx – que cuidasse da equipa e sem testes e simuladores, como acontece neste inicio do século XXI, lá nasceu, num canto da sua fábrica de frigoríficos de Bognor Regis, o chassis LEC.

O carro, batizado como LEC CRP1, estreou-se em Jarama, palco do GP de Espanha, mas acabou por não se qualificar. A corrida seguinte seria em Zolder, palco do GP belga. E aí, Purley deu nas vistas. Numa corrida que começou sob piso molhado, mas com a pista a secar aos poucos, os pilotos iam às boxes para trocar pneus. Como nessa altura, tal coisa durava a “eternidade” de 30 segundos, Mike Earle mandou uma mensagem nas placas a dizer para se mantivesse na pista o máximo de tempo que pudesse. E por causa isso, a determinada altura, Purley estava nos lugares da frente!

Com o tempo, aparece o Ferrari de Niki Lauda, que o pressionou por muitas voltas, mas Purley não cedeu, incomodando o suficiente para perturbar o cerebral austríaco. Claro, isto teve efeitos na corrida, com Lauda a não chegar à vitória – quem venceu foi Gunnar Nilsson, na sua única vitória na Formula 1 - e Purley, que no final da corrida terminou na 13ª posição, perguntou de modo sarcástico a Earle: “Quem era o idiota do carro vermelho?” Lauda ouviu isto e ambos tiveram a seguir um aceso debate, onde Lauda chamou a Purley de “coelho” e este devolveu a graça, chamando-o de “rato”.

Purley não deixou passar em claro a graça, colocando a figura de um coelho na corrida seguinte, o GP da Suécia. Lauda achou piada e apareceu com a palavra “Rato” no seu capacete, algo que foi levado com imenso humor no “paddock”.

No GP da Grã-Bretanha, disputada no veloz circuito de Silverstone, a quantidade de carros inscritos – entre eles o Renault Turbo de Jean-Pierre Jabouille e o terceiro McLaren do canadiano Gilles Villeneuve - levou a que os organizadores fizessem uma pré-qualificação. Aí, Purley tentou o seu melhor, mas na segunda sessão de treinos, quando fazia a curva Becketts, o acelerador do seu LEC ficou preso e o carro embateu fortemente nas barreiras de proteção. Sofrera um impacto de 179,8 G’s de força, pelo facto do carro ter vindo de 173 km/hora para zero… em meros 66 centimetros, e ele estava esmagado no seu cockpit, com graves lesões nas pernas, na pelvis e no torax. Mas tinha sobrevivido.

UMA PERSONAGEM À PARTE

Purley esteve quase um ano a recuperar dos seus ferimentos, ao mesmo tempo que o seu carro era reparado. Após ter feito uma corrida com um Porsche 924 em Brighton, voltou ao cockpit do seu LEC em 1979, para disputar a Aurora Series, o campeonato britânico de Formula 1. Para além do seu LEC, também tripulou um Shadow, com alguns resultados de relevo, mas no final desse ano, decidiu abandonar a sua carreira de piloto.

Após isso, Purley decidiu ajudar no negócio da família, mas não andou longe dos brinquedos. Voltou à sua primeira paixão, a aviação, e arranjou um Pitts Special para fazer a sua acrobacia, que o fazia sempre que podia.

Contudo, a 2 de julho de 1985, quando fazia acrobacias ao largo da sua Bognor Regis natal, calculou mal uma manobra e caiu nas águas do Canal da Mancha. Tinha 40 anos de idade.

Rob Widdows, outro jornalista britânico, tinha boas razões para recordar bem David Purley e o seu carácter. Escrevendo sobre a sua aventura da LEC em maio de 2012 na Motorsport britânica, afirmou “Os privados já desapareceram há muito da Formula 1. São ‘mavericks’, excêntricos, uma elite à parte. Purley era um convidado regular no meu programa de rádio ‘Track Torque’, e vinha regularmente acompanhado do seu amigo e vizinho, Derek Bell, ou da sua namorada de então, Gail. E às vezes vinha com ambos.

Certo dia, ele chegou tarde ao meu programa, e Bell explicou que o motivo foi porque Purley insistiu que queria caçar coelhos a partir da bagageira do seu Range Rover, e claro, isso fez-os atrasar. Noutra ocasião, ele decidiu por à prova a concentração do apresentador do programa de rádio, elevando a camisola de Gail, revelando assim a sua parte de cima.”

Hoje em dia, pode-se ver os destroços do seu LEC acidentado no Donington Collection, uma das maiores coleções de bólides de Formula 1 em todo o mundo. O carro não está muito longe da memorabilia de Roger Williamson, o homem que tentou salvar em Zandvoort, naquela tarde de julho de 1973.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

GP Memória - Grã-Bretanha 1977

Duas semanas depois de terem corrido no circuito de Dijon-Prenois, máquinas e pilotos atravessavam o Canal da Mancha para correr no GP da Grã-Bretanha, que como acontecia em todos os anos ímpares, acontecia em Silverstone. E também como acontecia normalmente, o numero de inscritos aumentava substancialmente. Mas para esta edição, tinha-se alcançado o incrível numero de... 36 carros inscritos. Por causa disso, a organização decidiu que iria ser feita uma sessão de pré-qualificação na quarta-feira anterior à corrida, a 13 de julho.

Na lista de inscritos, aparecia por fim a aguardada entrada da Renault, com o seu motor Turbo. Pilotado pelo francês Jean-Pierre Jabouille, a equipa conseguiu que lhe fosse concedida uma dispensa da pré-qualificação. Assim sendo, quem iria alinhar por ali seriam alguns conhecidos, como o LEC de David Purley, o Penske de Jean-Pierre Jarier, inscrita pela alemã ATS, os McLaren privados de Emilio de Villota e Brett Lunger, o BRM de Guy Edwards, o Surtees de Tony Trimmer, os March de Brian Henton e do finlandês Mikko Kozarowitzky, ambos inscritos pela RAM, o March-Williams de Patrick Néve e o March privado de Arturo Merzário. 

Mas havia estreantes e mexidas neste Grande Prémio, que iriam sujeitar-se à pré-qualificação: a McLaren tinha inscrito um terceiro casrro a um jovem canadiano que tinha causado furor na Formula Atlantic chamado Gilles Villeneuve, a Ensign tinha um segundo carro, inscrito pela Theodore Racing, para o francês Patrick Tambay, o March de Andy Sutcliffe, e havia a inscrição do australiano Brian McGuire, que tinha modificado um velho Williams FW04 ao ponto de ser inscrito com o seu próprio chassis, a McGuire.

A sessão de pré-qualificação tinha sido marcada pelos acidentes. Primeiro, o carro de Kozarowitzky batera forte, mas depois o LEC de Purley sofrera problemas com o aceletador, que ficara preso, e o carro embateu fortemente no muro, ferindo-o gravemente. Sobreviveu, mas não voltou mais a correr. Mais tarde, decobriu-se que o impacto do carro contra o muro tinha sido superior a 173 G's, tornando-se num recorde do mundo reconhecido pelo Guiness.

No final, Villeneuve, De Villota, Néve, Lunger, Jarier, Tambay e Merzário passaram, enquanto que para além de Purley e Kowarowitzky, Sutcliffe, Trimmer, Edwards e McGuire não passaram à fase seguinte.

Na sexta e no sábado aconteceram as duas sessões de qualificação, e aí também existia uma alteração na lista de inscritos, com o australiano Vern Schuppan no lugar do seu compatriota Larry Perkins. O melhor ao fim dessas sessões foi James Hunt, que conseguiu ser melhor do que o Brabham-Alfa Romeo de John Watson. Na segunda fila estava o Ferrari de Niki Lauda, tendo a seu lado o Wolf de Jody Scheckter. As Lotus ficavam com a terceira fila, com Gunnar Nilsson e ser melhor do que Mário Andretti, enquanto que na quarta estavam o segundo Brabham-Alfa Romeo de Hans-Joachim Stuck e o March de Vittorio Brambilla. A fechar o "top ten", na quinta fila, estavam de um modo surpreendente, dos pilotos que vinham da pré-qualificação: o terceiro McLaren de Gilles Villeneuve e o Theodore-Ensign de Patrick Tambay.

Quanto a Jean-Pierre Jabouille, o carro conseguiu apenas o 21º tempo. Modesto, mas melhor do que Emerson Fittipaldi, que estava imediatamente a seguir no seu carro, ou Riccardo Patrese, apenas 25º no seu Shadow.

Quatro pilotos falharam a qualificação para a corrida: o McLaren de De Villota, os March de Alex Dias Ribeiro e Brian Henton e o Ensign de Clay Regazzoni.

A corrida começou com Hunt a partir mal e cair para o quarto lugar, atrás de Watson, Lauda e Scheckter. Atrás dele estavam os dois Lotus e o McLaren de Villeneuve, que tinha saltado para o sétimo posto e estava a conseguir acompanhar os da frente. Na terceira volta, Andretti passa Nilsson e é quinto, enquanto que Hunt começa a reagir e passa Scheckter, para ficar com o terceiro posto. A partir daqui, o britânico foi atrás de Lauda, para o conseguir passar na volta 23, ficando com o segundo posto. Pouco tempo antes, na volta 16, o Renault de Jabouille tinha encostado para abandonar, vítima de problemas no seu turbocompressor.

A partir daqui, Hunt partiu em perseguição de Watson, enquanto que Villeneuve parava por problemas com o seu sistema de injeção de combustivel, que lhe tinha dado uma luz de aviso, mas que na realidade, o problema era na... lâmpada. Regeressou à pista, mas com uma volta de atraso.

Entretanto, Hunt aproximava-se de Watson, mas na volta 50, a bomba de combustível voltava a falhar-lhe, tal como tinha acontecido em Dijon. Ele foi às boxes, mas de pouco adiantou, por iria desistir à 60ª volta. Com isso, Hunt era o líder, seguido por Lauda e Scheckter, mas ele acaba por desistir na volta 59, vítima de uma quebra no motor. O mesmo iria acontecer na volta 62 a Mário Andretti, implicando que Gunnar Nilsson ficaria com o terceiro posto.

No final, Hunt iria ser coroado como o grande vencedor da corrida, seguido por Niki Lauda e Gunnar Nilsson. Nos restantes lugares pontuáveis ficaram o segundo McLaren de Jochen Mass, o Brabham de Hans-Joachim Stuck e o Ligier-Matra de Jacques Laffite.  

terça-feira, 5 de junho de 2012

Historieta da Formula 1: o rato e o coelho


Continuando a folhear a Motorspot de maio, dou de caras com uma secção de colunistas, liderado, claro, por Nigel Roebuck, que desfia as suas memórias, passado e presente, do automobilismo e da Formula 1, dei de caras sobre uma história que se conta do GP da Belgica de 1977, e sobre uma personagem que – numa era onde se faz ou se quer fazer filmes de automobilismo – merece um filme: David Purley. Sim, ele foi muito mais do que a personagem que tentou salvar Roger Williamson das chamas do seu March no GP da Holanda de 1973, também deu nas vistas quatro anos depois, em 1977, quando decidiu construir o seu próprio chassis. E porque é que Lauda tem um apelido que o tornou famoso.

Primeiro que tudo, David Purley era uma personagem, como dizem os ingleses, "larger than life", mais do que a vida. Ex-paraquedista, herdeiro de uma empresa de frigoríficos, a LEC, fundada pelo seu pai, por alturas de 1976 já tinha a fama toda por tudo que tinha feito em Zandvoort. Mas queria regressar à Formula 1, depois de passagens pela Formula 5000, e decidiu construir na garagem de Bognor Regis, a sua terra natal, um carro de Formula 1. Pediu a Mike Pilbeam – que desenhara o BRM 201 – que desenhasse um carro, pediu a Mike Earle – que mais tarde formaria a Onyx e atualmente é o dono da Team AON, que toma conta dos Ford Focus no WTCC – que cuidasse da equipa e sem testes e simuladores, como acontece neste inicio do século XXI, lá nasceu o chassis LEC.

A equipa teve dois motivos de destaque na sua breve aparição em 1977. A primeira foi em Zolder, quando o GP belga começou sob molhado e aos poucos, a pista secou, com os pilotos a irem para as boxes, trocar pneus. Como nessa altura, tal coisa durava uma eternidade – mais de 30 segundos – Mike Earle mandou uma mensagem nas placas a dizer para se mantivesse na pista o máximo de tempo que pudesse, e isso o colocou, a determinada altura… na liderança!

Com o tempo, apareceu Niki Lauda, que o pressionou por muitas voltas, mas Purley não cedeu, incomodando até o cerebral austríaco. Claro, isto teve efeitos na corrida, com Lauda a não chegar à vitória – quem venceu foi Gunnar Nilsson, na sua única vitória na Formula 1 - e Purley, no fim da corrida, perguntou a Earle: “Quem era o idiota do carro vermelho?” Após isto, ambos tiveram um aceso debate, onde Lauda chamou a Purley de “coelho” e este devolveu a graça, chamando-o de “rato”. Na corrida seguinte, Purley, no típico humor britânico, colocou um coelho ao lado do seu nome, enquanto que Lauda respondeu colocando o nome “The Rat” no seu capacete. Depois voltou a modifica-lo, chamando-o de “Super Rato”, pois esse era o nome que alguns dos seus amigos chamavam a.. Emerson Fittipaldi.

Infelizmente, a aventura de Purley teve um final abrupto na qualificação para o GP da Grã-Bretanha, quando ele perdeu o controlo do seu carro e bateu forte no muro. Resistiu a um impacto equivalente a mais de 179 G’s, entrando no livro dos recordes do Guiness por ter sido a pessoa que sobreviveu a um impacto tão pesado assim. 

Mas teve um custo na sua carreira na Formula 1, e no automobilismo em geral. Incapaz de correr, apesar de ter tentado em 1979 na Formula Aurora, uma competição britânica com chassis antigos de Formula 1, passou para a acrobacia aérea e morreu na sua Bognor Regis a 2 de julho de 1985, quando perdeu o controle do seu avião. Quanto ao chassis, está exposto no museu do automóvel elaborado por Tom Wheatcroft, em Donington Park.

Rob Widdows tinha boas razões para recordar bem David Purley e o seu carácter. “Os privados já desapareceram há muito da Formula 1. São ‘mavericks’, excêntricos, uma elite à parte. Purley era um convidado regular no meu programa de rádio ‘Track Torque’, e vinha regularmente acompanhado do seu amigo e vizinho, Derek Bell, ou da sua namorada de então, Gail. E às vezes vinha com ambos.

Certo dia, ele chegou tarde ao meu programa, E Bell explicou que o motivo foi porque Purley insistiu que queria caçar coelhos a partir da bagageira do seu Range Rover, e claro, isso fez-os atrasar. Noutra ocasião, ele decidiu por à prova a concentração do apresentador do programa de rádio, elevando a camisola de Gail, revelando assim a sua parte de cima.”

Mais uma vez, era uma personagem fora do vulgar, digna de um filme de Hollywood. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O local onde morreu Roger Williamson

Tenho um bom amigo meu, o Paulo Marques, que de vez em quando me manda muitas fotos de automobilismo, em especial a Formula 1. Entretanto, ontem, mandou-me umas imagens impressionantes de um local que muitos saberão qual é e o que aconteceu ali, mas que na atualidade é outra coisa.

A zona de Tunnel Oost ficou infamemente conhecida como o local onde, a 29 de julho de 1973, o March de Roger Williamson entrou em despiste e se incendiou. Intantes depois, outro piloto, o seu compatriota David Purley, encostou o seu carro e foi em seu socorro. Um socorro que foi visionado um pouco por todo o mundo, em direto e a cores, enquanto tentava salvar inutilmente Williamson, preso nos seus escombros, mas deixado morrer por uma série de equivocos dos comissários de pista. Pela sua atitude, Purley foi condecorado com a George Medal.

Quase 40 anos depois, aquela parte do circuito foi abandonada. A razão é simples: em 1989, a anterior proprietária do circuito abriu falência e os novos proprietários decidiram reconstruir o circuito, fazendo-o mais compacto, num total de 4100 metros, e aproveitando a parte que ia da meta até após a curva Sheivlak. Tunnel Oost, Panoramabocht e Bos uit ficaram de fora e desapareceram, dando lugar a um condominio com o seu respectivo parque desportivo.

Contudo, os vestígios estão lá: no parque, a faixa asfaltada que em tempos pertenceu ao circuito e tantos pilotos andaram por lá, dando o seu melhor, e foi também palco de uma tentativa heroica, desesperada ou inutil, ,as necessária, de salvar alguém. Não sei porquê, mas acho que esse dia na formula 1 merece ser lembrado com uma placa, um memorial ou algo do género, para que aquele dia no já distante ano de 1973 não seja esquecido.