Para alem da Formula 1, Ligier esteve na Endurance, participando nas 24 Horas de Le Mans, primeiro com os JS2, e agora recentemente com os carros feitos para a categoria LMP2 e LMP3, os JS P2 e JS P3.
Personagem fascinante (
encolerizava-se quando observava os erros crassos de alguns dos seus pilotos), por ter feito imensas coisas na vida antes de ser construtor, nasceu a 12 de julho de 1930, em Vichy. Orfão de pai em tenra idade, foi desportista na sua juventude, tendo chegado a internacional francês... de rugby, antes de se aventurar na construção civil, onde prosperou graças aos contratos para construir auto-estradas um pouco por toda a França. Nisso foi ajudado por uma amizade de juventude com um jovem deputado socialista,
Francois Mitterand.
Rico e próspero, começou a correr no automobilismo graças à amizade com
Jo Schlesser, e chegou à Formula 1 em 1966, com um Cooper-Maserati inscrito por ele mesmo. Um acidente em Nurburgring o fez ficar inativo para o resto da temporada, mas voltou a correr em 1967 com um Brabham, onde conseguiu um sexto lugar no GP da Alemanha. Após treze Grandes Prémios, pendurou o capacete e decidiu montar uma equipa de Formula 2, ao lado do seu amigo Schlesser, com chassis McLaren.
Contudo, em julho de 1968, em Rouen, o seu amigo Schlesser morre durante o GP de França, a bordo de um Honda oficial, o que faz com que Ligier se tornasse construtor por inteiro. Os seus chassis terão as iniciais de Schlesser, em sua homenagem. O primeiro chassis foi desenhado por
Michél Tetu, e destinava-se aos SportsCars, e o seguinte, o JS2, andou em Le Mans, mas também foi vendido como um carro de estrada, com mecânica Maserati - o mesmo que equipavam os Citroen SM. Contudo, a crise do petróleo de 1973 o colocou de lado.
Em 1974, Ligier tem uma chance unica ao comprar o espólio da Matra na Endurance, e um conjunto de bons engenheiros, como
Gerard Ducarouge. E é com eles que decide em 1975 aventurar-se na Formula 1, com os motores V12 da Matra. No final desse ano escolhe o seu piloto, Jacques Laffite, que conseguiu superar
Jean-Pierre Beltoise num "shoot out".
O JS5, projetado por Ducarouge, tinha uma enorme entrada de ar, e rapidamente ficou conhecida por "bule de chá", apesar de ter corrido dessa forma por apenas três corridas. Com Laffite ao volante, conseguiu 20 pontos e uma pole-position. No ano seguinte, ainda com Laffite ao volante, vence pela primeira vez na Suécia, numa corrida tão inesperada que os organizadores... não tinham a gravação com o hino francês!
Em 1979 contratam Patrick Depailler como segundo piloto e aproveitando os ensinamentos do efeito-solo, projetam o JS11 e com motor Cosworth montado, venceram as duas primeiras corridas do ano, com Jacques Laffite, tornando-se candidato numero um ao campeonato. Depailler ainda consegue mais uma vitória, em Jarama, antes de um acidente doméstico o colocar fora de combate para o resto da temporada.
Jacky Ickx foi o seu substituto, mas no final do ano conseguiram a melhor classificação até então, o terceiro lugar, com 61 pontos.
Em 1980, Didier Pironi entra para a equipa e conseguem duas vitórias, em Zolder (Pironi) e em Hockenheim (Laffite). A consistência faz com que fiquem no segundo lugar do campeonato de construtores, que seria o seu melhor de sempre, com 66 pontos. No ano seguinte, trocam o Cosworth pela Matra, enquanto que Pironi vai para a Ferrari. Laffite vence duas corridas, na Austria e no Canadá, e são quartos classificados no campeonato. Não vencem em 1982, quando reformam de vez o Matra V12, mas penam para arranjar um motor Turbo decente. Sem Ducarouge a desenhar carros, e sem Laffite (na Williams) a temporada de 1983 é um desastre, pois não conseguem qualquer ponto.
A recuperação vai demorar. Em 1984, arranja um motor Renault Turbo, mas consegue três pontos. Melhor no ano seguinte, com o regressado Laffite e o italiano
Andrea de Cesaris, mas enquanto o veterano francês coleciona pódios, já o italiano coleciona desastres. Após um acidente em Zeltweg, ele é substituido por
Phiippe Streiff e consegue uma dobradinha no pódio na última corrida do ano, na Austrália. No final, foram 23 pontos, três pódios e uma volta mais rápida. No ano seguinte, aparece
René Arnoux e tem mais pontos: 29, com dois pódios. Jacques Laffite sofre um acidente em Brands Hatch, que praticamente termina a sua carreira na Formula 1, substitudo por Philippe Alliot. Mas isso não impede de acabarem o ano no quinto lugar do campeonato de Construtores.
A partir dali, é o mergulho no escuro. Uma má escolha de motores para a Alfa Romeo faz com que tenham de construir um carro do zero com os motores Megatron (ex-BMW) e conseguiram apenas um ponto em 1987. Só voltariam a pontuar em 1989, com o JS33, guiado por Arnoux e
Olivier Grouillard, (
com Ricardo Divila como projetista) para depois passarem duas temporadas sem chegar aos pontos, por muito dinheiro que pudesse vir do estado francês através da SEITA, a sociedade tabaqueira que detinha a marca Gitanes, e depois a Gauloises.
Em 1992, Ligier, cansado, cede a sociedade a
Cyril de Rouvre, (
e este depois vendeu a Flávio Briatore e Tom Waklinshaw) e afasta-se da sua equipa, apesar de se manter no ativo até 1997, vencendo mais uma corrida em 1996, com Olivier Panis ao volante. Depois a equipa é vendida a
Alain Prost, que muda para o seu proprio nome e corre até 2001.
Enquanto isso, a Ligier dedica-se a construir microcarros, nos quais se tornou num dos mais bem sucedidos em França. Nos anos mais recentes, o nome Ligier regressou ao automobilismo graças à sua associação com a Onroak Racing, na Endurance, especialmente na LMP2 e LMP3, e continuou a ser batizado da mesma forma: os JS, homenageando Jo Schlesser.
Ars lunga, vita brevis, caro Guy.