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quarta-feira, 4 de março de 2026

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Se estivesse vivo, Jim Clark faria hoje 90 anos. O piloto escocês, que correu entre 1960 e 1968, sempre pela Lotus, foi um dos melhores de todos os tempos, apesar de ter corrido em apenas 72 Grandes Prémios, antes de morrer numa corrida de Formula 2, a 7 de abril de 1968, aos 32 anos. 

Hoje em dia, para a geração "Drive to Survive" pensa que a Formula 1, o nome "Jim Clark" pouco ou nada diz, mas até aos dias de hoje, ele tem alguns feitos que provavelmente, nem Max Verstappen, nem Lewis Hamilton, nem se calhar Lando Norris ou Oscar Piastri alguma vez alcançarão: um "Grand Chelem". E o que é isso? Significa que determinado piloto fez a pole position, a volta mais rápida, alcançou a vitória na corrida e ficou com a liderança em todas as voltas.

E os números do escocês, que sempre quis ser tratado como "agricultor", são impressionantes. Por oito vezes, conseguiu esse "Grand Chelem", e entre o primeiro e o último, conseguiu-o em... três anos e 32 corridas: o GP da Grã-Bretanha de 1962, o GP dos Países Baixos de 1963 - ganhou dando... uma volta à concorrência - o GP de França de 1963, o GP do México de 1963, o GP da Grã-Bretanha de 1964, o GP da África do Sul de 1965, o GP de França de 1965 o GP da Alemanha de 1965. Detalhe: tirando a corrida sul-africana e alemã de 1965, todos foram conseguidos com o modelo Lotus 25, o primeiro monocoque da história da Formula 1. Os outros dois foram com o modelo 33.

Mais alguns detalhes: para além dele, apenas Alberto Ascari e Sebastian Vettel conseguiram "Grand Chelems" em corridas seguidas. Clark é o único que conseguiu em três temporadas seguidas. E empatado com Ascari, que o conseguiu em 1952, Clark foi campeão em 1963 e 1965 com uma pontuação cem por cento vitoriosa. E no caso de 1963, o escocês deitou fora... 19 pontos, pois ele tinha conseguido 73 pontos, mas apenas 54 foram contabilizados. E se todos os pontos dessa temporada contabilizassem, a distância para o segundo classificado, que seria o americano Richie Ginther, seria de... 39 pontos (73 contra 34)

Em 1965, conseguiu os pontos necessários: 54. 

Quanto sofreu a sua morte trágica, em abril de 1968, Clark tinha um palmarés monumental. Já viram aquele que ainda não foi batido, mas por exemplo, era o recordista de mais vitórias por temporada, sete. E de poles, pois tinha 33. e tinha acabado de superar Juan Manuel Fangio em número de vitórias, com 25 - o argentino mandou depois um telegrama de parabéns pelo feito. 

O recorde de vitórias foi batido em 1973 pelo seu compatriota e amigo, Sir Jackie Stewart, que o colocou em 27, e em 1984, Alain Prost conseguiu igualá-lo. Mas quatro anos depois, Ayrton Senna o bateu, ao conseguir oito vitórias nessa temporada. E no ano seguinte, o brasileiro alcançou-o nas poles, elevando-o para 65. 

O das vitórias... depois de Stewart, ficou nas mãos de Alain Prost, que o elevou para 51, em 1993 e depois, nas mãos de Michael Schumacher, que o elevou para 91, em 2006, para finalmente chegar às mãos de Lewis Hamilton, que passou da barreira das cem, estando agora com 105. 

Mesmo tendo corrido pela última vez há 57 anos, as suas 25 vitórias o colocam na décima posição dos pilotos mais vitoriosos, igualado com Niki Lauda. Em termos de Reino Unido, é o quarto com mais vitórias, batido apenas por Stewart, Nigel Mansell (31 vitórias) e Lewis Hamilton.  

Em contraste... Clark nunca ganhou o GP do Mónaco. O melhor que conseguiu foi um quarto lugar em 1964. Em contraste, fez quatro pole-positions (1962,63,64 e 66) e duas voltas mais rápidas (62 e 67). 

E se foi o vencedor dominante das 500 Milhas de Indianápolis, no modelo 38, feito para aquela corrida, com motor Ford, poucos sabem que no inicio da carreira, participou nas 24 Horas de Le Mans, onde em 1960, conseguiu um terceiro lugar na Aston Martin DBR1 da equipa Border Reivers. E quando em 1962, Chapman decidiu mandar um Lotus 23 para Le Mans, chateou-se com os organizadores e decidiu retirar o carro. 

E ainda ganhou a Tasman Series, uma competição que acontecia na Austrália e Nova Zelândia, em 1965, 1967 e 1968. Para além do tricampeonato, obteve também um recorde de 15 vitórias na competição, entre 1964 e 68.

Mais um detalhe interessante: apesar das vitórias, o que impressionava aos mecânicos era a maneira como fazia, porque ele poupava o material. Aparentemente, os pneus dele poderiam ser usados em... quatro corridas seguidas, e os pedais poderiam durar, em média, três vezes mais. Derek Wild, um dos seus mecânicos, contou a certa altura uma história onde "se colocasses todas as caixas de velocidades na minha frente, numa ordem aleatória, conseguia ver qual eram os de Clark só pelo aspecto, porque eram os que tinham menos gasto". 

Ele nunca forçava os carros, conduzia de forma mais suave possível, o mais rapidamente possível.  

Outro detalhe: odiava correr à chuva. Mas algumas das suas maiores vitórias foram... à chuva, como o GP da Bélgica de 1963. A sua tática era simples: se fosse o "poleman", arrancar o mais rápido possível e afastar-se da concorrência de forma a fazer a sua corrida até à bandeira de xadrez. Era simples, mas genial. 

E para finalizar: sabem onde foi o seu primeiro pódio na Formula 1? Foi em 1960 e em terras portuguesas, mais concretamente, no circuito da Boavista!

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Youtube Formula 1 Video: Jim Clark, o melhor de todos

Por estes dias, o Goodwood Revival está a preparar-se para comemorar os 60 anos do segundo título mundial de Jim Clark, e também para lembrar o que foi o piloto escocês, que ganhou 25 corridas em 72 participações na Formula 1, todas pela Lotus, entre 1960 e 68. 

E uma dessas comemorações é um documentário sobre o piloto escocês, com testemunhos de quem trabalhou com ele, nomeadamente mecânicos como Dave "Beaky" Sims ou Bob Dance, e pilotos como Jackie Stewart. Com quase 20 minutos, é o testemunho de pessoas com quem trabalharam com ele, e de gente que ainda hoje consideram como um dos melhores pilotos de sempre.  

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

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A temporada de 1960 pode ter acontecido há 65 anos, mas foi neste dia que a Formula 1 correu pela última vez no circuito da Boavista, em Portugal. E foi nesse dia que Jack Brabham se tornou campeão do mundo pela segunda vez, no seu Cooper dominador. 

E por pouco, essa vitória não acontecia. Primeiro, na qualificação, onde John Surtees, então no seu terceiro Grande Prémio da sua carreira, conseguia uma inesperada pole-position a bordo do seu Lotus-Climax, onde Brabham era apenas terceiro, com o BRM de Dan Gurney no meio, na sua melhor qualificação do ano. Jim Clark, que tivera um acidente na qualificação, foi apenas oitavo no seu Lotus, enquanto Nicha Cabral, no seu Cooper da Scuderia Centro-Sud, era 15º... e último, a oito segundos do "poleman".

Na partida, Gurney deu-se melhor com a superfície do circuito, que era de... paralelepípedos, para ficar com a liderança, enquanto Brabham ficou um pouco mais atrás. Pior: um despiste o tinha atirado para o sexto lugar. Mas o que interessava era que o carro estava inteiro e arrancou, rumo a uma corrida que teria de ser de recuperação. 

Primeiro, a sorte: Gurney teve uma fuga de óleo na décima volta, para o comando ficar nas mãos de Surtees, enquanto Brabham recuperava tempo e lugares. Quem também tinha azar era Stirling Moss, que primeiro, teve de trocar velas, e depois, quando fez um pião na pista, retomou a corrida em sentido inverso por alguns metros. E por causa disso, os comissários de pista decidiram desclassificá-lo quando chegou ao fim na quarta posição.

Por esta altura, Brabham tinha apanhado o Ferrari de Phil Hill e lutava por posição com o americano. A luta durou até à 30ª volta, quando Hill despistou-se e ficou de fora, felizmente sem ferimentos. Por esta altura, Surtees tinha problemas com o seu carro porque óleo tinha ido para os seus sapatos e isso atrapalhava a sua aceleração e travagem. Quando se despistou, na volta 36, já era acossado por Brabham, e ali, perdia a sua primeira chance de vitória, quer para ele, quer para a Lotus.

Com isso, o australiano ficou com o comando da corrida e tinha já algum avanço sobre Bruce McLaren. Mas quem estava à porta dos pontos era Nicha, que era sexto quando a sua caixa de velocidades cedeu e ficou de fora. Jim Clark foi o terceiro, ficando com o seu primeiro de 32 pódios na sua carreira. E o sexto classificado, Innes Ireland, conseguiu o seu ponto... com sete voltas de atraso.

No final, Brabham estava duplamente contente. Não só era o vencedor do GP de Portugal, como tinha renovado o título, a duas corridas do final do campeonato. E melhor: tinha levado tudo, também o título de Construtores e o segundo lugar do campeonato, que pertencia a Bruce McLaren. Ele tinha 33 pontos, menos sete que Brabham, enquanto o terceiro na classificação, Innes Ireland, tinha... 13.

A partir daqui, a Formula 1 só regressaria a paragens portuguesas dali a 24 anos. E também iria decidir um campeonato.   

sábado, 6 de julho de 2024

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Os ingleses rejubilam nesta noite. Não só por terem visto a sua seleção passar para as meias-finais do campeonato da Europa de futebol, como horas antes, viram que os três primeiros qualificados no GP da Grã-Bretanha, que acontecerá este domingo, eram todos britânicos. Algo que não acontecia há 56 anos e meio, noutro lado do mundo. 

E logo uma corrida simbólica na história da Formula 1: o GP da África do Sul de 1968. Foi simbólico em muitos aspetos. 

A primeira é que foi numa segunda-feira. A segunda foi no dia de Ano Novo de 1968. A terceira é que ali, Jim Clark bateu os recordes de pole-positions, com 33, e de vitórias, com 25, este último, pertencente a Juan Manuel Fangio, que o tinha estabelecido onze anos antes. E também foi a primeira corrida com patrocinadores, cortesia... de uma equipa local, a Team Gunston, que pintou os seus carros de castanho e laranja, a cor dos maços de tabaco locais. Semanas antes da Lotus trocar os seus British Racing Green pelo vermelho, branco e dourado da Gold Leaf, que usariam na Tasman Series. 

E houve mais coisas, muito mais coisas. Mas em termos de competição... não foi grande coisa. É que Jim Clark, tirando a partida, onde foi superado pelo Matra de Jackie Stewart, o escocês passou-o na segunda volta para não mais largar até cruzar a meta como vencedor. No final, foi uma dobradinha com Graham Hill, e no lugar mais baixo do pódio, uma dissonância: o austríaco Jochen Rindt, no seu Brabham-Repco.

Curiosamente, a Áutria é o país natal da Red Bull. Será ele o elemento dissonante?

E claro, quem conhece esta história, sabe que foi aqui que Clark ganharia o seu último GP na Formula 1. Dali a quatro meses e uma semana, depois de ter triunfado na Tasman Series e a um mês do GP de Espanha, em Jarama, Clark morreria num acidente de Formula 2 em Hockenheim.   

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

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Há 60 anos, a Formula 1 terminava em dezembro. Mas ao contrário de agora, com um calendário longo e poucas paragens para respirar, em 1963, o calendário tinham imensas chances para respirar. Oficialmente existiam... 10 corridas, pouco mais de um terço de corridas que existe na atualidade. E a corrida anterior a esta acontecera dois meses antes, a 27 de outubro, na Cidade do México.

Nesses tempos, o automobilismo aproveitava as temporadas austrais para competir. Se no caso australiano e neozelandês, existia a Tasman Series - curiosamente, os GP's da Austrália e Nova Zelândia não entravam no calendário da Formula 1 - já no caso sul-africano, eles competiam com os pilotos da série local, como John Love, Trevor Blokdyk, Doug Serruier, ou Sam Tingle

Contudo, ao contrário de 1962, onde os olhos do mundo estavam no duelo entre Jim Clark, no seu Lotus, e Graham Hill, no seu BRM, este ano, a temporada estava resolvida muito antes das equipas oficiais aí chegarem, pois em nowe corridas, o escocês da Lotus tinha triunfado em seis, sendo campeão do mundo com 54 pontos, contra os... 25 de Hill, o segundo classificado. Mais do dobro de distância.

E claro, isso mostrava a superioridade do chassis monocoque, o modelo 25, sobre a concorrência, e o génio de Colin Chapman, o fundador a patrão da Team Lotus.  

E foi com tudo isso em mente que a Formula 1 vinha para a Africa do Sul, mais precisamente a East London, para a última corrida da temporada. Aproweitando o sol e o calor austral para correr este Grande Prémio para...  Clark conseguir a sua sétima vitória em 10 corridas. 

Aliás, a corrida foi essencialmente isto: bandeira mostrada, Clark acelerou, superando os Brabham de Jack Brabham e Dan Gurney, e... só parou na bandeira de chegada, com o americano a ser o único a chegar na mesma volta de Clark. 

No final, não mudou nada em termos de pontos, porque não contavam todos os resultados - na realidade conseguiu 73 pontos, mas contaram apenas 54 - e em termos percentuais, o escocês liderou em 71,43 por cento das corridas dessa temporada. Um recorde batido 60 anos depois por outro piloto dominante: Max Verstappen, num outro carro dominante, o Red Bull RB19.   

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

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No fim de semana do GP mexicano, o calendário mostra que há precisamente 60 anos, a Formula 1 estreava-se no seu país no Autódromo Magdalena Mixuca, o nome antigo de Hermanos Rodriguez. 

E em 1963, como é agora, o campeonato já estava há muito decidido. 

Jim Clark tinha sido campeão na Itália, depois de ter ganho cinco dos sete primeiros Grandes Prémios dessa temporada, conseguindo mais pontos que os permitidos. Com os sete melhores resultados em 10 possíveis, o escocês da Lotus já tinha 51 pontos legais, quando na realidade já tinha "deitado fora" os quatro pontos do terceiro lugar do GP americano, em Watkins Glen. Ou seja, quando chegou ao México, ele já tinha 55 pontos. Richie Ginther, o segundo classificado, tinha... 30.

Os pilotos locais apareceram lá. Um ano antes, a sua maior esperança, Ricardo Rodriguez, sofreu um acidente fatal quando guiava um Lotus da Rob Walker Racing, mas agora estava o seu irmão, Pedro, num dos Lotus oficiais - ao lado de Clark e de Trevor Taylor - na sua segunda corrida da sua carreira. Outro local que se estreava na categoria era Moisés Solana, que estava inscrito com o singelo número 13.

Não foi uma corrida emocionante. Clark dominou do principio até ao fim, ainda por cima num chassis 25, o primeiro monocoque da história da Formula 1, e conseguiu deixando apenas Jack Brabham a um minuto e 41 segundos, e Richie Ginther a 1.45 minutos, os únicos na mesma volta de Clark, o dominador da corrida. Ou seja, esta corrida foi o espelho do que foi essa temporada: o espetáculo de um homem só, no seu primeiro título mundial, num dos chassis que entrou na história como um dos mais marcantes da Formula 1.

Nenhum dos mexicanos chegou ao fim, mas isso não impediu da organização considerar a corrida um sucesso, e continuar nos anos seguintes, até 1970, aproveitando o sucesso de Pedro Rodriguez na Europa. E sobre a edição desse ano... merece outra história à parte, que também merece ser contada. 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

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A fina flor do automobilismo, em peso, para se despedir de um dos seus, num pequeno cemitério escocês, há precisamente 55 anos. 

A 10 de abril de 1968, três dias depois do seu acidente mortal, na Alemanha, o féretro de Jim Clark chegou a Chirnside, na região de Duns, sul da Escocia, para ser sepultado no cemitério local. Gente como Jackie Stewart, Innes Ireland, o casal Graham Hill e Bette Hill, Dan Gurney, Jo Bonnier, Jo Siffert, Jochen Rindt e muitos outros, assistiram à chegada dos restos mortais e prestaram as suas homenagens, antes do caixão ser entregue à terra.

Curiosamente, muitos nessa foto assistiam ao que poderia ser o seu próprio fim prematuro, devido ao risco associado à sua profissão. Nos sete anos seguintes, Hill, Bonnier, Siffert e Rindt tinham tido um final tão violento quando Clark. 

Tempos depois, Dan Gurney contou que, no dia do funeral, o pai de Clark lhe disse que ele era o único que Jim Clark temia. O interessante é saber como alguém, um "all rounder" como ele, mas com menor palmarés - quatro vitórias em Grandes Prémios - poderia ser tão intimidante ao ponto de alguém que vencera sete vezes mais corridas que ele, o temesse.

Foi um tempo de tristeza e sobriedade, assistido por muitos à sua volta. O impacto foi tal que em muitas formas, lembra os de Gilles Villeneuve, 14 anos depois, e o de Ayrton Senna, 26 anos mais tarde. A grande diferença, se calhar, foi o mediatismo. Este funeral, como podem ver pelas fotografias, foi a preto e branco. Os outros já foram a cores.

Colocando os tons à parte, o que se pode ver aqui é o choque da perda e a homenagem dos seus a um dos grandes que o automobilismo jamais assistira. E após este tempo todo, não foi, nem é - e duvido - que seja esquecido no futuro.        

sexta-feira, 7 de abril de 2023

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'Da maneira como este carro está, não contes comigo no pódio.'

Jim Clark disse isso ao seu fiel mecânico, "Beaky" Sims, antes de largar no seu Lotus 48 para a corrida de Formula 2 em Hockenheim. Alguns minutos depois, o piloto escocês perderia o controle do seu carro, embateu nas árvores e morreu. Minutos depois, os altifalantes anunciariam o desfecho perante uma multidão atónita, que assistiu em choque às bandeiras serem baixadas à meia-haste. 

Choque maior aconteceria quando as noticias chegaram a Brands Hatch, onde decorria uma proba de Endurance, a BOAC 500, onde Clark deveria ter corrido no novo Ford P68, que deveria ter sido o carro sucessor do GT40, que vencia em Le Mans. Muitos não tinham entendido a razão porque ele não estava ali, ainda por cima, era das poucas ocasiões onde iria ver o escocês sem ser num Lotus. Todos ficaram silenciosos quando ouviram a noticia. 

Já falei sobre isso há uns dias. O tempo estava horrível - chuva e frio - e eles lutaram ao longo do fim de semana com os sistemas de combustível, que congelavam por causa da temperatura. Ainda por cima, uma semana antes, o escocês tinha desistido na corrida de Montjuich, por causa de um toque na suspensão do seu carro.

A morte de Clark interrompe o inicio vencedor da temporada do escocês. Tinha triunfado no GP da Africa do Sul, com um Lotus 49 em alta - contando com as duas últimas corridas da temporada de 1967, era a sua terceira vitória consecutiva - e na Tasman Series, a temporada na Austrália e Nova Zelândia, tinha ganho pela terceira vez, e os seus desempenhos foram consistentes. Com a temporada a começar na Europa apenas em maio, parecia que ele teria tudo para alcançar o terceiro título mundial. O título mundial que Graham Hill alcançou, no final da temporada, mais do que mostrar que o britânico conseguiu unir a equipa depois de um choque tremendo, também deu força a um Colin Chapman que, em choque - não estava ali, tirava férias nos Alpes Suíços - considerou abandonar, pois perdera mais do que um grande piloto, um bom amigo.

Depois do que sucedera, a vida continuou, mas Chris Amon, que o conhecia bem e em 1968 era piloto da Ferrari, disse o que todos pensavam sobre o sucedido:

Acho que ninguém passou a andar mais devagar depois da morte de Jimmy, mas todos pensávamos que se poderia acontecer com ele, poderia acontecer a qualquer um. Muitos de nós achávamos que éramos inatingíveis, e isso acabou ali…

O que ninguém sabia era que a Formula 1 tinha acabado de inaugurar uma temporada infernal. E por algum tempo, todos temiam os dias 7.       

segunda-feira, 3 de abril de 2023

No Nobres do Grid deste mês...


(...) "A primeira corrida da temporada [de Formula 2 de 1968] foi em Montjuich, em Espanha, no 1º de abril. Não foi uma boa prova para o escocês, que não terminou a corrida, devido a um toque na suspensão do seu carro. A seguir, o motorhome da marca rumou à Alemanha, para aquilo que era chamado de “Deutschland Trophae”. A Lotus estava lá devido a compromissos com a sua marca de pneus, a Firestone, e para os pilotos, era uma oportunidade para passar mais dias fora da Grã-Bretanha, para evitar pagar mais impostos sobre o rendimento, e ambos tinham os dias contado para testes e corridas. Daí que Clark tinha declinado o convite para correr nesse dia em Brands Hatch, numa prova de Endurance, ao volante do novo Ford P68. Iria ser o Brands Hatch BOAC 500, e das poucas ocasiões onde não iria guiar um Lotus. 

As coisas estavam tão calmas que Chapman sequer estava presente na pista alemã. Tinha tirado férias nos Alpes suíços, porque, de uma certa maneira, a equipa funcionava como um relógio. E a corrida era algo menor, comparado com a Formula 1, que só retomaria um mês depois, no circuito de Jarama, em Espanha. 

A lista de inscritos era bem interessante. Para além de Clark e Hill, estavam os Matra de Jean-Pierre Beltoise e Henri Pescarolo, o Ferrari de Chris Amon, dois Brabham inscritos por um jovem chamado Frank Williams, para Derek Bell e Piers Courage, e uma série de privados, incluindo um futuro construtor, o francês Guy Ligier, e um futuro presidente da FIA, Max Mosley, que corria num Brabham inscrito pela London Racing Team. A corrida seria uma combinação de duas mangas, com 20 voltas cada um, e o vencedor seria encontrado na soma dessas duas mangas.


Contudo, nesse fim de semana, Clark estava a ter um momento difícil. O seu Lotus 48 de Formula 2 era um carro pouco equilibrado e ele andou o fim de semana a tentar encontrar a afinação ideal para poder andar entre os da frente. Provavelmente, ainda sofria com o acidente da semana anterior, em Espanha, e as reparações não foram feitas a tempo ou de forma conveniente. Mas para além disso, existia outro factor importante: estava muito frio, com temperaturas pouco acima dos zero graus, o que, por exemplo, entupia os fluxos de combustível, devido do risco de congelamento. (...)

(...) Os mecânicos da Lotus, comandados por David “Beaky” Sims, lutavam com problemas de difícil resolução, pelo menos por ali. E claro, Clark tinha consciência que não iria ser uma corrida fácil.

Sims contou depois que o tempo nesse dia estava horrível: 'Estava muito frio, tão frio que tínhamos problemas para medir o combustível, porque tínhamos componentes a quebrar devido ao estado do tempo, pois congelavam'.

Clark, pensando nos prós e contras, sentenciou a Sims: 'Da maneira como este carro está, não contes comigo no pódio'. Iriam ser as suas últimas palavras conhecidas.


O dia 7 de abril de 1968 é um dos mais negros da história do automobilismo. Numa prova relativamente menor, num circuito perdido na Alemanha Ocidental, morria o melhor piloto de então e um dos melhores da história, o escocês Jim Clark. O choque foi tal que no Reino Unido, o público ficou em silêncio quando se deu o anuncio do seu acidente fatal nos altifalantes do circuito de Brands Hatch, durante as BOAC 500, corrida de Endurance onde se esperava a sua presença. 

Alguns dias depois, a fina flor do automobilismo se despedia de Clark e colocava-se em dúvida sobre se poderia passar pelas corridas de forma incólume. O neozelandês Chris Amon, então piloto da Ferrari, disse depois o que muita gente pensava: “Acho que ninguém passou a andar mais devagar depois da morte de Jimmy, mas todos pensávamos que se poderia acontecer com ele, poderia acontecer a qualquer um. Muitos de nós achávamos que éramos inatingíveis, e isso acabou ali…

Sobre esses acontecimentos de há 55 anos, conto este mês no site Nobres do Grid

domingo, 1 de janeiro de 2023

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Por duas vezes na história da Formula 1, houve corridas no Ano Novo. Ou seja, os pilotos não poderiam entrar nos carros de ressaca porque a corrida depois iria ser um desastre. Ou se quiserem, as sessões de treinos foram num ano, e a corrida noutro. 

Era costume ir à África do Sul no final do ano, e nos anos 60, tanto poderia ser no final da temporada - no inicio da década - como poderia ser a proba de abertura, como aconteceu a partir de 1967. Mas em 1965, 66 e 68, foi logo no dia 1, e sempre em Kyalami.

Mas a prova de 1968 foi memorável. Porque a Formula 1 celebrava a quebra de um recorde. E era pelo seu grande piloto, Jim Clark, e o carro do momento, o Lotus 49. 

O escocês estava num grande momento, pois tinha triunfado nas duas últimas corridas da temporada, em Watkins Glen e na Cidade do México, um grande final para uma temporada de altos e baixos, mas todos sabiam que o conjunto chassis-motor, com o Cosworth de oito cilindros, era quase imbatível. E Clark, que ia entrar na sua oitava temporada, estava prestes a superar o recorde de 24 vitórias, que pertencia a Juan Manuel Fangio, dez anos depois do argentino ter vencido pela última vez. 

Com 23 carros inscritos, Clark conseguiu o melhor tempo, na frente de Graham Hill e do seu compatriota Jackie Stewart, no seu Matra. O piloto da Lotus perdeu temporariamente a liderança, na partida, mas retomou o comando na segunda volta, ficando por ali até à meta. Quando por fim cruzou a bandeira de xadrez, detinha os seguintes recordes:  

- vitórias (25) 
- pole-positions (33) 
- voltas na liderança (1943) 
- pole, vitória e volta mais rápida (11)

E já tinha o "Grand Slam", ou seja, a pole, a vitória, a volta mais rápida e a liderança em todas as voltas da corrida. Ele tinha tido oito fins de semana perfeitos. Em Kyalami, tinha sido quase perfeito, porque não liderou em uma volta. 

E tudo isto em apenas 72 corridas, sempre pela Lotus.

Parecia que o carro tinha, por fim, deixado para trás os seus problemas de juventude e iria dominar as pistas. E Chapman preparava-se para isso, com o acordo que estava a magicar nos bastidores e o iria fazer cem mil libras mais rico. Mas não iria ser o primeiro a consegui-lo. Apenas iria fazer melhor.  

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Youtube Formula 1 Vídeo: A corrida para a perfeição, episódio quatro

No quarto episódio da série feita pela Sky britânica e estreada em 2020, fala-se sobre Jim Clark, Niki Lauda, Jochen Rindt e Ayrton Senna, quatro dos pilotos que estão sempre nas listas dos melhores de sempre, e que, excetuando Lauda, sofreram acidentes fatais. 

Neste episódio também se fala dos momentos em que isso aconteceu: a corrida de Formula 2 em Hockenheim, a 7 de abril de 1968, a qualificação do GP de Itália de 1970, o GP da Alemanha de 1976 e o fim de semana do GP de San Marino de 1994, todos fins de semana ou dias que marcaram a Formula 1 para sempre. 

sábado, 18 de junho de 2022

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Jackie Stewart publicou esta foto nas suas redes sociais neste sábado. Aos 83 anos, completados na semana passada, e agora dos poucos sobreviventes daquela era, foi visitar a campa do seu compatriota e amigo Jim Clark, quase 55 anos após a sua morte.

Stewart foi o maior paladino da segurança na Formula 1 e no automobilismo em geral, porque, como disse certo dia, "tinha ido a mais funerais que muita gente". E de uma certa forma, é verdade: ele estivera naquele lugar, em abril de 1968, para se despedir do seu amigo ao lado de gente como Graham Hill, Dan Gurney, Jochen Rindt, Jo Bonnier e outros.  

Grandes amigos fora da pista, o seu compatriota nunca esqueceu do seu amigo. E pelos vistos, nunca o esquecerá, enquanto puder ir visitá-lo e colocar uma coroa de flores na sua campa. 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

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Toda a gente sabe que Graham Hill é o único piloto que tem a Tripla Coroa: vitórias nas 500 Milhas de Indianápolis, nas 24 Horas de Le Mans e no Grande Prémio do Mónaco. Tudo isso aliado com os dois títulos mundiais conquistados em 1962, pela BRM, e ao serviço da Lotus, seis anos depois, numa altura em que foi a "cola" que uniu a equipa depois do acidente mortal de Jim Clark, em Hockenheim.

Hill alcançou a sua glória americana na edição das 500 Milhas de 1966, depois de um duelo entre britânicos decidido a dez voltas do final. Contudo, ele nem era para lá estar. Foi chamado depois de uma interferência do Destino, tão frequente nesses tempos.    

Toda a gente sabe que nesses tempos os pilotos guiavam tudo que era carro, em busca de amealhar todos os tostões que podiam, arriscando ainda mais a sua vida, especialmente, se as de fábrica contratavam pilotos de forma principesca para ajudar nesses desafios de triunfar no domingo para na segunda-feira as pessoas fizessem filas nos seus concessionários para adquirir o último modelo do seu veículo. 

Quando Walt Hansgen se despistou mortalmente a meio de abril, em Le Mans, no seu Ford GT40, não tinha imaginado a cadeia de eventos que iria causar. É que o veterano piloto americano, então com 47 anos, estava inscrito nas 500 Milhas de Indianápolis pela Mecom Racing, ao lado de Rodger Ward e um jovem de 26 anos chamado Jackie Stewart. Em 1966, o escocês estava na segunda temporada na Formula 1 e tinha acabado de vencer o seu primeiro Grande Prémio do Mónaco, ao volante do seu BRM. E já tinha corrido no ano anterior nas 24 Horas de Le Mans, ao lado de Hill, no estranho Rover-BRM, com um segundo lugar na categoria onde estava instalado.

Era um jovem em ascensão do qual todos o viam como um prodígio tão bom como Jim Clark e com material para ser campeão do mundo. 

1966 era um ano marcante para as 500 Milhas e o Estado de Indiana. A corrida iria comemorar a sua 50ª edição, e o estado celebrava os 150 anos da sua formação como o 19º estado dos Estados Unidos. E com a vitória de Jim Clark no ano anterior, a invasão britânica era mais forte, com a presença de Stewart e Hill. Mas curiosamente, havia apenas quatro estrageiros entre os 33 pilotos presentes: os três britânicos e o canadiano Billy Foster.

Clark foi segundo na grelha, contra o 11º do escocês e o 15º de Hill, e no dia 30 de maio, uma segunda-feira, sobreviveram à carambola da primeira volta, que eliminou onze carros, entre eles A.J. Foyt, Dan Gurney e futuro campeão da NASCAR, Cale Yarborough. Outros também estiveram envolvidos, como Gordon Johncock e Joe Leonard, mas puderam participar na segunda largada.

Com um terço dos pilotos eliminados em... poucos metros, e quase hora e meia depois da hora marcada, a corrida recomeçou com Mário Andretti na liderança, numa luta com Jim Clark, mas na volta 27, o italo-americano desiste com problemas de motor e a corrida torna-se num duelo entre Clark e o texano Lloyd Ruby, com Stewart a subir na classificação e observar o que se passaria na sua frente. Contudo, Clark sofreu dois despistes que, embora não tendo batido no muro, o fez atrasar bastante. 

Na volta 150, Stewart passou Ruby e foi para a frente da corrida, e lá permaneceu por bom tempo. Com cada vez menos carros na pista, parecia que ele iria conseguir algo que não acontecia desde 1926, quando o americano Frank Lockhart conseguiu esse feito na primeira tentativa. E claro, ali ele já começava a mostrar o seu estilo suave e o seu instinto de sobrevivência que iria ser conhecido nos anos seguintes. 

Mas a dez voltas do fim, a pressão de óleo do seu carro baixou e ele simplesmente encostou o carro e caminhou a pé para as boxes. Hill herdou o lugar e foi até ao fim. E como ele também estava ali na sua primeira participação, afinal de contas não só herdou o lugar de Stewart, como era o primeiro "rookie" em 39 anos no lugar mais alto do pódio. Numa corrida com a menor quantidade de carros a correrem até então: apenas sete cortaram a meta. 

Contudo, de modo incrível, ele não foi o Rookie do Ano. Esse pertenceu... a Stewart. Mas nesse ano, nunca a invasão britânica teve tanto sentido naquele local. 

quinta-feira, 4 de março de 2021

A imagem do dia


Recordando um dos grandes do automobilismo. Se estivesse vivo, Jim Clark teria comemorado o seu 85º aniversário natalício. Para recordar esse dia, coloco aqui a sua associação e lealdade para com o seu único patrão: Colin Chapman, o homem que fundou a Lotus, e lhe deu todos os carros que lhe colocaram no topo, desde o 25, que lhe deu o título de 1963, até ao 49, que deu as suas últimas vitórias em 1967 e 68, e o seu último grande título, a vitória na Tasman Series, no inicio de 1968, semanas antes da sua trágica morte, a 7 de abril de 1968, no circuito de Hockenheim.

Apesar do final abrupto, ambos se davam muito bem, e ele era o único que conseguia tirar o melhor dos chassis, adaptando-os ao seu estilo de condução. E até foi num Lotus, o 38, que deu aquela que é provavelmente uma das vitórias mais conhecidas: as 500 Milhas de Indianápolis de 1965. Sem dúvida, uma associação do qual não pode ser dissociada. Clark sem Lotus não era ninguém, e Chapman e Lotus teria um impacto bem menor sem a presença do piloto escocês nas suas máquinas. 

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Youtube Formula 1 Video: Os dez melhores dos anos 60

O Josh Revell está a fazer uma contagem sobre os melhores pilotos de cada década e agora, chegou aos anos 60 do século XX, ou seja, a segunda década da Formula 1, onde muitos dos pilotos que admiramos correram nessa era. Claro, o numero um têm o seu lugar garantido, e o seu bom humor está bem intacto, especialmente com as descrições sobre Denny Hulme, Dan Gurney, Graham Hill e um certo pretendente à Tripla Coroa...

Enfim, vale a pena.

terça-feira, 7 de abril de 2020

A imagem do dia

A 27 de abril de 1968, em Silverstone, no BRDC International Trophy, a prova organizada pelo clube de pilotos de automóveis britânicos, estes puderam se despedir de Jim Clark, morto duas semanas antes, em Hockenheim. Na primeira fila estavam os BRM de Mike Spence e Pedro Rodriguez, e os McLaren de Denny Hulme e Bruce McLaren. Curiosamente, os quatro pilotos da primeira fila tiveram o mesmo destino. Aliás, Spence seria o primeiro a morrer, dali a alguns dias, em Indianápolis, a 7 de maio, quando iria preencher o lugar de Clark para as 500 Milhas de Indianápolis. 

Na ponta da fotografia, podem ver um homem assopra as sua gaita de foles escocesa, num tributo ao filho da terra, provavelmente o melhor piloto daquela década, e um dos melhores de sempre do automobilismo, e do qual todos pensavam que a ele, nesta profissão perigosa, nada lhe aconteceria.

A corrida foi vencida por Hulme, na frente de McLaren e dos Ferrari de Chris Amon e do jovem belga Jacky Ickx. Aliás, o pódio foi totalmente neozelandês, algo inédito até então, embora fosse uma corrida não-oficial. Contudo, o objetivo de correr e competir estava colocado de lado, pelo menos por uns momentos, para homenagear um dos seus, faz agora 52 anos que morreu, numa prova de Formula 2 na fria Alemanha, num acidente que poucos queriam acreditar.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

A imagem do dia

Se fosse vivo, Jack Brabham teria feito ontem 94 anos de idade. Em 2014, alguns meses antes de morrer, o patriarca da familia e da equipa com o mesmo nome, sentou-se e falou com o jornalista australiano Gordon Lomas, um dos melhores do seu país, para falar da sua longa carreira de alguns momentos inesquéciveis. Uma delas envolveu Jim Clark., o melhor piloto dos anos 60, bicampeão do mundo e morto em 1968, em Hockenheim, durante uma corrida de Formula 2.

No GP de Itália de 1961, com os pilotos da Ferrari a lutarem pelo título mundial, Wolfgang Von Trips lutava pelo título com Phil Hill. Contudo, no final da segunda volta,  o alemão envolveu-se com o Lotus de Jim Clark e o carro acabou contra os espectadores, matando-o e a mais 14 espectadores. No final da corrida, Clark era um homem procurado pela policia local, que o queria interrogar por causa do seu envolvimento no acidente, e Colin Chapman queria tirá-lo de Itália sem dar nas vistas.

"Colin Chapman veio ter comigo, porque em Itália, quando há um acidente, eles detêm quem se envolve nisto para averiguações. Colin não queria isso, queria-o na Grã-Bretanha o mais cedo possível e me perguntou se o poderia levar no meu avião. Então decidimos passar pela aduaneira do aeroporto, dissemos que iriamos reabastecer, deixamo-lo no avião, voltamos e esperou por nós até acabarmos tudo, pegarmos no avião e regressar a casa."

Clark demorou cerca de três anos até que as autoridades o ilibarem do seu envolvimento no acidente, e até ali, sempre que ia a Itália não passava bons bocados.

Para Brabham, uma personagem única do automobilismo - duas vezes campeão do mundo antes de fundar a sua própria equipa, vencer corridas e ser campeão do mundo com o seu próprio carro, aos 40 anos de idade - a sua carreira foi muito longa, começando no final da II Guerra Mundial para acabar em 1970, ainda com todas as suas faculdades, e a vencer uma corrida e acabar na quinta posição. Sobreviveu a todas as armadilhas do automobilismo, que viu morrer muitos dos seus colegas, enquanto corrida e fazia prosperar o seu negócio, ao lado de Ron Tauranac. No final, não só saiu vivo de todo o tipo de carros, quer na Cooper, quer na sua própria equipa, na Formula 1 e IndyCar, be como algumas passagens pela Endurance e nos Superturismos australianos, competindo até perto dos 60 anos.

Ao ver estas entrevistas, pode-se ver o tipo de pessoa que foi e como consolidou a sua lenda. Não existe mais a pessoa, resta a história.

segunda-feira, 4 de março de 2019

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Hoje passa mais um aniversário do nascimento de Jim Clark. E numa altura em que o The Grand Tour voltou a lembrar os feitos de um dos maiores pilotos de sempre, nós, os amantes de automobilismo, só poderemos agradecer pelos seus feitos. Por causa dele, amamos um pouco mais esta modalidade desportiva, e só lamentamos ele não ter ficado mais tempo, porque tínhamos a certeza que teria realizado mais.

E que melhor recordá-lo a bordo de um dos melhores carros da história da Formula 1, numa foto tirada por um dos melhores fotógrafos de automobilismo, e num dos circuitos clássicos que é Spa-Fracochamps? E num dia onde, em 1963, cilindrou a concorrência debaixo de chuva, num circuito que ele confessava ter temor? Mas foi assim Clark.

sábado, 27 de outubro de 2018

GP Memória - México 1963

Passaram-se três semanas sobre a corrida americana quando máquinas e pilotos foram para paragens mexicanas, numa estreia absoluta no calendário da Formula 1. Com uma nova corrida no calendário, aparecer alguns pilotos para fazer esta prova. Os locais, para além de Pedro Rodriguez, contavam também com Moisés Solana, que iria guiar o BRM da Scuderia Centro Sud. Curiosamente, Solana usava o número 13, a única vez que um piloto o usou num Grande Prémio de Formula 1 até 2014, quando o venezuelano Pastor Maldonado decidiu usá-lo como seu número pessoal. 

Quem também voltava às pistas era Chris Amon, recuperado depois do seu acidente em Monza.

Para além disso, três pilotos americanos estavam inscritos: Walt Hansgen, num Lotus, Frank Dorchnal, num Cooper privado, e Thomas Monarch, num Lotus-Climax. Contudo, nem Hansgen, nem Monarch apareceram, e Dorchnal teve um acidente durante os treinos, danificando bastante o carro, acabando por não se qualificar.

No final da qualificação, Jim Clark fez a pole-position, tendo logo a seguir o Ferrari de John Surtees e o BRM de Graham Hill. Dan Gurney foi o quarto, no seu Brabham, seguido por Richie Ginther, no segundo BRM. Bruce McLaren foi sexto no seu Cooper, seguido pelo segundo Ferrari de Lorenzo Bandini, o segundo Cooper de Jo Bonnier, e a fechar o "top ten", o Lotus-BRM de Jo Siffert e o carro de Jack Brabham.

A corrida começou com Clark a largar bem... e a concorrência nunca mais o viu até à bandeira de xadrez. Atrás, Hill e Ginther perseguiram-no, mas o ritmo de Clark era tal que em média estava um segundo mais veloz que a concorrência. Atrás, John Surtees foi às boxes para ver se tinha problemas no seu Ferrari, mas quando voltou à pista, foi empurrado pelos mecânicos, e acabou desclassificado na volta 19.

Atrás, Brabham subia de posições até chegar aos lugares do pódio. Aproveitou o facto de Hill ter problemas na sua caixa de velocidades para ficar com o segundo posto, na frente de Ginther, mas era Clark que mostrava a todos que era o melhor piloto, no seu melhor carro. Chegou a dar uma volta a quase toda a gente, e parecia estar noutra galáxia.

No final, foi isso que todos viram: Clark a vencer pela sexta vez na temporada, com Brabham a conseguir o seu primeiro pódio em dois anos, e Ginther a ficar com o lugar mais baixo do pódio. Nos restantes lugares pontuáveis ficaram o BRM de Hill, o Cooper de Jo Bonnier e o segundo Brabham de Dan Gurney.

sábado, 6 de outubro de 2018

GP Memória - Estados Unidos 1963

Com o campeonato já resolvido há muito a favor de Jim Clark, a quatro provas do fim, a Formula 1 ia aos Estados Unidos de forma mais descontraída, para cumprir calendário. A Lotus decidiu inscrever um carro extra para o mexicano Pedro Rodriguez, irmão mais velho de Ricardo Rodriguez, piloto da Ferrari que tinha morrido um ano antes, no GP do México.

Havia também a inscrição de uma equipa canadiana, a Stebro. Fazia chassis para a Formula Junior, mas decidiu tentar a sua sorte, metendo um motor Ford, e inscrevendo dois pilotos, Peter Broeker e Ernie De Vos. Contudo, apenas um chassis ficou pronto, para Broeker.

Entre os privados, Reg Parnell inscreveu Masten Gregory para a sua equipa, no lugar de Chris Amon, ainda a recuperar do seu acidente em Monza. Gregory ia guiar no Lola, enquanto os seus Lotus foram guiados pelos americanos Hap Sharp e Rodger Ward. Na BRP, apenas inscreveram Jim Hall, pois Innes Ireland sofrera um acidente e ficara fora de combate para o resto da temporada.  

No final da qualificação, Graham Hill tinha levado a melhor sobre Jim Clark e John Surtees. Richie Ginther era quarto, no outro BRM, na frente dos carros de Jack Brabham e Dan Gurney. Trevor Taylor era sétimo, na frente do Lola de Masten Gregory, e a fechar o "top ten" ficaram o segundo Ferrari de Lorenzo Bandini e o Cooper de Tony Maggs.

O dia da corrida estava em "verão índio", atraindo cerca de 60 mil pessoas a Watkins Glen, e huve agitação logo nos momentos iniciais, quando o Lotus de Clark não conseguia ligar quando o resto do pelotão fez isso. Descobriu-se que era um problema de bateria e tiveram de a trocar, que fizeram depois da bandeira ter caído, com Hill e Ginther a liderarem, seguido de Surtees. O escocÊs da Lotus arrancou para a corrida com duas voltas de atraso, mas como a pista era pequena, era perfeitamente... recuperável.

Na frente, Surtees atacou os BRM e na volta sete, já liderava. Hill não desistiu de perseguir o piloto da Ferrari e pressionou-o na volta 30, para o passar. Nas treze voltas seguintes, Hill e Surtees jogaram um jogo do gato e do rato em relação à liderança, trocando constantemente de posição. Atrás, Clark recuperava posição atrás de posição, estando à porta dos pontos quando Gurney desistiu com problemas na alimentação do combustível.

Nessa altura, Hill teve problemas com o seu roll-bar, fazendo com que o carro ficasse subvirador e tivesse de lutar com ele nas curvas, alterando a sua postura de condução. Surtees acalmou-se, pensando que tinha a corrida ganha, mas na volta 82, o seu motor calou-se e acabou por se retirar, deixando Hill com o comando da corrida, que não o largou até ao final. Atrás, Clark aproveitava uma combinação de retiradas e manter o seu ritmo para chegar ao terceiro lugar, tendo perdido apenas uma volta.

No final, foi uma dobradinha para a BRM, com Hill na frente de Ginther. Clark ficou com o lugar mais baixo do pódio, e nos restantes lugares pontuáveis ficaram Jack Brabham, Lorenzo Bandini e o Porsche laranja de Carel Godin de Beaufort. Foi a última vez que um Porsche pontuou num Grande Prémio de Formula 1.