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quarta-feira, 16 de abril de 2025

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Próximo dia 21 fará 40 anos a primeira vitória de Ayrton Senna na Formula 1. E por aqui haverá algumas manifestações de homenagem ao feito, que aconteceu no Autódromo do Estoril. A primeira delas será no... futebol.

Equipa da I divisão, o Estoril-Praia anunciou que apresentará uma quarta camisola no seu equipamento oficial, negra com as cores brasileiras, o negro pela cor do carro da Lotus em 1985, e as riscas horizontais do Brasil, que existia no capacete de Senna. Esse equipamento será usado no jogo caseiro contra o Sporting de Braga, no próximo sábado, pelas 18 horas.

Entretanto, o programa da próxima segunda-feira, dia 21 de abril, sofreu uma contrariedade: já não haverá as voltas à pista inicialmente prevista para o final da tarde, com o Bruno Senna ao volante. O carro rodou na semana que passou em Goodwood, no Festival da Velocidade, e uma avaria no sistema de óleo que alimenta o motor Renault Turbo obrigou a que o caro ficasse parado nas próximas semanas, inviabilizando a demonstração na pista portuguesa.

Contudo, o carro estará nas boxes - e na reta da meta - do Autódromo ao longo do dia, para que as pessoas o possam ver, com entrada gratuita. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A imagem do dia


A RTL alemã anunciou nesta terça-feira que transmitirá em direto sete corridas do campeonato de 2024 em sinal aberto. O acordo foi alcançado no final de conversações com a Sky Sports, e terá a duração de duas temporadas. Isto acontece em sinal contrário à crescente passagem da Formula 1 em canais fechados e de subscrição, e numa altura em que a Formula 1 deixou há muito tempo de correr na Alemanha - a última ocasião foi em 2020.

Algumas personalidades de origem alemã e austríaca já reagiram nas redes sociais a estas noticias. Nico Hulkenberg, por exemplo, reagiu com júbilo. "Ótimas notícias! Como piloto alemão, estou muito feliz que o automobilismo possa ser visto novamente por todos no meu país. É um passo importante para a relevância da Formula 1 na Alemanha."

Helmut Marko, um dos responsáveis da Red Bull, reagiu com alegria a esta decisão. “Sete corridas em rede aberta garantem que a Formula 1 também pode ter um impacto positivo na Alemanha.”, escreveu. 

Ainda não foram anunciadas que corridas serão transmitidas em 2024. 

Esta noticia é uma indicação em contrário à tendência geral, de elitizar o desporto, em busca de lucros cada vez maiores. Para terem uma ideia, em 2023, na Alemanha, não houve qualquer corrida transmitida em sinal aberto. E hoje em dia, também, poucos são os países que transmitem a Formula 1 em sinal aberto. Brasil e Argentina são duas nações onde isso acontece, mas é mais a exceção que a regra.     

As reações da noticia noutros lados, pelo menos nas redes sociais, são de contentamento. Muitos desejam que os governos forcem os canais a abrirem as transmissões - parcialmente ou totalmente - à transmissão em sinal aberto, principalmente em países que têm pilotos no pelotão da Formula 1. Em Espanha, por exemplo, houve júbilo e muitos desejam que isso aconteça no futuro, como afirma um na rede social X:

"Mais cedo ou mais tarde, 'el chiringuito de las TV's de pago" (o bar aberto da TV paga) acabará e a TV aberta regressará. Aqui em Espanha será mais difícil que tal aconteça, mas mais cedo ou mais tarde... acontecerá." Na Bélgica, as corridas passam em sinal aberto até 2027.

Estamos num tempo onde não falta oferta. Canais pagos de desporto e filmes... mas a oferta é tal que as pessoas, por muito capazes que sejam de pagar, têm de fazer escolhas. Querem Netflix, mas depois tem a Apple TV +, a Amazon Prime, a Disney +, e outros canais... só para filmes e séries. E nem falo do Youtube, que tem também um serviço pago. 

E depois, para o desporto, temos a Sky Sports, e não faltam canais de sinal aberto que decidem colocar serviços de subscrição, para ter uma público mais "selecto"... está disposto a pagar 90 ou 120 euros por mês para ter boa parte destes canais por causa de um FOMO (Fear Of Missing Out), porque quer ver o melhor do futebol, Formula 1, séries e filmes? E no final, se calhar por causa dessa fartura, o que acontecerá é que ficará agarrado ao comando num nervoso "zapping"?

Nisto tudo, nesta espécie de corrida para o fundo, acabada a novidade, as pessoas perdem o interesse. E claro, quem conhece o básico da economia, sabe que isto não crescerá para sempre. Haverá bons e maus anos, as gerações mudam e os hábitos também, e há quem tenha saudades de ir ao cinema e gastar 10 ou 15 euros para ver o filme, comprar pipocas e refrigerante. E quando ainda estamos no rescaldo da pandemia, os velhos hábitos ressurgem, quando menos esperamos. Olhem para o verão que passou, quando os cinemas encheram de pessoas para verem "Oppenheimer" e "Barbie", por exemplo...

É evidente que o passado não regressa mais, mas regressando a pastagens alemãs, para falar de outro desporto: futebol. Se forem ver a Bundesliga, todos os jogos - menos um ou dois - começam aos sábados pelas 14 horas, com estádios cheios. O preço dos bilhetes é acessível para as suas bolsas, e quando se tentam mexer nisso, os fãs reagem ruidosamente. E são das economias mais prósperas da Europa. De uma certa maneira, eles sabem: é bom ter dinheiro no bolso, mas os seus divertimentos tem de ser acessíveis, para todos. Encher os bolsos de meia dúzia de pessoas, puro anarco-capitalismo, onde os preços e a acessibilidade é para aqueles que podem e querem, a uma certa altura, em vez de alargar o público, irá perdê-lo.

E sei isso perfeitamente. Moro numa cidade onde se está a acontecer uma experiência única: para atrair gente a um estádio de 22 mil pessoas, o clube da minha cidade está a oferecer bilhetes de graça para que todos possam assistir e apoiar o seu clube de futebol, que está na II Divisão. Da última ocasião, foram oito mil pessoas, e o dinheiro que gastam nos bares compensa largamente o prejuízo que teriam se não cobrassem as entradas. 

A economia é mais que dinheiro, e se calhar, não seria má ideia se aqui, na rica Europa, os canais pagos não cheguem a acordo com os canais estaduais para não partilhar as despesas e alargar o público. Desde que haja interesse, não interessa o desporto.     

sábado, 1 de janeiro de 2022

A imagem do dia


Niki Lauda no seu Brabham BT46 no GP do Canadá de 1978. O austríaco largou da sétima posição, e acabou na quinta volota devido a um problema de travões. 

Mas quem o conhece, sabe que... nada como uma boa publicidade para mostrar que ainda andas por aí. E após o seu acidente quase fatal, Niki Lauda teve uma oferta boa demais, vinda de uma firma não muito longe de Maranello: que usasse um boné vermelho, da sua marca, com o logotipo da sua marca. O austríaco aceitou, e foi renovado, mesmo após a sua retirada da Formula 1, em 1985. 

Aproveitei a calvície, arrecadando dinheiro [da marca] com a condição de usar constantemente o seu boné. Mesmo depois da minha reforma, mantive no mesmo valor“, contou, anos depois.

O boné vermelho acabou por ser o "trademark" do austríaco, do qual muitos usaram na cabeça no fim de semana do GP do Mónaco de 2019, dias depois da sua morte, aos 70 anos. Na altura, o patrocinador era outro, mas por mais de 25 anos, era um: a italiana Parmalat, um conglomerado de laticinios fundado em 1961 por Calisto Tanzi, na cidade de Parma, que se tornou milionário e também se tornou vitima da ambição desmedida, causando uma das maiores falências de sempre em Itália, em 2003, e acabou com ele condenado a 18 anos de prisão por fraude fiscal e corrupção. 

A história da marca começou inesperadamente, quando teve de largar os estudos universitários para ajudar o seu pai doente, no seu negócio de laticinios. Poucos anos depois, fez uma viagem à Suécia e conhece a embalagem TetraPak, que melhorava a conservação, mantendo a qualidade do leite, permitindo ganhar milhares de milhões de liras e expandindo-se por toda a Itália. E em 1975, já tinha olhos para fora dela. Faturando mais de cem mil milhões de liras por ano, Tanzi adorava publicidade, e o desporto era o melhor veículo. Investiu massivamente, primeiro no ski, depois no automobilismo. E foi nessa altura que apareceu forte e feio, primeiro nos macacões dos pilotos locais, como Vittorio Brambilla, Clay Regazzoni e claro, Niki Lauda.

Em 1978, com a Brabham a perder o patrocínio da Martini, que foi para a Endurance - e depois, os ralis, através da Lancia - a Parmalat apareceu no lugar para ser o mais generoso benfeitor, ao ponto de, em 1979, pagar um milhão de dólares por temporada a Lauda... para ficar na Brabham! A marca ficou na equipa mesmo depois da retirada do austríaco na Formula 1, e no lugar veio Nelson Piquet, que com ele, conseguiu dois títulos mundiais de pilotos em 1981 e 1983, e pelo meio, colocou um italiano na equipa, Riccardo Patrese, que conquistou ali as primeiras duas das treze vitórias que teve na sua carreira. A marca ficou na Brabham até ao final de 1984, altura em que decidiu focar-se nos patrocínios pessoais, especialmente do de Lauda, que tinha voltado à Formula 1 em 1982 e fora campeão em 84. 

Pelo meio, Tanzi fez amizade com gente importante como Ciriaco de Mita, líder da Democracia Cristã italiana e primeiro-ministro entre 1988 e 89, que lhe deu facilidades em termos financeiros e transporte, e até abriu uma fábrica na pequena cidade de Nusco, a terra natal de De Mita. Mas isso não impedia de ter problemas de capitalização por causa da sua ambição obsessiva de levar o nome da marca para os quatro cantos do mundo. 

E quando voltou à Formula 1, em 1995, era através do braço brasileiro da marca, tão poderosa que tinha financiado o Palmeiras, o clube da colonia italiana. Pouco tempo antes, o próprio Tanzi tinha comprado o Parma AC e levado para a Serie A italiana, determinada a ser campeã. Venceu competições europeias - duas Taças UEFA, uma Taça das Taças - e três Coppa Itália, mas nunca o Scudetto, apesar de ter jogadores do calibre de Hernan Crespo, Lilian Thuram, Gianfranco Zola, Alessandro Lucarelli, Faustino Asprilla, Alberto Gilardino e outros. 

Mas a marca regressava à Formula 1 naquele ano de 1995 através da novata Forti Corse, e os patrocinadores eram todos de origem brasileira porque pertenciam ao pai de um dos pilotos: Abilio Diniz. O seu filho, Pedro Paulo Diniz, lá chegou e fez o que sabia de melhor: não sendo um vencedor, esforçou-se por não ser um embaraço, e assim, a marca lá ficou até à saída de cena do piloto, no final do ano 2000, tendo andado pela Ligier, Arrows e Sauber.  

Mas por essa altura, a Parmalat era um conglomerado em dificuldades. Em 2003, a situação alcançou a insustentabilidade e explodiu. O buraco era de 14 mil milhões (ou biliões) de euros e a falência era, em muitos aspetos, fraudulenta. O próprio Tanzi poderá ter apoderado para seu beneficio próprio cerca de 800 milhões de euros. Toda a gente queria saber porque é que alguém, quase 40 anos depois de começar tudo do quase zero, tinha chegado a este ponto. 

Cinco anos depois, em 2008, os tribunais condenaram-o a nove anos de prisão, por uma das fraudes, ao que foi dobrada para 18 anos em 2010. As suas condecorações foram retiradas por ordem do presidente da República, e para tentar recuperar parte do dinheiro, a sua coleção de arte fora apreendida e vendida em leilão com o resultado, avaliado em cerca de cem milhões de euros, a ser revertido para o Estado. Quanto à sua companhia, ainda existe, mas foi vendida para o grupo francês Lactalis.  

Tanzi morreu hoje, aos 83 anos.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

"Sportwashing"


Tudo isto começou com um sapato. Este sapato que vêm na foto. Ou, se quiserem, foi este sapato que me fez transbordar algo que estava trancado na minha garganta há algum tempo. Para quem ainda não sabe, é o que Sebastian Vettel irá usar no fim de semana saudita, em apoio à causa LGBTQ+. Ele e Lewis Hamilton são os únicos que farão algo em nome de algo que está ainda metida no armário nessa parte do mundo. A Península Arábica, onde quatro países da região acolherão em 2021 provas de Formula 1: Bahrein, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, onde Abu Dhabi acolherá a prova final do campeonato.

Aliás, desde há algum tempo que a Formula 1 começa e acaba na Península Arábica. Sempre em provas noturnas, porque não estão lá pelas belas paisagens desérticas e porque é bonito correr à noite. Aquele é um dos locais mais inóspitos do mundo, onde viver lá em julho, a 55ºC, é insuportável para o ser humano. Então, se correm em paisagens monótonas e num lugar insuportável numa determinada altura do ano, porque lá vão? Pelas "verdinhas". Dinheiro.

Dinheiro, em países cujos registos de direitos humanos são péssimos. Estes quatro países têm a pena de morte nos seus códigos penais e na Arábia Saudita, dezenas de pessoas são executadas por ano. E os direitos dos LGBT's? Se assumires, não só és preso, como podes ser executado. Pois é!


Mas neste final de semana, alguns até celebram o facto de estarem em Jeddah, na Arábia Saudita. Os Safety Car da Aston Martin até modificaram o seu verde para ficarem parecidos com o da bandeira saudita. E faço esta pergunta: se corressem em 1983 em Kyalami, na África do Sul, também pintariam os seus carros de laranja "Orange" para celebrar a bandeira local, dos tempos do "apartheid"?

Vivemos na era do "sportwashing". Sempre houve uma hipocrisia ocidental de, embora apoiem os direitos humanos e impõem avisos e sanções a certos países como a China, Rússia, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e outros, quando se trata dos países da península arábica, fundos soberanos desses países comprarem clubes de futebol por este Europa fora, sem sanções ou avisos por parte das entidades competentes porque são "entidades privadas", ou quando a FIFA ou o Comitê Olímpico Internacional aceitam que os mundiais de futebol aconteçam num pequeno país como o Qatar ou aceite que a Arábia Saudita desfile só com homens até aos Jogos de Londres, em 2012, e não permitisse que as mulheres guiassem automóveis até 2018, pergunto a mim mesmo como alguns são filhos e outros enteados. Para não falar pior.


Quem é mais velho, como eu, e era criança nos anos 70 e 80 do século passado, sabia que a África do Sul vivia em isolamento desportivo internacional. Por causa do seu regime de segregação racial, separando brancos e negros, dando a estes o poder, em minoria, o resto do mundo reagiu com um boicote desportivo. Foram excluídos da FIFA e do COI pelo seu racismo e até foram excluidos do rugby, seu desporto nacional. Contudo, a Formula 1 era a única que quebrava esse isolamento. Iam regularmente a Kyalami em março ou outubro, e o GP sul-africano era uma paragem obrigatória.

Isto... até 19 de outubro de 1985. 

Nessa altura, o governo do apartheid decidiu executar três prisioneiros políticos. Isolado internacionalmente, com o mundo inteiro já a pedir a libertação de Nelson Mandela, o líder do ANC então preso desde 1964, a comunidade internacional decidiu pressionar a FISA, liderado por Jean-Marie Balestre, a cancelar o GP sul-africano, e Bernie Ecclestone, que detinha os direitos televisivos. Também pressionaram os pilotos a não irem a Joanesburgo, cidade do qual se situava o circuito. Apesar do governo francês ter proibido a Ligier e a Renault de lá irem, e o australiano Alan Jones ter decidido boicotar a corrida no próprio dia, alegando uma indisposição, 21 carros participaram numa prova ganha pelo Williams de Nigel Mansell.

A BBC e mais outras cadeias não transmitiram a corrida, mas a Formula 1 não voltou mais lá até 1992, quando já se faziam as reformas para que chegassem o governo de maioria negra, o que aconteceu em 1994. 

Hoje, mais de 35 anos depois, parece que isso foi esquecido, porque como podem ver, há gente que está entusiasmada por estarem na Arábia Saudita. A Formula 1 está a fazer uma festa com esta chegada, e até os Safety Car da Aston Martin, como os falei, mudaram de verde para saudar aqueles que têm sengue nas mãos. Lembram-se de Jamal Kashoggi, o jornalista morto nas instalações do consulado saudita em Istambul, a mando de Mohammed Bin Salman, o príncipe herdeiro?  

O que quero dizer é que a Formula 1, pelo dinheiro, não se importa com o resto. Parece uma garotinha a quem precisa de um "sugar daddy" para manter o seu estilo de vida. Mas não é só a Formula 1, o futebol permitiu que realizasse um Mundial de futebol no Qatar, que ai acontecer no ano que vêm, e nos termos deles, não da FIFA. O que quer dizer que o dinheiro é rei, até os direitos humanos se dobram face a ela. 


Agora, está tudo bem. É uma pedra que passa pela garganta, mas está tudo bem. E quando as coisas explodirem, como aconteceu em 2011, com a Primavera Árabe? Lembram-se o que aconteceu no Bahrein, e como a corrida de 2012 aconteceu, custou o que custou? Já tolero - mal, como andam a reparar - a Formula 1 no Médio Oriente, mas... quando algum destes governos mostrar a sua verdadeira face - e vão mostrar, acreditem - vai ser "business as usual"? Ou continuaremos com o "sportwashing"? A Formula 1, FIFA ou outra entidade qualquer vai trocar de fato e mandar o que está cheio de sangue para a lavandaria? Não sei se assistiam aos episódios do CSI, mas por muito que lavem o sangue, baste uma luz de infravermelhos para detetarem os seus vestígios 

E nem falo só disso, também poderemos falar como, crescentemente, clubes de futebol um pouco por todo o mundo (desde a francesa PSG até à inglesa Newcastle, passando por Manchester City) estão a ser comprados por fundos soberanos desses países, por centenas de milhões de dólares, porque os fãs querem ganhar, não interessa como.

Em jeito de conclusão, apesar do duelo excitante que temos em mãos nesta temporada de 2021, entristece-me que isto aconteça no pior dos cenários, num país que reprime pessoas por pensarem e serem diferentes. Estamos numa era triste. Em tudo. Deitaram a ética para o caixote do lixo, e não sei quando e como reagiremos quando cair a gota que transbordará este copo. 

Portanto, para a Formula 1 em particular, e para o desporto em geral, prefiro chamá-los por aquilo que são: hipócritas sugadores de dinheiro. E deixo aqui o meu protesto. Não posso ficar calado, começo a cansar-me desta cegueira. Adoro a Formula 1, mas a dignidade humana tem de estar acima do dinheiro. Não vale tudo!

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Youtube Motorsport Video: Recordando a Superleague Formula

Numa altura em que se falou da Super League, a tentativa de alguns grandes clubes europeus de criarem uma liga paralela, e que fracassou em dois dias, o Josh Revell decidiu recuar uma década até 2009, quando aconteceu uma competição onde se misturou futebol e automobilismo. Durou apenas três temporadas e serviu como pretexto para um país... lavar o seu dinheiro, digamos assim.

Assim sendo, eis o video. 

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A nova vida de Gerard Lopez

Gerard Lopez foi, até finais de 2015, um dos donos da Lotus F1, a equipa de Formula 1 que sobrou da Renault, que vendeu para ele no final de 2010. Lopez conseguiu segurar o barco de Enstone durante algum tempo, e conseguiu alguns feitos, como fazer regressar Kimi Raikkonen e conseguir duas vitórias, para além de ter outros pilotos como Robert Kubica, Nick Heidfeld e Bruno Senna. De uma certa maneira, aqueceu o lugar enquanto que a Renault se dedicava exclusivamente ao desenvolvimento de motores, quer para eles, quer para a Red Bull, que durante esse tempo conseguia quatro títulos seguidos de pilotos e Construtores.

Contudo, gerir a Formula 1 é muito complicado e é um verdadeiro sorvedouro de dinheiro. Lopez e o seu fundo, o Genii Capital, acabaram por ter prejuízo, apesar da injeção de dinheiro proveniente da FOM. Tanto que agora que a Renault já tem de volta o controlo da sua equipa, penou em 2016, sendo os antepenultimos no campeonato de Construtores, com oito pontos, tendo atrás de si apenas a Sauber e a Manor. A própria Renault admitiu que este foi um "ano zero".

Pois bem, depois de vender a sua parte, não se tem ouvido falar de Lopez... pelo menos até este mês. Desde há umas semanas se tem ouvido falar que ele decidiu adquirir participações maioritárias em dois clubes de futebol, um francês e um português. O francês é o Lille OSC, da Ligue 1, e o português é o Gil Vicente, da II Liga. No caso deste último, a Genii Capital comprou 60 por cento da sua SAD por meros seis milhões de euros. 

É verdade que o futebol é um negócio bem mais barato do que ter uma equipa de Formula 1. Por exemplo, o mínimo de sustentabilidade de uma equipa na I Divisão anda na ordem dos três milhões de euros, baixando para metade na II Divisão. Mas quando temos fundos a adquirirem clubes de futebol, não é por causa dos seus belos olhos ou porque são os seus clubes favoritos. Eles estão ali para ganhar algum, ou então até para serem clubes que se alimentam uns dos outros, embora as regras da UEFA impedem que uma pessoa não possa ser dono de dois clubes da mesma liga, por causa de eventuais favoritismos. É por isso que os clubes B, existentes em Espanha e Portugal, não podem subir à I Divisão, por exemplo.

A ideia de ter donos estrangeiros a serem proprietários das SAD's implicaria que investissem dinheiro para melhorar as sortes desses clubes, mas nem sempre funciona assim. Nos últimos dois/três anos, estão a aparecer magnatas chineses que adquirem as SAD's de clubes portugueses na II e III Divisões (Pinhalnovense, Atlético e Torrense são alguns exemplos), mas eles dão nas vistas pelas piores razões, como por exemplo, escândalos de apostas desportivas. Também há outros que aparecem pelas piores razões, como o Belenenses, mas aí a razão são as péssimas relações entre o clube e a SAD, e a interferência em várias áreas futebolisticas, para além de, claro, a questão do dinheiro.

E a chance do Gil Vicente ser um "Belenenses, parte II" é grande. António Fiúza, o seu presidente, tem um mau temperamento, mas todos - apoiantes e detratores - concordam que tem a ver com o clube, do qual defende com unhas e dentes. E vem de familia, pois ele é neto de um dos seus fundadores. 

Vamos a ver o que ele vai trazer de novo para o clube de Barcelos, e se as relações com o... "vulcânico" Fiúza vão - ou não - ser harmoniosas. 2017 vai ser um ano interessante para aqueles lados.

domingo, 10 de abril de 2016

Mais nomes automobilísticos nos Panamá Papers

Uma semana depois do mundo conhecer os "Panamá Papers", onde foram divulgados milhões de ficheiros contendo os documentos da firma de advogados Mossack-Fonseca, mais nomes estão a ser divulgados, um pouco por todo o mundo. Este sábado à noite, o blogueiro brasileiro Fernando Rodrigues, da UOL Noticias, afirmou que uma data de personalidades desportivas recorreu aos serviços da firma de advogados do Panamá, entre eles antigos futebolistas e os pilotos Rubens Barrichello e Felipe Massa.

No caso desses pilotos, os contratos tem a ver com os direitos de imagem, e o escritório nunca abriu nenhuma firma para eles. A mesma coisa aconteceu para os ex-jogadores Roberto Carlos, Clarence Seedorf e Sonny Andersson. Contudo, outros nomes como o empresário Gilmar Veloz e o internacional Dudu tiveram outro tipo de intervenção na firma, tendo constituído empresas nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá, embora no caso do jogador, ele o fez durante os seus tempos no Dinamo de Kiev, da Ucrânia. E quando regressou ao país, em 2015, para jogar no Palmeiras, a firma foi desativada.

Contactados pela UOL, o advogado de Massa afirmou que, como ele não tem morada fiscal no Brasil desde 2002 (mora no Mónaco), não tem qualquer obrigação fiscal com o seu país. Já do lado de Barrichello, ainda não houve resposta, mas pode-se dizer que esse argumento poderia ser usado para ele, pelo menos até 2011, altura em que fez a sua última temporada na Formula 1.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Youtube Ad Classic: Atari 1981


As consolas de videojogos eram uma novidade em 1981. No ano em que apareceu o ZX Spectrum, as consolas Atari dominavam, e eles tinham dinheiro suficiente para contratar Kareem-Abdul Jabbar, Pelé e Mário Andretti para fazerem esta publicidade junta. Hoje em dia, imaginariam Lionel Messi (ou Cristiano Ronaldo), Kobe Bryant (ou Lebron James) e Jeff Gordon (ou Lewis Hamilton) numa mesma publicidade? Quanto custaria tal coisa?

Mas enfim, vejam isto para ver como eram as coisas no ano em que Fernando Alonso nasceu.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Como os qataris querem comprar o mundo

Imaginem os meus amigos brasileiros uma terra com o tamanho de metade do estado do Espirito Santo, e que têm petróleo a jorrar do seu solo e do seu mar. E com isso, concorre a todos os eventos desportivos para que todos os possam olhar para eles como se fosse o centro do mundo, enquanto que pelo meio, compra todo o talento que possa encontrar. E entre outras coisas, monta museus, constroi prédios enormes e ganha dinheiro em fazer e equipar o seu canal de televisão planetário, capaz de rivalizar com a BBC e a CNN.

Não puxem mais pelas cabeças, essa fantasia existe. Chama-se Catar (ou Qatar, se preferirem). Uma rápida pesquisa na Wikipédia demonstra que este país, independente desde 1971, têm 1,8 milhões de habitantes, dos quais 270 mil são... naturais desse sitio. É verdade: ha mais expatriados do que naturais dos estado. O estilo de vida é elevadíssimo, e em média, as pessoas ganham um salário de 8500 euros, com o desemprego a ver virtualmente inexistente. O segredo de tanto dinheiro? Nem tanto o petróleo, mas ter as maiores reservas de gás do mundo.

Mas porquê trago o país do Nasser Al-Attiyah à baila? Porque depois de conseguir tudo (mundiais de atletismo e de futebol), está a caminho de conseguir aquilo que lhe falta: a Formula 1. Alegadamente, há uma oferta de 72 milhões de euros (sim, 72 milhões!) para acolher a categoria em 2017. Provavelmente não será para ser uma corrida qualquer no calendário, mas sim para ser ou a corrida inicial, ou a final desse ano. Ainda há obstáculos pela frente até que sejam aceites, e o maior dos quais são os vizinhos. É que aparentemente, o Bahrein têm clausulas nos seus contratos que impedem de eles tenham a Formula 1 no vizinho açambarcador, apesar de há cinco anos, eles darem 60 milhões de euros para abrirem o calendário.

Como se sabe, há um circuito por lá, o de Losail, que acolhe todos os anos a jornada de abertura do Moto GP. Não é um circuito memorável e só acolhe cerca de 20 mil pessoas, e ainda por cima é corrido à noite. A acontecer, teria de ser como nos seus vizinhos: uma corrida a acontecer no "lusco-fusco", como em Abu Dhabi, ou à noite, como é Singapura (ou como foi o Bahrein no ano passado, para comemorar o décimo aniversário da sua inclusão no calendário), porque se for à tarde, teria de ser no inicio da primavera, porque no verão, com 50 graus de temperatura média, só para suicidas.

Mas o problema é que os cataris (ou qataris) estão dispostos a tudo para conseguir. Se a história de como conseguiram o Mundial de futebol de 2022 é absolutamente nebulosa (e um dos fatores para a atual descredibilização da FIFA), no mês passado, a maneira como arranjaram os jogadores para a sua seleção de andebol raiou o escândalo. Para o Mundial (do qual foram organizadores), aproveitaram as regras mais flexíveis da organização que rege o andebol mundial... e naturalizaram todos os jogadores, a troco de muito dinheiro, aproveitando o fato desses jogadores não aparecerem nas suas seleções há anos. 

E assim, alguns espanhóis e sérvios trocaram de nacionalidade e levaram a seleção, do vigésimo lugar no último mundial, a uma final com a França, do qual perderem por uma diferença de três golos. E se tivessem conseguido, cada jogador iria receber... cinco milhões de dólares. Para não falar dos oitenta fãs que os qataris contrataram - com tudo pago, claro - à Espanha para os apoiar em todas as partidas.

Houve protestos - Bahrein e Emirados Árabes Unidos boicotaram o mundial - e já houve avisos de outras federações para que não tentem a mesma gracinha. O receio mais óbvio e o do futebol, dado que o Qatar não têm uma equipa à altura e nunca foi a um Mundial até agora...

Mas voltando ao automobilismo, de facto, a ideia de termos a Formula 1 por aquelas bandas é uma espécie de "cereja no topo do bolo" do qual sempre me espantei por que razão não ter aparecido mais cedo. Agora já se sabe o porquê.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Desenhos, patrocínios e picuinhices

Já sabíamos que o capacete do Nico Rosberg iria ser especial, mas poderia ser mais especial se não fosse uma das patrocinadoras do campeonato do mundo ter interferido, afirmando que não podiam usar o simbolo do Campeonato do Mundo da FIFA.

Segundo afirma hoje a revista alemã ‘Auto Motor und Sport’, o impedimento da decoração especial deve-se ao facto de apenas a Hyundai, patrocinadora oficial da FIFA e do Mundial, poder ligar o campeonato a um fabricante automóvel. A confirmação foi feita por um porta-voz da FIFA, o que significa que Rosberg, ao pilotar para a Mercedes, estaria a quebrar a afiliação exclusiva entre Hyundai e a entidade máxima do futebol mundial. 

Entretanto, a própria Mercedes (patrocinadora há longos anos da seleção alemã!) congratula a "Mannschaft" com a mensagem ‘Das Beste’ na sua motor home, mas sem qualquer referência ao campeonato do mundo de futebol.

Quanto a Rosberg, substituiu o capacete por mais uma estrela, simbolizando a conquista do Mundial pela seleção alemã.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Um desconto... de goleada

O futebol influencia tudo, mesmo a Formula 1, a competição do qual Bernie Ecclestone adora gabar-se que monta um espetáculo semelhante ao "Mundial de Futebol" de duas em duas semanas, como disse recentemente, numa das suas declarações com o objetivo de causar discussão, como adora fazer.

Digo isto porque hoje, levado pela "humilhante" goleada alemã de 7-1 ao Brasil, a organização do GP da Alemanha - que este ano é realizado em Hockenheim - decidiu fazer um desconto de onze euros por cada golo que a "Mannschaft" marcasse no jogo desta terça-feira. Ora bem, o resultado final foi que os felizes contemplados irão comprar um bilhete com um desconto de... 77 euros! A promoção durará até amanhã e os interessados têm de apresentar o código "Deutschland Gewinnt" (A Alemanha vence) na aquisição dos bilhetes.

Essa vi no Twitter do Luis Fernando Ramos, o Ico.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Formula 1 em Cartoons: Automobilismo e Mundial (Groo)






Bom, neste campo, o Ron Groo é genial em como colocar a Formula 1 no contexto do Mundial de Futebol (ou Copa do Mundo, como dizem os brazucas...)

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

"Special One Supercar", o carro com o nome de José Mourinho

Esta li na revista portuguesa "Turbo". A Raff House, uma empresa especiaizada em relógios e joias, anunciou que iria fazer o seu projeto mais ousado de sempre: um supercarro... com o nome de José Mourinho! Ele será construido pela Masonry Tunning, irá ter 750 cavalos, será essencialmente feito de fibra de carbono e terá ainda um relógio Richard Mille. Serão apenas produzidos onze unidades, os mesmos de uma equipa de futebol, com um reservado para... o "Special One".

"Isso é incrível! Ter o seu próprio carro, no sentido mais simples do termo, um carro feito para satisfazer seus desejos e necessidades. Eu sempre sonhei com um carro que unisse o melhor da Ferrari e do Aston Martin - um poderoso motor com perfeito conforto e classe. Isso é o que o Raff House supercar é esperado para ser", afirmou o treinador português na apresentação do projeto.

O preço? Cada exemplar vai custar muito provavelmente os dois milhões de euros.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Estar no topo é um esforço muito bem pago

Falar de dinheiro é uma chatice, especialmente quando este se torna escasso. Falar de salários numa altura em que muitos sonham com ele - por estarem desempregados - é quase um abuso. Mas quando se tratam de desportistas, o caso é mais interessante, especialmente para se poder comparar esta com aquela modalidade. Ver se, por exemplo, um basquetebolista da NBA ganha tão bem como, um Cristiano Ronaldo. E será que esses dois podem ser comparáveis com um piloto de Formula 1? 

Pois bem, a revista Forbes, que entende destas coisas, fez uma lista de desportistas bem pagos. E chegou a algumas conclusões interessantes. Primeiro: é nos Estados Unidos onde se paga muito bem, e segundo: não é a NBA ou o basebol que existem os atletas mais bem pagos. É no boxe, com valores que colocam qualquer um como... "pobres milionários". 

O mais bem pago nesta lista é o americano Floyd Merrywheather, cuja alcunha é... "Money", leva para casa a extraordinária quantia de 68 milhões de dólares por ano. Manny Pacquiao, outro lutador, vindo das Filipinas, é o segundo mais bem pago, com ganhos de 49,66 milhões de euros. O terceiro é um basquetebolista, que por estes dias deve estar nas nuvens: LeBron James, que com o título de campeão da NBA, com os Miami Heat, arranca rendimentos de 42,45 milhões de euros. E mesmo com uma temporada a meio por causa do "lockout"...

O primeiro futebolista na lista ainda está no "top ten" dos desportistas bem pagos. É português e chama-se Cristiano Ronaldo. O Real Madrid e os contratos publicitários subsequentes rendem-lhe por cada temporada cerca de 34 milhões de euros.

E o piloto de Formula 1 mais bem pago? É espanhol e chama-se Fernando Alonso. A Ferrari paga-lhe muito bem, com rendimentos anuais de 23,3 milhões de euros, não muito longe de Valentino Rossi e Michael Schumacher, que ganham cada um 22,43 milhões e estão no 20º lugar na lista dos desportistas mais bem pagos do mundo. Mas a matéria mostra algumas curiosidades, como o facto de um piloto da NASCAR, Dale Earnhardt Jr. (18,11 milhões), ganhar um pouco mais do que Lewis Hamilton (17,98 milhões).

Muito longe, mas ainda no "top cem" está Sebastien Löeb, o francês que vence todos os títulos desde 2004 no WRC, e é o mais bem pago piloto de ralis da atualidade, com dez milhões de euros por ano. Pode parecer uma brutalidade - em comparação, Mikko Hirvonen ganha três milhões - mas em relação às outras modalidades, poderá ser um ou dois meses de trabalho. Enfim, popularidades e gostos... 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Extra-Campeonato: uma tarde no estádio

Ao longo da minha carreira profissional, tive imensas oportunidades de ir ver jogos de futebol e fazer os respectivos relatos de jogo. Uns extremamente aborrecidos, outros a valerem a pena a compra do bilhete. Curiosamente, nunca fui a um jogo da seleção nacional como jornalista acreditado, mas sim como um mero espectador. Mas por exemplo, já assisti a uma Taça da Europa de atletismo como membro acreditado da imprensa, e é daquelas experiências que valem a pena ver.

Esta sábado tive a hipótese de ir ver a seleção nacional a jogar na minha cidade. Que eu saiba, ela já jogou por aqui umas sete vezes, das quais assisti pelo menos a quatro delas. A primeira em 2000, contra a Dinamarca, e depois a jogos com o Kuwait - que inaugurou o atual mastondonte e onde que se deu uma cabazada de 8-0 - e contra a Albania. Não vi o jogo com o Chile, a última vez em que eles jogaram por aqui e acabou num empate a um golo.

A escolha da hora do jogo - cinco da tarde de sábado - não foi inocente, por certo, mas tudo dependia do boletim meteorológico, claro. Estava um céu claro e uma temperatura agradável, logo, muitos acharam que valia a pena trocar a praia para um vislumbre do Cristiano Ronaldo a fazer as suas fintas e do qual arrasta três ou quatro adversários atrás. Mesmo sendo um jogo a feijões, a oportunidade era unica.

E foi isso que vi quando caminhava, a pé, para o estádio. As multidões de pessoas com cachecóis da seleção, uns trazidos de casa, outros comprados no momento, atraídos por pregões como "duas peças a cinco euros!" ditas por senhoras com experiência na área e que queriam ganhar a oportunidade de conseguir uns trocos nesta tarde, especialmente os comemorativos com um "Portugal-Macedónia", engraçados por sinal, e tentadoramente baratos. Não levei um comigo, porque não quis.

Passeando à volta do estádio, vi os magotes de gente que queria comprar bilhetes à última hora e vi um estranho grupo de espanhóis, a lanchar no passeio com garrafões de cinco litros. Provavelmente admiradores do Real Madrid e do Cristiano Ronaldo, Pepe e Fábio Coentrão, não? E vi também alguns dos habituais repórteres a fazerem o seu serviço, recolhendo os habituais "vox pops" para encher o chouriço dos diretos das quatro e meia, com os bordões já gastos do "vamos ganhar por 3-0, com golos do Ronaldo". Suspeitei na altura que 90 por cento dos que estão ali só conhecem a ele e pouco mais, mas depois, o tempo viria a provar que não. Mas isso conto mais adiante.

Passadas as burocracias, cheguei ao meu lugar no momento em que se cantavam os hinos e se faziam as devidas cerimónias. Verifiquei logo que estava com uma parede laranja na minha esquerda, impedindo-me de ver a grande área mais próxima. E azar dos azares, era ali que Portugal iria atacar na primeira parte. A minha sorte é que aqueles lugares estavam vazios e podia levantar o meu rabo dali, ver tudo sem ser incomodado.

O jogo começou morno, e a multidão só se animava com os incentivos do "speaker". Umas ondas foram feitas logo a meio da primeira parte, o que achei estranho, e as coisas no relvado mostravam um Portugal em ataque continuado, contra uns macedónios - treinados agora por uma lenda chamada John Toschack - a postar a sua defesa de autocarro, ou seja, dez jogadores atrás da bola. Os portugueses bem tentavam, mas nada.

A minha experiência - e o meu instinto - começaram ali a funcionar, pensando: 'se não marcam agora, não marcam na segunda parte, por causa das substituições'. Os "jogos a feijões" servem para isso mesmo: experimentar novas táticas, rodar jogadores menos usados, dando as suas primeiras - ou unicas - internacionalizações das suas carreiras. E claro, entreter os espectadores. Mas muitas vezes, para que um aconteça, prejudica-se a outra. E lembrei-me do jogo da Albânia, onde se marcou um golo - apenas um golo - e a multidão assobiou os jogadores. Por estas bandas, o lema não escrito é: menos de goleada é derrota.

Com o intervalo, fui passear pelas entranhas do estádio. Os preços são os típicos de um estádio - absolutamente chulistas. Quem paga 2,5 euros por um gelado, por exemplo? Mais valia aguentar a fome e a sede do que esvaziar a carteira? Os tempos estão difíceis, mesmo para quem tem dinheiro no bolso...

A segunda parte mostrou os meus piores receios. A intensidade do jogo abrandou, à medida que se faziam as substituições nos dois lados, e à volta dos 50 minutos, começo a ver um sujeito de óculos, uns bons dez metros de mim, a gritar: "põe o Nelson Oliveira!". Para quem não sabe, é um jovem de 21 anos que joga no Benfica e que há um ano foi vice-campeão do mundo de sub-20 e um dos melhores jogadores desse torneio, vencido pelo Brasil. O clube não o larga nem a peso de ouro, porque sabe que ele poderá ser a "next big thing" não só nos lados da Luz, como no mundo. E isso já o fez com que se estreasse na Seleção A há uns tempos, em março. Aliás, aqui iria ser a sua segunda internacionalização.

O rapazola lá gritava, a espaços, para que Paulo Bento satisfazese o seu desejo. Pensava que era algo isolado - um desejo benfiquista, talvez - mas quando o vi a aquecer, observei que não era algo isolado. Partes do estádio estavam a aplaudir a sua presença, e mais ainda quando entrou no campo, qual Messias salvador, porque nem Ronaldo conseguia furar a defesa macedónia. Para quem esperava goleada, o 0-0 era frustrante.

E nem Nelson Oliveira conseguiu furar a defesa. Aliás, as melhores oportunidades daquela segunda parte aconteceram precisamente por alturas do 90º minuto, quando já tinha instalado nas suas cabeças a necessidade de marcar um golo para satisfazer aquele público exigente. E eles já assobiavam... e assobiaram ainda mais, quando o árbitro deu o jogo por terminado. A multidão começou a sair do estádio, não muito zangada com o resultado. Digo isto porque se assobiaram a seleção, esqueceram disso logo depois. A passear pelo estádio, vindo pelo mesmo caminho, via pessoas agarradas às suas bandeiras e cachecóis, algumas delas a pararem para falar às TV's que faziam o seu trabalho, e no meio da confusão dei por mim ao lado de um rapazinho, nos seus anos adolescentes, com um corte de cabelo a imitar o Neymar. Será que tinha aterrado no lugar certo? Parecia que sim, dado que tinha uma bandeira portuguesa enrolada no seu corpo...

Daqui a duas semanas começa o Europeu, na Polónia e na Ucrânia. Os portugueses estão naquilo que toda a gente gosta de chamar de "grupo da morte": Alemanha, Dinamarca e Holanda. Curiosamente, todos eles jogaram nessa tarde e todos eles perderam, especialmente a Suiça, que lhes deu 5-3 em Basileia, sem os jogadores do Bayern de Munique a jogar de inicio. Bons ou maus augúrios? Francamente, o que conta é o momento. E os jogos a feijões são mais lembrados nas estatísticas do que nas mentes das pessoas... 

domingo, 20 de maio de 2012

Extra-Campeonato: a Taça da Académica

Quando era criança, a minha avó fartava-se de contar o dia em que foi ao Largo da Portagem, em Coimbra, para receber os jogadores que tinham ganho a primeira edição da Taça de Portugal, em junho de 1939. A minha avó tinha na altura 20 anos e já tinha conhecido a pessoa que viria a ser mais tarde o meu avô, um policia que fazia as suas rondas e certamente nessa tarde deveria estar de serviço para conter a multidão que tinha saído para receber os seus heróis.

A Académica é a segunda equipa que toda a gente gosta de torcer em Portugal, depois dos "três grandes". No meu caso em particular, tem mais razões para além da simpatia: o estádio ficava perto da casa dos meus avós, no Bairro Norton de Matos, o meu pai e os meus tios foram atletas da AAC, e claro, eu estudei em Coimbra, quer nos meus primeiros dois anos, quer muito mais tarde, quando frequentei a universidade. Conheci amigos parta a vida e escrevi muitas crónicas de jogo ao serviço do jornal universitário "A Cabra". A Mancha Negra, a claque da Académica, é das mais antigas do país - tem 27 anos - e até fui à inauguração do estádio de Taveiro, o Sergio Conceição, e a reinauguração do Calhabé, ou agora denominado "Estádio Cidade de Coimbra".

Vi o clube penar durante anos na II Divisão e a regressar à primeira, com os festejos de qualquer subida a se confundirem, muitas vezes, com a Queima das Fitas, e muitas vezes - uma vez em particular, em 2003 - a comemorar manutenções como se fosse a vitória na final da Liga dos Campeões. Não foram raras as vezes que cruzei, nos tempos de Universidade, quer com o Campos Coroa, quer com o seu sucessor, João Moreno. 

Confesso que pensava que isto não era possivel, mas aconteceu. Tenho pena de não estar lá e comemorar na Praça de República ou no Largo de Portagem, ou na Praça 8 de Maio, onde fica a Câmara Municipal e a Igreja de Santa Cruz. Gostaria que a minha avó estivesse viva para ver isto, pois tinha a certeza que teria adorado ver a Académica ganhar, mas morreu vai fazer dois anos no mês que vêm. Mas não estou triste, porque acho que onde quer que esteja - e todos os que já cá não estão, briosos jogadores e técnicos da Academica - hoje é um dia glorioso para Coimbra em geral, e para o Organismo Autónomo de Futebol em particular. BRIOSA!

quarta-feira, 14 de março de 2012

Extra-Campeonato: O alargamento da Liga

Por estes dias todos falam sobre isso: a assembleia geral da Liga de Futebol decidiu ontem que o campeonato de futebol seria alargado para 18, com a agravante de que nenhum clube desça de divisão e que os dois clubes primeiros classificados da II Liga subam de divisão no final da época. Para "melhorar" as coisas, também decidiram que essa mesma II Liga passasse a ter 22 equipas, colocando ali as equipas B de Sporting, Braga, Benfica, Porto, Maritimo e Vitória de Guimarães. As medidas acontecerão a partir da temporada de 2012-13.

Nestes últimos dois ou três dias, toda a gente urra de indignação, e expressões como "vergonha" estão a ser usadas a torto e a direito, afirmando que isso coloca o futebol português num bueiro digno de um campeonato qualquer no Corno de África ou das Ilhas Falkland. Pessoalmente, eu já esperava isto tudo. Esperava desde o momento em que elegeram o novo presidente da Liga Profissional de Futebol, Mário Figueiredo.  No inicio do ano, quando este presidente foi eleito, apoiado pelos clubes pequenos como Gil Vicente, Vitória de Setubal ou o Feirense - que foram os mais vocais nessa eleição - eu sabia que as consequências seriam estas. E essa gente tem a sua própria agenda, e um dos seus objetivos era um alargamento imediato, sem descidas, e não descansou ate conseguir.

O problema é que aquilo que eles queriam era subverter a maneira como este campeonato se iria decidir. Mudar as regras a meio do ano, fazendo com que este seja um campeonato onde ninguém desce, à boa maneira americana, e onde até o último classificado tinha garantido mais uma temporada na I Divisão, logo, recebendo "os três grandes", não se vê nas principais ligas europeias. E este alargamento contraria tudo o que se escreveu e se mostrou, em vários estudos feitos por instituições como a Delloitte: o alargamento é mais um prejuízo do que um lucro, e que idealmente, a I Liga portuguesa seria lucrativa se tivesse 12 equipas, no máximo, jogando a três voltas, como acontece na Escócia, por exemplo.

Contudo, esta decisão contraria a realidade portuguesa. Uma realidade onde, numa era de "vacas magras"  ouve-se cada vez mais que há salários em atraso nas equipas quer da primeira divisão, quer da segunda, onde se tenta contratar barato, principalmente no Brasil, preterindo o jogador português, que não tem outra opção senão emigrar para outros campeonatos, como o romeno e o cipriota. Há quem diga que por essas bandas hajam mais jogadores portugueses a jogar do que no próprio campeonato nacional. É a consequência de vivermos na União Europeia, é certo.

Mas o que esta decisão da Liga demonstra é que passou-se de uma hegemonia para outra: a hegemonia dos grandes para a dos pequenos. E se um já era mau, o segundo tende a ser pior. É que agora, eles querem negociar em bloco as transmissões televisivas, como se faz em vários sitios na Europa, como Inglaterra, França, Espanha ou Alemanha. Uma iniciativa louvável, é certo, mas quanto é que vão pedir à Olivedesportos ou a outra cadeia de TV que esteja interessada no negocio? 

Exemplos: o Benfica não quer ganhar menos de 40 milhões de euros por ano, e rechaçou recentemente uma proposta de 22,5 milhões, e era maior do que o que o Porto ganha (18 milhões), o que o Sporting ganha (13 milhões). Ocontrato acaba em 2013, creio eu, e Luis Filipe Vieira muito provavelmente vai esperar que o contrato chegue ao fim para negociar os seus termos e condições, provavelmente com um "plano B" na manga.

É certo que esse bloco não vai querer valores tão altos assim, mas vamos supor que dez clubes pequenos exigam 10 milhões de euros por ano à Olivedesportos. São cem milhões de euros que essa entidade iria pagar a cada temporada, e não estou a ver que eles tenham esse dinheiro, ainda mais quando os grandes querem ser principescamente pagos para se mostrarem na montra europeia. O Benfica só recebe oito milhões das receitas televisivas, a sorte é que tem imensas outras fontes de receita, como a publicidade e o "merchandising".

Em suma, tudo tem a ver com o dinheiro. E visibilidade. Estando na II Divisão não são nada, na I Divisão, recebem os "grandes", logo, os seus estádios enchem e recebem dinheiro da TV. Na II Divisão, os estádios estão vazios, não há receitas, logo, o dinheiro acaba antes do final do mês. Mas toda a gente sabe que o alargamento, ainda mais com a mudança das regras feita a meio do jogo, só faz mais mal do que bem.

P.S: No momento em que escrevo isto, a Federação Portuguesa de Futebol, na pele do seu presidente (e ex-presidente da Liga), Fernando Gomes, já afirmou que irá vetar esta decisão do alargamento, alegando que há um protocolo que foi assinado pelas anteriores direções da Federação e da Liga, válido até 2013. Um veto que os clubes grandes aprovam, mas que os mais pequenos já responderam, ameaçando parar o campeonato. De fato, esta história não acabará por aqui nos próximos dias, mas sinceramente, não acredito nas ameaças urradas, por exemplo, por um "analfabruto" como o António Fiúza, o presidente do Gil Vicente.    

sábado, 3 de março de 2012

Extra-Campeonato: Futebol e uma estupidez chamada clubite

Primeiro que tudo, uma declaração de interesses: sou benfiquista. Gosto do Benfica, mas gosto mais de futebol. Quero ver um jogo de futebol, quero ver as coisas muito para além da "clubite", e desde há muito tempo que me convenço que os verdadeiros apreciadores de futebol são uma minoria muito pequena. Os restantes noventa e muitos por cento só gostam de futebol porque é para ver o seu clube ganhar, que é para gozar na cara dos outros no dia seguinte, no trabalho ou na escola.

Porque digo isto? Um pouco de história: quando somos miúdos, até ainda antes de ir para a escola, somos forçados a "escolher" pela sociedade à nossa volta. Começa em casa, com os nossos pais, depois são as outras pessoas, o nosso grupo de amigos, que nos forçam a dizer: estás conosco ou estás contra nós? É complicado, e depois alinhamos. É assim com o futebol, ou na igreja, ou noutro lado qualquer, quer seja aqui, na Grã-Bretanha, no Brasil ou na Conchinchina. E como o futebol é o desporto de massas, é assim que o mantêm vivo. Depois podemos apanhar a coisa no momento em que está na mó de cima, em que é a equipa vencedora. Alinhamos porque é a equipa que vence, a vitória no domingo faz alimentar o nosso ego e no dia seguinte, no recreio da escolha, encontramos o menino ou a menina "do contra" e gozamos na cara. É assim, é instintivo.

E a coisa mantêm-se tão viva que os "apreciadores de futebol", essa enorme massa, não vêm os podres da competição, uma delas é o facto da International Board não mudar as regras em relação aos árbitros e da inclusão da tecnologia para os auxiliar em situações duvidosas, como foras de jogo milimétricos ou bolas que entram dentro da baliza por centímetros e vão para fora, mas que não contam porque o árbitro ou o fiscal de linha não viu. Nesse aspecto, é como o Vaticano: não vê que a tecnologia mudou, evoluiu e não deseja acompanhar os tempos, para não estragar a essência do "beautiful game". Gostam de polémica, porque assim, mantêm as rotativas a funcionar, e fazem com que as pessoas falem de futebol por dias a fio.  

O famoso lance de hoje à noite, do 3-2 a favor do Porto, de facto é marcado em fora de jogo, mas é daqueles milimétricos. Umas vezes marca-se, outras não. Os árbitros são humanos e erram. Andei a noite toda a ver no Facebook as asneiras que se leram por ali, e só confirma a cada dia que passa, a minha teoria de que mais de 90 por cento não sabem ver futebol. Não sabem. Não no sentido de ver o fora de jogo, que existe, mas no sentido de colocar as mãos à cabeça e pensar: "espera aí, se a TV vê e o fiscal de linha não, quem vou confiar? Na TV. E se a TV marca melhor os fora de jogo que o árbitro, então o que é que estão ali a fazer? Mais valia meter um sensor para acompanhar as jogadas de ataque e assinalar os fora de jogo, por muito milimétricos que sejam". 

Caso resolvido, certo? Errado. A FIFA sabe disso tudo, mas não quer, não lhes interessa. Os burros somos nós, que não nos revoltamos, não nos organizamos, não fazemos "lobby" para mudar as coisas por lá. Somos cegos nos nossos "clubites". Cegos nos benfiquistas que perdem, ao afirmar que a culpa é do árbitro ou do fiscal, quando esquecem que na realidade, se perdeu o jogo a partir do momento em que o Jorge Jesus tirou o Aimar no campo, o único pensador de jogo que o Benfica tem. A expulsão do Emerson e a recuperação do Porto são meras consequências.

Mas como digo, não querem ver isso. Perferem dizer que "a culpa é do fiscal de linha", o que me aborrece bastante e me faz dizer asneiras. O que eles quererão fazer com isto? Protestar na Liga de Futebol? E depois? Querem a repetição do jogo? Anular retroactivamente o golo? Repetir o jogo? Que querem? Cegos na sua clubite, não se consciencializam que só estão a fazer figura de parvos, que não interessa como, o resultado é este e não há volta a dar.  

Mas os portistas que não se riam muito porque também são cegos na sua clubite. Lembram-se todos os dias, é certo, que devem tudo o que são ao Pinto da Costa, mas a esmagadora maioria pensa que ganham os campeonatos e as taças por "intervenção divina do Papa". Tendem a esquecer que tem um grande departamento de futebol, construído durante ano a fio, que sabe ler as necessidades e neste mercado de Inverno, foram às comparas. Trouxeram o Lucho Gonzalez e arranjaram o Janko, "o pinheiro" que o Paulo Sérgio implorava no inicio da época passada no Sporting. Sabem ler o mercado, e vai ser assim, enquanto não chegar o dia em que o Roman Abramovich não aparecer no Estádio das Antas com um camião cheio de dinheiro para os comprar. Até lá, sou o primeiro a reconhecer que os campeonatos e as taças já tem um destino traçado, pelo menos em oito das dez vezes. Para esta geração, o F.C. Porto é o maior, e daqui a  menos de dez anos passará o Benfica em numero de campeonatos e taças. 

Adeptos? Talvez daqui a duas gerações. Mas só se mantiverem a pedalada, o que realisticamente não acredito. O Pinto da Costa não bebeu a poção da imortalidade, o Antero Henrique não bebeu a poção da imortalidade, tal como o José Maria Pedroto não bebeu, e como todos os outros clubes, corre sempre o risco de "guerra civil", quando desaparecer a "cola" que os mantêm unidos. E sem colas, ou parafusos, não há estrutura que aguente. 

E a mesma coisa acontece no Benfica: o Luis Filipe Vieira é um génio de finanças e "marketing". Mas tem um obstáculo formidável pela frente, e já viu que será muito dificil derrubá-lo. E vai rezar para que o Pinto da Costa vá primeiro do que ele. Sim, estou há muito tempo convencido disso: ambos os presidentes ficarão nos seus lugares de modo perpétuo. Sairão dos seus cadeirões no dia em que morrerem, quais Kim-il Sungs de trazer por casa. Os dois principais clubes de Portugal mais se assemelham, por estes dias, a um Vaticano ou se perferiem, Pyongyang.

No final, digo isto: se acabarem no primeiro lugar, para mim, deveriam dar a taça não ao Vitor Pereira, mas sim ao Antero Henrique, o chefe do departamento de futebol do Porto. Este treinador é um "idiota útil", porque na realidade, só prova que é a máquina do Porto que ganha. Podem meter quem quiser, até o macaco Adriano, que já sabemos quem no final do ano irá levar as faixas. Embora diga esta noite que ele hoje arriscou... e ganhou. A próxima vez que Vitor Pereira viverá uma coisa destas vai ser quando treinar um Recreativo do Libolo ou a Liga Muçulmana, porque não é um treinador excepcional. Nem é um treinador por ali além. Aliás, é o ex-adjunto do André Villas-Boas, outro exemplo acabado da velha frase do Mário Wilson, mas aplicado ao FCP: "Qualquer um que treine o Porto, arrisca-se a ser campeão". Oito em cada dez vezes, isso é real. 

Quanto ao outro lado... não quero dizer nada, por enquanto. Só digo isto: terça-feira há o jogo com o Zenit. Veremos como o Benfica reagirá a mais este desaire. Espero que o Jorge Jesus consiga refletir sobre este tempo que vive e como sacudir esta crise. Porque caso contrário, será o Nigel Mansell dos treinadores do Benfica: podia ganhar todos os campeonatos, mas vai perder mais do que ganhou. 

Espero estar enganado. 

No final, parabéns ao Porto, porque os vencedores são o que são porque lutaram para conseguir. E tiveram sorte no final. Fico triste pelo Benfica, porque não merecia perder. E sempre que isto acaba assim, lembro-me daquela velha frase que o Gary Lineker disse, num calorento dia de junho de 1990: "o futebol são onze contra onze e no final ganha a Alemanha".

domingo, 4 de dezembro de 2011

The End: Socrates (1954-2011)

Neste meu pais à beira-mar plantado, temos um pésimo hábito de tratar com deferência qualquer pessoa que tenha um grau académico, seja ele doutor, engenheiro, arquitecto... confesso o meu incómodo quando me chamam de "jornalista". Simplesmente não gosto e não gosto também da deferência que se trata qualquer pessoa com grau académico. Pior, passo-me quando vejo, nas universidades, os professores a fazerem alarido quando outras pessoas não os tratam por "professor doutor", querendo mostrar que tem um grau superior a tudo. Só se for na naftalina...

Para mim, doutor é um licenciado em medicina e ponto final.

Em junho de 1982, ainda vivia no Brasil, mas não por muito mais tempo. Em Espanha começava o Mundial, ou a Copa do Mundo, como se chama por aí. Observava, entre o curioso e o espantado, o Carnaval que havia nas ruas, enfeitadas com tantas bandeirinhas do Brasil. Até no jardim de infância onde andava, em frente à casa onde vivia, em Vila Velha, a professora nos encarregou de dar bandeirinhas do Brasil para levar para casa. Nos dias a seguir, descubro a razão de toda uma agitação: era a seleção nacional que jogava. Nesses dias de junho, descobri porque é que as pessoas se juntavam á volta da televisão, a razão porque os desenhos animados não passavam ás horas do costume, porque é que de repente, muita gente - até bebés - andavam com uma estranha camisola amarela e porque é que, quando alguém que vestia essa camisola amarela chutava para uma rede, pulavam todos de alegria. E quando era o contrário, ora ficavam silenciosos, ora insultavam as mães dos jogadores que tinham marcado os golos.

E passados os dias aprendi certos nomes: Toninho Cerezo, Falcão, Batista, Luisinho (porque é esse o nome do meu irmão) e principalmente um Zico, que marcava golos, muitas das vezes a passe de um Socrates. Foi graças a ele que entendi o que era o futebol, e para quê é que servia jogadores como ele. Servia para entregar a bola a alguém que se encarregava de chutar para dentro de uma rede, a tal rede que aos poucos descobria para quê é que servia.

De repente, um dia, deixei de ouvir a alegria e deixei de ver as pessoas à frente da TV. Depois o meu avô explicou que tinha sido porque uns senhores de azul tinham estragado a festa dos meninos que jogavam de amarelo. E depois o meu pai, que trabalhava na Companhia do Vale do Rio Doce, me tinha falado que uns engraçadinhos tinham colocado uma bandeira diferente, em jeito de provocação. Anos depois, vim a saber da história toda.

Quatro anos depois, tinha atravessado o Atlântico para viver uma nova fase da minha vida, e novo Mundial tinha aparecido. Mas apesar de todas essas mudanças, lá estava ele, mais velho e mais experiente, no México. Nem todos tinham voltado, mas torcia abertamente por eles, num mundial onde queriam voltar a deslumbrar. Depois, num sábado, chegou os quartos de final contra a França. Uma França que, mal sabia eu do alto dos meus quase dez anos, iria ser o carrasco da equipa do pais onde tinha emigrado. Tinha Platini, Giresse, Tigana e um rapaz chamado Jean-Pierre Papin, outro terror das balizas.

Socrates deve ter sido provavelmente o primeiro jogador do qual aprendi o que era o futebol, como se jogava futebol e para quê é que servia o futebol. É ludopédio, é verdade. É muito mais do que uma questão de vida ou de morte, como disse outra lenda do futebol, de seu nome Bill Shankly, treinador de outra equipa que aprendi a admirar, o Liverpool. Este Sócrates - não o outro - mostrou-me pela primeira vez na vida a razão pelo qual nós, simples mortais, devemos gostar de ver futebol. Muito antes dos Maradonas, Zicos, Eusébios, Platinis, e agora, Cristianos Ronaldos e Messis.

Mostrou-me que o futebol é muito mais do que talento nas pernas como sustento para matar a fome e mudar a vida de familias inteiras, como acontece no Brasil e no resto do mundo. Mostrou-me que podemos gostar do jogo e podemos ir muito para além do jogo, mesmo que depois tenhamos de escolher uma equipa e vivamos as amarguras das derrotas e as alegrias das vitórias. Só voltei a sentir algo parecido anos depois, com um senhor chamado Rui Costa, em termos futebolisticos, porque em termos de cidadania, não me recordo de nada parecido com o que Sócrates fez até aos dias de hoje. Nem mesmo em termos de grau académico.

E mostrou também, com o seu exemplo de vida - apesar de nem sempre concordar com as suas opções politicas - que se pode abater um pouco, todos os dias, as desigualdades que ainda grassam nesse enorme país, do tamanho de um continente. Ainda falta muito caminho, mas muito se desbravou e deu o seu contributo para acabar um dos maiores engulhos que o país viveu, a Ditadura Militar que surgiu do golpe de 31 de março de 1964, com a história da Democracia Corinthiana, onde a frase chave é "Ser campeão é um detalhe". Já agora, isso deu origem num documentário, que se estreará no próximo dia 9.

Irónicamente, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira desaparece da nossa existência terrena para entrar nos arquivos da História no mesmo dia em que se decidiu o Brasileirão. Sócrates jogou anos a fio no Corinthians, o favorito para o título nacional, que precisava de um ponto para ganhar o campeonato contra o segundo classificado, Vasco da Gama. No final do dia, a equipa de São Paulo conseguiu o seu título, o quinto da carreira, e certamente, onde quer que esteja, deve também estar a celebrar esse título. Mas também, creio que já sabia de tudo isso: do título, daquilo que fez e do seu lugar na história. Ars lunga, vita brevis, Doutor Socrates.