quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A homenagem da Formula 1 a Rubens Barrichello

E antes da corrida propriamente dita, em Spa-Francochamps, os seus colegas não o esqueceram: Rubens Barrichello comemora a sua 300ª participação em Grandes Prémios. Se são 296 ou 297 corridas, não interessa muito... o que interessa é saber que o mundo da Formula 1 comemorou tal marca, pois pela primeira vez nos seus sessenta anos de existência, um piloto alcança tal marca. E foi assim que Bernie Ecclestone lhe deu uma medalha comemorativa, que boa parte dos pilotos do pelotão esteve presente na boxe da Williams para lhe darem os parabéns, desde Lewis Hamilton e Fernando Alonso, passando por Felipe Massa, Bruno Senna, Pedro de la Rosa, Jenson Button, Nico Rosberg e Sebastien Vettel, para além do seu companheiro Nico Hulkenberg.

A Cosworth deu-lhe uma bicicleta de corrida só para ele, enquanto que o lendário Jim Bamber fez uma caricatura comemorativa dos seus 300 Grandes Prémios (nunca vi o Eddie Jordan tão amarelo...) e claro, ele revelou o capacete que irá usar neste fim de semana especial. Emocionado, agradeceu a homenagem: "Quando comecei na Formula 1, eu nunca sonhei em ainda estar aqui depois de 300 corridas. Eu estou muito orgulhoso do que alcancei, e tem sido uma jornada maravilhosa. Estou aproveitando o meu trabalho mais do que nunca aqui na Williams", comentou.

Antes disso, em entrevista ao sitio brasileiro Tazio, Barrichello revelou estar agradecido por andar aqui ao fim destes anos: "Considero este momento especial. Sinto isso correndo a pé na rua, de Formula 1. Tenho a chance de chegar, na hora do grid, olhar para as luzes de largada e agradecer. Sinto o sorriso vindo no rosto, no momento de tensão, e agradeço".

Quanto ao carinho que os seus companheiros demonstraram, Rubens afirmou: "Isso aqui mostra o meu carinho pela Formaula 1, o que ela sente por mim. Já vi muitos pilotos falando: 'Existem tantos jovens aí, o que ele quer?' Comigo é diferente."

E quanto à reforma... "Tenho a impressão de que a Silvana [mulher de Rubens] olha pra mim e pensa: 'Ele vai correr muitos anos'. É uma coisa boa. tenho muito gás, ainda. É um limite que não gostaria de pensar, como não pensei no 257°, no 18°. Sou muito honesto comigo mesmo, quando errei e quis melhorar. Tenho certeza de que no dia em que entrar na curva sem velocidade, será muito fácil de reconhecer o fim."

Em relação ao fim de semana belga, que se prevê muito chuvosa, Barrichello olha serenamente para esse cenário: "Vocês sabem que sou um apreciador da chuva. Ela pode ser muito dura, pois Spa, nesses casos, é parecida com Interlagos, e isso pode se tornar um problema, pois temos árvores e o spray não é legal. Mas estou aberto para o fim de semana", completou.

Noticias: Villadelprat acredita ser o escolhido

A poucos dias de se saber quem vai ficar com a 13ª vaga da Formula 1 para 2011, Joan Villadelprat, o presidente da Epsilon Euskadi, uma das três grandes candidaturas, a par da Villeneuve-Durango e da Stefan GP, afirmou estar confiante para conseguir o lugar, mas que compreenderia a decisão da FIA caso fosse preterido.

Numa entrevista ao jornal espanhol AS, e publicada hoje, Villadelprat explicou que já apresentou o seu projeto à FIA "e agora deverão ser eles a decidir entre as três candidaturas. Explicámos a nossa situação, incluindo a financeira, deixando bem claro que neste momento contamos com um compromisso para dispor do dinheiro necessário, ainda o acordo não esteja encerrado", afirmou o espanhol.

A grande duvida é esse: a parte financeira. Villadelprat afirma que aguarda pela luz verde de um grupo de investidores estrangeiros para poder avançar no projecto, caso seja aceite. Afirma que existe acordos verbais, mas que só se a 13ª vaga for dele, é que os pode assinar. "[O dinheiro] Vem de um grupo de investidores estrangeiros, não posso dar mais informações. Asseguraram-nos que estão interessados em nós, até para além da Formula 1, como empresa de tecnologia de vanguarda. Mas as negociações atrasaram-se e, neste momento, o acordo não está assinado. E eu, enquanto não seja assim, não direi que tenho o dinheiro", asseverou.

"Compreenderia se [este ano] a FIA não contasse connosco porque não cumprimos com todas as condições. O ano passado, quando apresentámos a primeira candidatura, sim, tínhamos tudo", concluiu.

Quanto à hipótese de uma fusão com a Hispania Racing Team, Villadelprat fala que tal coisa não foi discutida entre ele e José Ramon Carabante, mas que não fecha a porta a tal discussão: "Não sei de onde partiu essa informação. Falei com o José Ramón Carabante acerca de uma possível colaboração da Épsilon com a sua equipa como fornecedora de tecnologia. Somos uma empresa e procuramos clientes e claro que a Hispania é um potencial cliente pelo tipo de trabalho que fazemos, sempre que não existam conflitos de interesses. Mas é só isso, nunca se falou de uma fusão".

Logo a seguir, acrescentou: "Não fecho portas. Nunca falámos disso, mas se existisse a opção, não a deveria descartar à partida", declarou.

Grand Prix (numero 61, catharsis)

Para Alexandre, aquele foi um dia de aniversário triste. Debaixo do calor andaluz, ele foi uma das dezenas de pessoas ligadas ao automobilismo que foi assistir ao funeral do seu amigo Alvaro Ortega Velez, que ocorreu no cemitério de Almeria, a sua cidade natal. Ver a sua vida encurtada aos 25 anos, horrivelmente queimado, era de facto um final que não se desejava a ninguém, incluindo ao seu pior inimigo. Dois dias depois, estava de volta a Monforte para descansar em sua casa. Um dia, uma quinta-feira, foi passear pelo centro. Se as coisas tivessem corrido normalmente, ele estaria em Charade para correr o GP de França, mas ainda não tinha carro e a Apollo decidira não ir a Charade em sinal de luto pela morte de John. Por esta altura, ele não sabia quem o iria substituir, e se essa pessoa que eventualmente correria no seu lugar faria a estreia em Brands Hatch.

Aquilo que sabia neste momento é que voltaria à Formula 1 em solo britânico.
Antes de ir espairecer numa esplanada no centro da cidade, foi a uma banca de jornais no sentido de comprar publicações para ler. O jornal do dia e umas revistas. A banca pertencia a uma senhora já idosa e da sua filha, que mantinham o negócio há anos, Conhecia-as há muito tempo, pois era nessa banca que o seu avô comprava os jornais, especialmente os vindos de Coburgo. Nessa quinta-feira, Alexandre demorou um pouco mais a ver o que estava pendurado na banca, quando a filha lhe disse:

- Alexandre? A minha mãe quer vê-lo.

Ele ficou espantado. Conhecia as duas, mas em relação à mãe, não trocaram muito mais do que meros cumprimentos, algo que no caso da filha, que tinha a mesma idade dele, chegando até a cruzarem-se na escola primária, a coisa era um pouco mais intima. Mas não muito.

- Estranho, porquê?
- Diz que gostaria de te ver.
- Quando?
- Quando puderes, de perferência hoje.

Se já estava intrigado pela conversa, mais intrigado ficou. Toda a gente ia a aquele quiosque na praça central da cidade, que tinha a sede da Alcadaria Municipal, e não muito longe do antigo palácio dos Monfortes, agora convertida na sede do Automóvel Clube local, e onde passa a avenida principal, antiga meta do circuito de Monforte, que naquele ano, na última semana de Setembro, iria acolher a Formula 2. Aquilo que ele esperava que fosse uma tarde descansada, já não seria mais, pois era pessoa muito educada e solicita, sempre que fosse possivel.

- Está bem. Ela está em casa?
- Está sim.
- Então vou visitá-la, afirmou.

Saiu dali, rumo a casa dela, depois das indicações dadas. Sem adquirir os jornais e as revistas que queria, pegou no Boca de Sapo da sua mãe e rumou até lá. Quando chegou, estacionou o carro a uma distância confortável, para fazer o resto do percurso a pé, pois aquela zona era estreita para um carro daqueles. Andou até à porta, e quando chegou, hesitou um pouco. Olhou para a casa, como que a ver onde estava, e de repente abriu-se a porta de madeira, com uma senhora de negro a dizer:

- Venha, estava à sua espera.

Intrigado, Alexandre hesitou um pouco. Vinha ali à aventura, movido pela sua curiosidade intrinseca, mas desconhecendo-se no que se iria meter ou qual seria o resultado daquela tarde. Mal entrou, olhou para a senhora e a sua mente trabalhava fervorosamente, pois tinha ideia de que já tinha visto a cara de algum lado, sem ser no quiosque. Quando ela abriu a boca, lembrou-se:

- Caro Alexandre, esperei toda a minha vida por este encontro. Você é o terceiro membro da familia que acolho nesta humilde casa.
- Então é você a tal... mas porquê eu?
- Porque agora, és um ilustre filho da terra.

Alexandre sorriu com essa expressão. Incomodava-lhe a coisa, pois ainda não tinha realizado nada de relevante. O relevante, para ele, tinha sido o seu avô. E ele descobriu também que os rumores eram verdadeiros: a senhora do quiosque sabia ver o futuro.

- Vai ser bom ou mau?
- Vai depender de como reagirás ao que tenho a dizer.
- Então sabe que é uma profissão de risco.
- Sei, sim senhora. Mas vai deixá-lo de ser um dia.
- É bom saber disso, mas até lá...
- ...até lá, serão precisos mais alguns sacrificios. Mas vamo-nos sentar. Tem alguma foto sua?

Alexandre e a senhora moveram-se para a sala ao lado, onde numa mesa de madeira, sentaram-se em lados opostos. Entretanto, uma porta abre-se e era a filha a chegar, para ver como é que as coisas se passavam. Ele tirou da carteira uma foto sua com Teresa, tirada há coisa de três semanas e a foi buscar naquele dia ao estudio de fotografia, onde fora revelado. Entregou-a e disse:

- E agora?
- Agora pode sair da sala. Daqui a bocado vou ter consigo.

Os dois sairam de casa e foram apanhar o ar fresco daquele dia de Julho. Ele foi para um muro proximo dali e sentou-se, enquanto que a rapariga está a seu lado. Sem muito com que fazer, mostrou-lhe as fotos do seu convivio com Teresa, algumas semanas antes.

- Há quanto tempo é que namoram?
- Desde há um mês. Ainda estamos a habituar-nos.
- E ela é de?
- Coburgo. Trabalha num jornal, cruzei com ela em Espanha, porque a mandaram para fazer a cobertura do GP de Espanha, em Abril.
- Foi rápido.
- Pois foi. Não sei, engracei com ela no primeiro momento. No que vai dar? Não sei e perfiro não saber, confesso.

Passado um instante, voltou à conversa:

- Quem é que já veio aqui?
- Não posso revelar.
- Porquê?
- É assim mesmo. A minha mãe perfere que se saiba por si mesmo.
- Mas isso não será tarde?
- Veremos...
- E não conta nada do que se passa aqui?
- Nem sempre. Umas vezes sim, outras não...
- E já agora, não é daquelas que sabe os numeros da Lotaria da semana seguinte, pois não?

Ela riu-se.

- Não. Isso ela não sabe.
- Mas perguntam?
- Ela não funciona assim. Não é do género "amanhã vai haver uma tempestade". Ela precisa de sentir as coisas para depois dizer.
- É assusador, não é?
- Nâo sei, já deve estar habituada...
- Eu se tivesse um dom desses, ficaria assustadíssimo. O que é que acontecem às pessoas a quem lhes conta o futuro? Aceitam bem?
- Quando lhes contam tudo, não aceitam muito bem. Mas isso é raro. Ela não conta o fim, ou se conta, e generalizado. Nâo te preocupes, decerto vai te dizer que chegas a velho.
- No desporto que escolhi, é como jogar à roleta russa... em cada corrida que ando, parto sempre com cinquenta por cento de chances de morrer. Este mê vi morrer quatro colegas meus, e a dois deles, devo ter sido dos últimos a conversar antes das suas mortes horriveis. Vi-os a agonizar, terrivelmente queimados, com os outros a rezarem por um milagre que nunca aconteceu, nem acontecerá. É triste, sabes...
- Um dia isso passa.
- Ahh... acredito, mas a que preço?

De repente, a porta abre-se, e ela diz:

- Podem vir.
Alexandre começou a caminhar devagar. Sabia agora quem era, e dentro de si, temia o que ela tinha por dizer. A fotografia que tinha dado era qualquer uma daquele álbum que tinha ido buscar naquela manhã no estudio de fotografia. Entrou de forma hesitante, sentou-se na salinha e ouviu o que tinha a dizer.

- É uma bela moça, a sua. Como se chama?
- Teresa.
- Vejo que já encontrou a sua mulher.
- Quero acreditar que sim.
- Eu não acredito, eu sei. Vocês acabarão por se casar e serão muito felizes.
- É bom saber que acabarei por casar.
- E terão filhos. Dois, pelo menos.
- É bom, é bom... ver que isto terá final feliz.
- Vi que se conheceram numa grande cidade... mas não é Coburgo.
- Deve ser Madrid, conhecemo-nos lá. Ela é jornalista no Liberal.
- É uma bela moça. Vai durar, e terão muito amor para dar, acredite.
- Tenho de acreditar, não é?
Ambos calaram-se. O ar grave da senhora manteve-se durante todo o tempo, e ele perguntou:

- Há mais alguma coisa?
- Você conduz carros estranhos, caro Alexandre.
- Sou piloto de automóveis. Pensava que já soubesse disso.
- Saber, sei. Mas vê-los... ainda não me habituei a isso.
- Acredito. Nem toda a gente se habituou, a minha mãe é uma delas...

Ela olhou uma ultima vez para o seu retrato, e disse:

- Não tenho boas noticias.
- Já desconfiava...
- Há um preço a pagar por tudo isto, sabe? Aliás, temos todos por pagar o preço por andarmos neste mundo.
- Acredito que sim.
- E uns pagam um preço maior do que os outros. E para seres totalmente feliz, tiveste de ceder algo. Estas contas foram saldadas antes de tu nasceres, antes de todos nós termos nascido. Foi isso que os teus amigos pagaram, infelizmente.
- Vou acabar como eles?
Não houve resposta.

- Considero esse silêncio como um sim, não é?

Alexandre calou-se. Deitou um largo suspiro e segurou as lágrimas por um momento, para perguntar.

- E esse fim acontecerá quando?
- Quando conseguires tudo que alcançares. Tudo. É esse o preço pela felicidade em vida, Alexandre. Tens dez anos para consegui-lo, e vais consegui-lo. Está traçado nas estrelas. Espero que saibas usar sabiamente esse dom. Iremos falar de quando em quando durante esta década.
- Mas não me dá um dia e uma hora?
- A idade de Cristo.
- Hã?
- É a unica coisa que poderei dizer-lhe. Agora, cabe a si. E por mim, vou descansar, pois hoje está uma tarde de calor. Gostei de ver, Alexandre, espero que não fique zangada comigo.

Alexandre ficou quedo e mudo. Perguntou:

- Como é que sei que está errada? Como é que sei que pode ter sido enganada?
- É o que todos me perguntam, Alexandre. Todos. Apenas lhe digo que o tempo é a melhor resposta, e infelizmente - ou felizmente - acertei sempre. Não falhei uma. Até sei qual vai ser o meu fim. Daqui a muitos anos, acabarei a minha passagem por esta terra, depois de ver o meu neto crescer, respondeu, exibindo o primeiro sorriso da tarde.

Alexandre e a filha da senhora sairam da casa e deslocaram-se para o carro dele. Perguntou se queria uma boleia para o centro, mas ela disse que hoje ficava por ali. Questionou:

- Um fim breve... não queria isso. O que vou ganhar com tal coisa?
- Mais do que julgas, acredita. Teremos o resto das nossas vidas para conversar. Afinal, vais sempre ao nosso quiosque.
- Lá é verdade... lá e verdade. Agora que te disseram como vai ser o teu resto da vida, é melhor gozá-la, não é?
- É esse o espírito.

Alexandre olhou para o céu limpo, sem nuvens. Estavam numa zona de sombra, e contemplando a paisagem em volta, afirmou:

- Tem dias que odeio a minha vida. Mas se for assim, aceito-a.

(continua)

5ª Coluna: Trezentos não é para qualquer um!

Confesso que queria voltar à activa somente após o GP da Belgica, mas achei antecipar este regresso por um bom motivo em especial: falar sobre a inédita efeméride dos trezentos Grandes Prémios de Rubens Barrichello. É certo que poderá ter corrido em 296 ou 297, mas para sermos rigorosos, esteve presente em trezentos fins de semana na categoria máxima do automobilismo, desde 1993, sem paragens.

Aos 38 anos, Rubinho continua a correr. Não deve ser pelo dinheiro, porque já deve ter ganho o suficiente para três vidas, mas tem de ser pelo gosto em correr. Pode-se interpretar tal coisa como teimosia ou a busca de algo que não irá alcançar, que é o título mundial, mas o facto de persistir num meio tão elitista, onde ficar cinco épocas e não sendo um piloto de primeira linha, é um feito inacreditável, quer queiramos, quer não. E de certeza que deve ter qualidades ao qual as equipas ainda precisem dos seus serviços.

Estando de onde estou, consigo ter uma visão previlegiada sobre dois tipos de mundo: aqueles dos especialistas no jornalismo motorizado e dos engenheiros, e aquele do fã puro e duro. O brasileiro e o internacional. E são visões completamente antagónicas. No Brasil é muitas vezes visto como um perdedor nato, um "1B", um piloto que sempre se vergou ao alemão, motivo para piadas e gozações, com nomes que vão desde "Tartaruga" até "Rubinho Pé-de-Chinelo". Mas no núcleo mais duro da Formula 1, louvam a sua pericia técnica, a sua capacidade de decifrar os problemas do carro e da sua capacidade em resolvê-los, algo que por vezes os computadores mais precisos deixam passar. Deve ser por isso que Rubens mantêm-se na activa, depois de dezoito temporadas: ainda é uma mais valia.

Não é, não foi e nunca será, uma figura consensual. Foi fortemente cobrado pelos fãs, que o queriam logo depois de 1994 que fosse como Ayrton Senna. Sendo muito jovem na altura, resistiu mal essa pressão, primeiro na Jordan e depois na Stewart. Somente em 2000, já na Ferrari, é que venceu o seu primeiro Grande Prémio, numa das melhores jogadas de sempre da história do automobilismo, ao jogar com a pista relativamente molhada, com pneus secos, o suficiente para chegar ao final no lugar mais alto do pódio, batendo os McLaren e terminando um jejum de sete anos.

Acredito que sem as circunstâncias que rodearam a morte de Senna, Barrichello teria tido um crescimento mais condizente da sua carreira, e revelado com maior tranquilidade aquilo que é agora: um piloto do meio do pelotão, com capacidade de vencer quando a oportunidade aparece, mas nunca com a "estrelinha de campeão". Foi assim em 2009, com a Brawn GP, mas ele iluidiu-se com aquilo do qual não é capaz: ganhar campeonatos.

Mas muitos, especialmente no Brasil, acreditaram nisso no inicio da década passada, quando estava na Ferrari. Acreditavam que bater o alemão seria o suficiente para ser campeão do mundo e voltar a colocar o Brasil no mapa dos vencedores. Barrichello acreditou nisso, mesmo sabendo que estava na "coutada do alemão" e que não seria mais do que o seu escudeiro. Passou a ideia a aqueles que acreditaram nessa ilusão, e quando o viram ceder a vitória para Michael Schumacher, no infame GP da Austria de 2002, muitos o odiaram por essa manobra.

E claro, ele sofreu muito, particularmente no Brasil. Demorou muito tempo para apagar essa imagem, e ainda assim muitos não o deixam esquecer esse momento. E com o caso da Alemanha, foi como se o pesadelo voltasse à tona, embora não estivesse envolvido.

Barrichello, estamos certos, está na sua curva descendente de uma longa carreira. Teve a sorte de viver numa altura mitica da Formula 1. Correu com Ayrton Senna, Alain Prost, Nigel Mansell e Gerhard Berger a seu lado, viu entrar e sair dezenas de pilotos, viu na grelha equipas que não existem mais como Larrousse ou Arrows, correu contra carros como Tyrrell, Benetton ou Minardi, que agora tem outras cores, correu na Jordan e na Stewart, que hoje, após várias encarnações, são respectivamente Force India e Red Bull. E agora vive uma segunda juventude, uma época otima para os pilotos da sua geração. Sem testes, ou com testes nitidamente reduzidos, a experiência conta imenso, logo, os veteranos são chamados à acção. É por isso que vimos os regressos de Pedro de la Rosa e Michael Schumacher, e a permanência de outro veterano como Jarno Trulli, por exemplo. Nas equipas novas, como a Lotus, a experiência conta... e muito. Nesta segunda juventude, vai aproveitá-la até onde puder.

Estou convencido que o irei a ver correr em 2012, quando fizer quarenta anos. E em 2013, quando comemorar o seu 20º aniversário da sua carreira. Ainda tem prazer em ir para a fábrica todos os dias, de passear no "paddock" em todos os fins de semana de Formula 1, os seus serviços continuam a ser necessários e ainda tem na cabeça aquela "utopia" de que vai ser campeão do mundo. É certo que por essa altura continuarão a chamá-lo de "1B" e "Rubinho Pé-de-Chinelo", e ele pode arriscar a arrastar-se nas pistas, mas se nesta altura do campeonato, até Michael Schumacher está a jogar fora todo o seu prestígio, porque não o Rubens ficar por mais um tempo.

Quer queiramos, quer não, Rubens Gonçalves Barrichello garantiu o seu lugar na história, e o tempo, esse senhor muito sábio, vai demonstrar que foi muito mais do que uma mera "figura de corpo presente". Parabéns!

GP Memória - Belgica 1990

Depois de duas semanas de ausência, a Formula 1 regressava a acção no circuito belga de Spa-Francochamps. E a grande novidade era que a Onyx abandonara a competição depois das várias dificuldades que tinha passado ao longo da temporada, primeiro com a entrada da suiça Monteverdi, e depois com a sua saída, após o GP da Hungria. Sem a Onyx, isso significava que a Ligier já não tinha de passar pelo inferno das pré-qualificações, e dava mais chances às equipas que estavam no final do pelotão, como a AGS, Coloni, Eurobrun e Osella, já que a Life, mesmo a correr, tinha cara de desespero.

Assim sendo, ao carro de Bruno Giacomelli, acompanharam-no na pré-qualificação os Eurobrun de Roberto Moreno e Claudio Langes. Na qualificação propriamente dita, Ayrton Senna conseguiu puxar pelo seu motor Honda nas longas retas belgas para alcançar a "pole-position", tendo a seu lado o seu companheiro Gerhard Berger. Alain Prost era o terceiro, seguido pelo herói local, Thierry Boutsen. Na terceira fila estava o segundo Ferrari de Nigel Mansell e o Benetton de Alessandro Nannini. Riccardo Patrese, no segundo Williams, era o sétimo a partir, à frente do brasileiro Nelson Piquet. A fechar o "top ten" estavam os Tyrrell de Jean Alesi e de Satoru Nakajima.

Como seriam de esperar, os AGS de Yannick Dalmas e Gabriele Tarquini, o Coloni de Bertrand Gachot e o Ligier de Philippe Alliot não conseguiram a qualificação.

Entretanto, durante o fim de semana da corrida, Nigel Mansell tinha dado sinais à imprensa inglesa de que poderia voltar atrás na decisão de abandonar a competição, anunciada mês e meio antes, em Silverstone. Logo, os rumores voaram sobre a equipa onde poderia correr na temporada de 1991, e o regresso à Williams era uma das mais fortes.

Na partida, Senna aguenta a carga de Berger e mantêm a liderança, mas mais atrás havia confusão: o Larrousse de Aguri Suzuki bate no Benetton de Piquet, que por sua vez bate no Ferrari de Mansell, que fica parado e bloqueia a pista. Mais atrás, os dois Lotus, o de Mark Donnelly e de Derek Warwick, colidem, bloqueando a pista e obrigando os comissários a mostrarem a bandeira vermelha, interrompendo a corrida. Mas não sem antes, o Tyrrell de Nakajima bater no Brabham de Stefano Modena e o japonês acabar na berma.

No recomeço, havia menos dois carros na grelha: o Lotus de Donnelly e o Larrousse de Suzuki. Senna larga de novo bem, enquanto que Boutsen tem um excelente arranque e fica em segundo lugar, mas isso é tudo inutil, pois na Eau Rouge, o Minardi de Paolo Barilla despista-se e desintegra o seu carro, com ele a sair ileso do acidente. Mas os bocados estão espalhados na pista, o que obriga a novas bandeiras vermelhas.

Agora sem Barilla, mas com Donnelly a alinhar, uma terceira largada acontece com Senna mais uma vez a ficar com o comando, seguido de Berger, Prost, Boutsen, Patrese e Nannini. Mansell era oitavo, mas cedo ficou com problemas de direcção, que o fizeram cair na classificação até abandonar na 19ª volta. Por essa altura, Patrese também abandona, com uma caixa de velocidades partida.

Por esta altura, Prost era segundo e tentava apanhar Senna, enquanto que Berger tinha parado para colcoar pneus novos, sendo ultrapassado por Boutsen. Mas na volta 21, a treansmissão do seu Williams falha e abandona a sua corrida caseira. Logo depois, Senna e Prost param para trocar de pneus, e o italiano da Benetton, que não iria parar, estava em cima do brasileiro, mas com pneus novos, foi embora. Pouco depois, Prost também o passa.

Assim, o italiano era terceiro, pressionado por Berger. A luta foi intensa e até teve toques, mas na volta 43, com os pneus desgastados, o italiano perde o controlo do seu carro no Radillon, mas consegue segurar o carro. Contudo, é superado por Berger, que fica com o último lugar do pódio.

Na meta, Senna era o vencedor, alargando a sua vantagem sobre Prost para treze pontos (63 contra 50). Com Berger em terceiro e Nannini em quarto, os restantes lugares pontuáveis foram para pilotos brasileiros: o Benetton de Nelson Piquet e o Leyton House de Mauricio Gugelmin.

Fontes:

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Noticias: Felix da Costa regressa à GP3 em Spa-Francochamps

Os bons resultados na Formula 3 Euroseries mostraram ter consequências. Depois da vitória em Zandvoort, na semana passada, Antonio Felix da Costa vai voltar à GP3 pela Carlin, depois de uma primeira experiência na Hungria, onde conseguiu um sexto lugar numa das corridas do fim de semana. No circuito de Spa-Francochamps, Felix da Costa terá mais uma oportunidade para dar nas vistas, tal como aconteceu na sua última experiência.

"Quero demonstrar em Spa que também sou competitivo na GP3, aproveitando assim o excelente momento de forma que atravesso, fruto dos meus recentes resultados na Formula 3 Euroseries, nomeadamente as vitórias obtidas em Nürburgring e em Zandvoort", começou por referir Félix da Costa.

"Sinto que na Hungria adaptei-me bem ao carro mas ainda tinha mais para dar, pelo que a presença num traçado tão ímpar como é o de Spa apresenta-se como um novo desafio. Quero aproveitar toda a experiência da equipa Carlin e dos seus pilotos, de modo a garantir um bom resultado nas duas corridas. Estou muito moralizado e com a ambição altíssima!", acrescentou.

"O facto do campeonato GP3 ser muito mediático, pois acompanha o programa dos GP de Fórmula 1 é uma vantagem adicional, pois permite-me evoluir como piloto profissional e é uma excelente oportunidade de me mostrar no 'paddock'. Por isso, só posso agradecer à equipa Carlin pelo convite e por esta nova oportunidade de disputar com eles uma prova de GP3", concluiu.

As corridas acontecerão no Sábado à tarde, pelas 16.20 horas e no Domingo, pelas 8.25 horas, ambas antes das provas da GP2. Aqui em Portugal, somente a segunda corrida será transmitida em directo pela Eurosport.

Grand Prix (numero 60 - o terceiro golpe, 2)

(continuação do capitulo anterior)

Após um momento em silêncio, Bob vira-se e diz.

- Belo discurso, embora não tenha percebido patavina do que disseste.

Alexandre riu-se.

- Obrigado, Bob.
- Eles contaram-me o que se passou. Sentes-te revoltado pelo que se passa.
- Revoltado e mais alguma coisa. Tenho dúvidas e medos que preciso de enfrentar agora.
- Entendo. É muita coisa para absorver em um mês.
- É... aconteceu-me de tudo. Dois dos nossos morreram, tive um acidente feio, com marcas no capacete. Já tiveste algo parecido, Bob?
- Acho que sim. Sabes, tenho de te perguntar uma coisa.
- O quê?
- Tu és familiar do Monforte, do GP sildavo?
- Sou. Sou o neto do fundador.
- Ahhh... "lovely chap", o teu avô. Conheci-o há uns dez anos, num evento de formula Libre. Gosto muito dos vossos vinhos. Como se chama aquilo?
- Moscatel. É um vinho doce. Um bom digestivo, como o Porto que andas a tomar agora.
- Têm aqui?
- Não. Já andei a ver, aqui não tem.
- É uma pena. O teu avô já morreu, suponho.
- Sim, há cerca de dois anos e meio. Agora quem toma conta do negócio é o meu pai e um dos meus tios.
- É um negócio de familia, portanto...
- É. Não me ajudam monetáriamente, mas aceitam aquilo que faço.
- Estou a ver... posso te dizer uma coisa, Alex?
- Diz, Bob.
- Compreendo a tua revolta, sabes? Ver os nossos amigos a morrerem que nem tordos e nós não fazemos nada para os impedir... é uma inevitabilidade, sabes.
- Mas os tempos mudam, Bob.
- É verdade. Está-se a fazer muita coisa nessa direcção, e ainda bem. Ainda me lembro do tempo que nós corriamos sem "rollbar", sem cinto e com fardos de palha nas bermas em vez dos guard-rails. Poderiamos morrer na colisão de uma simples árvore... e ainda me lembro de socorrer o Scott Stoddard, em Spa, há uns quatro anos. Cheio de gasolina no cockpit, e com a pele a cair, coitado. Ele depois teve a ideia de colocar uma chave de fendas no carro, caso o volante o prendesse em alguma colisão.
- Bela ideia. Tive sorte, apenas tirei o cinto e saí do carro... com o capacete marcado.
- Avançamos muito, caro Alex, e ainda não é suficiente. Vai chegar o dia em que correr será tão seguro que passarão décadas sem que nós morramos. Pode não acontecer na nossa geração, mas temos de fazer para que a próxima, os nossso filhos e netos, queiremos ter, não passem mais aquilo que nós estamos a passar. É a nossa esperança.
- Tens razão.
- E queres um conselho de amigo? Canaliza essa raiva para a tua condução. Tenta ganhar a corrida em honra do Bruce e o John. Tenho a certeza que ficariam felizes com isso.
- Vou pensar nisso.
- Não pense, "old chap", faz! afirmou, dando uma palmada nas costas antes de sair dali rumo ao quarto.
- Fica por aí, que os teus amigos já aí vêm, concluiu, mostrando um sorriso daquele bigode.

--- XXX ---

No dia seguinte, começaram as primeiras corridas do dia. Havia uma corrida de Formula 3 local, mais a primeira meia-final da corrida de Formula 2. Se no primeira corrida não houve nada de especial, na segunda, onde Monforte partia da tal décima posição, tinha de acabar o mais acima possivel para ter uma boa hipótese de largar na final numa boa posição. À sua frente tinha o Alpine de Trochowsky e o Tecno de Guarini, e mais alguns carros, liderados pelo Jordan de Pedro Medeiros. Tinha de batalhar para chegar à frente, e não era fácil, pois a corrida só tinha vinte voltas.

Quando a bandeira foi dada, Monforte faz um arranque relâmpago e passa Trochowsky, Guarini e o Jordan de Brian Hocking. Agora tinha na sua frente os Matra de Picard e Brasseur, o Alpine de Van Diemen e os Jordan de Medeiros e Reinhardt. Ao longo da corrida, a sua concentração estava alta e tentava fazer as curvas no máximo e sem erros, travando o mais tarde possivel e acelerando o mais cedo possivel, colocando o carro no limite. Aliás, todos os carros estavam no limite, dando o seu melhor para ficar na final, onde somente vinte carros iriam participar. Monforte aproveitou a corrida para chegar em dez voltas ao terceiro posto, atrás apenas de Van Diemen e Reinhardt, e controlando a distância para Medeiros, que o ameaçou até que um componente se ter partido e ficado na berma.

A medalha de bronze naquela primeira corrida tinha dado uma boa colocação para a prova principal, cuja partida estava marcada para as dezasseis horas. Aproveitou para ver a segunda corrida, onde estava o seu amigo Ortega e Bob Turner, num Matra privado, pintado com as cores da organização para abrilhantar esta "Coupe de Vitesse" em Rouen Les-Essarts. Turner acabou em sexto, numa prova ganha por Antti Kalhola, com Ortega também na terceira posição. Isso significaria que ambos iriam alinhar lado a lado na segunda corrida. E o mais surpreendente era ver o carro russo, guiado por Korjus, ter chegado no oitavo posto, dando passagem para a final, deixando toda a gente curiosa pela prestação da máquina soviética.

- Sabes o que já ouvi por aí?, disse Brasseur.
- O quê?
- Esse pessoal do Leste não está para brincadeiras. RDA, Checoslováquia, Hungria... Há gajos tão bons como nós. E aparentemente, anda aqui pessoal desses países a falarem com a FIA sobre a ideia do Europeu se alargar ao Leste.
- Jura? E esse pessoal precisa do dinheiro ou quer servir-nos para fins de propaganda? perguntou Guarini.
- Desconheço. Mas se o motociclismo corre na Checoslováquia e na RDA, porque não os carros? questionou Brasseur.
- O que andam aí a falar? questionou Ortega.
- Os nossos amigos vindos do frio querem alargar-se. Falam que a Formula 2 pode ir à Hungria, Polónia, RDA e essas coisas todas.
- A sério?
- Aparentemente, sim. Mas já ouvi melhor.
- O quê?
- A Formula 1 e Formula 2 vão se alargar ao resto do mundo.
- Mas já está.
- Que nada! Um dos jornalistas amigos meus me disse que se encara a ideia de que pode haver corridas na Austrália e na Nova Zelândia, para além de um regresso à Argentina. E também se fala no Brasil. Quanto ao Leste... não me admiraria, pois este ano vamos à Austria.
- Pois é... dizem que o novo circuito é muito veloz. Tão veloz como Spa-Francochamps, afirmou Guarini.
- Esperemos que não tenha o mesmo tipo de segurança de Spa, senão estamos tramados, respondeu Monforte. Ah! E em 71 vamos ter um GP da Finlândia, cortesia do Temple.
- Ah é? Onde.
- Num sitio chamado Keimola, arredores de Helsinquia. A Formula 2 e a Interserie já correram lá, é anti-horária e um pouco lenta. Vamos a ver se vale a pena...
- Veremos se vale a pena. Mas neste momento preocupo-me com o tempo. Parece que pode chover ainda hoje, afirmou Ortega ao olhar para o céu cinzento.

--- XXX ---

Pelas 16 horas, todos os carros estão alinhados na grelha para a corrida principal da Formula 2. O facto de ser uma corrida alargada a todos fez com que alguns dos candidatos à vitíoria nessa corrida, como Medeiros, tivessem ficado de fora desta final, logo, não teriam pontos. Por ter sido o vencedor mais rápido, o finlandês Kalhola era o primeiro a partir, seguido por Pieter Reinhardt, Na segunda fila estavam Bob Turner e Patrick Van Diemen, enquanto que na terceira ficariam Alexandre de Monforte e Alvaro Ortega. Na quarta estavam Charles Dupont e Pierre Brasseur e na quinta ficavam Michele Guarini e o Matra de Gilles Carpentier. O soviético Korjus era 16º, atrás de Brian Hocking.

Na partida, Kalhola tentou distanciar-se dos seus pilotos mais velhos, que sabia serem uma cobertura para a vitória na corrida, enquanto que Monforte aproveitou o bom arranque para passar Turner e colar-se a Van Diemen. O belga deu o seu melhor para se defender, mas sentia a pressão de Monforte, que por sua vez era pressionado por Ortega, Dupont, Guarini e Carpentier. As máquinas eram iguais em termos de potência, incluindo até o Mirny de Korjus, uma cópia fiel do Matra de Formula 2 de 1968, com uma diferença de doze ou 14 cavalos sobre os restantes carros do pelotão, que corriam com motores de 1.6 litros aspirados, dando quase 240 cavalos.

Todos lutavam pela posição, tentando ultrapssagens em sitios quase impossiveis, em lugares quase apertados, demonstrando a sua alta agressividade. Tinham apenas 25 voltas para demonstrar que eram os melhores, e faziam, disputando cada metro de travagem, aceleração e os cones de ar que provocavam, ao correr muito juntos. Na sexta volta, Monforte passa o Alpine-Renault de Van Diemen e começou a sua cavalgada solitária para apanhar Reinhardt e Kalhola. E de repente, o tempo, que sempre esteve encoberto, dá lugar a uma chuva miudinha, o suficiente para que em poucos minutos, os pilotos sentem que está a ficar como que se fosse manteiga derretida, e tem de levantar o pé mais cedo.

Com todos a abrandar um pouco, Monforte faz exactamente o contrário: acelera. Parece ser uma manobra suicida, mas o sildavo adapta-se rapidamente às condições e consegue "comer" a diferença que tinha sobre os dois pilotos, ficando junto deles na volta 14, e os atacando logo a seguir. Mas logo atrás, nem todos os pilotos ficam com consciência da mudança do tempo, e arriscam-se ainda mais a cada minuto que passava. Ortega e Dupont estão juntos a tentar apanhar Van Diemen, e tentam dar o melhor nesta pista progressivamente escorregadia.

E na volta 16, o desastre acontece em dois locais diferentes, por dois motivos diferentes. Quando desciam a caminho da Virage de Noveau Monde, Ortega perde os travões e bate forte na traseira de Dupont, acabando os dois na berma. O francês estava quase parado e a virar para a direita, quando recebeu em cheio o Tecno descontrolado do piloto espanhol. Os dois carros imediatamente se incendiaram, fazendo com que os comissários acorressem ao local e tentassem tirar os pilotos presos nos carros.


Mais atrás, o Alpine de Trochowsky ia atrás do Jordan de Hocking e o carro do soviético, quase no final do pelotão. Sentia desde há duas voltas que tinha dificuldades para curvar o carro e abrandara o seu ritmo. Mas quando ia a toda a velocidade para fazer a Virage Six Fréres, numa descida pela direita, o volante não obedeceu, atingindo o "guard-rail" em cheio e catapultando-se para fora dela, com o chassis totalmente destroçado. A vida de Pierre Trochowsky, de 27 anos, terminava imediatamente ali, enquanto que se desconhecia a sorte de Charles Dupont e Alvaro Ortega.

Como os carros não estavam na pista, a unica coisa que os comissários podiam fazer era assinalar os perigos aos pilotos, que passavam por ali. Alexandre viu a coluna de fumo pelo canto do olho e ficou angustiado. Esperava e desejava que nenhum dos seus amigos tenha sido envolvido nesse acidente. Estava concentrado em apanhar Reinhardt e Kalhola, mas depois de quase bater na Virage Samson, decidiu tirar o pé do acelerador e gozar o segundo posto, atrás de Kalhola. Quando a bandeira de xadrez foi mostrada, Monforte parou logo o carro e foi correr para a garagem, para saber de noticias. Viu André Barros e Pedro Medeiros e ambos estavam com semblantes carregados. Mal se aproximou deles, atormentou-os com perguntas:

- Quem foram?
- Em qual acidente?
- No Noveau Monde. Houve mais?
- Houve. O Trochowsky saiu em frente no Six Fréres, como o Marroc há dois anos.
- Aquilo não tem um guard-rail?
- Tem, mas parece que passou por baixo dela.
- Hã? A sério?
- Ninguém fala, mas teme-se que esteja morto, acrescenta Barros fazendo o sinal no pescoço, de cortar a cabeça. Monforte arrepia-se literalmente com o gesto.
- Isso aí... confirma-se?
- Quem me contou isso foi o chefe dos comissários. Ouvi-os a falar, a ele e ao chefe da Alpine. Pelos vistos, foi muito feio, nada resta do carro.
- Credo... e os outros?
- É o Dupont num Matra... e temo que seja o teu amigo Alvaro.
- Oh não! Não, por favor... dizia, abanando a cabeça. Tenho que ir ter com eles, disse logo a seguir.

Alexandre segue apressado para a boxe da Tecno, onde os mecânicos estavam cabisbaixos, a arrumar as coisas, e o director não se via por ali. Estava o chefe dos mecânicos, que lhe diz.

- O Alvaro está muito queimado, mas vivo. Foi para o hospital local, e o director foi ter com ele. Vai para o pódio receber o prémio, e vai ter conosco ao hospital. Lá saberemos mais dele.

Alexandre ficou mudo, à medida que ia ao pódio e recebia os prémios relativos ao seu terceiro lugar na corrida, mas que receberia os seus pontos do segundo lugar. Estava triste e o seu olhar era distante, preocpuado com a sorte de Alvaro, o seu companheiro de equipa.

As horas passaram e o desfecho era inevitável. Dupont estava em estado grave, mas não ficara muito queimado, à excepção do deu braço esquerdo, partido em três partes. Tinha o pulso esquerdo fraturado e algumas fraturas nas mãos, especialmente o polegar. As queimaduras eram de pouca importância, porque ele ficara consciente no acidente e conseguiu sair do carro com a ajuda dos comissários, pois também tinha o tornozelo e o pé esquerdo partidos. Iria ficar no hospital por uma grande temporada, mas estava vivo.

Mas Alvaro Ortega recebeu todo o impacto do carro, e este bateu bem no local do depósito de combustivel, que ficava ao lado do piloto, fazendo explodir o carro, pois era feito de magnésio, um material leve, mas inflamável. Mesmo que não tivesse morrido do impacto, teria morrido das queimaduras, pois estava coberto em noventa por cento do corpo. O bom gigante andaluz, nascido a 2 de Março de 1944, acabava a sua vida naquele dia de Junho de 1970, aos 26 anos. Quando soube da noticia, disse entre dentes: "a vida é tão injusta... quatro mortos em um mês, onde isto vai parar?".

(continua)

O melhor carro do ano ou apenas publicidade?

Mesmo que não compita em 2010, o modelo Toyota TF110 é um dos modelos mais comentados da temporada. Nunca foi colocado em pista, mas as equipas novas andaram à sua procura para o ter, aparentemente porque tinha boa parte do trabalho feito, mas também pelo seu potencial em pista. E aparentemente, era grande. Esta semana, Pascal Vasselon, engenheiro da Toyota, revela na alemã "Auto Bild" que o carro tinha potencial para andar nos lugares da frente, e quem sabe, a lutar pelo título.

"Atrevo-me a dizer que teríamos o nariz mais elevado do atual alinhamento da Fórmula 1", assegura Vasselon. "Só assim se poderia tirar todo o partido do difusor.", continuou. Fotos do TF110, que nunca chegou a correr, revelam um carro com um nariz muito elevado quando comparado com a concorrência, e um difusor traseiro de ponta, muito semelhante ao usado agora pela Red Bull.

Vasselon revelou mesmo que o monolugar tinha mais 30 pontos de carga aerodinâmica que o modelo de 2009 e que "ultrapassava em grande medida as expectativas da escuderia". Um sinal de que na sede de Colónia já se trabalhava há muito no monolugar de 2010 quando a casa-mãe de Tóquio decidiu retirar-se do projecto da Formula 1, depois de nove temporadas sem sequer ter ganho qualquer corrida e ter gasto mais de mil e cem milhões de dólares nos vários chassis construidos ao longo da última década.

Provavelmente a ideia seria copiar o mesmo percurso da Brawn GP, e provavelmente também as tentativas de o vender este chassis, primeiro à Stefan GP, e agora para a Hispania, seja um pouco para elevar esse paralelismo. Mas há um contra: este chassis nunca andou em pista, e apesar das simulações dizerem muito, não dizem tudo. Sim, vai andar tudo no campo da especulação, mas talvez essas declarações terão o seu fundo de verdade. Mas nunca saberemos de toda a história.

GP Memória - Holanda 1985

Uma semana depois de máquinas e pilotos terem estado em Zeltweg, a Formula 1 voltava à competição, desta vez no circuito holandês de Zandvoort, palco do GP da Holanda. Guy Ligier já tinha decidido despedir Andrea de Cesaris após o seu acidente na corrida austriaca, mas como o seu substituto, Philippe Streiff, ainda estava indisponivel, ainda ficou com ele neste final de semana holandês. Enquanto isso, a Lola-Beatrice, de Carl Haas decidira que iria estrear o seu carro no final do ano, embora não se sabia se seria em Brands Hatch ou antes, em Monza.

Na qualificação, o melhor seria um surpreendente Nelson Piquet, no seu Brabham-BMW, ele que estava de saída da equipa, rumando à Williams. A seu lado estava o Williams-Honda de Keke Rosberg, enquanto que a segunda fila era ocupada pelo McLaren-TAG Porsche de Alain Prost, com o Lotus-Renault de Ayrton Senna a seu lado. Na terceira fila estavam o Toleman-Hart de Teo Fabi, à frente do Renault de Patrick Tambay. Nigel Mansell, no segundo Williams-Honda, era o sétimo na grelha, à frente do Arrows-BMW de Thierry Boutsen e na quinta fila, a fechar o "top ten", estavam o segundo Brabham-BMW do suiço Marc Surer e o segundo McLaren-TAG Porsche de Niki Lauda.

Surpreendentemente, os Ferraris de Michele Alboreto e de Stefan Johansson estavam muito atrás na grelha, em 16º e 17º lugares, respectivamente. E quem não conseguiu qualificar-se foi o Toleman-Hart de Piercarlo Ghinzani.

Na volta de aquecimento, Tambay sofre de uma falha na suspensão e tem de começar a corrida das boxes, no seu carro de reserva. momentos dpeois, dá-se a partida, com os carros de Piquet e Boutsen a ficarem parados na grelha. Rosberg fica com a liderança, seguido por Senna e Fabi, enquanto que Prost tinha caido para a quarta posição. Pouco depois, ele e Lauda passam o italiano da Toleman, que na volta dezoito, perde uma roda e despista-se.

Uma volta mais tarde, o motor Honda de Rosberg explode e a liderança cai nas mãos de Senna, que está a ser pressionado pelos dois McLaren. Lauda vai às boxes pouco depois, com o terceiro lugar a ser entregue ao Renault de Derek Warwick, que era seguido pelo carro do seu companheiro de equipa. Ambos os carros tentavam apanhar Prost e Senna, mas na volta 23, ambos estavam de fora, respectivamente devido a problemas de caixa de velocidades (Warwick) e de tramsmissão (Tambay).

A meio da prova, Prost e Senna param para mudar de pneus, mas o francês perde tempo quando uma das rodas não se encaixa a tempo, e volta à corrida no terceiro lugar, atrás de Lauda e Senna. No quato posto estava o suiço Marc Surer, que no seu Brabham, decidira fazer toda uma corrida só com um jogo de pneus. Com as voltas a passarem, Prost cedo apanhou Senna e o passou na volta 48, enquanto que mais atrás, Alboreto fazia uma prova de recuperação e já tinha passado o Lotus de Elio De Angelis e ia para cima de Senna.

Nas voltas finais, Prost ficou atrás de Lauda, mas não o conseguia ultrapassar. O duelo entre eles foi tal que ambos acabaram com uma diferença de 0,2 segundos, a favor do austriaco. Seria a última vitória de Lauda na sua carreira, onze anos depois de conseguir a sua primeira. Atrás, Senna resistiu à pressão final de Alboreto e ficou com o último lugar do pódio. Com a desistência de Surer, devido a um escape roto, os restantes lugares pontuáveis ficaram com o Lotus de De Angelis e o Williams de Mansell.

Esta corrida viria a mostrar certas coisas pela última vez. Depois disto, a Formula 1 não mais voltou a Zandvoort, nem acolheu mais um GP da Holanda. A pista é agora diferente, mais sinuosa, mas não deixa de ser uma pista recordada por muitos. E se Andrea de Cesaris iria encontrar uma equipa para a temporada de 1986, continuando a sua carreira por muitos e bons anos, infelizmente para Stefan Bellof, não iria ser assim, porque dali a uma semana, ele estaria morto nos 1000 km de Spa-Francochamps.

Fontes:

http://www.grandprix.com/gpe/rr415.html
http://en.wikipedia.org/wiki/1985_Dutch_Grand_Prix

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Coreia do Sul: as dúvidas acumulam-se

A ideia de um GP da Coreia de 2010, que está marcada para daqui a exactamente dois meses, está cada vez mais a parecer que está num cenário de ficção, para não dizer na Playstation... a BBC colocou hoje a imagem que vocês vêm em cima, imagem essa que foi reproduzida pelo jornal espanhol AS, e que mostra um circuito com muito para acabar, nomeadamente a colocação de rails de protecção, e para piorar as coisas, a pista ainda não foi sequer asfaltada.

É certo que tal coisa demora pouco, cerca de dez, quinze dias, mas o "deadline" que os organizadores deram é de 5 de Setembro, e isso está a pouco mais de duas semanas de distância. Apesar das esperanças de David Sonenscher, presidente da Motorsport Ásia, a entidade que dirige o traçado coreano, que recentemente afirmou que "os atrasos não se deveram à falta de esforços ou empenho mas sim por causa do mau tempo na região", garantindo ainda que a construção iria superar os prazos previstos em duas semanas, tal imagem parece dar indicação do contrário.

Se Bernie Ecclestone quer manter o GP da Coreia para a data prevista, tem até o fim de semana italiano para decidir, pois é a última prova em solo europeu, antes das viagens pela Asia, América do Sul e Médio Oriente. Planos B e o simples cancelamento para 2011 estão em cima da mesa... e acredito cada vez mais na segunda hipótese. Aliás, quem acredita neste momento num GP da Coreia em 2010?

Grand Prix (numero 59 - o terceiro golpe)

Dublin, 26 de Junho de 1970

Enquanto que no Brasil ainda se festejava o tricampeonato do Mundo, ganho pela equipa de Pelé, Rivelino, Carlos Alberto e companhia, em Dublin, longas filas de irlandeses se faziam à porta do Castelo de Dublin, onde se seguia para o St. Patrick's Hall, onde o corpo de John O'Hara estava colocado.

Desde o momento em que se soube do acidente até ao seu desfecho fatal, na manhã de segunda-feira, toda uma Irlanda esteve a suster a respiração, rezando para que o inevitável não acontecesse. Nas horas a seguir à sua morte, uma delegação governamental foi à O'Hara House onde afirmaram que o governo e o veterano presidente Eamonn de Valera tinham concedido em conceder um funeral de estado ao seu filho, sabendo da sua importância para o país. Como o avô de John tinha ajudado os Irish Volunteers e tinha sido senador após 1922, e mesmo que Shioban não fosse muito fã dele, pois a sua familia tinha sido pró-tratado (ele foi contra) e era amiga de Michael Collins (que os seus alcólitos o mataram na Guerra Civil), aceitaram a oferta.

Shioban tinha conseguido ver o seu filho antes deste morrer. Estava a seu lado quando exalou o último suspiro, e vira a extensão das suas horriveis feridas pelo seu corpo. O Tio Arthur e a inconsolável Sinead estavam a seu lado, e foi ela que lhe deu forças para que mantivesse digna durante aquela altura muito dificil. No dia do seu funeral, no St. Patrick's Cathedral, a familia estava na primeira fila, com todos os pilotos na segunda. Bruce Jordan, Mike Weir e Pete Aaron estavam lá, bem como muitos pilotos e ex-pilotos, desde Stirling Moss a Dan Gurney. Até Tim Randolph, o seu companheiro na Cooper, estava no funeral.

O cortejo seguiu até ao cemitério de Glasnevin, onde à sua porta, e até ao jazigo familiar, foi levado por oito pessoas: o tio Arthur, Pete e outros quatro companheiros: Philippe de Beaufort, Teddy Solana, Bob Turner e Patrick Van Diemen. A sua irmã levava nas suas mãos o seu capacete branco com o Trevo de quarto folhas verde nos lados. Com uma guarda de honra e milhares de pessoas nas ruas, tinha sido a maior manifestação desde o funeral de Douglas Hyde, vinte anos antes.

Depois das cerimónas funebres, Pete não conseguiu ir ao escritório durante alguns dias. Estava tudo em dúvida: a continuidade do projecto, já que boa parte dele estava dependente do dinheiro proveniente do whisky O'Hara. Pete sentia-se abatido, e se nas vezes anteriores, conseguia continuar, desta vez era diferente, porque primeiro já não era piloto, e como chefe de equipa, as responsabilidades eram outras. E porque era grande amigo de John e da sua irmã Sinead.

Quando decidiu ir à sede pela primeira vez desde o funeral, fora sozinho, a altas horas da noite. Entrou pela porta da frente e acendeu algumas luzes. Foi para a oficina, puxou de uma cadeira que estava a um canto e observou. Viu os carros, montados e por montar, viu o que restava do Eagle destruido no acidente da véspera num canto e olhou para ele. Era o carro que John tinha usado na sua primeira vitória, na Cidade do México, cerca de nove meses antes. Ao vê-lo destruido, pensou que tinha chegado de uma certa maneira, ao final da linha. Naquele momento, apetecia desistir do projecto e voltar para a América. E foi com esse pensamento que foi para casa naquela noite.

No dia seguinte, acordou com um telefonema. A mulher Pam recebeu-o e constatou que do outro lado da linha estava Shioban O'Hara. Pete atendeu, prevendo o pior.

- Mr. Aaron, bom dia.
- Bom dia. Como vai?
- A vida continua, Sr. Aaron.
- Bem vejo, Sra. O'Hara. Creio que me telefonou por uma razão.
- Sim, caro Pete. Quando é volta a correr?
- Tenciono voltar em Brands Hatch, Sra. O'Hara.
- Trate-me por Shioban, Pete.
- Desculpe. E a Sinead?
- Está destroçada, a coitadinha. Adorava o irmão, sabe.
- Bem sei disso.
- Antes de correr em Brands Hatch tenciono tê-lo aqui para uma conversa, mas digo já uma coisa por telefone: não se preocupe com o contrato, que tenciono cumpri-lo. Sou uma mulher de palavra, Pete.
- Muito obrigado, Shioban.
- E já agora, Pete... se trouxer a sua amável mulher Pam, seria otimo. Sabe, eu não precisei de ser convencida para voltar quando o meu marido morreu. Tive o Arthur, que me ajudou a manter o negócio, e fez aprender uma lição: ir embora de algo quando aquele que amamos morre, é sinal de derrota. E fui educada a não tolerar insultos.
- Concordo plenamente, Shioban.
- E também lhe telefonei para lhe dizer isso: a sua equipa tem de continuar. Sou dona de um terço dela.
- De facto, é verdade, Shioban.
- Otimo. Compreendo que não apareça em França, e isso respeito. Mas em Brands, um de nós estará lá. Eu não, mas o Arthur quer conhecer a empresa. Receba-o bem, Pete.
- Assim seja.
- Uma pergunta final: já pensou no substituto do meu filho?
- Tenho um nome em mente.
- Otimo. Espero que honre as nossas cores.
- Assim seja.

--- XXX ---

Rouen, no dia seguinte.

A corrida de Formula 2 era certamente das mais concorridas do ano, onde para além dos pilotos que nela participavam no campeonato, estavam também a fina flor do automobilismo francês e alguns dos nomes consagrados da Formula 1. Para terem uma ideia, a Matra tinha... seis carros inscritos: dois para Beaufort e Carpentier, outros dois para Pierre Brasseur e Jean Picard, e outros dois para dois pilotos que faziam a Formula 3 local, mas que tinham mostrado potencial: Charles Dupont e o suiço Jean-Luc Dumas.

A Tecno tinha quatro carros: os dois oficiais, para Alexandre de Monforte e Alvaro Ortega, e outros dois carros para o italiano Michele Guarini, que instatisfeito com a Jordan, comprou um chassis Tecno e era assistido pela equipa oficial, e o jovem austriaco chamado Andreas Schubert.

A Jordan tinha a equipa em peso: Pedro Medeiros, Antti Kalhola, Bob Bedford, Brian Hocking e Pieter Reinhardt. Sem a Ferrari por perto na Formula 2, Patrick Van Diemen ajudava um construtor de chassis local, a Alpine, que tinha assistência financeira da Renault. Com ele estava o austriaco Manfred Linzmayer, e tinha dois jovens pilotos promissores: um francês de origem polaca, Marc Trochowski, e um holandês, Jan Koene. No final, estavam mais de quarenta pilotos, e até havia... uma equipa soviética.

Dois chassis, batizados de Mirny, estavam iscritos, e tinha como pilotos um veterano e um jovem promissor: Vladimir Samarin, de Moscovo, e Anton Korjus, de Tallin, na Republica da Estónia. Pouco ou nada se sabia desta dupla, apenas as suas idades: o russo tinha 34 anos, Korjus 21. E todos começavam a olhar com alguma curiosidade os seus carros e a sua performance. Seria um "one-off", ou era para ficar? Como passaram pelas verificações técnicas, estava tudo legal...

O ambiente estava um pouco sombrio pelos eventos em Zandvoort. Alexandre tinha vido directamente de Dublin, e a sua mente parecia não estar ali, mas sim noutros sitios. O seu tempo tinha sido péssimo para aquilo que costumava fazer, e não dava mais do que o meio da tabela. Deu para qualificar para a primeira meia-final da corrida, e tinha de ser décimo para entrar na final, no Sábado. Ele e o seu director tinham discutido e no final do dia estava chateado com tudo o que se passara. E foi assim que o encontraram os seus amigos piltotos à hora do jantar.

- Estás com uma cara, Alex... afirmou Michele Guarini.
- Estou a passar por um mau bocado, Michele. Não sei o que irei fazer à minha vida. Tenho dúvidas se deveria correr ou não. Ando zangado com toda a gente...
- Ainda pensas em Zandvoort?
- Ainda. E na conversa que tive com o John, a última.
- Vê-se mesmo que não queres comer...
- Sei lá... acho que preciso de uns dias para voltar ao normal.

Entretanto, Alvaro Ortega aparecia acompanhado por dois dos pilotos da Matra, Brasseur e Dupont. Charles tinha 25 anos e não era alto, mas muito louro e com olhos azuis, mais parecia ser nordico do que francês. Era jovial e estava a conhecer boa parte daqueles pilotos pela primeira vez.

- Prazer. Estás nervoso?
- Eu? Porquê?
- Ora... tens o Bob Turner do outro lado da sala, por exemplo. Tans aqui a fina flor da Formula 1 que veio fazer uma perninha para Rouen porque, mesmo que os nossos morram, ainda somos suficientemente malucos para guiar estes frágeis carros...
- Não te assustes. É o seu humor negro, afirmou Brasseur.
- Obrigado por disfarçares o meu estado de espírito, respondeu Alex. Mas não te assustes, és dos nossos, tenta é não exagerar na pista. Já sabes: um erro e... psscht! A morte do artista.
- Tás mesmo horrivel, Alex, afirmou Alvaro. Alex simplesmente sorriu.
- Boa sorte para amanhã, Charles.
- Obrigado.

Os dois foram embora, mas Alvaro fica na mesa, enquanto que os dois continuam a comer.

- Estás a assustá-lo...
- Se calhar não devia?
- Não agora, neste fim de semana...
- Ó Alvaro... deixa-te dizer o que foi a minha vida no último mês: vi dois pilotos que muito admirava morrerem em duas semanas e meia, na véspera da morte do John levo uma cambalhota de todo o tamanho que fico com as marcas da raspagem no meu capacete, e ainda por cima fodi o carro que conduzia, impedindo-me de correr na Holanda. E vim directo de Dublin, onde vi prá aí umas cem mil pessoas a chorar pelo herói morto. Eu vi a familia dele destroçada pela sua perda, e antes disso, vi o seu corpo queimado, a agonizar numa cama de hospital holandesa. A vida continua, mas tenho de te ser honesto: é um sapo dificil de engolir! exclamou.

Saiu abruptamente da mesa e foi para fora dali. Foi para o bar e pediu um Martini, ficando isolado de tudo e todos. Pouco depois, surge Bob Turner, o veterano dos pilotos presentes, que pede um Porto para digerir o jantar.

(continua)

A capa do Autosport desta semana

A capa do Autosport desta semana é dedicada ao bom fim de semana que os portugueses tiveram lá fora. Desde as vitórias de Armindo Araujo na categoria de Produção, no Rali da Alemanha, até à vitória de Antonio Felix da Costa na segunda corrida do fim de semana de Zandvoort, passando pelos bons resultados de Flipe Albuquerque na Republica Checa e de Miguel Pais do Amaral nos 1000 km de Hungaroring, tudo isso contribuiu para que o título escolhido tenha sido um "Esplendor de Portugal".

Osa subtítulos realçam esses bom fim de semana para as cores lusitanas: "Armindo Araujo a caminho de novo titulo no Mundial de Ralis"; "Antonio Felix da Costa brilha na F3 Euroseries" e "Vitória de Filipe Albuquerque no DTM checo".

Nos subtitulos, fala-se do Rali da Alemanha e das antevisões no Mundial de Formula 1, que volta neste fim de semana em Spa-Francochamps. Com mais uma vitória do piloto francês, "Sebastien Löeb entra no Guiness", e vai a caminho do seu sétimo título consecutivo, enquanto que na Formula 1 a revista faz uma análise aos "Pontos fortes e fracos dos cinco candidatos ao título", enquanto que há uma entrevista a Robert Kubica onde afirma "querer bater as Mercedes".

Noticias: Alvaro Parente regressa à GP2

O português Alvaro Parente vai voltar à GP2 este fim de semana. Parente, que este ano está na Superleague Formula a correr pelas cores do F.C. Porto, e fez recentemente uma incursão na GT2 pela AF Corse, pilotando uma Ferrari 430 ao lado do espanhol Alvaro Barba nos 1000 km de Hungaroring, vai regressar à competição de acesso à Formula 1 pela Coloni, substituindo o brasileiro Albero Valério, que vai para a ART, substituindo o francês Jules Bianchi. Definitivamente, a Coloni é uma equipa do final do pelotão, mas Parente já correu por eles nas suas cores na GP2 Asia Series, conseguindo um pódio no Bahrein.

Parente é um homem satisfeito neste regresso: "Conheço bem a estrutura do Paolo e penso que terei as condições para tentar alcançar bons resultados. Este circuito traz-me memórias muito positivas, como é o caso da vitória que alcancei em 2009. Estou desejoso de voltar a rodar em Spa-Francorchamps e de poder oferecer à Coloni um bom conjunto de resultados de modo a poder agradecer o convite que me foi endereçado", sublinhou o piloto do Porto.

Por enquanto, o convite é só este fim de semana, mas os rumores de que Alberto Valério poderá não regressar à equipa fazem com que a hipótese de Parente ficar até ao final da temporada esteja de pé. "Vou competir em Spa-Francorchamps, depois disso logo se vê o que vai acontecer. Gostaria de completar a temporada, mas isso não depende de mim", completou.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Aquilo que fazia mover Didier Pironi

Ao longo da existência deste blog, falei profusamente sobre Didier Pironi, cuja existência foi tão meteórica como trágica. Uma jovem esperança do automobilismo francês, vencedora das 24 Horas de Le Mans logo no seu primeiro ano de Formula 1, com passagem pela Tyrrell e Ligier, com bons resultados. Depois veio o convite para correr na Ferrari, que lidou contra Gilles Villeneuve, que depois o traiu no GP de San Marino de 1982, e que de uma certa maneira causou o seu acidente mortal. E que poderia ter sido o primeiro campeão francês se ele não tivesse batido contra o Renault de Alain Prost na recta chuvosa de Hockenheim, acabando ali a sua carreira.

Pode-se falar muita coisa sobre a sua carreira, e a sua maneira de ser de Pironi, mas tive sempre a sensação que ele era movido pela ambição e pela sua insatisfação. Era lutador em pista, e era ambicioso, e muito impaciente. Sempre demonstrou isso. Não sei dizer com precisão aquilo que fazia mover nas pistas, mas era isso tudo e mais. Queria glória, mesmo esmagando uma amizade? Bom, provou a velha teoria de que o seu primeiro adversário é o companheiro de equipa...

Mas também demonstrou que era um teimoso. Quis regressar à Formula 1 após o seu acidente, e depois de convencer os médicos a não amputar a sua perna direita, passou por uma série de operações - 47 ao todo - que fizeram reconstruir a suas suas pernas, e intensa realibitação, quer permitiu voltar a ter uma vida quase normal, testou as suas reacções, primeiro num AGS, em Paul Ricard e depois num Ligier, em Dijon-Prenois. Mas foi nesse segundo teste que verificou que não tinha o stamina suficiente para aguentar uma corrida inteira. Mas tudo o que fizera correr tinha voltado ao de cima: ambição, luta e impaciência.

Tinha descoberto a motonautica graças a um convite feito pelo seu amigo Philippe Streiff para ver uma competição de motonautica em Key West, nos Estados Unidos. Com os apoios que teve na Formula 1, nomeadamente a Elf, constroi primeiro barco feito em fibra de carbono, o "Colibri" e ganha uma corrida no inicio de Agosto em 1987, na Noruega, em conjunto com o seu velho amigo Jean-Claude Guenard, e o jornalista Bernard Giroux, que tinha sido navegador de Ari Vatanen em dois Paris-Dakar. Esta vitória, em Arendal, fez com que voltassem a olhar para ele como o caso de um regresso às competições, embora noutra modalidade. Contudo, duas semanas depois, Pironi estava morto, vitima de uma onda numa competição na Ilha de Wight, no sul da Grã-Bretanha. O seu substituto no Colibri foi outro ex-piloto de Formula 1, Jean-Pierre Jarier.

Uma coincidência macabra: alguns meses mais tarde, o seu irmão decidira reavivar a equipa de "offshore", mas em Abril de 1988, o avião que pilotava caiu na zona de Ste. Etienne, matando-o. Ambos estão agora sepultados no jazigo de familia em Ste. Tropez.

O fim de um mito?

Li sobre isto pela primeira vez na passada sexta-feira no blog do Mike Vlcek, o Formula UK. O Top Gear é provavelmente o programa de automóveis mais popular do mundo, e um dos segredos do sucesso é dar um ar de mistério às coisas. E um desses mistérios é a identidade do seu "tamed driver", que só conhecemos pelo nome de "The Stig". Pois bem, parece que vai publicar uma autobiografia. Não o Stig, mas o piloto que faz boa parte dos testes. E esse senhor pode ser Ben Collins.

Aparentemente, o Stig está um pouco insatisfeito pelo facto de ganhar pouco em relação ao programa, em comparação com os restantes apresentadores: Jeremy Clarkson, James May e Richard Hammond. E a autobiografia serviria para aumentar essas receitas, ou então para conseguir uma maior fatia dessas receitas que o programa está a ter. A BBC já sabe disso e quer impedir que a autobiografia seja publicada.

Já agora, quem é Ben Collins?

Actualmente com 35 anos, é um piloto que já correu na Formula 3 britânica, tendo conseguido um segundo lugar na Marlboro Masters de 2000, em Zandvoort, batido pelo francês Jonathan Cochet. Tem passagens pela GT britânica e até participou em corridas da NASCAR europeia. Costuma testar para a marca de automóveis Ascari e faz testes para a RaceCar Magazine, e já fez de duplo no último filme de James Bond, "quantum of Solace". Para além disso, Ben Collins tem uma firma que fornece a logistica para o programa Top Gear. E já fez muitas participações para o programa como ele próprio.

E é aí que os jornais dizem que ele é suspeito. De acordo com o "Sunday Times", indica que desde 2003, ano em que o Stig de fato branco apareceu pela primeira vez no Top Gear, que a empresa de Collins começou a fazer "serviços à BBC, e em particular ao programa Top Gear," que poderiam "oferecer prospetos de uma mais-valia financeira a longo prazo".

Um porta-voz da BBC já respondeu que "não é nenhuma surpresa que a empresa de Collins tenha trabalhado com o Top Gear já que ele apareceu no programa como ele mesmo em várias ocasiões." Adiantou ainda que Ben Collins "já forneceu abertamente os seus serviços e pilotos" e que "não irá ser revelado quem ou o que é o Stig."

Hmmm... isto vai ter cenas dos próximos capitulos. Espero que não, pois estragaria o espirito do programa, mas...